DYING – STERBEN

Cartaz do filme DYING – STERBEN

Opinião

Especial para a 74ª Berlinale

Um músico amargurado está compondo uma peça pra orquestra chamada STERBEN, que significa “morrer” e que dá nome ao filme justamente sobre a morte. As indas e vindas desta composição costuram as vidas de Tom, maestro bem sucedido e melhor amigo do compositor, seus pais Lissy e Gern, e sua irmã Ellen — todos ocupados demais com a própria finitude enquanto pessoas, mesmo que ela não represente morrer fisicamente.

O diretor Matthias Glasner fala das diversas formas de perder a vida — inclusive aquela em que a pessoa se perde no próprio exigente exercício de viver. Gern já tem demência e sua esposa Lissy, com dificuldade de locomoção e saúde debilitada, não consegue mais dar conta do marido idoso que já se desconectou do mundo. Tom tem dificuldade de se doar afetivamente para sua ex, mas exerce a paternidade com o filho que ela tem com outro cara. Fez uma carcaça protetora contra as demandas familiares e o trabalho é sempre uma boa desculpa pra não se comprometer. Aliás, comprometedora é o diálogo entre mãe e filho, que põe na mesa ressentimentos e mágoas cortantes. Filho e mãe se projetam um no outro como espelho, na amarga repetição de comportamentos. Tudo isso acontece e Ellen não dá bola pra nada. Regida à bebida e drogas, é assistente odontológica responsável pelas cenas tragicômicas e não toma conhecimento sobre a família, nem quer se envolver. No fim do dia, cada um precisa cuidar do seu universo particular, com seu isolamento e silêncio que, diga-se de passagem, já são complexos o bastante.

São 3 horas de filme que valem cada minuto. A complexidade de lidar com ideia da morte ganha várias dimensões, inclusive como solução pra tantos desafios no tal do exercício do bem viver que inclui no pacote dar conta dos boletos, ser bem sucedido, ser bom pai ou mãe, ter filhos ou não, cuidar do outro, desenvolver afeto pelos familiares e por aí vai. DYING é aqueles filmes de pacote: entrega um mega embrulho bem feito que escolhemos se desembrulhamos pra descobrimos se ele nos serve ou não. Normalmente serve e isso é duro. E universal demais.

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