Por que venho à CINE OP?

Antes de vir pra Mostra de Cinema de Ouro Preto, mais conhecida como CINE OP (MG), uma pessoa me perguntou por que eu vinha para um festival como este se poucos filmes que passam aqui chegam aos cinemas. Respondo, mas no final. Antes é preciso entender o que Ouro Preto tem a ver com essa curadoria, com o enfoque na preservação do audiovisual  e na educação, e com a tamanha movimentação pra construir uma mostra com 139 filmes no total.  Aqui tem mostra competitiva e contemporânea, sessões infantis e cine-escola, masterclasses, encontros, debates, atividades de formação. Nada é desconectado e, pensando assim, responder fica fácil. 

Comecemos pela locação. Andar por Ouro Preto é um ato auto-explicativo: é como andar em um museu vivo. Sim, memórias vivem, desde que passemos por elas;  memórias despertam, desde que nos conectemos com seu registro; memórias existem, desde que cuidemos delas. Assim é o cinema também: recuperar, preservar e divulgar para que seja consumido por gerações mostra quem somos, o que nos tornamos e aponta possibilidades de caminhos futuros. É o que chamamos aqui de “cinema patrimônio”.

Combina com Ouro Preto. Caminhar por aqui é como percorrer a história do Brasil, seu passado social, econômico, cultural. Um museu ao ar livre. Um patrimônio arquitetônico, assim como cinema é patrimônio cultural. Independente da época. Rever XICA DA SILVA, de Cacá Diegues, de 1976, por exemplo, foi um presente. Selecionado na Mostra Preservação, a obra restaurada em 4k é um mergulho num filme que tem, ao mesmo tempo, história e deboche, poesia e folclore, economia e diversão, sensualidade e sociedade. Numa das suas mais emblemáticas atuações, Zezé Motta protagoniza a mulher escravizada que usufrui dos privilégios e excessos da corte portuguesa, ao mesmo tempo que mantém a sua brasilidade e faz da sua condição feminina a moeda que subverte a lógica do poder na mão dos brancos portugueses. Um marco que ganha força desde que disponível para ser (re)visto. Uma oportunidade de pensar como o filme retratava o Brasil naqueles anos 1970.

Diferente, mas não menos importante, do que mergulhar no presente para entender uma trajetória, por exemplo, que é impar e, com distanciamento histórico, torna-se ainda mais única. Na Mostra Competitiva, APOCALIPSE SEGUNDO BABY, de Rafael Saar, é um mergulho psicodélico na vida e carreira de Baby do Brasil, que já foi Consuelo e nasceu Bernadete. Saar consegue olhar para a vida desta icônica cantora e construir um documentário que acompanha o ritmo, os depoimentos, as músicas, os shows e a figura única que é Baby, com toda a sua personalidade e presença. Inclusive fugindo das polêmicas e controvérsias. Um recorte que traz informações abafadas pela personalidade extravagante de Baby, o que faz o filme interessante e original. Vale dizer que uma obra careta não teria diálogo com sua protagonista. O filme é a cara dela.

Na Mostra Contemporânea, ANISTIA 79, de Anita Leandro, viaja pelos festivais. Assisti na Mostra Tiradentes e é justo que mais pessoas possam apreciar uma obra que mistura tempos históricos no movimento fundamental de se afastar para enxergar, analisar e compreender. Sem imagens de arquivos ele não existiria. Voilà a importância da preservação das obras audiovisuais. O documentário nos leva pra Roma naquele ano de 1979, em que brasileiros filmam a Conferência Internacional pela Anistia e pelas Liberdades Democráticas no Brasil. Participantes daquele momento assistem hoje a esta gravação. Somos, enquanto espectadores, também convidados a olhar para o passado através da história do outro pra descobrir onde nos encaixamos nesta percepção do que foi e é o Brasil.

Aliás, sobrepor passado e presente pra criar a sensação genuína de que estão não só entrelaçados, mas ainda existentes um no outro, é o que sentimos em OS IRMÃOS SEGRETO, de Federico Ferrone e Michele Manzolini. Com imagens alternadas do Rio de Janeiro atual e do Rio do começo do século XX, mostra o tempo em que os irmãos Pasquale, Gaetano e Alfonso migraram para o Brasil com uma mão na frente, outra atrás, assim como todos que vieram na migração italiana no final do século XIX. Trouxeram na mala um cinematógrafo e entre lendas e fatos, são conhecidos por serem os precursores do cinema no Brasil. É quase uma fábula que sobrepõe imagens, mesmo quando elas estão no nosso inconsciente coletivo pra explicar o que é o Brasil de hoje. Xica da Silva provoca esse exercício também — e como! — assim como Anistia 79 nos faz pensar que seguimos patinando, em parte, no mesmo lugar.

A Mostra Cine OP também tem oferta online pelo site (acesse aqui). Ainda tem filmes pra ver. Sempre tem. Nesta minha primeira cobertura da Mostra de Ouro Preto, fica a certeza de que repertório é fundamental. O de hoje e de ontem. Profissionais se dedicam ao trabalho imenso de construir pontes entre as obras e os espectadores para a manutenção do patrimônio cultural contido nos filmes. Patrimônio que precisa extravasar, derrubar barreiras e chegar nas pessoas. Por essas e outras, a importância dos festivais e mostras de cinema é inquestionável. Venho, assim como meus colegas jornalistas, pra contar que filmes são esses; para comunicar a sua importância na construção da nossa memória enquanto brasileiros, pra valorizar a produção cultural do nosso país que diz quem somos, nas suas diversas possibilidades de olhares e opiniões. É pra isso que venho para fazer a cobertura e, já digo, quero voltar.

 

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Por que voltarei?

“Porque um país não existe apenas em seus arquivos. Existe nas histórias que escolhe contar, nos patrimônios que decide proteger, nas memórias que mantém vivas e nas imagens que reconhece como parte de si.
Um país existe nas imagens que preserva.”

Raquel Hallak – diretora da Cine OP

Compartilho aqui meu sentimento de que esse pensamento acima esteve presente em cada uma das iniciativas da Cine OP — e não foram poucas nos 6 dias de festival. É um bom apanhado do que vimos e sentimos por aqui.

A começar pelo encerramento de ontem à noite, com a premiação da Mostra Competitiva — uma seleção que ressalta a importância das imagens e sons de arquivo na construção de documentários e filmes ensaio. Concorreram 5 filmes e Irritante Prodígio, de Luiza Lindner, levou o Troféu Vila Rica, única premiação da Cine OP. Um filme muito intimista, com imagens nuas e cruas do seu sofrimento, ainda bem pequena, durante internações psiquiátricas e hospitalares.

A temática histórica esteve presente nos relatos de cineastas como Helena Solberg, Tata Amaral, Lucia Murat. Contaram como foi a experiência do primeiro filme, num país onde o olhar feminino ainda precisa ter muito mais espaço.

Na temática preservação, filmes restaurados foram exibidos, projetos foram apresentados e conhecimento foi compartilhado para que esta seja uma atividade permanente e cada vez mais difundida pra termos acervos disponíveis e relevantes para consulta, pesquisa e construção de memória.

Na educação, além do envolvimento da comunidade local e da apresentação de filmes, o fórum de debates trouxe pra pauta a importância do audiovisual como instrumento de educação e formação de cidadania. Sem falar das sessões para crianças, fundamental para formar novas gerações de espectadores e profissionais do audiovisual.

Cine OP entregou o que propôs e deixou a semente pra 2027! Até a próxima!

 

Cannes antes da premiação

 

A expectativa é a mãe da decepção — mas há de se levar em conta que nem sempre os grandes cineastas acertam. Mas esse é o sentimento de alguns por aqui, inclusive dizendo que a seleção de Cannes deste ano não foi lá essas coisas. Chegamos em festivais esperando grandes filmes de grandes cineastas e não é bem assim. Eu não faço eco a essa ideia. Cannes 2026 tem grandes filmes — e outros nem tanto. Mas, pela minha experiência já de alguns muitos festivais mundo afora, é assim mesmo.

E isso não é conformismo. Há muito mais por trás da curadoria de um festival do que possamos imaginar. E isso, pra nós, é sempre um prato cheio pra olharmos além dos muros que nos separam da equipe de seleção de um festival como este e refletirmos sobre a representatividade, qualidade e oportunidade de mercado do que é apresentado por aqui.

A começar por HISTOIRES PARALLÈLES (Contos Paralelos), de Asghar Farhadi, diretor iraniano de A Separação, filme marcante que todo mundo viu. Fala do processo criativo de uma escritora, que observa os vizinhos pra se inspirar. Suas suas vidas vão sendo transformadas à medida que o livro avança. Foi exibido, a imprensa falou mal e morreu por aqui. Com o japonês SHEEP IN THE BOX, de Hirokazu Koreeda, aconteceu o mesmo — e olha que em 2018 ele levou a Palma de Ouro com Assunto de Família. Mas sua história desta vez não caiu no gosto dos jornalistas. É delicada, sua direção com o ator mirim é impecável, como sempre, mas o filme sumiu do mapa. Já seu conterrâneo Ryûsuke Hamaguchi divide opiniões.

Para alguns, SOUDAIN (All of a sudden) é um grande filme, sai com prêmio ao falar da finitude de todos nós com a amizade genuína entre duas mulheres. Para mim, um filme emocionante, afinal quem tem amigos tem tudo nesta vida, mas menos minutos bastavam. Também japonês, NAGI NOTES (Quelques jours à Nagi), de Koji Fukada, um dos primeiros a serem exibidos em Cannes, é singelo, mas ficou para trás e se perdeu nesse mar de filmes.

Da Ásia é HOPE, do sul-coreano Na Hong-jin. Uma sátira ao cinema americano, à violência, ao blockbuster, às ficções científicas apocalípticas, à paranoia contemporânea que reage ao medo do desconhecido, ao medo do outro, com violência e prepotência. É uma mistura de thriller paranoico, com sci-fi, com invasão alienígena. Um saco de gato de vários gêneros, com efeitos especiais duvidosos. Salta aos olhos (o meu também) o fato de este filme estar na seleção, que tradicionalmente privilegia cinema de autor mais sóbrio. Pensando bem, aqui tem autoria também, mas toca na ferida e causa desconforto. É sobre a paranoia do medo, a xenofobia, a dificuldade de lidar com o diferente. Aqui não tem sobriedade, mas tem ousadia. Gostando ou não — e o presidente do júri, o sul-coreano Park Chan-wook vai nos dizer a que veio, ele que faz filmes violentos, mas sólidos — tem o seu valor, inclusive em criar essa discussão. 

Sempre temos na competição filmes que despertam a pergunta “o-que-este-filme-está-fazendo-aqui?” Filmes selecionados — ou que a curadoria precisa prestigiar, podem entrar em sessões especiais, mostras paralelas. Não precisam competir à Palma de Ouro. É o caso dos franceses — santo de casa não fez milagres. HISTOIRE DE LA NUIT, de Léa Mysius, e L’INCONNUE, de Arthur Harari, me fazem pensar no valor das quatro horas preciosas de sono ou trabalho desperdiçadas — e também do alemão THE DREAMED ADVENTURE, de Valeska Grisebach, que tem um recorte interessante através da personagem (ótima por sinal), mas que dá voltas demais da conta.

GARANCE, de Jeanne Herry, e LA VIE D’UNE FEMME, de Charline Bourgeois-Tacquet, têm seu valor em histórias sobre alcoolismo e trabalho, respectivamente, com ótimas atuações de Léa Drucker e Adèle Exarchopoulos — possívels Palmas de atriz, inclusive, e têm como concorrente Léa Seydoux, que é Lucy, uma musicista que vê sua vida transformada por uma investigação de pedofilia em GENTLE MONSTER, da austríaca Marie Kreutzer. Monstros gentis moram ao lado, são socialmente aceitos e integrados. Léa Seydoux carrega o filme na sua extrema solidão. E, voltando aos franceses, NOTRE SALUT (A man of his time), de Emmanuel Marre, sobe para outra prateleira — embora pouco se fale dele. História livremente adaptada sobre o bisavô do diretor que foi colaboracionista no regime de Vichy. Gosto — e o protagonista, Swann Arlaud, poderia ser candidato à Palma de ator. Isso se Javier Bardem não ganhar. 

Falando de Espanha, vamos a ela — que esteve aqui com três filmes, importantes. Dois deles, ganharão prêmios. Praticamente assino embaixo, mas a gente sabe que tudo pode acontecer. Javier Bardem está em EL SER QUERIDO, de Rodrigo Sorogoyen. É um diretor de cinema que tenta se reconciliar com a filha que abandonou, convidando-a para ser a protagonista de seu novo filme. Intenso e cheio de nuances. Pode ser a Palma — pra Javier Bardem, torcendo para que seja. E para a dupla os Javis, Javier Calvo e Javier Ambrossi, LA BOLA NEGRA está no páreo fortemente. Uma saga que inclui a literatura de García Lorca, a homofobia andando junto com o facismo (por definição), a importância dos jovens de hoje olharem para o passado e entenderem de onde vêm. Uma história de amor, com produção dos irmãos Almodóvar. Que também aparece em NATAL AMARGO (Amarga Navidad), claro. Um exemplar de Pedro Almodóvar fala de um cineasta em crise criativa, com suas cores e seu DNA, mas parece ser um filme mais decorativo por aqui.

Ainda na Europa, onde se dá a concorrência mais acirrada. Inclusive no leste, com FATHERLAND, de Pawel Pawlikowsky, polonês que faz um filme conciso, elegante e austero na pauta do dia quando pensamos em polarização e devastação ética e moral. Fala  de Thomas Mann, da Alemanha dividida e em ruínas, do retorno complexo à “pátria mãe” do título. Da Hungria, László Nemmes reconstrói os últimos dias do líder da resistência francesa MOULIN. Se Bardem tem concorrente será Gilles Lellouche, que faz o mártir enfrentando a maldade do seu algoz, o nazista Klaus Barbie, chefe da Gestapo em Lyon, na pele do excelente Lars Eidinger — que pode também ser laureado nesta noite. Da vizinha romênia temos o instigante FJORD, de Cristian Mungiu. Não que haja fiordes romenos, mas é justamente essa diferença cultural que o filme traz à tona através de uma família romeno-norueguesa ultra-conservadora, vivendo em um país progressista. Mungiu fala da intolerância, mas principalmente das imposições que surgem de ambos os lados quando não há compatibilidade cultural e religiosa. Relevante, ambíguo, profundo. Assim como faz o russo Andrei Zvyaguintsev, quando filma MINOTAUR na Letônia, como se fosse Rússia, a vida de um casal que vive de aparências, favores e influências. Na política de uma-mão-lava-a-outra, a vida segue, não sem violências normatizadas, mas como tem que ser. Tudo isso pra falar da Rússia bélica, da guerra da Ucrânia, da falta de moral e ética, da desumanização. Do ser humano preso no labirinto que ele próprio criou. Assim como o labirinto das trincheiras da Primeira Guerra abrigam a história de amor de COWARD, do belga Lukas Dhont. Sensível, direção precisa e delicada, traz a arte como válvula de escape (e cura) para as mazelas da vida. Afinal, quem são os covardes?

E embora este ano não tenham blockbusters americanos, daqueles que já chegam chegando, dois vêm das Américas, só que do norte — só pra pontuar, novamente, que a Central e do Sul não estão representadas em Cannes. Lástima. THE MAN I LOVE, de Ira Sachs, traz a epidemia da Aids, mas sem brilho ou relevância por aqui. Dos EUA, o que mais chama atenção é PAPER TIGER, de James Gray, que fala da podridão da sociedade através da relação entre dois irmãos e da dificuldade de enxergar naquele que sempre pareceu o mais poderoso, as suas fragilidades e pontos podres. Tio Sam deve sair sem prêmio hoje. O velho mundo vai nadar de braçada.

31º FESTIVAL É TUDO VERDADE

De 9 a 19 de abril tudo vira verdade. A 31ª edição do Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade traz 75 filmes de 25 países justamente pra jogar luz nas diversas maneiras de olhar para a realidade. É sempre verdade, mas gosto de pensar que elas são muitas e que o olhar crítico a partir de cada um desses filmes é a riqueza desse gênero que cresce e se torna, cada vez mais, uma fonte de informação, reflexão e formação de cidadania.

Festival gratuito simultâneo no Rio e em São Paulo, o ETV oferece longas, médias e curtas metragens, brasileiros e internacionais, divididos em diferentes mostras. A novidade deste ano é a m ostra É Tudinho Verdade, voltada para o público infantil. Pra quem não pode acompanhar presencialmente, de 20/4 a 4/5, os curtas metragens brasileiros serão exibidos com exclusividade pela plataforma de streaming Itaú Cultural Play.

Curioso como as temáticas das instituições brasileiras adoecidas se repetem e se cruzam. CARCEREIRAS, de Julia Hannud, inverte a lógica que fala do sistema prisional feminino através das detentas. Traz o foco para as mulheres que mantêm o sistema operante. Mulheres jovens, que são invariavelmente impactadas pela experiência da prisão, mesmo do lado de lá das grades. Uma questão de saúde mental que contagia todos os atores desse triste espetáculo. Assim como acontece em PATRULHA MARIA DA PENHA, de André Bomfim, que joga luz não nas mulheres que estão sob proteção da medida protetiva garantida pela Lei Maria da Penha, mas sim das policiais que fazem parte da patrulha em Maceió. Policiais que monitoram as vítimas de violência e enfrentam, elas também, os vícios e violências da lógica machista e misógina da sociedade. E dentro dessa lógica dar protagonismo aos operadores das instituições brasileiras, vamos da prisão e da polícia para a escola. SAGRADO, de Alice Riff, entra em uma escola pública de Diadema e faz um recorte da rotina dos funcionários, professores, orientadores diante do bullying, das violências, do racismo por que passam as crianças e adolescentes. Mas não só isso, já que a escola tem histórico de ocupação, o que amarra esse contexto da conexão entre as histórias. Filmes que indicam o adoecimento da sociedade nas suas diversas instâncias, mas todas elas passam obrigatoriamente pela formação familiar, desigualdade social e políticas públicas. São filmes que falam dos moldes deformados responsáveis pela formação da nossa cidadania, representadas pelo universo feminino.

Mas nem tudo é deformação. A FABULOSA MÁQUINA DO TEMPO, de Eliza Capai, quebra a lógica do aprisionamento e conta uma história de libertação. Premiada na Berlinale este ano, o documentário é um alento quando pensamos que, na imensidão do Brasil, não seremos capazes de dar a devida voz aos diferentes atores que compõem nossa cidadania adoecida. Em uma pequena cidade no Piauí, a diretora acompanha um grupo de meninas que é a primeira geração que cresceu com recursos básicos estruturados de saúde e educação. Assim, crescem podendo sonhar em ter um futuro diferente das mães, que viveram sob o machismo estrutural. As meninas sonham, fazem perguntas, questionam, querem ser livres e autônomas. Tudo em tom lúdico e leve, pra falar de algo tão sério quanto o futuro do país.

 

Mas nem tudo diz respeito ao cidadão comum e o estrelato também forma pessoas. BARDOT, de Alain Berliner e Elora Thevenet, é a cinebiografia de Brigitte Bardot, morta em 2025. Com imagens de arquivo, enaltece sua trajetória como mulher que quebrou paradigmas e se posicionou à frente do seu tempo conservador, sempre ressaltando seu jeito doce e vítima de um tempo. Em 1973, abandona os holofotes para se dedicar, no auge da fama, ao ativismo pelos diretos dos animais e pelo meio ambiente, e as escolhas do documentário ressaltam o bônus de poder usufruir dos recursos e do prestígio acumulado para investir em causas nobres. O que falta ao documentário é o que veio à tona no quadro In Memorian do Oscar que optou por não homenagear BB, mesmo ela sendo um ícone para os franceses. Aliada da extrema direita, Bardot era sabidamente islamofóbica e racista, o que está implícito na decisão da Academia de Hollywood, mas não entra no documentário. Mais parece peça de propaganda da sua fundação, o que ressalta ainda mais a verdade dos documentários. Afinal, é verdade, mas tudo depende de como a história é contada.

 

Pitacos sobre a Berlinale

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12 de fevereiro, 2026

A 76ª edição do Festival de Berlim, a BERLINALE, começa hoje oficialmente, mas nos bastidores os trabalhos já começaram. Hoje tem filme de abertura que nós da imprensa já tivemos a oportunidade de assistir. Começa com filme afegão No Good Men, da cineasta Shahrbanoo Sadat (também de O Orfanato) — e isso já sinaliza o que Berlim tem como diferencial este olhar pro mundo. Um mundo para o qual os olhos não se voltam, mas aqui temos o privilégio de observar através do cinema.

Claro que a composição do júri internacional condiz com essa premissa. Presidido por nada mais, nada mesmo do que Wim Wenders, cineasta alemão que é um ícone a ser celebrado, com obras que vão de Paris Texas e Asas do Desejo, de Pina e Buena Vista Social ClubO Sal da Terra a Dias Perfeitos. “A profissão do cineasta é incrível porque você consegue produzir algo e também aprender algo”, diz ele. “Os filmes produzem empatia e cada filme me fez diferente.”

Os filmes transformam os cineastas e o público — e a Berlinale traz isso no seu DNA, com a diversidade da curadoria. “Uma coisa é certa: em Berlim você assiste a filmes que trazem a mais diversas visões de mundo do que em qualquer outro festival”, garante Wenders. Em harmonia com essa visão, o corpo de jurados deste ano fortalece a ideia de que precisamos sim consumir histórias que ampliem horizontes, que ensinem sobre o mundo, que nos desloquem da zona de conforto conhecida para outras realidades. Temos o cineasta MIN BAHADUR BHAM, do Nepal (diretor de Shambhala, na competição da Berlinale em 2024); a atriz BAE DONNA, da Coreia do Sul (atuou em Broker, de Hirokazu Koreeda); o diretor SHIVENDRA SINGH DUNGARPUR, da Índia (ainda não conheço a obra dele); o diretor REINALDO MARCUS GREEN, dos EUA (diretor de King Richards e Bob Marley: One Love); a cineasta HIKARI, do Japão (diretora de 37 Segundos, Família de Aluguel, Treta); e a produtora EWA PUSCZCZYNSKA, da Polônia (produziu Quo Vadis, Aida? e Zona de Interesse). Júri de peso.

E isso muda tudo, claro. Quanto mais diversos são os olhares, mais pessoas, realidades, valores diversos são trazidos à tona no mar de histórias que assistiremos aqui. E temos a chance de nos conectarmos com elas. Todo mundo ganha com o diálogo que os filmes proporcionam — sem falar na construção de imagem que eles possibilitam de imagem e de “soft power”. “Estamos tentando construir diálogos com os filmes”, disse a produtora polonesa Ewa Pusczcznska quando perguntada sobre sua posição política. “Devemos fazer o trabalho de pessoas, não de políticos; aliás, somos o oposto dos políticos.”

E por trabalho, entendemos essa construção permanente de diálogos e conexões. “Como júri, somos um grupo em constante construção”, disse Wim Wenders. Com escuta ativa, sempre digo que os filmes transformam e são uma oportunidade de repensarmos nossa perspectiva de mundo. Como bem disse o diretor indiano Shivendra Singh Dungarpur, “fazer cinema nunca é sobre o resultado, mas sim sobre a jornada, o percurso pelo qual o filme te leva.” Disse tudo! Fica, aqui, o convite pra embarcarmos nessa aventura juntos!

Boa Berlinale pra nós! 🙂

13 de fevereiro, 2026

MICHELLE YEOH RECEBE O URSO DE OURO HONORÁRIO NA 76ª BERLINALE

Tradicionalmente os festivais de cinema prestam homenagem à carreira de atores, diretores, roteiristas. Este ano, a Berlinale entregou o Urso de Ouro honorário à atriz Michelle Yeoh, que já foi fez parte do júri em 1999.

Michelle é da Malásia e foi a primeira atriz asiática a ganhar o Oscar na categoria de melhor atriz. Isso foi em 2023, com o filme Tudo em “Todo Lugar ao Mesmo Tempo” — filme com que, diga-se de passagem, não me conectei. Mas isso são outros quinhentos. Vale dizer que a sua filmografia é extensa: vai de Wicked a Podres de Ricos, de Memórias de uma Gueixa a Além da Liberdade, de Star Trek a O Tigre e o Dragão.

O que me parece que está em jogo aqui é realmente a homenagem. Inclusive me dá a impressão que a diretora do festival, a norte-americana Tricia Tuttle, está trabalhando para compor a Berlinale de maneira a manter a curadoria com filmes de autor e histórias relevantes, convidar um corpo de jurados e um presidente representativos de nações diversas e origens que enriqueçam o olhar e as reflexões trazidas pelas obras, pincelando com filmes, séries e homenageados do cinema internacional e, por que não popular, a fim de atrair também patrocinadores e público.

Faz sentido — desde que não perca seu DNA. E não perde. Como eu já disse, Wim Wender e seus jurados e os filmes selecionados não me deixam mentir (da competição, já vimos filme da Tunísia, Turquia, Guinea-Bissao/França/Senegal, Irlanda/Reino Unido). Que tal?

No discurso, Michelle se esquivou das perguntas em relação à repressão aos imigrantes nos EUA, assim como os jurados preferiram não se posicionar durante a coletiva de imprensa. Embora não se posicionar já seja uma reposta, pode ser também uma orientação da direção da Berlinale. De qualquer forma, me parece que, mais do que proibir algo, isso traz a oportunidade para que o debate e a reflexão sejam feitos através das histórias dos filmes. Gosto disso. Eles têm bandeiras de sobra que dão pano pra manga.

 

20 de fevereiro

Amanhã a 76ª BERLINALE se encerra e saberemos quais filmes o júri presidido pelo alemão Wim Wenders escolheu. Receber uma chancela do Festival de Berlim abre portas para a carreira comercial do filme, assim como coloca a obra no radar de festivais do mundo todo — o que é maravilhoso para cinéfilos ávidos por boas histórias diversas. 

Mas nem tudo são flores e sempre há, até mesmo dos grandes festivais, filmes que estão na prateleira do espanto: o que fazem aqui? Há controvérsias, claro — e essa é a graça e a grandeza dessa experiência coletiva: opiniões diferentes. Mas, já que estamos aqui em foro íntimo, a grande decepção foi At the Sea (Hungria), com Amy Adams, dirigido por Kórnel Mundruczó, do ótimo Deus Branco (White Dogs). Isso é sempre um problema e uma solução ao mesmo tempo: ter a referência de trabalhos anteriores do diretor nos situa, mas também cria uma expectativa que pode ser um tiro no pé. E foi. Nem Adams se salva. Também sem salvação foram We Are All Strangers (Singapura), A New Dawn (Japão) e My Wife Cries (Alemanha). Andemos com a fila.

Dos 22, sobram 18, que podem ser agrupados de diversas maneiras. A temática me parece mais interessante quando pensamos em tendências, assuntos na pauta do dia, universais, chamados ao diálogo de formas bem diferentes. Dentro da lógica do dinheiro, Dust (Bélgica) fala da falência de empresários de uma big tech, que quebram do dia pra noite quando descobrem que o balanço foi superfaturado pra valorizar as ações. A riqueza vira o pó do título e tudo que não sentimos é empatia pelos empresários inescrupulosos. Na linha da riqueza desmesurada, Rosebush Pruning (Reino Unido) é o luxo-lixo de gente tão pobre de espírito que beira filme de terror. Como em Nightborn (Finlândia), em que um casal se muda pra casa da família na floresta e o bebê nasce estranho. Fala de mitologia, folclore, conexão com a mãe natureza como regente de absolutamente tudo.

No continente africano também. Em Soumsoum: La Nuit des Astres, a natureza rege a vida dos que se conectam com o divino, passado e futuro, e com a morte; Em DAO (Guiné-Bissau) o foco é um movimento perpétuo e circular, que flui em tudo e une todas as pessoas do mundo através dos rituais — e é claro que o território originário dos personagens é peça chave pra entender a importância da memória. Em Wolfram (Austrália), a natureza se sobressai como detentora do poder sobre os personagens que percorrem desertos e exploram minérios para enriquecer os já mais ricos de posses, mas não de humanidade.

Mas é a temática da condição da mulher no mundo que mais agrega filmes numa prateleira que cada vez mais coleciona obras pra refletirmos. O próprio Wolfran tem personagens que precisam se passar por homens pra sobreviver à realidade machista e patriarcal tenebrosa; o mesmo em Rose (Alemanha), uma protagonista inspirada em muitas histórias reais. Bem realistas são também as mulheres de À Voix Basse (Tunísia), que precisam se esconder pra viver genuinamente, assim como em Yellow Letters (Turquia), mulheres estão à mercê das forças políticas quando se expressam contra o regime e se colocam no polo oposto do patriarcado. Josephine (EUA) leva às últimas consequências a violência sexual, quando uma menina de 9 anos é a única testemunha de um estupro. Medo da cultura machista.

É o que somos enquanto seres humanos, que são descritos em filmes de personagens — com ou sem música, mas sempre com arte. Nina Roza (Bulgária) que o diga, já que checar a veracidade de uma obra de arte é tão relativo quanto olhar para as próprias escolhas de vida. As pausas ajudam, assim como na música. Everybody Digs Bill Evans (Reino Unido, EUA) fala do jazzista, mas principalmente do seu luto, sua luta e seu lado humano de quem precisou interromper a carreira pra poder sobreviver; The Loneliest Man in Town (Áustria) acompanha o mais solitário homem da cidade no seu habitat recheado de uma vida de blues. Se refaz também, pra continuar vivo; YO (Love is a Rebellious Bird) (EUA) é uma homenagem à amizade, numa casa onde cabem todos os corações, jovens e envelhecidos. Envelhecimento é tema de Queen At Sea (EUA) com tomadas de decisões difíceis e delicadas; doença que aparece em Moscas (México) junto com a necessidade de combater os invasores bem intimistas.

Decisões delicadas e invasores têm em todos os lugares. Também em Salvation (Turquia), quando a escolha da liderança faz toda a diferença neste mundo tão complexo. Escolher será a missão dos jurados sob comando de Wim Wenders. O que virá, logo saberemos. O que é certo é que a seleção de filmes é diversa e deve ter rendido boas e ricas polêmicas — inclusive pra pensar em que prateleira colocar Home Stories (Alemanha), porque se depender da família alemão eles não sabem se vendem o hotel ou se participam de um reality show. Praticamente o dilema de casar ou comprar uma bicicleta. 

 

 

 

29ª MOSTRA DE CINEMA DE TIRADENTES

A MOSTRA DE CINEMA DE TIRADENTES abre o calendário de festivais de cinema brasileiros com 137 filmes de 23 estados brasileiros. E abre, justamente, com uma produção diversa e plural focada no cinema brasileiro contemporâneo, com pré-estreias, mostras temáticas e competitivas, seja de cineastas que já tem uma carreira estabelecida, seja daqueles que estão começando — daí a importância desta experiência.

E é uma experiência. Tudo gratuito, aberto ao público. A cidade histórica se transforma em palco de oficinas formativas, cinema ao ar livre na praça, debates sobre os filmes, homenagens a artistas, que este ano traz a atriz, diretora e roteirista Karine Teles, com exibição de Riscado, de Gustavo Pizzi (2010) na programação. Foi, aliás, Riscado o primeiro filme em que vi Karine atuando; o mais recente, Cyclone. E também Que Horas Ela Volta, Benzinho e Manhãs de Setembro — só pra citar o que eu mais gosto.

A seguir, filmes vistos por aqui, nas diversas Mostras, trazendo um pouco da diversidade desta sempre linda e criativa experiência cinematográfica.  


 

KARINE TELES é a homenageada da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes. O primeiro filme que vi com a atriz — que também é roteirista deste longa — foi RISCADO, de Gustavo Pizzi, de 2010. O último, CYCLONE, de Flávia Castro, de 2025. Em ambos os filmes, Karine faz papel de uma artista. A Bianca, de Riscado, é competente, acredita no seu talento e não desiste do ofício e de buscar um caminho sólido na vida de atriz; a Marie, de Cyclone, não é talentosa, segue por vias tortuosas, mas se consolida como a rede de apoio tão necessária à protagonista, se consolida na sororidade e na feminilidade em que nós, mulheres, nos encontramos. “Sempre que me perguntam sobre meu trabalho, sobre quem eu sou, peço pra assistir a Riscado”, conta Karine Teles ao Cine Garimpo, em Tiradentes. “A personagem é uma mulher que depois de muito tempo consegue pagar as contas com seu trabalho de atriz. Essa é uma das minhas maiores conquistas: conseguir viver do trabalho que eu escolhi.”

Karine é atriz, roteirista e diretora, no cinema, televisão e teatro, e encara sua presença e atuação no campo artístico como a sua melhor contribuição como trabalhadora. “É o lugar ao qual eu pertenço, mas ainda sou muito a Bianca: apaixonada pelo que faz, inteira naquilo que eu vou representar. Já a Marie, não é talentosa, mas tem a inteligência da vida sem privilégios, abandonada à própria sorte”, reflete. “São muitas mulheres envolvidas no filme Cyclone, a começar pela diretora Flávia Castro, o que contribui pra esse olhar feminino da diversidade e da rede de apoio tão necessária”. Verdade. Esse é um dos pontos mais bonitos de Cyclone: o feminino e suas batalhas, uma após a outra.

E se estamos falando o ofício da arte como escolha de trabalho, ele precisa ser sustentável. A Carta de Tiradentes, documento desenvolvido por uma equipe multidisciplinar de profissionais do audiovisual brasileiros, reunida no Fórum de Tiradentes quatro anos consecutivos, traz diretrizes de como organizar e desenvolver a indústria do audiovisual como instrumento para fomentar a indústria e garantir a todos o direito à cultura. “Existe uma confusão com uma parcela de pessoas no Brasil que acha que trabalhar com lei de incentivo significa pegar dinheiro público pra uso próprio”, explica Karine. “As pessoas têm dificuldade em entende que outras indústrias também recebem incentivo, a agropecuária, automobilística e muitas outras. Tudo que gera emprego e devolve imposto passa pelo incentivo do governo. A arte em geral, a cultura, também é indústria. É o que coloca comida na mesa de muita gente e pode muito mais, porque o Brasil tem diversidade cultural. Investir em uma indústria que gera riqueza é um investimento muito inteligente. Imagine o que o país pode fazer quando a gente conseguir firmar o pé como um setor competente!”

Podemos fazer muito. Trabalhar com cultura é trabalho. “As pessoas têm dificuldade de entender essa atividade como trabalho por ser um bem imaterial.” Verdade também. Mas estamos aqui pra mostrar e convidar todos a vivenciar a cultura nos seus diversos formatos. Viva os festivais e mostras de cinema!


ANISTIA 79, de Anita Leandro (Mostra Olhos Livre)

Uma das últimas coisas que um exilado quer é ser fotografado, filmado. Perseguido, por definição, precisa ser o mais invisível possível. O objetivo é sobreviver e voltar pra casa. Mas o material que chega nas mãos da documentarista Anita Leandro é exatamente o contrário: extenso, detalhado, com som e imagem impecáveis capaz de reconhecer, inclusive, pormenores de quem esteve naquele comitê em Roma. ANISTIA 79 mostra o encontro dos exilados na Europa após o golpe de 1964 enquanto se reuniam na Conferência Internacional pela Anistia no Brasil, o maior encontro da esquerda brasileira fora do país. Já sabendo que a anistia seria uma realidade, reúnem-se para buscar concretizá-la de forma ampla, geral e irrestrita, inclusive para desmontar o aparato repressivo da ditadura e punir os torturadores. Tudo isso sob uma ótica bem diferente, é preciso dizer. E esse formato contribui, verdadeiramente, para o resultado impecável que se vê na tela.

Diante do achado em um porão de Paris, Anita Leandro faz a escolha de não somente recuperar o material e torná-lo público em forma de documentário — o que já seria um feito e tanto. Opta, no entanto, por identificar os participantes daquela conferência e começar a jornada de localizá-los e convidá-los a assistir ao material. E é o ato de vê-los assistir aos exilados na conferência em Roma que se transforma neste documentário. “Toda a fala dos personagens que participaram do filme deveria ser proveniente da projeção do material”, explica ela durante a conversa com a equipe do filme na Mostra de Tiradentes. “O personagem, na exibição de ontem, era cada um de nós; o espectador de hoje também dialoga com a realidade daquele tempo, afinal é um filme sobre memória histórica, mas também afetiva”, completa. Uma metalinguagem do começo ao fim: assisto ao outro assistindo e as emoções se sobrepõem. 

Memória se constrói com diálogo. ANISTIA 79 é o exercício de observarmos familiares, amigos e até exilados revisitarem a conferência, reconhecerem seus entes queridos, se reconhecerem depois de 50 anos em um arquivo de imagens que nem imaginavam existir. É um exercício de nos projetarmos para aquele momento e enxergar paralelos — ainda mais com o termo “anistia” sendo usado hoje de forma tão torpe e irresponsável.

Reconhecer-se parece ser a palavra-chave, mesmo que ditadura, repressão, tortura passem longe do imaginário ou da realidade de cada um. Só que não. A emoção na fala de quem viveu na pele aquele momento humaniza a memória. O silêncio humaniza. Quando  à filha de um exilado se reconhecer, aos 3 anos, na tela, e reconhecer o vestido que a mãe dela usava, a história se humaniza e nos aproximamos dela. Como bem disse Anita Leandro, “a memória é uma estrutura de mosaico”. Construída no coletivo, ANISTIA 79 valoriza a individualidade de cada voz formando um coro.


 

POLITIKTOK, de Álvaro Andrade Alves (Mostra Aurora)

A ideia é muito boa: apresentar a polarização da eleição presidencial de 2022 através de lives feitas no TikTok nas vésperas do pleito. É documentário político ou seria sobre política? Tanto faz e vale a provocação. Política e rede social andam juntas, pro bem e pro mal, e isso é um caminho sem volta. POLITIKTOK já tem esse conceito no nome: junta o modo de comunicação contemporâneo em todas as esferas e o fazer da política nos personagens de Bolsonaro e Lula na disputa presidencial.

Aliás, minto. Os candidatos não são personagens, são instrumentos. Personagens são as pessoas que o diretor baiano Álvaro Andrade Alves encontra no TikTok nos dias antes do pleito e filma as lives mostrando os dois lados da moeda. Com uma montagem que pretende equilibrar direita e esquerda pra justamente focar na postura insandecida das pessoas de se expor, seja do jeito que for. “Uma das ideias era mostrar como a internet, e mais especificamente o TikTok, influencia as pessoas na hora do voto, fazendo o papel que fazia antes a televisão”, disse o diretor em debate em Tiradentes. “Trazer a questão do trabalho precarizado também é um tema importante, porque é realmente inacreditável o que o algoritmo nos apresenta.”

Apesar de longo e repetitivo — considerando que o filme traz inúmeras lives sequenciais —, o que chama a atenção e parece ser o mais interessante é o formato. Traz para o cinema o formato vertical pra telona, dialogando com a forma com que assistimos a vídeos e lives nas redes sociais. Ao contrário do cinema, que é horizontal e despoluído de outros elementos gráficos, a tela das redes sociais é, por definição, uma poluição visual só. Botões estimulam a inteiração do usuário, dispersando a atenção e levando o espectador para a posição incômoda de ter que focar na mensagem. Algo avesso ao cinema que é uno; aqui, a fragmentação visual dialoga com a polarização política, com a falta de foco e intenção, com a comunicação cada vez mais fulgaz e superficial que nos bombardeia.


 

CURTAS METRAGENS NA PRAÇA

Os curtas na praça são uma atração à parte, com exibições que condensam 5 obras diversas, numa oportunidade de saborear histórias particularmente saborosas. Destaque para NOSSO AMIGO ROMÁRIO, do diretor mineiro Antonio Pedroni, que sutil e poeticamente fala da morte como passagem lúdica e afetiva; OS URSOS E NÓS, documentário da pernambucana Maria Acselrad resgata a tradição dos ursos no carnaval da periferia de Recife, sugerindo a importante reflexão sobre a domesticação (e, claro, dominação) dos animais; e AMERICANA,  da paraense Agarb Braga, que usa o grafismo colorido pra contar uma alegre história de cinco amigas trans em Belém. 

 

 

INSCRIÇÕES ABERTAS PARA ATIVIDADES GRATUITAS DO FESTIVAL CURTA! DOCUMENTÁRIOS

EVENTOS GRATUITOS OCORREM NOS DIAS 5, 6 e 7, NO ESTAÇÃO NET RIO, EM BOTAFOGO.

PROGRAMAÇÃO COMPLETA AQUI

Finalizada a etapa de exibição e votação, o 3º Festival Curta! Documentários promove uma programação presencial com atividades gratuitas, entre 5 e 7 de agosto, no Estação NET Rio, em Botafogo. Serão duas masterclasses com os cineastas Lúcia Murat, Emílio Domingos e Felipe David Rodrigues; sessões da ‘Sala de Montagem’ com dois filmes em finalização — “Angela Ro Ro”, de Liliane Mutti, e “Anistia 79”, de Anita Leandro e Isabel Castro — e um dia dedicado à conexão entre educação e audiovisual, por meio do projeto CurtaENEM, com a presença do filósofo Renato Noguera. As vagas estão sujeitas à lotação das salas de cinema, e os ingressos podem ser retirados pela plataforma Sympla. A premiação e o encerramento da edição serão no dia 8 de agosto, com transmissão pelo Youtube do canal. O festival é apresentado pela Claro, através da Lei de Incentivo à Cultura do Ministério da Cultura.

 

As sessões Sala de Montagem mostram trechos exclusivos e inéditos de filmes ainda em finalização e que serão exibidos no Curta! e CurtaOn quando prontos. É uma oportunidade para que o público entenda como se dá a montagem de uma produção. Dia 5 de agosto, às 10h, a cineasta Liliane Mutti conversa sobre o documentário “Angela Ro Ro”. Viabilizada pelo canal com verbas do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), a obra resgata a história da cantora, com registros e depoimentos inéditos, incluindo shows recém-gravados. A diretora estreou no cinema com o curta-metragem “Elle, Marielle Franco” (2021) e dirigiu o longa “Miúcha, a voz da Bossa Nova” (2022).

 

No dia 6, às 14h, é a vez de Anita Leandro e Isabel Castro apresentarem Anistia 79”, também viabilizado pelo Curta! por meio do FSA. A diretora e a montadora contam os detalhes do documentário, que apresenta a história de um evento, em Roma, pela anistia dos brasileiros que tiveram seus direitos cassados pela ditadura, a partir de raras imagens feitas por um exilado brasileiro que esteve no encontro. Anita Leandro é documentarista e professora, com obras como “Retratos de Identificação”. Isabel Castro, que assina a montagem, é formada em cinema e montou os longas “Madame Satã” e “Cidade Baixa”.

 

As masterclasses são eventos que trazem o olhar, a experiência e a sabedoria de grandes documentaristas brasileiros. Dia 5, às 14h, Emílio Domingos e Felipe David Rodriguescompartilham com o público suas trajetórias e exibem trechos inéditos de “Hyldon: As Dores do Mundo”, documentário viabilizado pelo FSA e que estreia no canal em 2026. Antropólogo e roteirista, Emílio é também diretor de “Favela é Moda” e “Chic Show”, entre outros. Felipe é diretor, roteirista e editor audiovisual, com trabalhos premiados como “Sidnei Tendler”, “Mr. Sganzerla” e “Elogio da Graça”.

 

No dia 6 de agostoàs 10h, é a vez de Lúcia Murat, uma das mais importantes cineastas brasileiras, dar uma masterclass. Ela é fundadora da Taiga Filmes, produtora responsável por dezenas de trabalhos para cinema e televisão. Já produziu mais de 20 filmes, dos quais dirigiu 15. Recebeu diversos prêmios nos mais importantes festivais internacionais de cinema, sendo que seu último filme, “Hora do Recreio”, foi premiado no Festival de Berlim de 2025. Entre outras obras, estão “Que Bom Te Ver Viva” e “Quase Dois Irmãos”.

 

Na quinta-feira, dia 7, o encontro gira em torno de cinema e educação, nas sessões do CurtaENEM. Voltadas a estudantes do Ensino Médio, educadores e participantes de cursinhos populares e comunitários, elas terão a participação do professor e filósofo Renato Noguera que debate a importância das produções audiovisuais como ferramentas de ensino e pedagogia. A primeira atividade, às 10h, será para estudantes. Com mediação de professores, serão exibidos trechos de documentários que fortalecem a compreensão dos temas mais cobrados nas provas. Já às 14h, uma oficina prática destinada a gestores e professores traz dicas valiosas para criarem aulas usando filmes do festival como base.

 

Confira a programação completa aqui

De 5 a 7 de agosto

Local: Estação NET Rio – Rua Voluntários da Pátria, 35 – Botafogo

3º FESTIVAL CURTA! DOCUMENTÁRIOS JÁ ESTÁ NO AR!

Já está no ar a 3ª edição do Festival Curta! Documentários pra você garimpar à vontade. E é à vontade mesmo: o festival, apresentado pela Claro, é gratuito e online. Portanto, você acessa de qualquer lugar do Brasil, sem pagar nada. Um deleite pra quem já curte o gênero e uma oportunidade imperdível pra quem ainda não sabe bem onde buscar documentários. 

Então, fica a dica: de 2 de junho a 2 de julho, você acessa mais de 150 obras brasileiras, cuidadosamente selecionadas pela curadoria do festival. É só entrar no site festivalcurtadocs.org.br , garimpar e depois votar no seu favorito. A participação do espectador no júri popular é uma maneira de aproximar ainda mais as obras dos cinéfilos e valorizar essa conexão que só o cinema proporciona. Também haverá um júri técnico composto por jornalistas, escritores e personalidades como a atriz Marieta Severo, o psicanalista Christian Dunker e a filósofa Sueli Carneiro. As produções vencedoras escolhidas pelos dois júris serão contempladas com prêmios que somam até R$ 170 mil. Assim, o Festival Curta! Documentários reforça seu papel como um espaço essencial de fortalecimento do audiovisual brasileiro.

Pra ficar ainda mais fácil, as obras estão agrupadas em duas mostras. A mostra Produção Canal Curta! reúne 24 títulos de filmes e séries com histórias relevantes sobre o mundo contemporâneo, além de biografias de personalidades históricas como Freud (Para Ver Freud) e Santos Dumont (Santos Dumont, o Céu na Cabeça); de nomes do ativismo e da política, como Brizola (Leonel Brizola) e Davi Kopenawa (Watoriki); da literatura, como Zélia Gattai (Zélia – Memórias e Saudades ) e Augusto de Campos (Artéria: Poesia em Revista); e de mulheres inspiradoras como Dandara dos Palmares (Libertárias: Mulheres Inspiradoras na História do Brasil) e Heloisa Teixeira (O Nascimento de H. Teixeira). 

Já na mostra Outras Janelas, as séries e filmes estão divididas em duas categorias: Artes e Humanidades. As temáticas são aquelas que dialogam intimamente conosco como a Amazônia (Amazônia – Arqueologia da Floresta), a luta por direitos feministas (Lobby do Batom), o patrimônio histórico e a arquitetura nacional (O Bixiga é Nosso!) e manifestações culturais como teatro de rua (Teatro de rua (r)existe). Um conteúdo de primeira linha que instiga nossa curiosidade, traz conhecimento e reflexões.

Além da programação completa online já disponível no site, haverá eventos presenciais como as “Salas de Montagem”, masterclasses e painéis sobre o mercado audiovisual, que serão divulgados em breve. Enquanto isso, uma maratona de documentários brasileiros, com o que há de mais relevante na produção atual, te espera! Bom garimpo!

O Cine Garimpo apoia o Festival Curta! Documentários, sempre acreditando no potencial do audiovisual de formar público consumidor de cultura, conectar pessoas e transformar a sociedade.

 

 

3º FESTIVAL CURTA! DOCUMENTÁRIOS divulga Mostra Produção Canal Curta!

3º Festival Claro Curta! Docs tem Brizola, Freud, Helô Teixeira e Arnaldo Antunes

Mostra especial reúne 92 obras exibidas no Canal Curta!. No 3º Festival 150 documentários concorrem a até R$ 170 mil em prêmios atribuídos pelo público online e pelo júri de especialistas

Diretores consagrados, como Lírio Ferreira e Helena Solberg, e estreantes talentosos, como Marcelo Janot, estão por trás dos 24 títulos de filmes e séries em episódios — somando um total de 92 conteúdos — selecionados para a mostra Produção Canal Curta! do 3º Festival Claro Curta! Documentários, apresentado pela Claro. Viabilizadas pelo Curta! por meio do Fundo Setorial do Audiovisual, essas produções estrearam no canal entre junho de 2024 e maio de 2025, e se destacam pela relevância de seus assuntos e personagens: do político Leonel Brizola ao psicanalista Sigmund Freud, da escritora Heloisa Teixeira ao cantor e poeta Arnaldo Antunes, do xamã Davi Kopenawa à atriz Clarice Niskier, do inventor Santos Dumont ao inventivo músico Hermeto Pascoal, entre outros.

Em sua terceira edição, o Festival Claro Curta! Documentários celebra o melhor da produção audiovisual brasileira exibindo gratuitamente, entre 2 de junho e 2 de julho, mais de 150 obras divididas em duas mostras. O patrocínio é da Claro através da Lei Rouanet de Incentivo à Cultura, do Ministério da Cultura. 

Além dos 92 conteúdos da mostra Produção Canal Curta!, o público pode conferir mais de 60 produções da mostra Outras Janelas, composta por filmes e séries documentais brasileiros produzidos a partir de 2022, com CPB emitido, com ou sem exibição prévia em televisão/VOD. Ela é dividida em duas categorias: artes e humanidades. Nesta edição, o festival também planeja eventos presenciais que incluem as esperadas “Salas de Montagem” — sessões de obras em finalização —, uma masterclass e painéis sobre o mercado audiovisual.

As produções participantes do festival concorrem a prêmios que somam mais de R$ 170 mil, distribuídos por um júri popular e um técnico. Na votação do público, serão eleitos os melhores conteúdos de “artes” e de “humanidades”, que ganharão R$ 10 mil, cada. Haverá também o Prêmio Aquisição Canal Curta!, ao qual serão destinados R$ 30 mil para que a obra vencedora seja exibida no canal promotor do festival, com direitos disponíveis. Por sua vez, o júri especializado, composto por jornalistas, escritores e personalidades da cultura, escolherá dois conteúdos — um de arte e outro de humanidades — da mostra Produção Canal Curta! para receberem R$ 20 mil, a partir de finalistas também indicados pelo Júri Popular, além de destacar uma obra com relevância para o mercado educacional. Parceiros do festival, a LuzRio e Quanta também irão oferecer prêmios aos vencedores.

Confira abaixo a lista dos filmes e séries selecionados para a mostra Produção Canal Curta!:

Artéria: Poesia em Revista

Direção: Bruna Callegari

 

Arte da Diplomacia

Direção: Zeca Brito

 

Brasil Visual – 2ª temporada (13 episódios)

Direção: Rosa Melo

 

Caixa Postal (sete episódios)

Direção: Letícia Simões e Hilton Lacerda

 

Cinéticas (dez episódios)

Direção: Caroline Margoni

 

Clarice Niskier: Teatro dos Pés à Cabeça

Direção: Renata Paschoal

 

Dois Sertões

Direção: Vagner Bozzetto

 

Instantes Cruzados – 2ª temporada (oito episódios)

Direção: Sérgio Bloch

 

Leonel Brizola

Direção: Marco Abujamra

 

Libertárias: Mulheres Inspiradoras na História do Brasil (oito episódios)

Direção: Rodrigo Grota

 

Na Trilha do Cinema (nove episódios)

Direção: Hewelin Fernandes

 

Na Trilha do Som (oito episódios)

Direção: Marcelo Janot

 

O Menino D’Olho D’Água

Direção: Lirio Ferreira e Carolina Sá

 

O Nascimento de H. Teixeira

Direção: Roberta Canuto

 

O Outro Lado da Moeda

Direção: Rogério Pixote e Lívia Maria Cappelari

 

Para Ver Freud (cinco episódios)

Direção: Lyana Peck

 

Potências da Imagem (cinco episódios)

Direção: Eduardo Goldestein e Evângelo Gasos

 

Santos Dumont, o Céu na Cabeça

Direção: Éder Santos e Monica Cerqueira

 

Uakti

Direção: Eder Santos

 

Um Filme Para Beatrice

Direção: Helena Solberg

 

Watoriki

Direção: Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha

 

Zélia – Memórias e Saudades (seis episódios)

Direção: Carla Laudari

 

3º FESTIVAL CURTA! DOCUMENTÁRIOS

 

 

 

FESTIVAL CURTA! DOCUMENTÁRIOS divulga os selecionados para a mostra OUTRAS JANELAS. Então, se você é fã de festival, já fique ligado; se ainda não tem o costume de fazer esse garimpo, esta é uma oportunidade imperdível.

Vem aí a 3ª edição do FESTIVAL CURTA! DOCUMENTÁRIOS, online e gratuito, entre 2 de junho e 2 de julho, no site festivalcurtadocs.org.br . Acessível a todos, é a chance de conhecer novos cineastas e mergulhar em novas curtas histórias que trazem não só nosso cinema pra mais perto, mas também nossas histórias sempre tão diversas.

Festival de cinema é sempre uma celebração, um palco que joga luz em produções dos mais diferentes gêneros. Se a gente quiser (e queremos!), temos festivais rolando praticamente todos os dias do ano. E não dá pra negar que o digital nos aproxima de obras a que não teríamos acesso. Como documentários estão cada vez mais em alta, é a hora de se preparar para acompanhar de perto o Festival Curta! Documentários, que divulgou a seleção da mostra Outras Janelas, dividida em duas categorias: artes e humanidades. Em breve também será divulgada a seleção da Produção Canal Curta!, com documentários e séries independentes que estrearam na grade do canal entre junho de 2024 e maio de 2025.

O festival conta com patrocínio da Claro através da Lei Rouanet de Incentivo à Cultura, do Ministério da Cultura. O Cine Garimpo apoia esta iniciativa e vai acompanhar e divulgar tudo bem de perto pra você não perder nada. Das mais de 400 obras inscritas, a curadoria do canal Curta! selecionou aquelas que mostraram mais relevância temática, qualidade técnica e originalidade.

As produções participantes do festival concorrem a prêmios que somam mais de R$ 170 mil, distribuídos por um júri popular e um técnico. Na votação do público, serão eleitos os melhores conteúdos de “artes” e de “humanidades”, que ganharão R$ 10 mil, cada. Haverá também o Prêmio Aquisição Canal Curta!, ao qual serão destinados R$ 30 mil para que a obra vencedora seja exibida no canal promotor do festival, com direitos disponíveis. Por sua vez, o júri especializado, composto por jornalistas, escritores e personalidades da cultura, escolherá dois conteúdos – um de arte e outro de humanidades – da mostra Produção Canal Curta! para receberem R$ 20 mil, a partir de finalistas também indicados pelo Júri Popular, além de destacar uma obra com relevância para o mercado educacional.

Rio, Negro, de Fernando Sousa e Gabriel Barbosa

 Lobby do Batom: Memórias para a Posteridade, de Gabriela Gastal

 Elton Medeiros – O Sol Nascerá, de Pedro Murad

O Som da Pele, de Marcos Santos

O Bixiga É Nosso, de Rubens Crisipim Jr.

Presença, de Erly Vieira Jr.

Saberes Quilombolas, de Plínio Gomes e Bruno Saphira

Toada para José Siqueira, de Eduardo Consonni, Rodrigo T. Marques

Teatro de rua (r)existe – o filme, de Daniela Israel, Alexandre Vargas

Ouvidor, de Matias Borgström

Acorda, Cajueiro!, de Guga Carvalho

Poemaria, de Davi Kinski

As cores e amores de Lore, de Jorge Bodanzky

O Avô na Sala da Estar: a Prosa Leve de Antonio Candido, de Fabiana Werneck e Marcelo Machado

Antunes Filho – Do Coração para o Olho, de Cristiano Burlan

Quatro dias com Eduardo, de Victor Hugo Fiuza

Um Corpo Só, de Carlos Nazario

Primo da Cruz, de Alexis Zelensky

Mercearias de Beagá,  de Marcos Lôndero e Nani Rodrigues

Um Arquivo, Dois Ofícios, de Maria Julia Andrade

Os sonhos guiam, de Natália Tupi

Direito de Sonhar, de Theresa Jessouroun

Retomada, de Ricardo Martensen

As Primeiras, de Adriana Yañez

Praia da Saudade, de Sinai Sganzerla

Nossa Pátria Está Onde Somos Amados, de Felipe Hirsch

Fantasma Neon, de Leonardo Martinelli

Macaléia, de Rejane Zilles

O Silêncio Elementar, de Mariana de Melo

A Noite das Garrafadas, de Elder Gomes Barbosa

Quantos Dias. Quantas Noites, de Cacau Rhoden

Miúcha, a voz da Bossa Nova, de Liliane Mutti; Daniel Zarvos

Amazônia – Arqueologia da Floresta (2ª Temporada), de Tatiana Toffoli

Sombras Sobre o Continente, de Renato Tapajós, Hidalgo Romero, Julio Matos

Olhares do Norte: Pará, de Adrianna Oliveira, Matheus Almeida do Nascimento, Thiago Pelaes, Fernando Segtowick

Homo Brasilis – 2a temporada, de Bianca Lenti, Guilherme Fernánd

 

É TUDO VERDADE _ 2024

De 3 a 14 de abril, o É TUDO VERDADE apresenta sessões gratuitas no Rio de Janeiro e em São Paulo. Nesta 29ª edição, o FESTIVAL INTERNACIONAL DE DOCUMENTÁRIOS conta com 77 títulos, de 34 países, longas e curtas, além de uma programação especial com atividades de formação como palestras e conferências.

Para acessar a PROGRAMAÇÃO: CLIQUE AQUI

Para celebrar o É Tudo Verdade, o podcast Sessão Cine Garimpo apresenta um episódio dedicado ao gênero documental, que você pode acessar no link abaixo:

  • episódio #9: Vai um documentário aí?, por Suzana Vidigal (podcast Sessão Cine Garimpo, disponível nas plataformas de áudio)

Seguem alguns filmes da seleção de 2024 que já assisti e recomendo:

UM FILME PARA BEATRICE, de Helena Solberg (Brasil, 2024)

  • O que dá origem ao documentário é uma história curiosa: em 1968, Helena inscreve o filme “A entrevista” no Prêmio de Colli, na Itália; mais de 50 anos depois uma jornalista chamada Beatrice Andreose encontra este filme em perfeitas condições e entra em contato com Helena. No filme A entrevista, Helena conversa com mulheres com formação semelhante à dela pra falar da condição da mulher brasileira naquela época. Beatrice fica curiosa e quer saber mais sobre nós, mulheres brasileiras, e Helena então se debruça sobre sua própria filmografia revisitando suas reflexões sobre o Brasil e a América Latina. Conversa com pessoas hoje pra refletir sobre a trajetória feminina e entender em que ponto estamos. Tem política, tem feminismo, tem negritude, tem machismo, tem religião, tem paternalismo, tem política de novo. São análises riquíssimas sobre quem queremos ser.

HOJE É O PRIMEIRO DIA DO RESTO DA SUA VIDA, de Bel Bechara e Sandro Serpa (Brasil, 2024)

  • Em 2021, Bel e Sandro recebem a notícia de que chegou a sua vez na lista de espera da adoção. Um bebê de 4 meses integrará a família e eles documentam todo o processo neste filme intimista. Trazendo suas angústias, alegrias e reflexões, o casal conta como a chegada do pequeno muda suas vidas. A mais bela reflexão fica por conta da responsabilidade de criar um menino que não seja machista. Decidem subverter o padrão da posição dos sobrenomes materno e paterno, dando à mãe a posição considerada mais importante pelo patriarcado.

O COMPETIDOR (The Contestant), de Clair Titley (Reino Unido, 2023)

  • O filme nos coloca numa situação incômoda, cada vez mais comum hoje em dia. O COMPETIDOR conta a história de um programa de televisão no Japão nos anos 1990 cujo produtor queria ganhar notoriedade e entreter as pessoas a qualquer custo. Anos antes de surgir o Big Brother, ele criou um programa em que um sujeito apelidado de Nasubi foi mantido por 15 meses dentro de um quarto, nu, sozinho e com comida racionada e de péssima qualidade. 

    Nasubi tinha um desafio: sua missão era preencher os cupons das revistas pra tentar ganhar prêmios. Quando atingisse a meta, seria libertado. Sem que soubesse, foi monitorado 24 horas, 7 dias por semana, com transmissão nacional pela tv japonesa para milhões de espectadores. Mas peraí, já vimos este filme. O Show de Truman, filme de ficção feito anos mais tarde, é exatamente isso. Numa situação abusiva e tóxica, a saúde mental e física é testada no limite, mostrando o nível de ambição e crueldade do ser humano, tanto da mídia, que produz entretenimento às custas do sofrimento de alguém, quanto dos espectadores, que consomem este tipo de produto sem questionar a violência intrínseca, o desrespeito e a invasão de privacidade. Convenhamos: é um triste prenúncio do Big Brother e da transformação de pessoas em meros produtos de marketing. O desfecho é surpreendente e é tudo verdade!

CENTO E QUATRO (One hundred four), de Jonathan Schörnig (Alemanha, 2023)

  • Cento e quatro pessoas estão à deriva num bote de borracha furado, perto da fronteira da Líbia. Vindos de países africanos, buscam refúgio na Itália, mas neste barco afundarão em breve. Acompanhamos o resgate desses refugiados em águas internacionais através de 6 câmeras, pressionados pelo tempo que o barco resistirá, pela possibilidade de patrulhas líbias violentas surgirem, pela dificuldade de conseguir autorização para desembarcar na Itália ou França. Angustiante, CENTO E QUATRO é um retrato importante dessa ação de resgate humanitário.

E ASSIM COMEÇA (And so it begins), de Ramona S. Diaz (EUA, Filipinas, 2024)

  • As eleições de 2022 são pano de fundo para a reflexão sobre a política no país, seu histórico de corrupção e perseguição à opositores e jornalistas. Quem tem voz aqui é a jornalista Maria Ressa, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz e cofundadora do veículo de jornalismo investigativo, que traz sua experiência de censura, opressão e violência sofridas pelo governo para refletir sobre o poder e a política naquele país. 

O CINEMA POR DENTRO (The cinema within), de Chad Freidrichs (EUA, 2023)

  • Pra pensar sobre as ferramentas do fazer cinema,  a edição é peça-chave para o entendimento de um filme, já que o ponto de vista do diretor depende de uma edição coerente com o tom que ele quer transmitir. Este filme constrói uma linha de raciocínio que mostra a importância da montagem na construção da história na nossa mente.

     Baseado em uma pesquisa feita por uma estudiosa com moradores das montanhas da Turquia que nunca tinham visto um filme na vida, o diretor vai discorrer sobre a importância de a edição simular o nosso processo mental. Nossa mente estabelece relações entre o que vemos e nosso conhecimento prévio de mundo o tempo todo e a edição tem que surtir o mesmo efeito pra que aquela história transmitida na tela faça sentido. Acompanhar uma narrativa e envolver-se com ela depende de como nosso cérebro é capaz de processar os signos colocados ali pelo diretor, considerando que produzimos fragmentos da realidade o tempo todo, observando tudo que acontece ao nosso redor. Numa edição sensível e cuidadosa, entre uma piscada d’olhos e outra, acreditamos que tudo aquilo que está na telona é a mais pura verdade. Como num passe de mágica.