RETORNO A BUENOS AIRES – RITORNO A BUENOS AIRES
Opinião
Impossível assistir a RETORNO A BUENOS AIRES sem voltar para Garage Olimpo, seu filme de 1999. São dimensões diferentes, mas inevitavelmente complementares. Em Garage Olimpo, nome um centro de detenção, tortura e extermínio que realmente existiu em Buenos Aires durante a ditadura militar no final da década de 1970, a narrativa volta para aquele período dentro do centro clandestino. Agora, mostrando que esse passado violento não sai do sobrevivente e carregando também sua experiência pessoal de alguém que foi preso pela ditadura, Bechis trata do pós-trauma através do médico Mariano Guerra. Fala daquilo que fica quando caem as máscaras e a vida segue.
Neste caso, para Guerra (Adriano Giannini), médico italiano chamado a depor no julgamento dos ex-militares que o sequestraram, torturaram e obrigaram a prestar serviços médicos no centro de detenção, a vida seguiu muito truncada. Em 2008, é chamado a Buenos Aires e, relutante, embarca. Chegando lá, reencontra companheiros de prisão e fica hospedado em acomodações disponibilizadas pelo Ministério da Justiça. A tensão é constante, a hostilidade com Mariano também. Pouco se sabe até então qual a participação do médico nesse passado tenebroso, mas aos poucos vai se descortinando a verdade, inclusive nos efeitos pós-traumáticos que Mariano ainda sofre daqueles dias.
Bechis não faz um filme autobiográfico, mas transforma suas memórias em filmes, num processo que vemos acontecer diversas vezes no cinema. É a arte fazendo seu papel de cura. Pensar em julgamento de juntas militares remete à Argentina 1985, de Santiago Mitre, um mergulho no processo jurídico da criminalização e punição. Aqui Em Retorno a Buenos Aires, o julgamento é o gatilho para passar o passado a limpo. O elo entre os dois filmes é feito através justamente dos personagens médicos e do espaço físico da prisão propriamente dita. Mariano revisita o prédio, sua cela, suas doloridas memórias. Embora tenha conseguido sair da Argentina e refeito a vida na Itália, a tortura nunca saiu dele — e as questões de saúde mental são fortes, intensas e muito significativas para o desenvolvimento do filme e do arco do protagonista. O semblante de antes e depois é notável e Adriano Giannini entrega um personagem completo. Apavorado diante da vida, a experiência de retornar a Buenos Aires e encarar seus torturadores pode ser uma via de libertação do passado.

Comentários