MANTO DE GEMAS – Robe of Gems

Cartaz do filme MANTO DE GEMAS – Robe of Gems

Opinião

 

Assistido na 72ª Berlinale_2022

O manto de gemas é um conceito budista que monta uma imagem preciosa pra explicar o mundo em que vivemos: é como se a realidade fosse um manto de pedras preciosas, onde cada um reflete a outra, dando a ideia da importância de nos identificarmos com o outro. Assim explicou a diretora mexicana Natalia López Gallardo, neste filme MANTO DE GEMAS apresentado hoje na Berlinale.

Concorre ao Urso de Ouro e tem uma impacto singular. Não é um filme sobre narcotráfico, embora essa arquitetura de poder e violência esteja nas entrelinhas o tempo todo. “O filme é sobre o medo de não ter um projeto comunitário comum, como sociedade”, explica Natália na entrevista coletiva.

E é essa fragmentação social que traz a unidade do filme. Com apenas dois atores profissionais, o filme conta com amadores da região onde foi filmado. Conta a história de Isabel e sua uma família, que voltam para a sua propriedade rural, abandonada desde que sua mãe saiu de lá. Abandonada a casa, os arredores e as pessoas. Reina a criminalidade, o tráfico, a corrupção. Sem opção, jovens se juntam aos narcos; funcionários da propriedade se agarram onde podem pra sobreviver nesse mundo sem lei.

Aliás, a lei tem dois lados, nos personagens policiais que transitam entre o crime e o poder; entre o dever cívico e o dever materno de proteger. “Acho perigoso colocar palavras na boca de personagens como Maria, funcionária que conhece a realidade do crime de perto”, explica a diretora. “Eu só consigo falar sobre a minha perspectiva social, que não é o mesmo lugar de fala dessas pessoas que vivem essa dura realidade. Eu não queria inventar, por isso usei recursos da linguagem cinematográfica pra transpor essa barreira.”

Por recursos, entende-se, principalmente, o som. Em alto e bom som, o design sonoro marca presença e nos deixa atordoados com o caos desse país complexo. O som das cigarras, do entardecer, do vento, da música; a sobreposição de vários ao mesmo tempo vai compondo uma colcha de retalhos que cobre essa sociedade desconectada.

É assim que se sente Isabel, desconectada, inadequada. É mãe, vê sua família fragmentada e sente vergonha de pertencer a essa camada social privilegiada. “Temos necessidade de pertencer a um lugar, mas Isabel também não se sente parte em nenhum lugar, sente-se totalmente inerte, impotente”, diz a atriz Naiela Norvind.

É sobre inadequação, basicamente. Sobre o colapso da sociedade mexicana, que sucumbe a uma dinâmica surreal. Os personagens estão sempre no limite e nosso imaginário coletivo vai nos levando, à medida que o filme avança, pra um lugar sem solução. A violência está nos olhares, nas lágrimas, na desolação, no som. “Eu precisava fazer um filme pra refletir a minha sensação de espectadora passiva de tudo isso, de alguém que, pela posição social privilegiada, assiste à realidade, não faz nada e manda seguir o jogo”, desabafa Natália, que conecta as chamas da última cena a esse cenário de “ver o circo pegar fogo”. E claro, é preciso dizer: MANTO DE GEMAS é um filme feminino, em que todas as mulheres, das diversas gerações e condições sociais, são uma só. Formam uma colcha de retalhos, que melhor seria se fosse manto. Se fosse capaz de reconstruir a tal identidade perdida.

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