20.000 ESPÉCIES DE ABELHAS – 20.000 ESPECIES DE ABEJAS

Cartaz do filme 20.000 ESPÉCIES DE ABELHAS – 20.000 ESPECIES DE ABEJAS

Opinião

Suzana Vidigal  _ especial 73ª Berlinale

Escrever quando o filme não te diz muita coisa é difícil; escrever quando ele te toca profundamente, também pode ser. Há dias que 20.000 ESPECIES DE ABEJAS faz eco aqui. Com certeza um dos filmes melhores da Berlinale 2023.

Me lembra ALCARRÀS, Urso de Ouro no ano passado, assim como TOTÉM (deste ano). Aqui, também temos uma criança que nos empresta seu olhar para observarmos mais de perto o que acontece no mundo. A história é a seguinte: Aitor tem 8 anos e vai passar uns dias com a mãe e os irmãos na casa da avó. Todos o chamam pelo nome de batismo, mas ele se incomoda. Quer ser chamado de outra maneira, porque se reconhece menina. Através do incômodo que ele causa na família por sua aparência e atitudes, ele/ela se vê obrigada a fazer a transição de identidade de gênero, porque já é insustentável seguir sem se reconhecer. “O filme nos faz pensar como somos determinados pela maneira como os outros nos enxergam”, diz a diretora basca Estibaliz Urresola Solaguren, que entrega aqui seu primeiro longa.

O despertar de Aitor/Lucía provoca o despertar de todas as mulheres desta família que está mais preocupada em olhar pra si, do que para o outro. Ane, a mãe, enfrenta crise no casamento e no trabalho, tem uma relação opressora com a sua mãe, uma mulher conservadora e católica fervorosa. A tia é apicultora, lida com a sensibilidade, com o ambiente colaborativo e diverso das abelhas, que são capazes de construir uma colmeia cheia de personagens. Posicionamentos opostos, trabalhando visões de mundo que oprimem e ampliam, respectivamente.

Tudo isso pra dizer que a família de Lucía precisa desconstruir padrões de comportamento pra resignificar. E quem faz isso é uma criança, quebrando a herança comportamental passada de geração em geração, entre as mulheres da família. A experiência deste período dará a segurança necessária para se reconhecer e, assim como Aitor, a família também precisa fazer a transição.

“As camadas que envolvem o roteiro são como uma colmeia”, disse em certo momento a diretora. Deve ser por isso que fica difícil entender por onde passam os sentimentos ao assistir a seu filme. Passa pela camada mais profunda da quebra de padrões. A cada filme que vejo percebo como este despertar vem através do cinema com tanto vigor.

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