Por que venho à CINE OP?

Antes de vir pra Mostra de Cinema de Ouro Preto, mais conhecida como CINE OP (MG), uma pessoa me perguntou por que eu vinha para um festival como este se poucos filmes que passam aqui chegam aos cinemas. Respondo, mas no final. Antes é preciso entender o que Ouro Preto tem a ver com essa curadoria, com o enfoque na preservação do audiovisual  e na educação, e com a tamanha movimentação pra construir uma mostra com 139 filmes no total.  Aqui tem mostra competitiva e contemporânea, sessões infantis e cine-escola, masterclasses, encontros, debates, atividades de formação. Nada é desconectado e, pensando assim, responder fica fácil. 

Comecemos pela locação. Andar por Ouro Preto é um ato auto-explicativo: é como andar em um museu vivo. Sim, memórias vivem, desde que passemos por elas;  memórias despertam, desde que nos conectemos com seu registro; memórias existem, desde que cuidemos delas. Assim é o cinema também: recuperar, preservar e divulgar para que seja consumido por gerações mostra quem somos, o que nos tornamos e aponta possibilidades de caminhos futuros. É o que chamamos aqui de “cinema patrimônio”.

Combina com Ouro Preto. Caminhar por aqui é como percorrer a história do Brasil, seu passado social, econômico, cultural. Um museu ao ar livre. Um patrimônio arquitetônico, assim como cinema é patrimônio cultural. Independente da época. Rever XICA DA SILVA, de Cacá Diegues, de 1976, por exemplo, foi um presente. Selecionado na Mostra Preservação, a obra restaurada em 4k é um mergulho num filme que tem, ao mesmo tempo, história e deboche, poesia e folclore, economia e diversão, sensualidade e sociedade. Numa das suas mais emblemáticas atuações, Zezé Motta protagoniza a mulher escravizada que usufrui dos privilégios e excessos da corte portuguesa, ao mesmo tempo que mantém a sua brasilidade e faz da sua condição feminina a moeda que subverte a lógica do poder na mão dos brancos portugueses. Um marco que ganha força desde que disponível para ser (re)visto. Uma oportunidade de pensar como o filme retratava o Brasil naqueles anos 1970.

Diferente, mas não menos importante, do que mergulhar no presente para entender uma trajetória, por exemplo, que é impar e, com distanciamento histórico, torna-se ainda mais única. Na Mostra Competitiva, APOCALIPSE SEGUNDO BABY, de Rafael Saar, é um mergulho psicodélico na vida e carreira de Baby do Brasil, que já foi Consuelo e nasceu Bernadete. Saar consegue olhar para a vida desta icônica cantora e construir um documentário que acompanha o ritmo, os depoimentos, as músicas, os shows e a figura única que é Baby, com toda a sua personalidade e presença. Inclusive fugindo das polêmicas e controvérsias. Um recorte que traz informações abafadas pela personalidade extravagante de Baby, o que faz o filme interessante e original. Vale dizer que uma obra careta não teria diálogo com sua protagonista. O filme é a cara dela.

Na Mostra Contemporânea, ANISTIA 79, de Anita Leandro, viaja pelos festivais. Assisti na Mostra Tiradentes e é justo que mais pessoas possam apreciar uma obra que mistura tempos históricos no movimento fundamental de se afastar para enxergar, analisar e compreender. Sem imagens de arquivos ele não existiria. Voilà a importância da preservação das obras audiovisuais. O documentário nos leva pra Roma naquele ano de 1979, em que brasileiros filmam a Conferência Internacional pela Anistia e pelas Liberdades Democráticas no Brasil. Participantes daquele momento assistem hoje a esta gravação. Somos, enquanto espectadores, também convidados a olhar para o passado através da história do outro pra descobrir onde nos encaixamos nesta percepção do que foi e é o Brasil.

Aliás, sobrepor passado e presente pra criar a sensação genuína de que estão não só entrelaçados, mas ainda existentes um no outro, é o que sentimos em OS IRMÃOS SEGRETO, de Federico Ferrone e Michele Manzolini. Com imagens alternadas do Rio de Janeiro atual e do Rio do começo do século XX, mostra o tempo em que os irmãos Pasquale, Gaetano e Alfonso migraram para o Brasil com uma mão na frente, outra atrás, assim como todos que vieram na migração italiana no final do século XIX. Trouxeram na mala um cinematógrafo e entre lendas e fatos, são conhecidos por serem os precursores do cinema no Brasil. É quase uma fábula que sobrepõe imagens, mesmo quando elas estão no nosso inconsciente coletivo pra explicar o que é o Brasil de hoje. Xica da Silva provoca esse exercício também — e como! — assim como Anistia 79 nos faz pensar que seguimos patinando, em parte, no mesmo lugar.

A Mostra Cine OP também tem oferta online pelo site (acesse aqui). Ainda tem filmes pra ver. Sempre tem. Nesta minha primeira cobertura da Mostra de Ouro Preto, fica a certeza de que repertório é fundamental. O de hoje e de ontem. Profissionais se dedicam ao trabalho imenso de construir pontes entre as obras e os espectadores para a manutenção do patrimônio cultural contido nos filmes. Patrimônio que precisa extravasar, derrubar barreiras e chegar nas pessoas. Por essas e outras, a importância dos festivais e mostras de cinema é inquestionável. Venho, assim como meus colegas jornalistas, pra contar que filmes são esses; para comunicar a sua importância na construção da nossa memória enquanto brasileiros, pra valorizar a produção cultural do nosso país que diz quem somos, nas suas diversas possibilidades de olhares e opiniões. É pra isso que venho para fazer a cobertura e, já digo, quero voltar.

 

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Por que voltarei?

“Porque um país não existe apenas em seus arquivos. Existe nas histórias que escolhe contar, nos patrimônios que decide proteger, nas memórias que mantém vivas e nas imagens que reconhece como parte de si.
Um país existe nas imagens que preserva.”

Raquel Hallak – diretora da Cine OP

Compartilho aqui meu sentimento de que esse pensamento acima esteve presente em cada uma das iniciativas da Cine OP — e não foram poucas nos 6 dias de festival. É um bom apanhado do que vimos e sentimos por aqui.

A começar pelo encerramento de ontem à noite, com a premiação da Mostra Competitiva — uma seleção que ressalta a importância das imagens e sons de arquivo na construção de documentários e filmes ensaio. Concorreram 5 filmes e Irritante Prodígio, de Luiza Lindner, levou o Troféu Vila Rica, única premiação da Cine OP. Um filme muito intimista, com imagens nuas e cruas do seu sofrimento, ainda bem pequena, durante internações psiquiátricas e hospitalares.

A temática histórica esteve presente nos relatos de cineastas como Helena Solberg, Tata Amaral, Lucia Murat. Contaram como foi a experiência do primeiro filme, num país onde o olhar feminino ainda precisa ter muito mais espaço.

Na temática preservação, filmes restaurados foram exibidos, projetos foram apresentados e conhecimento foi compartilhado para que esta seja uma atividade permanente e cada vez mais difundida pra termos acervos disponíveis e relevantes para consulta, pesquisa e construção de memória.

Na educação, além do envolvimento da comunidade local e da apresentação de filmes, o fórum de debates trouxe pra pauta a importância do audiovisual como instrumento de educação e formação de cidadania. Sem falar das sessões para crianças, fundamental para formar novas gerações de espectadores e profissionais do audiovisual.

Cine OP entregou o que propôs e deixou a semente pra 2027! Até a próxima!

 

MOSTRA DE CINEMA ISRAELENSE

Nesta quinta, 27, inicia-se a segunda edição da MOSTRA DE CINEMA ISRAELENSE, organizada numa parceria entre Sesc e Instituto Brasil-Israel (IBI), com apoio do Consulado Geral de Israel em São Paulo. Neste ano, a seleção de 10 filmes, entre curtas, médias e longas-metragens de ficção e documentários, traz como grande destaque o olhar feminino nas telonas. Todos os filmes são dirigidos por mulheres, apresentando seus olhares e interpretações sobre uma temática contemporânea, a partir da perspectiva israelense, abarcando questões políticas, críticas sociais, utopias, vivências LGBTQIAP+, memória, tempo e família. A exibição dos filmes acontece até o dia 2 de agosto, na plataforma SESC DIGITAL, de forma gratuita para todo o país.

11ª MOSTRA ECOFALANTE DE CINEMA

De 27 de julho a 17 de agosto teremos cinema focado na temática socioambiental, com 106 filmes, de forma híbrida e gratuita, em mais de 30 cinemas e espaços culturais de São Paulo. A MOSTRA ECOFALANTE DE CINEMA preparou uma agenda forte e intensa: 

* retrospectiva reúne obras de Sarah Maldoror, a primeira mulher negra a dirigir um longa-metragem na África; está incluída a versão recém-restaurada em 4K de seu filme mais emblemático, “Sambizanga”, realizado há exatos 50 anos

* ator e diretor francês Jacques Perrin, falecido em abril deste ano, merece homenagem com exibição de filmes que produziu e dirigiu

* exibição celebra os 40 anos do clássico documentário “Koyaanisqatsi”, de Godfrey Reggio

* participam produções indicadas ao Oscar e premiados nos festivais de Cannes, Sundance, Roterdã e Locarno

* Panorama Internacional Contemporâneo está organizado a partir dos temas Ativismo, Biodiversidade, Economia, Emergência Climática, Povos & Lugares e Trabalho

* estão programados títulos assinados por Steve McQueen, Vincent Carelli, Joel Pizzini e Lucas Bambozzi

* na Competição Latino-americana estão selecionados representantes da Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Cuba e México

* Concurso Curta Ecofalante tem como temas os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)

* masterclass online ministrada pelo produtor francês Jean-François Camilleri discute cinema de impacto

* ciclo de debates e série de entrevistas completam a programação do evento

Uma homenagem ao diretor e ator Jacques Perrin, retrospectiva dedicada à cineasta Sarah Maldoror, celebração dos 40 anos do filmeKoyaanisqatsi”, competição latino-americana com 35 títulos, um amplo panorama internacional recente, o concurso de curtas-metragens brasileiros assinados por estudantes, sessões especiais, debates, masterclass e entrevistas exclusivas.

Este é o rico cardápio da 11ª edição da MOSTRA ECOFALANTE DE CINEMA, que exibe de 27 de julho a 17 de agosto, em salas paulistanas e de forma online, um total de 106 filmes.

Considerado como o mais importante evento audiovisual sul-americano dedicado às temáticas socioambientais, o festival é totalmente gratuito e sua programação se espalha por diferentes espaços: Reserva Cultural, Circuito Spcine (Biblioteca Roberto Santos, CCSP, CEU Perus e CFC Cidade Tiradentes) e Cinemateca Brasileira, além de Casas de Cultura, Oficinas Culturais, Centros Culturais e Fábricas de Cultura.

Em 2022 o programa Panorama Internacional Contemporâneo está organizado a partir dos eixos Ativismo, Biodiversidade, Economia, Emergência Climática, Povos & Lugares e Trabalho, além de sessões especiais. Estão incluídos os indicados ao Oscar “Ascensão” e “Escrevendo com Fogo” (este também premiado em Sundance), além de filmes premiados nos festivais de Locarno (“Mil Incêndios”) e HotDocs (“Escola da Esperança” e “Ostrov – A Ilha Perdida”).

O Panorama promove ainda a exibição especial de três produções: a aclamada série “Uprising”, de Steve McQueen e James Rogan, e os elogiados longas-metragens “Geração Z”, de Liz Smith, e “Searchers: O Amor Está nas Redes”, de Pacho Velez.

A Homenagem a Jacques Perrin (1941-2022) exibe quatro de seus sucessos, um como produtor (“Microcosmos”) e três como codiretor: “As Estações”, “Oceanos” e “Migração Alada”, este último indicado ao Oscar.

A Retrospectiva Sarah Maldoror (1929-2020) se dá no marco dos 50 anos de “Sambizanga” (1972), obra-prima vencedora de dois prêmios no Festival de Berlim. O filme, sobre o movimento de libertação angolano, é o primeiro longa-metragem filmado na África por uma mulher negra. O evento organizou uma programação em torno da cineasta reunindo alguns de seus títulos mais icônicos, que tratam, sob diversos aspectos, de questões referentes à história e cultura africanas ou de povos com fortes raízes naquele continente.

Clássico contemporâneo e marco do cinema socioambiental, o longa “Koyaanisqatsi”, de Godfrey Reggio, é celebrado pelo evento, por ocasião dos 40 anos de sua realização.

Uma sessão especial é dedicada a “Adeus, Capitão”, o mais recente longa do cineasta Vincent Carelli. Com registros colhidos ao longo de várias décadas, é o fecho da trilogia iniciada com o premiado “Corumbiara”.

Na Competição Latino-Americana participam o argentino “Esqui”, prêmio da crítica na seção Fórum do Festival de Berlim, e “A Montanha Lembra” (Argentina/México), ganhador da competição internacional de curtas do É Tudo Verdade. Competem ainda obras premiadas no Festival de Cannes (“Céu de Agosto”, de Jasmin Tenucci), no Bafici-Buenos Aires (“A Opção Zero”, uma coprodução Cuba/Colômbia) e no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (“Rolê – Histórias dos Rolezinhos”, de Vladimir Seixas, “Lavra”, de Lucas Bambozzi, e “Ocupagem”, de Joel Pizzini).

Outra competição, o Concurso Curta Ecofalante, reúne curtas-metragens cujos temas dialogam com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU e são assinados por alunos de instituições de ensino brasileiras. Participam produções de São Paulo, Minas Gerais, Pernambuco, Rio de Janeiro, Bahia, Santa Catarina, Rio Grande do Norte e Rio Grande do Sul.

A programação da 11ª Mostra Ecofalante de Cinema apresenta ainda um ciclo de debates e uma masterclass, além de uma série de entrevistas exclusivas com realizadores dos filmes, conduzidas pela documentarista e jornalista Flávia Guerra e, na série Ecofalante/WWF-Brasil, pelas jornalistas Marcela Fonseca e Gabriela Yamaguchi.

O evento promove parte de sua programação em cidades do interior paulista, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, conforme o seguinte calendário:

* Piracicaba (SP) – de 2 a 20 de agosto

* Lorena (SP) – de 16 a 26 agosto

* Belo Horizonte – de 10 a 31 de agosto

* Porto Alegre – de 25 de agosto a 7 de setembro.

 

SALAS

Reserva Cultural — Av Paulista 900, Bela Vista — São Paulo

Circuito Spcine Lima Barreto (Centro Cultural São Paulo) — Rua Vergueiro 1000, Paraíso — São Paulo

Circuito Spcine Paulo Emílio (Centro Cultural São Paulo) — Rua Vergueiro 1000, Paraíso — São Paulo

Cinemateca Brasileira — Sala Grande Otelo — Praça Sen. Raul Cardoso 207, V. Clementino — São Paulo

Casas de Cultura,

Oficinas Culturais

Centros Culturais

Fábricas de Cultura

MOSTRA ECOFALANTE _ especial Semana do Meio Ambiente

A Semana Nacional do Meio Ambiente é celebrada na primeira semana do mês de junho, aproveitando o gancho do Dia Mundial do Meio Ambiente no dia 5. Como a MOSTRA ECOFALANTE é o mais importante festival sul-americano dedicado às temáticas socioambientais, haverá uma programação especial de 1º a 21 de junho, a MOSTRA ECOFALANTE – ESPECIAL SEMANA DO MEIO AMBIENTE.

Para acessar, clique aqui para entrar no site da Ecofalante e você tem acesso aos filmes de todo o Brasil, online e gratuito.

Estão programas pré-estreias do inédito LIXO MUTANTE, de Dani Minussi e Adriano Caron, exibido presencialmente dias 3, 4 e 5 de junho, às 19h30, no Centro Cultural São Paulo, com entrada franca e debate após o filme. O filme discute a questão dos resíduos sólidos através de entrevistas e performance, além de propor novas relações entre sociedade, indivíduo e lixo. A programação inclui ainda dois debates online, nos dia 2 e 9 de junho, que discutem respectivamente os 30 anos da Rio 92 e o futuro dos festivais de cinema a partir da retomada pós-pandemia

Além disso, a mostra exibe outros 20 longas produzidos entre 2009 e 2021, destaques nas primeiras edições do festival. Entre eles estão:

_ A ENSEADA (premiado em Berlim e Sundance)

_ SOBRE A VIOLÊNCIA

_ MÁQUINAS

_ ERA UMA VEZ UMA FLORESTA, de Luc Jacquet

_ SAFÁRI, de Ulrich Seidl

* A 11ª edição  da Mostra Ecofalante de Cinema será de 27 de julho a 18 de agosto.