De 9 a 19 de abril tudo vira verdade. A 31ª edição do Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade traz 75 filmes de 25 países justamente pra jogar luz nas diversas maneiras de olhar para a realidade. É sempre verdade, mas gosto de pensar que elas são muitas e que o olhar crítico a partir de cada um desses filmes é a riqueza desse gênero que cresce e se torna, cada vez mais, uma fonte de informação, reflexão e formação de cidadania.
Festival gratuito simultâneo no Rio e em São Paulo, o ETV oferece longas, médias e curtas metragens, brasileiros e internacionais, divididos em diferentes mostras. A novidade deste ano é a m ostra É Tudinho Verdade, voltada para o público infantil. Pra quem não pode acompanhar presencialmente, de 20/4 a 4/5, os curtas metragens brasileiros serão exibidos com exclusividade pela plataforma de streaming Itaú Cultural Play.
Curioso como as temáticas das instituições brasileiras adoecidas se repetem e se cruzam. CARCEREIRAS, de Julia Hannud, inverte a lógica que fala do sistema prisional feminino através das detentas. Traz o foco para as mulheres que mantêm o sistema operante. Mulheres jovens, que são invariavelmente impactadas pela experiência da prisão, mesmo do lado de lá das grades. Uma questão de saúde mental que contagia todos os atores desse triste espetáculo. Assim como acontece em PATRULHA MARIA DA PENHA, de André Bomfim, que joga luz não nas mulheres que estão sob proteção da medida protetiva garantida pela Lei Maria da Penha, mas sim das policiais que fazem parte da patrulha em Maceió. Policiais que monitoram as vítimas de violência e enfrentam, elas também, os vícios e violências da lógica machista e misógina da sociedade. E dentro dessa lógica dar protagonismo aos operadores das instituições brasileiras, vamos da prisão e da polícia para a escola. SAGRADO, de Alice Riff, entra em uma escola pública de Diadema e faz um recorte da rotina dos funcionários, professores, orientadores diante do bullying, das violências, do racismo por que passam as crianças e adolescentes. Mas não só isso, já que a escola tem histórico de ocupação, o que amarra esse contexto da conexão entre as histórias. Filmes que indicam o adoecimento da sociedade nas suas diversas instâncias, mas todas elas passam obrigatoriamente pela formação familiar, desigualdade social e políticas públicas. São filmes que falam dos moldes deformados responsáveis pela formação da nossa cidadania, representadas pelo universo feminino.
Mas nem tudo é deformação. A FABULOSA MÁQUINA DO TEMPO, de Eliza Capai, quebra a lógica do aprisionamento e conta uma história de libertação. Premiada na Berlinale este ano, o documentário é um alento quando pensamos que, na imensidão do Brasil, não seremos capazes de dar a devida voz aos diferentes atores que compõem nossa cidadania adoecida. Em uma pequena cidade no Piauí, a diretora acompanha um grupo de meninas que é a primeira geração que cresceu com recursos básicos estruturados de saúde e educação. Assim, crescem podendo sonhar em ter um futuro diferente das mães, que viveram sob o machismo estrutural. As meninas sonham, fazem perguntas, questionam, querem ser livres e autônomas. Tudo em tom lúdico e leve, pra falar de algo tão sério quanto o futuro do país.
Mas nem tudo diz respeito ao cidadão comum e o estrelato também forma pessoas. BARDOT, de Alain Berliner e Elora Thevenet, é a cinebiografia de Brigitte Bardot, morta em 2025. Com imagens de arquivo, enaltece sua trajetória como mulher que quebrou paradigmas e se posicionou à frente do seu tempo conservador, sempre ressaltando seu jeito doce e vítima de um tempo. Em 1973, abandona os holofotes para se dedicar, no auge da fama, ao ativismo pelos diretos dos animais e pelo meio ambiente, e as escolhas do documentário ressaltam o bônus de poder usufruir dos recursos e do prestígio acumulado para investir em causas nobres. O que falta ao documentário é o que veio à tona no quadro In Memorian do Oscar que optou por não homenagear BB, mesmo ela sendo um ícone para os franceses. Aliada da extrema direita, Bardot era sabidamente islamofóbica e racista, o que está implícito na decisão da Academia de Hollywood, mas não entra no documentário. Mais parece peça de propaganda da sua fundação, o que ressalta ainda mais a verdade dos documentários. Afinal, é verdade, mas tudo depende de como a história é contada.

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