SMALL THINGS LIKE THESE

Cartaz do filme SMALL THINGS LIKE THESE

Opinião

 

Especial para a 74ª Berlinale

As Magdalen laudries (lavanderias de Madalena) ficaram em operação na Irlanda da década de 1820 até 1996, ou seja, é algo assustadoramente duradouro e recente. Eram administradas por ordens religiosas, localizadas ao lado de conventos e escolas de freiras. Direcionado a meninas e mulheres consideradas inadequadas ou promíscuas, elas eram encarceradas nessas instituições e obrigadas a fazer trabalho forçado, em situação análoga à escravidão. Mulheres abandonadas por suas famílias ou meninas vítimas de abusos sexual, violência doméstica e psicológica passavam a vida nesses asilos por toda a Irlanda. Todos sabiam, mas faziam vista grossa. Baseado no livro homônimo de Claire Keegan, SMALL THINGS LIKE THESE traz este “trauma nacional, que inunda os irlandeses de vergonha e culpa”, conforme disse o diretor Tim Mielants na coletiva de imprensa da Berlinale.

Matt Damon e Cilliam Murphy fazem parceria de novo e resolveram isso no set de Oppenheimer. Damon produz, Murphy brilha na pele de Bill Furlong, um irlandês pai de cinco meninas. Um mineiro que vive em uma pequena cidade e sustenta suas filhas e esposa com a venda de carvão. A vida gira em torno do convento, as freiras administram a escola em que suas filhas estudam, as leis da igreja são força suprema e ninguém contesta. Até que um dia, Bill encontra uma menina presa no depósito de carvão do convento. Seu sofrimento desperta os próprios fantasmas deste homem que já não consegue seguir adiante sem alterar essa lógica perversa.

Furlong representa o homem nesta sociedade que não pode mostrar seus sentimentos — é um olhar masculino para esta específica violência contra a mulher. A angústia do presente vai se mesclando com o luto do passado. A pergunta que surge é: o que leva alguém a salvar outra pessoa, a estender a mão pra ajudar, mesmo que isso seja uma gota no oceano, mas que sejam “pequenas coisas”? Humano, revisita parte da história irlandesa cheia de culpa e vergonha. Com disse o roteirista Enda Walsh, ele deixa espaço para o espectador se perder no interior do personagem. À medida que a ansiedade e o silêncio de Bill aumentam, vai ficando mais claro que é um caminho sem volta e que o desfecho estará repleto de (im)possibilidades. Belíssimo começo de Berlinale — com uma obra que denuncia, mesmo que não em uma narrativa tradicional e joga luz na perversidade do poder.

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