O FILHO DA PUTA
Opinião
A irreverência do título desta animação, O FILHO DA PUTA, já é desconcertante — e carrega a chave dessa história que remete, na sua linguagem visual, à literatura de cordel e xilogravura. Isso porque Ismael é filho da prostituta mais famosa de uma pequena cidade do sertão mineiro. Ela administra a Casa Rosa, o prostíbulo referência pra tudo que acontece por lá. Todos os chamam de “filho da puta”, mas sua preocupação está em outro lugar.
O que Ismael quer mesmo é encontrar seu pai que o abandonou. Lançando mão da clássica trajetória do filho que busca o pai que nunca conheceu, os diretores constróem um road movie pelo sertão, em que Ismael, acompanhado de Bacalhau, seu cachorro de três patas, vai encontrar personagens e paisagens, até que possa encontrar a ele mesmo. É uma jornada de autoconhecimento, de amadurecimento.
O que os diretores fazem para fugir da simples e universal busca pela identidade é mesclar esta viagem do personagem, que resulta também em uma viagem interior, com direito, inclusive, a Moby Dick e a baleia, com fatores que colocam O FILHO DA PUTA na prateleira da tão bem-vinda irreverência. Com uma direção de arte primorosa, desconstrói o visual com que estamos acostumados da animação japonesa ou americana, lança mão de uma linguagem adulta e vulgar, com humor obsceno e equilibra o jogo. Embora seja a procura clássica pela origem, pela compreensão do motivo da rejeição paterna e pela identidade, o roteiro traz também a brincadeira com o espectador. Carregada de significados pré-concebidos, a expressão “filho da puta” joga luz no que a mãe representa socialmente, e não no filho. Não é à toa que Ismael nunca é chamado pelo seu nome no vilarejo. Precisa mesmo buscar sua própria identidade e parar de ser conhecido por ser filho de alguém. Seja ele quem for.

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