URUBUS

Opinião
Em 2008, a Bienal de São Paulo era a Bienal do Vazio. Os pichadores paulistanos, de olho em espaços livres pra pixar sem pedir licença, viram ali uma oportunidade. Invadiram o prédio do Parque Ibirapuera e picharam as paredes brancas no dia da abertura da exposição. O fato é relembrado no filme e se encaixa perfeitamente na história do jovem Trinchas, que comanda um grupo de garotos pichadores da periferia paulistana, até que se apaixona por Valéria, uma estudante da faculdade de arte que não pertence ao grupo, mas se encanta com sua pseudo “liberdade”, ao mesmo tempo em que se assusta com esse universo violento.
URUBUS ganhou o prêmio do Público como Melhor Filme de Ficção Brasileiro e da crítica, como Melhor Filme Brasileiro na 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. E foi lá que eu assisti. Agora entra em circuito e é uma oportunidade de mergulhar neste universo todo particular. Com atores profissionais e amadores, o retrato tem a intensidade da vida paulistana invisível, de jovens que transgridem, que se juntam em grupos que rivalizam e disputam território, têm uma maneira toda particular de se comunicar, de se vestir e de se expressar.
Invadir o santuário artístico da Bienal traz o debate sobre a arte autorizada e elitista, em contrapartida com a arte de rua marginal e o museu a céu aberto. Tem como base inspiradora a história do pichador e artista plástico Cripta Djan, quando o diretor Claudio Borrelli filmava o documentário “Pixo”. A história de amor é o pano de fundo deste retrato duro e realista de jovens que se tornam visíveis na transgressão, na disputa de gangues, na violência que permeia a estrutura social. Pano de fundo que traz a realidade das desigualdades e da falta de perspectiva nas comunidades, com direito à violência policial, preconceito, armas, roubos, drogas e adolescência conturbada. Mix perfeito pra construção de abismos sociais e emocionais. Assim somos nós.
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