TIMBUKTU

Opinião
Mais atual, impossível. Timbuktu disputou o Oscar de melhor filme estrangeiro com filmes excelentes, como o russo Leviatã, o argentino Relatos Selvagens e o polonês Ida. Mas este filme da desconhecida Mauritânia tem um apelo a mais. Mexe na ferida que não fecha e que inunda os noticiários do mundo todo: o extremismo islâmico.
Vez por outra, o terrorismo chega às capitais do mundo – como aconteceu há semanas em Paris –, mas está presente no dia a dia de inúmeras cidades africanas. Quem não se chocou com a notícia do sequestro de 200 meninas na Nigéria no ano passado e com as cenas de centenas de milhares de refugiados que se aglomeram nas fronteiras tentando sobreviver? O medo se espalha por conta das atrocidades cometidas pelas milícias islâmicas extremistas, que fazem a cruel Guerra Santa. Timbuktu traz isso pra perto, através do olhar humanista do diretor mauritano. Ele elege esse pequeno vilarejo no meio do deserto, cuja população é dominada pela milícia islâmica, que impõe regras e punições radicais como chibatadas, penas de morte por apedrejamento ou fuzilamento. Aliás, uma das cenas mais bonitas do filme é a dos garotos “jogando” futebol. Emociona, tanto pela beleza do olhar, quanto pela profundidade da intolerância humana.
Quem foge à regra é a família de Kidane, que decide permanecer em sua tenda no deserto e manter seus hábitos, apesar das proibições e do cerco cada vez mais fechado dos militantes. Ele vive com a mulher e a filha nos arredores de Timbuktu e é o fio condutor da narrativa, que cresce na beleza fotográfica e na incoerência. Repare o que faz um dos líderes da milícia rebelde, quando larga seu fuzil em um momento de relaxamento; e o que dizem os rebeldes, logo no começo do filme, quando surgem com um ocidental sequestrado e entregam seus remédios ao capataz. A humanidade do filme está na sua capacidade de transmitir toda a ambiguidade do ser humano, sua insensatez e incontrolável desejo pelo poder. Vale muito o seu ingresso.
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