A ODISSEIA – THE ODYSSEY
Opinião
A decisão de Christopher Nolan de revisitar A ODISSEIA de forma didática, mas não menos poética, é bem oportuna. O título vem de Odisseu, nome do protagonista no original grego. Nas línguas latinas, Odisseu é Ulisses. Odisseia significa, literalmente, “a história de Odisseu” e é isso que assistimos: Odisseu/Ulisses voltando pra casa depois de vencer a guerra de Troia. Aquela, em que o um cavalo de madeira é dado de presente aos troianos, que caem na cilada: aceitam o convite e colocam pra dentro da cidade murada este presente de grego que tinha guerreiros dentro. É assim que Ulisses vence a guerra — não sem exame de consciência diante da barbárie que é essa batalha. É didático também porque mantém as idas e vindas do passado e presente, mas atualiza a linguagem. Aproxima, assim, o espectador do clássico da antiguidade grega, que é atual e carrega as dinâmicas que nos definem enquanto seres humanos, um tanto desumanizados — se é que isso é possível.
Tanto é que, para Homero, falar de sereias, ciclopes, feiticeiras é como falar de morte, vida, ira, vingança, causa, consequência. A jornada o herói Ulisses entrega uma travessia pelos desafios de viver em sociedade e encontrar, sim, a ira ou proteção dos deuses, sejam eles quais forem.
Mas que eles existem, existem. Tanto que é que, séculos mais tarde A Odisseia continua valendo para explicar não só a maneira de consumirmos histórias (este protagonista que sonha em voltar pra casa e enfrenta Deus e o mundo, literalmente, até conseguir, é um modelo narrativo replicado a perder de vista), como também para situar a importância das batalhas internas de cada dia. Ulisses vai pra guerra de Troia, que dura 10 anos; seu caminho de volta é o que é contado em A Odisseia. Caminho esse que dura também 10 anos, e que o transforma pra sempre. Claro, é sobre ir e voltar uma pessoa diferente.
Os anos em que tenta voltar pra Ítaca, sua casa, são árduos. Não por incompetência, mas porque os deuses provocarão e testarão Ulisses o tempo todo com monstros, ciclopes, sereias, feiticeiras. É preciso vencer os desafios, inclusive da morte que chega avassaladora. Voltar pra casa é voltar pra Penelope, sua amada que nos 20 anos de ausência o espera, apesar de dezenas de pretendentes a postos esperando para tomar o trono. Fiel, espera seu rei e sua volta será memorável, não só porque chega disfarçado de mendigo, mas também porque é sangrenta.
Tudo isso pra dizer que a guerra, a matança, a luta pelo poder partem dos instintos humanos, na necessidade natural de manutenção das posses, das hierarquias, dos privilégios. Complexos, os seres humanos não são uma coisa só — e Nolan não apela para o maniqueísmo. Deixa a ambiguidade presente, pra que ela possa se encaixar na atualidade sem esforço. É preciso deuses de plantão, sem dormir no ponto, pra colocar ordem no barraco em que vivemos. Eles atuam, definem e funcionam como balizadores de um mundo complexo, não sem doses razoáveis dos mais duvidosos comportamentos humanos.


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