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Vale seu ingresso

SILÊNCIO – Silence

Martin Scorsese quase virou padre. Eu não sabia. Mas fazer Silêncio, como ele fez, só tendo, realmente, uma visão e uma vivência diferenciadas da fé católica. É intenso demais pra ser feito por alguém que só passe raspando pelos dogmas e mistérios da religião e que se ancore, simplesmente, nos lugares comuns. Scorsese vai lá nas profundezas, questiona, escancara as dúvidas e as crenças da religião. Deixa nas telas um recorte maravilhosamente realizado e tocante da obra do japonês Shusaku Endo.

Silêncio é a história de um homem que aprende – tão dolorosamente – que o amor divino é mais misterioso do que imagina; que Ele deixa muito mais aos caminhos humanos do que percebemos; e que Ele está sempre presente, mesmo em seu silêncio”, diz o diretor no prefácio do livro que deu origem ao filme, que ele levou 20 anos para executar, desde a primeira leitura. Conta história dos missionários jesuítas portugueses do século 17 que, enviados ao Japão, tiveram que enfrentar a inquisição, a perseguição e foram obrigados a apostasia, ou seja, renúncia da fé católica.

Com uma crueldade atroz, Silêncio traz a figura daqueles que preferiram renunciar a morrer, assumindo o papel de traidores, assim como o apóstolo Judas. Lembrei o livro do escritor israelense Amos Oz Judas, em que ele provoca esse reflexão, trazida também por Endo: qual a função de Judas na perpetuação da fé católica? Como diz Scorsese “o escritor entendeu que, para que o cristianismo viva, se adapte a outras culturas e outros momentos históricos, é necessária não apenas a figura de Cristo, mas também a figura de Judas”. Verdade. Remete também a outra obra, Homens e Deuses, de Xavier Beauvois, em que o exercício da fé os leva até as últimas consequências. Filme belíssimo, profundo e único, esse Silêncio.

DIREÇÃO: Martin Scorsese ROTEIRO: Jay Cocks, Martin Scorsese, Shusaku Endo ELENCO: Andrew Garfield, Adam Driver, Liam Neeson | 2016 (161 min)

 

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PERSONAL SHOPPER
CLASSIFICAÇÃO: Vale seu Ingresso de Cinema, Para Pensar, França, Drama - 09/03/2017

Já disse aqui que Kristen Stewart conseguiu o que parecia o improvável: afastar-se da imagem vampiresca da saga Crepúsculo e construir uma carreira com personalidade. Seu parceiro Robert Pattinson não conseguiu – olho pra ele e vejo sempre um sujeito morto-vivo. Kristen não. Já quando embarca no road movie Na Estrada dá o ar da graça, vai solidificando sua presença, embora como coadjuvante, no outro filme do diretor francês Olivier Assayas, Acima das Nuvens, brilha do lado de Julianne Moore em Para Sempre Alice, pra realmente dizer a que veio sob direção de Woody Allen em Café Society. Agora, Personal Shopper é ele mesma – e praticamente sozinha.

Kristen faz um filme sobre consumo. Seu trabalho como personal shopper – alguém que escolhe roupas e acessórios para outro alguém, famoso ou não, que não tem tempo, paciência ou, teoricamente, bom gosto pra escolher para si próprio. Coisa esquisita, não saber o que gosta de vestir. Tem a história da construção do visual, pra quem é famoso e vive de vender sua imagem. Mesmo assim é um tanto quanto estranho. Enfim, Kristen é Maureen, uma moça que mora em Paris, garante uma grana cuidando comprando roupas, joias, acessórios para uma famosa enjoada e cheia de vontades, está passando pelo luto pela morte do irmão gêmeo e tem que lidar com seu fantasma rondando sua vida. É médium e percebe a presença do irmão na casa da família e em outros ambientes onde vai. Além disso, tem que lidar com outro fantasma que a assombra pelo whatsapp, que segue seus passos, sabe tudo sobre ela, a desafia a transitar pelo proibido (como provar as roupas da sua chefe enjoada e cheia de vontades) e transgredir. O filme é Maureen do começo ao fim, com suas angústias e dúvidas, transitando nos universos que não lhe pertencem: a fama, as roupas caras, o apartamento transado, as joias Cartier, o mundo virtual atual, a morte do irmão que já não existe mais.

A reflexão que nasce de Personal Shopper é genial. É como se não tivesse em solo firme. Tudo é transitório, tudo depende do olhar seletivo. Daquilo que você escolhe consumir. E se tem alguém que escolhe pra você, então fica ainda mais complicado lidar com as questões da vida. Tudo é simbólico. Maureen precisa acreditar para tocar a vida: na presença do irmão, na grana do emprego, no homem misterioso que manda mensagens e a seduz de alguma forma para um mundo inacessível. A gente também. Selecionamos a realidade que convém. Está cheio de fantasma rondando nossas vidas, fantasiados de passado e de futuro. A gente acredita, agarra com todas as forças e não solta a corda de jeito nenhum. Experimentar confiar no presente pode trazer uma experiência libertadora. Carregar o essencial, deixar pra trás o supérfluo. Um exercício. De novo, libertador.

 

DIREÇÃO e ROTEIRO: Olivier Assayas ELENCO: Kristen Stewart, Lars Eidinger, Singrid Bouaziz | 2016 (105 min)

 

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UM LIMITE ENTRE NÓS – Fences

O cenário é praticamente um só: o quintal que dá para a entrada da casa de Troy e Rose – um sobrado de tijolo atrás de um pequeno beco, em um bairro de uma grande cidade, em 1957. Baseado na peça de teatro Fences, Um Limite Entre Nós é sobre isso mesmo. Limites. Cercas. Muros internos que subimos, mesmo quando não são a primeira opção, para que o limite seja bem marcado.

Emocionante do começo ao fim. Troy e Rose são casados, juntos têm um filho adolescente, mas ele traz outro filho mais velho do primeiro casamento. Lidam com humor com as questões da vida, com garra diante das dificuldades de juntar dinheiro, com afeto diante do casamento, com amizade diante do amigo de 30 anos.

Mas as frustrações se acumulam no foro da intimidade e é preciso levantar a tal da cerca. “Há pessoas que constróem cercas para afastar as pessoas; outras constróem para manter as pessoas dentro”, diz o texto. De que são feitas as cercas? De raiva? De compaixão? Melhor assim –  a cerca se transforma em decisão, não em repúdio. Denzel Washington e Viola Davis dão um espetáculo de honestidade e vigor. Profundo, tocante e verdadeiro, Um Limite Entre Nós é um filme doído, mas necessário e corajoso.

 

DIREÇÃO: Denzel Washington ROTEIRO: August Wilson ELENCO: Viola Davis, Denzel Washington, Stephen Henderson | 2016 (139 min)

 

 

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LION – UMA JORNADA PARA CASA – Lion

Saroo tem cinco anos, perde-se do irmão Guddu numa estação de trem de uma pequena cidade indiana, pega no sono em um vagão abandonado e, quando acorda, percebe que será engolido pela multidão daquela outra estação, a 1600 quilômetros de distância de onde viu seu irmão pela última vez. Essa parte da história já vale seu ingresso. É visceral a procura de Saroo por um rosto conhecido. Seu olhar diz tudo e se perde na indiferença daquela multidão. Mas a alegria chega, ele é adotado por uma família australiana bacana, cheia de amor pra dar. Por si só, a trajetória já é emocionante e cheia de ternura, em um cinema cuidadoso, delicado, do jeito que são as relações delicadas e afetivas que vão se formando no decorrer da vida desse improvável garoto que tirou a sorte grande.

No entanto, Lion – Uma Jornada Para Casa tem também um aspecto que não só se entrelaça com o drama, mas que é o grande gatilho para que a busca de Saroo por sua família biológica aconteça. Representado por Dev Patel (também em Quem Quer Ser Um Milionário, O Exótico Hotel Marigold) na fase adulta, Saroo tem tudo: pais amorosos, uma boa educação, um futuro promissor profissional, uma namorada conquistada e querida. Mas nada disso consegue diminuir sua angústia e procurar a família se torna uma  obsessão. Entra Google Earth em ação, ele mergulha fundo e solitário nessa jornada, perde-se em suas dúvidas pessoais, mas é o momento que lhe cabe viver. Seguir sem esse pedaço da vida parece impossível.

Lion é um mergulho nesse universo daquilo que existe dentro de nós e que não vivemos. Quando algo – mesmo que transbordando de medos e dúvidas –  bate na porta do coração, não há como negar. É preciso correr atrás, preencher o vazio para, então, seguir em frente. Lion é sobre isso, sobre preencher um grande vazio. E é lindo demais.

 

DIREÇÃO: Garth Davis ROTEIRO: Saroo Brierley, Luke Davis ELENCO: Dev Patel, Nicole Kidman, Rooney Mara, Sunny Pawar, Abhishek Bharate | 2016 (118 min)

 

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