FIZ UM FOGUETE IMAGINANDO QUE VOCÊ VINHA
Opinião
Jornadas femininas estão iluminando o cinema brasileiro com histórias intimistas que dialogam com memórias e o desejo de ressignificar aquilo que nunca teve espaço pra ser nomeado. Nem que pra isso seja preciso se transportar para outro mundo: o imaginário. Janaína Marques constrói essa jornada ao mesmo tempo íntima e universal em Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha e nos leva mente adentro.
Isso porque é preciso assistir ao longa, parte da seção Forum do 76º Festival de Berlim, para seguir com Rosa (Verônica Cavalcanti) na sua viagem interna. E é preciso assistir, inclusive, pra entender de que foguete estamos falando. “Recebemos uma consultoria do montador do diretor romeno Radu Jude durante um laboratório de montagem e foi lá que surgiu a sugestão de dar um título que fosse uma peça a mais no quebra-cabeça que a montagem sugere”, disse a diretora em entrevista ao Cine Garimpo na Berlinale. “De fato, um foguete é construído no filme, mas também uma simbologia de toda mulher tem um foguete dentro de si que pode levá-la pra onde ela quiser.”
E Rosa vai e encontra sua mãe, Dalva (Luciana Souza), que não pertence mais ao mesmo campo físico, mas existe internamente. “O céu estrelado que Rosa contempla na sua jornada também sinaliza essa viagem celestial”, diz Verônica Cavalcanti. E a viagem surge de um necessidade: ao fazer uma ressonância magnética de crânio, Rosa é instigada a ativar uma memória boa de modo a fugir da sensação de claustrofobia. Construir o que teria sido o encontro com sua mãe, que fugiu de casa e ficou 30 anos presa por matar um homem prestes a cometer um feminicídio, é uma forma de se reconectar com a memória e se reconciliar com o vazio deixado pela ausência materna. “Eu gostaria muito que os homens assistissem”, diz Janaína. Neste Brasil em que os índices de feminicídio são assustadores, histórias de conectam mulheres são inspiradoras.
Com bem disse Janaína, “é preciso assistir pra entender como todos esses elementos se transformam em poesia”. Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha ganhou o prêmio alemão ‘Tagesspiegel Readers Jury Award’ — tudo indica que a Berlinale conseguiu fazer essa leitura sutil do longa, inclusive vendo nele uma camada universal de histórias femininas que precisam ser contadas. E assistidas.

Comentários