FLORES RARAS

Cartaz do filme FLORES RARAS

Opinião

Rio de Janeiro, décadas de 50 e 60 do século passado. Uma história de amor, sempre com dois polos opostos: a extrovertida e a tímida, a confiante e a insegura, a mandona e a submissa, a arte visual e a poética, a relação gay e a sociedade tradicional da época. E esse é o eixo central do roteiro, a construção pelos opostos.

Cheio de dicotomias, Flores Raras conta essencialmente a história do longo romance entre a poetisa norte-americana Elisabeth Bishop (Miranda Otto) e a arquiteta autodidata carioca Lota de Macedo Soares (Gloria Pires). Para o diretor Bruno Barreto, esse foi só o pano de fundo para falar de algo mais profundo, presente nos poemas de Bishop. “O fato de Bishop ter vindo ao Brasil na época não era o suficiente para fazer um filme”, explica ele em entrevista coletiva. “O que permeava toda a relação era o sentimento de perda: quando a vencedora vai ficando cada vez mais fraca, porque não sabe lidar com perdas, e a alcoólatra mal ou bem vai ficando mais forte, porque aprendeu a conviver com elas, eu tinha uma boa história para contar.”

É verdade. No começo, vemos uma Bishop perdida, que decide passar uma temporada no Brasil para espairecer e procurar inspiração; encontra Lota no Rio, determinada, empreendedora e absolutamente dona da situação. A relação entre as duas se equilibra, ambas atingem o ápice (Bishop ganha o Pulitzer; Lota constrói o Parque do Flamengo), mas a balança se inverte no final. A australiana Miranda Otto, que encarna Bishop de uma maneira muito natural, lembra que a volta da poetisa para os Estados Unidos significou o fim do seu romance com Lota e com o Brasil. “No discurso que Bishop faz antes de partir, ela diz que não entende como o Brasil pode ser tão generoso e tão indiferente ao mesmo tempo”, diz Miranda. Era época do golpe e ninguém protestou.

Mesmo se fragilizando no final, Lota ainda é Gloria Pires, e portanto, uma forte e marcante presença na tela. Adoro seu trabalho no cinema. Em seu primeiro filme falando inglês, Gloria se sai bem, embora às vezes soe artificial – acho inevitável que isso aconteça, já que as emoções pedem sempre a língua mãe. Segundo ela, o desafio mesmo foi fazer o personagem homossexual, o primeiro da sua carreira. “É interessante o momento do filme, por causa da discussão sobre o casamento gay, a adoção de crianças por pessoas do mesmo sexo e tudo mais que está na mídia”, diz a atriz. De fato, o tema está em voga, mas nem por isso foi mais fácil conseguir patrocínio, conforme contou a produtora Paula Barreto.

Eu diria que é mais bonito em Flores Raras é a reconstrução de uma época, no belíssimo figurino, na maravilhosa locação cercada de Mata Atlântica e em todos os detalhes de luz e arquitetura da cuidadosa produção. Com tudo isso muito caprichado, dá realmente vontade de ter vivido esse Rio de Janeiro.

  

 

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