ARGENTINA, 1985

Opinião
Mais do que dizer que este filme conta a história real do julgamento da junta militar que comandou a violentíssima ditadura na Argentina perante os tribunais do próprio país e perante o próprio povo, é preciso dizer que a escolha do título sugere algo mais além. Amplia este momento pontual e o transforma num processo universal de que a Justiça deve ser capaz de fazer o seu trabalho.
ARGENTINA, 1985 conta uma história única. É verdade que outros tribunais julgaram e condenaram crimes de guerra e crimes contra a humanidade — como o de Nuremberg, por exemplo, que foi comandado pelos vencedores da Segunda Guerra, em território neutro. Mas o argentino foi inédito: realizado no próprio país dos réus, com juízes e promotores compatriotas, julgou e condenou a junta militar diante do próprio povo, que se deu seu apoio ao processo, das vítimas que se dispuseram a depor e dos promotores que se indispuseram diante dos militares, mesmo em uma democracia ainda engatinhando.
Na entrevista coletiva no FESTIVAL DO RIO, o ator Peter Lanzani fez o jovem promotor Luiz Moreno Ocampo, que angariou uma equipe de jovens advogados para reunir, em tempo recorde, as provas e testemunhos necessários para condenar os criminosos. Aliás, vale lembrar que ter essa equipe de jovens, que não tinham o vínculo de trabalho com os militares porque estavam começando a carreira, remete à questão da memória que as gerações carregam e teriam que ter a responsabilidade de não repetir erros.
No comando dessa equipe está Ricardo Darín, que não esteve no Rio para a coletiva, mas marca forte presença como Julio Strassera, um promotor mediano, a serviço do Estado durante a ditadura, portanto alguém dentro do esquema. Quando o presidente Raul Alfonsín autoriza o julgamento, cabe a Strassera liderar a acusação e revisar sua postura neutra que beira, claro, a conivência. “Interessante o ponto de vista humano dos protagonistas, que vão lutar por justiça, mas também combatem seus medos quando enfrentam suas trajetórias pessoais”, lembra a atriz Alejandra Flechner.
ARGENTINA, 1985, que levou o prêmio da crítica em Veneza e do público em San Sebástian, tem um formato tradicional e se debruça sobre as vidas pública e a privada dos protagonistas; aproxima as cenas de tribunal com o povo argentino, reproduzindo a imagem como assistiram os argentinos pela televisão; nos coloca nos anos 80 com o figurino e o design de produção. Tudo isso com toques de humor sutil, que costura este fato histórico com a emoção que ele merece. E dá o recado: nunca más!
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