CONTRATEMPOS – À PLEIN TEMPS

Cartaz do filme CONTRATEMPOS – À PLEIN TEMPS

Opinião

O título original,  À plein temps, traz a nuance do que acontece com Julie, que passa longe de ser um contratempo. Julie é mãe de duas crianças, mora longe do trabalho, precisou aceitar um emprego aquém das sua experiência profissional e não pode contar com a ajuda do ex-marido. Está na função mulher-polvo em tempo integral, sem folga, nem perdão. É desse tempo de trabalho e dedicação, 24/7, que o título fala.

Aliás, deixa bem claro que tempo é algo que ela não tem. Entrega os filhos na casa da vizinha, porque ela precisa sair ainda de madrugada pra trabalhar; passa para buscá-los tarde da noite, exausta. O contratempo deste recorte da vida de Julie — que representa tantas mulheres invisibilizadas pela dinâmica do trabalho mundo afora, se virando nos trinta pra sobreviver, pagar as contas, dar atenção aos filhos, trabalhar, e ser uma mãe afetuosa e atenta — é a greve de transporte público, que a afeta diretamente numa semana em que tudo mais se complica ao extremo.

Acompanhamos Julie nessa jornada árdua em CONTRATEMPOS, no ritmo frenético que suga, sem piedade, todas as suas energias. Eric Gravel, roteirista e diretor, veio ao Brasil para promover seu filme no Festival Varilux e na nossa conversa, a pergunta que não quer calar: por que a cena do beijo não tem o desfecho esperado? “Por dois motivos”, conta Gravel. “Primeiro porque normalmente é o homem que tem a iniciativa de beijar alguém e, neste caso, a protagonista é mulher, é ela quem corre atrás de tudo na vida. Demonstra a virilidade de Julie. E segundo porque isso desmontaria a personagem: eu não queria que um homem a salvasse dos problemas da vida”.

Com esses dois motivos, Gravel me fez gostar ainda mais de CONTRATEMPOS — um retrato real da dureza que é, para milhões de mulheres, matar um leão por dia e ainda ter esperança.

Vencedor dos prêmios de Melhor Diretor e Melhor Atriz (Laure Calamy) na mostra Orizzonti do Festival de Veneza em 2021.

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