SE EU FOSSE VIVO…. VIVIA

Cartaz do filme SE EU FOSSE VIVO…. VIVIA

Opinião

A viagem no tempo propõe uma ideia circular, um vai e volta temporal viabilizado pela tecnologia alienígena para que Gilberto volte a ver Jacira, o amor da sua vida. SE EU FOSSE VIVO… VIVIA, do diretor André Novais de Oliveira, trabalha com essa premissa de que esses supostos dispositivos desenvolvidos por civilizações extraterrestres podem quase tudo, inclusive viajar no tempo pra dar ao casal um último gesto de amor.

A viagem no tempo também acontece para o espectador. Começa na década de 1970, quando Jacira (Conceição Evaristo) e Gilberto (Norberto Novais Oliveira, pai do diretor) se conhecem e se apaixonam. Mas também para os atores Tainá Evaristo e Jean Paulo Campos, que fazem o casal jovem. “Vivenciar um baile black dos anos 70, de uma época que a gente não viveu, foi como se nos transportássemos pra essa época; foi um presente”, diz Tainá, em conversa com o Cine Garimpo na Berlinale. O fator intergeracional está presente, inclusive sinalizando uma escolha de elenco na maturidade, trazendo esse diálogo sempre rico sobre a longevidade. “Embora o filme fale de luto e das dificuldades com a saúde, era importante que tratasse a terceira idade como uma idade funcional, afetiva, autônoma”, diz o diretor André Novais.

Numa abordagem que mistura comédia de costumes e ficção científica, a saúde mental também se apresenta e abre espaço para o roteiro encaixar as tais tecnologias alienígenas — como se o personagem já estivesse conectado em outra dimensão, que não a terrestre. André Novais faz essa passagem de maneira natural, como se fosse alienígenas fossem (são?) a coisa mais normal do mundo. Para Gilberto, a responsa é positiva e o roteiro deixa sua pitada de poesia ali. “A saúde mental me tocou muito”, diz Tainá. “Me faz pensar no fato de as pessoas viveram cada vez mais e nós, que somos jovens, temos que nos preparar pra lidar com isso.” É fato, e cada vez mais filmes abordam essas questões que são inerentes ao envelhecimento pra nos ajudar a pensar na morte, na ausência, na desconexão das pessoas amadas como parte da vida.

Se Eu Fosse Vivo… Vivia traz o frescor da narrativa intimista mineira, que nos insere e apresenta ambientes familiares representativos de um Brasil que custou a aparecer no audiovisual. “Kleber Mendonça deu uma resposta a um jornalista que eu acho ótima quando perguntaram se ele gostaria de filmar fora do Recife”, conta André. “Ele disse que não há proibição nenhuma, mas a realidade do Recife lhe interessa muito.” Filmar em Minas Gerais soa natural para o diretor e o bairro, as pessoas interessam enquanto personagens, reflexão, representatividade. Interessam a todos nós, que buscamos histórias humanas, desenvolvidas com criatividade, afeto e universalidade.

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