THE LONELIEST MAN IN TOWN

Cartaz do filme THE LONELIEST MAN IN TOWN

Opinião

Este não é um documentário — que fique bem claro. Mas parece — que também fique bem claro. E essa aparente confusão faz parte da proposta de THE LONELIEST MAN IN TOWN, de Tizza Covi e Rainer Frimmel. O protagonista é Al Cook, austríaco que dedicou sua vida ao blues americano sem ter nunca pisado nos Estados Unidos (inclusive aprendeu inglês através das músicas), um personagem que faz ele mesmo, na sua própria casa, no movimento cotidiano da vida. Confusão que toca naquele ponto interessante da linha tênue entre a ficção e a realidade. Ou seria uma linha borrada?

Fico mais com a segunda opção. O charme deste longa é justamente descobrir que ele revisita sua vida no filme, com liberdades criativas que transformam a obra em um delicioso rito de passagem desta idade madura, em que as opções ficam bem mais limitadas. Al Cook é solitário, mas parece não se sentir sozinho. Sente a falta de sua amada esposa e é o último morador do prédio de apartamentos onde morou a vida toda. Os outros proprietários se renderam à pressão dos empreendedores que vão demolir o prédio pra levantar um novo empreendimento. Al Cook resiste, diz que não vende e passa a sofrer pressão dos empresários que sabotam seu cotidiano cortando luz, água, aquecimento; invadem a casa, comem da sua comida e fazem da vida dele um inferno. O pano de fundo que parece ser um fenômeno mundial: a descaracterização das cidades e exploração imobiliária sem limites.

Impassível, Al Cook nos leva junto com sua jornada de aceitação da mudança, encontro com uma antiga namorada, observação da silhueta da cidade que já não é mais a mesma. Parece ser o homem mais solitário da cidade mesmo. É acompanhado pelas memórias e lembranças através dos móveis, vinis, fitas cassetes, fotos, peças de roupas. É o que chamamos de filme de personagem e este é, de fato, uma figura única.

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