EMILY

Opinião
A pergunta que tem surgido é: mas o que mais Emily Brontë escreveu, além de O Morro dos Ventos Uivantes? Nada. Escritora de um só livro, no tempo em que mulheres não escreviam, é autora de um livro só. Considerando que estamos falando de uma obra de 200 anos atrás, que ainda é referência, que ainda vende — e muito — é impressionante. Na prateleira dos clássicos da literatura inglesa, Emily Brontë é uma unanimidade enquanto obra e um mistério enquanto mulher.
É essa mulher que é retratada em EMILY, este longa de estreia de Frances O’Connor como roteirista e diretora. Acerta em cheio e faz um filme belíssimo. Não só na fotografia, que é um personagem por si só, mas nas atuações, na intensidade, na dramaticidade da trilha sonora e, por fim, mas não menos importante, na personificação desta mulher que era alguém à frente de seu tempo, que deixou um só livro, mas foi capaz de plantar uma semente para se pensar o que seria fugir à regra, abrir espaço para o talento, quebrar paradigmas.
Vale dizer que Emily não estava sozinha na empreitada literária que mudou sua vida — e legado. As irmãs Brontë, cada uma à sua maneira e a seu tempo, também se tornaram escritoras. Charlotte escreveu o clássico Jane Eyre e Anne, A inquilina de Wildfell Hall . Tiveram que usar pseudônimos masculinos pra publicar naquela época. Claro, os livros são recheados de questões de gênero, sociais, comportamentais, vistas pelo olhar dessas mulheres que batiam de frente e deixaram, nas entrelinhas de suas obras, críticas morais e sociais do mundo como ele era.
Naquele começo do século 19, na conservadora Inglaterra, Emily e suas irmãs são criadas pelo pai, que é reverendo presbiteriano, protegidas pelas regras religiosas e comportamentais da época. Ser escritora é o desejo, que se concretiza às duras penas. EMILY traz uma interpretação do que teria sido esta mulher de espírito livre naquela época, com direito à licença poética e romance pra rechear a narrativa com o signo do amor que liberta, extravasa e permite ser quem se é de verdade.
Pouco importa se foi assim. Importa que o filme desperta para uma bela história e toca no tema fundamental da maldita inadequação (e quem determina isso, afinal de contas?) que é uma fábrica de fazer gente infeliz. Até hoje.
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