A GRAÇA – LA GRAZIA

Cartaz do filme A GRAÇA – LA GRAZIA

Opinião

Não há nada tão potente quanto uma dúvida cruel. É uma decisão capaz de sacudir as certezas, gerar reflexões e colocar na balança prós e contras, mesmo que isso signifique não conseguir chegar a uma conclusão. Duvidar é um exercício de humildade. É escolher não lançar mão de certezas como ferramenta de autoafirmação e autoridade. Mariano De Santis (Toni Servillo) é o gerente das dúvidas cruéis que atravessam seus últimos dias na presidência da Itália neste filme perspicaz e elegante.

O título A Graça, de Paolo Sorrentino, se refere justamente ao termo la grazia, que em italiano se refere ao indulto presidencial que ele não sabe se concede a duas pessoas condenadas por homicídio, mas também ao estado de graça que Mariano quer enfim mergulhar ao tentar resolver suas dúvidas. Diante de uma mulher que mata o marido abusador e de um marido que mata a esposa com Alzheimer para amenizar seu sofrimento, De Santis não sabe o que fazer. Argumento vai, argumento vem, o convite é para o espectador enfrentar essas questões difíceis, que exigem escuta e ponderação moral.

Como se isso não bastasse, o presidente tem também o desafio de aprovar a lei da eutanásia. Pressionado por conservadores e pelo papa, Mariano De Santis propõe a reflexão através de seu relacionamento com os filhos, com sua melhor amiga, com a incerteza de quem teria sido o amante de sua esposa falecida, com as incertezas da aposentadoria sem a chancela de presidente. Toda observação do que acontece ao seu redor rende elementos pra ponderação — e este é o grande trunfo da história. Advogado, humanista e progressista, tem nas leis sua certeza, mas neste momento da vida, a incerteza parece ser o caminho mais seguro e justo. De uma maneira ou de outra, Sorrentino reveste as divagações de De Santis com a elegância de quem sabe confessar que duvida da própria certeza. Rasga o ego, por assim dizer. E diz muito sobre quem manda nos dias de hoje.

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