AS BESTAS

Cartaz do filme AS BESTAS

Opinião

Na Galícia, no noroeste da Espanha, fala-se galego, há abundantes campos verdes, áreas rurais e vilarejos-fantasma. Um trator ali, outro galpão acolá; uma senhora sentada do lado de fora da casa, outro senhor na lida da roça. AS BESTAS me fez lembrar o abandono da agricultura familiar trazido em Alcarràs, de Carla Simón. É algo iminente que mexe com tradições, propriedades, comportamento e consumo.

Rodrigo Sorogoyen se baseia numa história real de xenofobia e cria a sua narrativa nesta região. São personagens tão bem trabalhados que chego a duvidar que os reais tenham tantas camadas assim. De um lado estão os irmãos Anta, que nasceram no vilarejo, nunca saíram dali; são homens rudes e solitários, violentos e tóxicos com qualquer pessoa que pense diferente; de outro está uma família francesa, formada por Olga e Antoine, cultos e viajados, um casal que muda de vida, compra uma terra no vilarejo e vive da agricultura familiar — planta alimentos orgânicos pra vender na feira; aprecia a natureza e tem o sonho de viver tranquilamente.

O conflito se dá porque a terra de Antoine é vizinha dos Anta, e as ruelas de pedra que separam as propriedades já mostram o beco sem saída em que as famílias estão: empresas de energia eólica ofereceram dinheiro aos moradores do vilarejo para instalar turbinas por ali. Antoine declina porque isso vai contra seu ideal de vida; para os moradores, era a chance de sair da miséria. Neste embate, entre ameaças e sabotagens dos irmãos, a tensão cresce e o filme ganha ares de intenso suspense.

Mas afinal, quem são as bestas? A cena de abertura mostra a tradição da “rapa das bestas”, em que se dominam cavalos selvagens para cortar as crinas. O domínio do animal vai contrastar com o embate humano, no diálogo impossível, na rixa do idioma espanhol e francês, na intolerância ao diferente, na dificuldade de aceitar mudanças, na indiferença do poder público. AS BESTAS tem a paciência e diplomacia de Antoine e a fortaleza de Olga em pelo menos dois diálogos imperdíveis. No bar e na cozinha de casa, vemos o que a comunicação (ou impossibilidade dela) é capaz. 

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