O MAL NÃO EXISTE – EVIL DOES NOT EXIST

Opinião
Primeiro veio a música, depois o filme O MAL NÃO EXISTE. O novo projeto do diretor japonês Hamaguchi, premiado com o filme Drive My Car, nasceu quando a compositora Eiko Ishibashi pediu que ele criasse imagens visuais que se encaixassem na sua música. Surgiram personagens e a história propriamente dita lindamente encaixada na melodia e no tom propostos.
A história que Hamaguchi cria é inspirada em algo que acontecia na região do Japão onde o filme foi rodado. Um projeto de “glampling” — uma palavra criada pra descrever um acampamento glamuroso (glamorous camping) — que estava em andamento na região. Foi daí que o diretor resolveu falar da exploração imobiliária e turística feita sem preocupação com os impactos ambiental e social. O protagonista é um sujeito que mora com a filha numa vila em que a natureza é parte integrante da dinâmica da população. É da natureza, da água, do bosque que se tira o sustento. A instalação de um projeto mal planejado, que poderá contaminar a água da região, causa protesto dos moradores; a reunião em que o posicionamento deles e dos publicitários responsáveis entra em contradição é emblemática da desconexão entre eles.
A questão ambiental é só pano de fundo para o visual da natureza que harmoniza com a trilha sonora. “Achei que o movimento da água, das árvores, dos animais representava a minha sensação diante da música, mas só isso não seria interessante o suficiente”, diz Hamaguchi, também diretor de Drive My Car e A Roda do Destino, na coletiva. “Eu precisaria incluir humanos na história.”
A história de humanos conectados com a natureza inclui mais silêncios que diálogos. Existe aquilo que pode ser conversado, discutido, ponderado. Existe o imponderável, que está sujeito à força das naturezas selvagem e humana. O MAL NÃO EXISTE, que levou o Grande Prêmio do Júri em Veneza, tem esse nome por isso. Estamos à mercê de uma força maior.
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