GRANDE SERTÃO

Cartaz do filme GRANDE SERTÃO

Opinião

O que é possível acrescentar ao monumento literário que é Grande Sertão, Veredas pra que a adaptação não seja uma ilustração da obra? Esta é a pergunta que o diretor Guel Arraes se fez quando recebeu a proposta de levar para o cinema a obra escrita por João Guimarães Rose em 1956. Boa pergunta. Não que seja fácil ilustrar o livro — mesmo porque, a sua leitura já é muito, mas muito exigente. Mas fazer uma releitura da história de Diadorim e Riobaldo dando um salto de 70 anos, não é pra qualquer um.

O resultado é atemporal. Do sertão pra favela; da guerra de cangaceiros, pra guerra urbana. GRANDE SERTÃO transpõe uma literatura que tem amor, disputa de poder entre cangaceiros, morte pela honra, lealdade e violência, pra mergulhar na linguagem cinematográfica. Mergulha num filme de ação, que flerta com distopias de motociclistas vivendo em tempos de carência, com uma paleta de cores ocre que lembra um deserto de esperança, construindo a sensação de que o tal sertão é aqui e agora.

O grande sertão do filme é murado, cercado, cerceado. Riobaldo é um professor que dá aula na favela e vê sua aluna morrer num fogo cruzado. Diadorim reencontra Riobaldo aqui — ambos adultos, pertencentes a lados opostos, mas convergindo pra mesma história.

História essa que é contada por este professor convertido em justiceiro, já mais velho, como narrador. É teatral. Diadorim representa o masculino do feminino, mas também o feminino no masculino. É retrato da lei da sobrevivência, numa jornada contada em poesia, com rima. É verdade que filme de ação bom não precisa de texto; o corpo fala por si só. Mas aqui, o texto é luxo na forma de poesia dos trovadores urbanos contemporâneos, fazendo uma ponte com os rappers que tão bem sabem nos contar como é que se vive nos do lado de lá do sertão.

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