A expectativa é a mãe da decepção — mas há de se levar em conta que nem sempre os grandes cineastas acertam. Mas esse é o sentimento de alguns por aqui, inclusive dizendo que a seleção de Cannes deste ano não foi lá essas coisas. Chegamos em festivais esperando grandes filmes de grandes cineastas e não é bem assim. Eu não faço eco a essa ideia. Cannes 2026 tem grandes filmes — e outros nem tanto. Mas, pela minha experiência já de alguns muitos festivais mundo afora, é assim mesmo.
E isso não é conformismo. Há muito mais por trás da curadoria de um festival do que possamos imaginar. E isso, pra nós, é sempre um prato cheio pra olharmos além dos muros que nos separam da equipe de seleção de um festival como este e refletirmos sobre a representatividade, qualidade e oportunidade de mercado do que é apresentado por aqui.
A começar por HISTOIRES PARALLÈLES (Contos Paralelos), de Asghar Farhadi, diretor iraniano de A Separação, filme marcante que todo mundo viu. Fala do processo criativo de uma escritora, que observa os vizinhos pra se inspirar. Suas suas vidas vão sendo transformadas à medida que o livro avança. Foi exibido, a imprensa falou mal e morreu por aqui. Com o japonês SHEEP IN THE BOX, de Hirokazu Koreeda, aconteceu o mesmo — e olha que em 2018 ele levou a Palma de Ouro com Assunto de Família. Mas sua história desta vez não caiu no gosto dos jornalistas. É delicada, sua direção com o ator mirim é impecável, como sempre, mas o filme sumiu do mapa. Já seu conterrâneo Ryûsuke Hamaguchi divide opiniões.
Para alguns, SOUDAIN (All of a sudden) é um grande filme, sai com prêmio ao falar da finitude de todos nós com a amizade genuína entre duas mulheres. Para mim, um filme emocionante, afinal quem tem amigos tem tudo nesta vida, mas menos minutos bastavam. Também japonês, NAGI NOTES (Quelques jours à Nagi), de Koji Fukada, um dos primeiros a serem exibidos em Cannes, é singelo, mas ficou para trás e se perdeu nesse mar de filmes.
Da Ásia é HOPE, do sul-coreano Na Hong-jin. Uma sátira ao cinema americano, à violência, ao blockbuster, às ficções científicas apocalípticas, à paranoia contemporânea que reage ao medo do desconhecido, ao medo do outro, com violência e prepotência. É uma mistura de thriller paranoico, com sci-fi, com invasão alienígena. Um saco de gato de vários gêneros, com efeitos especiais duvidosos. Salta aos olhos (o meu também) o fato de este filme estar na seleção, que tradicionalmente privilegia cinema de autor mais sóbrio. Pensando bem, aqui tem autoria também, mas toca na ferida e causa desconforto. É sobre a paranoia do medo, a xenofobia, a dificuldade de lidar com o diferente. Aqui não tem sobriedade, mas tem ousadia. Gostando ou não — e o presidente do júri, o sul-coreano Park Chan-wook vai nos dizer a que veio, ele que faz filmes violentos, mas sólidos — tem o seu valor, inclusive em criar essa discussão.
Sempre temos na competição filmes que despertam a pergunta “o-que-este-filme-está-fazendo-aqui?” Filmes selecionados — ou que a curadoria precisa prestigiar, podem entrar em sessões especiais, mostras paralelas. Não precisam competir à Palma de Ouro. É o caso dos franceses — santo de casa não fez milagres. HISTOIRE DE LA NUIT, de Léa Mysius, e L’INCONNUE, de Arthur Harari, me fazem pensar no valor das quatro horas preciosas de sono ou trabalho desperdiçadas — e também do alemão THE DREAMED ADVENTURE, de Valeska Grisebach, que tem um recorte interessante através da personagem (ótima por sinal), mas que dá voltas demais da conta.
Já GARANCE, de Jeanne Herry, e LA VIE D’UNE FEMME, de Charline Bourgeois-Tacquet, têm seu valor em histórias sobre alcoolismo e trabalho, respectivamente, com ótimas atuações de Léa Drucker e Adèle Exarchopoulos — possívels Palmas de atriz, inclusive, e têm como concorrente Léa Seydoux, que é Lucy, uma musicista que vê sua vida transformada por uma investigação de pedofilia em GENTLE MONSTER, da austríaca Marie Kreutzer. Monstros gentis moram ao lado, são socialmente aceitos e integrados. Léa Seydoux carrega o filme na sua extrema solidão. E, voltando aos franceses, NOTRE SALUT (A man of his time), de Emmanuel Marre, sobe para outra prateleira — embora pouco se fale dele. História livremente adaptada sobre o bisavô do diretor que foi colaboracionista no regime de Vichy. Gosto — e o protagonista, Swann Arlaud, poderia ser candidato à Palma de ator. Isso se Javier Bardem não ganhar.
Falando de Espanha, vamos a ela — que esteve aqui com três filmes, importantes. Dois deles, ganharão prêmios. Praticamente assino embaixo, mas a gente sabe que tudo pode acontecer. Javier Bardem está em EL SER QUERIDO, de Rodrigo Sorogoyen. É um diretor de cinema que tenta se reconciliar com a filha que abandonou, convidando-a para ser a protagonista de seu novo filme. Intenso e cheio de nuances. Pode ser a Palma — pra Javier Bardem, torcendo para que seja. E para a dupla os Javis, Javier Calvo e Javier Ambrossi, LA BOLA NEGRA está no páreo fortemente. Uma saga que inclui a literatura de García Lorca, a homofobia andando junto com o facismo (por definição), a importância dos jovens de hoje olharem para o passado e entenderem de onde vêm. Uma história de amor, com produção dos irmãos Almodóvar. Que também aparece em NATAL AMARGO (Amarga Navidad), claro. Um exemplar de Pedro Almodóvar fala de um cineasta em crise criativa, com suas cores e seu DNA, mas parece ser um filme mais decorativo por aqui.
Ainda na Europa, onde se dá a concorrência mais acirrada. Inclusive no leste, com FATHERLAND, de Pawel Pawlikowsky, polonês que faz um filme conciso, elegante e austero na pauta do dia quando pensamos em polarização e devastação ética e moral. Fala de Thomas Mann, da Alemanha dividida e em ruínas, do retorno complexo à “pátria mãe” do título. Da Hungria, László Nemmes reconstrói os últimos dias do líder da resistência francesa MOULIN. Se Bardem tem concorrente será Gilles Lellouche, que faz o mártir enfrentando a maldade do seu algoz, o nazista Klaus Barbie, chefe da Gestapo em Lyon, na pele do excelente Lars Eidinger — que pode também ser laureado nesta noite. Da vizinha romênia temos o instigante FJORD, de Cristian Mungiu. Não que haja fiordes romenos, mas é justamente essa diferença cultural que o filme traz à tona através de uma família romeno-norueguesa ultra-conservadora, vivendo em um país progressista. Mungiu fala da intolerância, mas principalmente das imposições que surgem de ambos os lados quando não há compatibilidade cultural e religiosa. Relevante, ambíguo, profundo. Assim como faz o russo Andrei Zvyaguintsev, quando filma MINOTAUR na Letônia, como se fosse Rússia, a vida de um casal que vive de aparências, favores e influências. Na política de uma-mão-lava-a-outra, a vida segue, não sem violências normatizadas, mas como tem que ser. Tudo isso pra falar da Rússia bélica, da guerra da Ucrânia, da falta de moral e ética, da desumanização. Do ser humano preso no labirinto que ele próprio criou. Assim como o labirinto das trincheiras da Primeira Guerra abrigam a história de amor de COWARD, do belga Lukas Dhont. Sensível, direção precisa e delicada, traz a arte como válvula de escape (e cura) para as mazelas da vida. Afinal, quem são os covardes?
E embora este ano não tenham blockbusters americanos, daqueles que já chegam chegando, dois vêm das Américas, só que do norte — só pra pontuar, novamente, que a Central e do Sul não estão representadas em Cannes. Lástima. THE MAN I LOVE, de Ira Sachs, traz a epidemia da Aids, mas sem brilho ou relevância por aqui. Dos EUA, o que mais chama atenção é PAPER TIGER, de James Gray, que fala da podridão da sociedade através da relação entre dois irmãos e da dificuldade de enxergar naquele que sempre pareceu o mais poderoso, as suas fragilidades e pontos podres. Tio Sam deve sair sem prêmio hoje. O velho mundo vai nadar de braçada.

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