DIREÇÃO e ROTEIRO: Lucélia Santos
Brasil, 2001 (75 min)
O interessante em Timor Leste – O Massacre que o Mundo não Viu é o registro histórico em si. Alguém se lembra? Foi praticamente outro dia, 1999. O documentário escrito e dirigido pela atriz Lucélia Santos (a eterna escrava Isaura, pelo menos para mim) retoma, de forma didática e cronológica, os eventos trágicos nesse longuinquo e pequeno país oriental. Isso é bom, ajuda a refrescar a memória dos horrores que aconteceram por lá em plena virada do milênio.
Confesso que não gosto muito da narração da diretora em off – há algo com a sua voz, implicância gratuita talvez. Mas o que importa é que conta como o país se tornou independente de Portugal em 1975, para tornar-se dependente da Indonésia – país que dominou a porção leste da ilhota com unhas e dentes, no esquema ditatorial. Neste contexto aparecem o líder da resistência timorense Xanana Gusmão, primeiro presidente do Timor independente e atual primeiro-ministro. Na época, foi cabeça da FRETILIN (Frente Revolucionária do Timor Leste Independente), ficou preso em Jacarta durante anos e chamou atenção do mundo para a repressão e luta pela independência, juntamente com o bispo Carlos Ximenes Belo e o jurista José Ramos-Horta, que ganharam o Nobel da Paz pelos esforços em encontrar uma solução.
Timor Leste foi devastada e descaracterizada pelas forças da Indonésia durante os 25 anos de domínio. Mesmo quando a população votou maciçamente pela independência num plebiscito supervisionado pela ONU, as milícias e o poder de Jacarta não resistiram e incendiaram 90% do país. Isso em 1999. De lá para cá, estão tentando reconstruir o país. Do zero.
Isso tudo é mostrado no documentário, com depoimentos, cenas de massacres, de destruição, de tortura. Aos que se interessam pelo tema, pela realidade remota de países longínquos, aparentemente sem qualquer relação conosco, assistam. E mesmo quando persistir a sensação de “o que eu tenho a ver com isso”, pense na barbaridade do fato num mundo que se comunica como o nosso – pelo menos em teoria. Não só no Timor Leste, mas em outros tantos países. Recentemente publiquei filmes como Hotel Ruanda e Darfur que mostram cenas absurdas sobre a África e assim por diante. Sem ser professoral ou moralista, eu diria que alguns documentários são preciosas fontes de conhecimento de situações inimagináveis e reais. É o caso de Timor Leste – O Massacre que o Mundo não Viu, sem que ele precise ser necessariamente uma grande obra cinematográfica, ou qualquer coisa assim. Prefiro ver pelo viés da coragem, do interesse e da intenção de registrar. Para lembrar.
ROTEIRO: Ben Livingston, Hannah Shakespeare
ELENCO: John Cusack, Alice Eve, Luke Evans
Estados Unidos, 2012 (110 min)
Nos cinemas: 18 de maio
Edgar Allan Poe está na memória longínqua e restrita de quantos de nós? Imagino que de poucos. Pensando nisso, talvez fosse interessante repassar um pouco da trajetória desse poeta e escritor norte-americano, para entendermos que o filme O Corvo não é uma biografia, mas sim uma obra de ficção inspirada na morte de Poe (1809-1849), que foi um importantíssimo autor de literatura policial, com contos cheios de sangue, mistério e crimes horrendos, numa ambientação absolutamente sombria e percursora do gênero.
Aproveitando-se da sua morte misteriosa aos 40 anos, quando foi encontrado completamente fora de si em uma praça de Baltimore, escreveu-se o roteiro. Por que Poe enlouqueceu? Esse foi o gancho usado para compor a história de O Corvo, que usa os contos do escritor como peças-chave para o mistério. Na direção de James McTeigue, Poe (John Cusack) é um escritor medíocre de um jornal, que luta para publicar suas histórias e ganhar a vida. Até que começam a acontecer crimes horrendos, nos moldes daqueles imaginados pelo próprio Poe em seus contos, usados como inspiração pelo assassino. Mãe e filhas são brutalmente estranguladas, um corpo é cortado ao meio por um pêndulo gigante, um assassinato ocorre numa ópera. Tudo fica ainda mais grave com o rapto da sua namorada Emily (Alice Eve). A investigação, coordenada pelo detetive Fields (Luke Evans), precisa contar com a lógica e esperteza de Poe, que tem frescos na memória o enredo de suas histórias.
John Cusack não é lá grande coisa – mas não tem sido há tempos, vide o fraco 2012. Mas O Corvo, inspirado no nome de um de seus contos, imagino que agrade aos que gostam de suspense fantástico e de um roteiro mais mastigado. É criado o clima sombrio dos Estados Unidos de meados do século 19 e Poe vira o detetive da história juntando as peças do quebra-cabeça deixadas pelo serial killer. Tudo para chegar no paradeiro de Emily e não enlouquecer de vez.
Se for para falar de suspense recente, eu diria que gosto mesmo do roteiro de Os Homens que não Amavam as Mulheres, da série sueca Millenium, Ilha do Medo, de Scorsese, O Escritor Fantasma, de Polanski, ou Deixa Ela Entrar, do também sueco Tomas Alfredson – para citar alguns (uma busca no Cine Garimpo vai dar a você várias boas opções). Mas O Corvo fica em outra prateleira, na dos filmes que distraem. Se Poe não habitasse nossa curta e longínqua memória como imagino, talvez aproveitássemos mais as referências que o filme faz à sua obra. De qualquer maneira, traz à tona o nome do escritor e o gênero de seu talento. O que já é alguma coisa para mentes tão esquecidas.
ROTEIRO: Segio Bianchi, Beatriz Bracher
ELENCO: Marat Descartes, Caio Blat, Cassia Kiss, Leona Cavalli, Umberto Magnani, Ana Carbatti, Ailton Graça, Lennon Campos
Brasil, 2009 (103 min)
De novo o dia em que São Paulo parou, como disse Sergio Resende em seu filme Salve Geral, é inspiração para filme. Mas em Os Inquilinos, a trama é mais profunda, mais íntima e por isso ainda mais intimidante. Fala do interior das pessoas, do medo que se instala dentro da própria casa, do temor de que algo aconteça, do perigo iminente, da família que corre risco. É no personagem Valter (Marat Descartes, também em Trabalhar Cansa, Estamos Juntos, 2 Coelhos) que nos sentimos acuados dentro da nossa própria casa. Um retrato realista, sem romantismo nem vitimização, da periferia e da desigualdade social.
Durante o ataque do PCC à cidade de São Paulo em 2006, a família de Valter tem que conviver com a chegada de inquilinos novos, 3 rapazes que tumultuam o ambiente, trocam o dia pela noite, intimidam e ameaçam a tranquilidade do bairro com sua simples presença. A mulher e os filhos sentem a mudança na rotina, mas não o medo que Valter sente. Esse medo é só seu, incrementado pela instabilidade no trabalho por não ser registrado, pela dificuldade de ascensão social por não ter concluído os estudos, pela insegurança dentro da sua própria casa.
Os Inquilinos faz um retrato interessante da vida do trabalhador comum, que vive um suspense. É como se dissesse que o medo não existe só nas camadas mais altas, ameaçadas e cercadas de muros e alarmes. Ele existe dentro das pessoas como um todo. E Marat Descartes, esse ator competente em tudo que faz, é sempre um personagem complexo, inserido num contexto social perverso e cruel. Dá pra perceber o temor que Valter sente. Pura tortura psicológica. E a sua indignação – coisa que não notamos em Iara, sua esposa, e filhos, para quem a violência faz parte do contexto, da televisão, da vida em geral. Em que ponto chegamos… Nos acostumamos e nos cercamos.
ROTEIRO: Terry George, Keir Pearson
ELENCO: Don Cheadle, Sophie Okonedo, Joaquin Phoenix, Cara Seymour, Nick Nolte
Estados Unidos, Inglaterra, África do Sul, 2004 (121 min)
“Nossa tarefa é manter a paz, não estabelecer a paz. Temos ordem para não intervir.” – funcionário das Nações Unidas
Um pequeno resumo, para nossas mentes distraídas: Ruanda, na África, era colônia belga, governada com consentimento dos tutsis, etnia minoritária. Depois da independência, os hutus, etnia majoritária, tomam o poder, têm sede de vingança, armam a violenta e implacável milícia Interahamwe e comandam um massacre de mais de 800 mil pessoas – inclusive crianças, para dizimar os tutsis pela raiz. Apesar da presença das Nações Unidas no país, apesar do acordo de paz firmado. Apesar de tudo, o massacre aconteceu bem embaixo dos olhos de todo o mundo. Literalmente.
Hotel Ruanda refresca a nossa memória. Quem não se lembra da notícias sobre a matança, os estupros, a presença das forças de paz e a incapacidade de fazer a diferença? O filme é encabeçado pelo gerente do hotel Mille Collines, Paul Rusesabagina (Don Cheadle, também em Crash – No Limite, Um Hotel Bom pra Cachorro, Doze Homens e Outro Segredo), um hutu, que faz de seu hotel em Kigali um abrigo para os tutsis perseguidos. O filme é absolutamente devastador, tanto do ponto de vista humano, desumano, de solidariedade e descaso, de generosidade e atrocidade. Segue a mesma linha Darfur – Deserto de Sangue no quisito barbaridade, mas é muito mais cruel e muito melhor no quisito cinema.
Assista. Além de um ótimo filme por toda a sua carga trágica e humana ao mesmo tempo, faz parar para pensar. A história é real, Paul Rusesabagina realmente lutou para salvar a vida de centenas de pessoas e tudo isso ocorreu há menos de 20 anos, cansando um êxodo de refugiados para os países vizinhos gigantesco. Impressionante, não?
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Sobre a África, assista também a Diamante de Sangue, Life, Above All, Minha Terra, África, Infância Roubada.
ROTEIRO: Stephen King (livro), Frank Darabont
ELENCO: Tim Robbins, Morgan Freeman, Bob Gunton, William Sadler, Clancy Brown, Gil Bellows, Mark Rolston
Estados Unidos, 1994 (142 min)
Shawshank é o nome da prisão onde o banqueiro Andy (Tim Robbins, também em A Vida Secreta das Palavras) vai parar, acusado de matar sua mulher e o amante dela. Condenado a prisão perpétua, apesar de alegar inocência, passa 20 anos sonhando com a liberdade, embora a experiência já o tenha transformado um bocado. Imagino que seja desse ponto que surge o título em português. Mas, é claro, cai no clichê desnecessário, ainda mais se tem elenco forte, história boa e uma direção e roteiro muito alinhados. Portanto, fica registrado, mais uma vez, minha insatisfação com essas adaptações novelescas dos títulos.
Na prisão, Andy conhece Red (Morgan Freeman, também em Conduzindo Miss Daisy, Invictus, Winter, O Golfinho, Antes de Partir), preso 20 anos antes, acostumado com o esquema todo de contrabando, mandos e desmandos da prisão – inclusive, é parte dele. Daí nasce uma grande amizade. Aproveitando suas habilidades profissionais, Andy beneficia os presos com consultorias financeiras, enriquece o diretor com a evasão de divisas e lavagem de dinheiro e cria uma biblioteca. Todo esse panorama é inserido dentro das regras rígidas e implacáveis de uma prisão de segurança máxima nos anos 40 e 50, acompanhados cronologicamente pelos pôsteres de musas das época, passando por Rita Hayworth e Marilyn Monroe.
Dizer mais é revelar a chave do roteiro antes da hora e suas revelações. Bem amarrado e muito bem elaborado, ele constrói, ao mesmo tempo, relações de amizade e desconfiança, cumplicidade e hipocrisia, sob a narração sábia do personagem Red. E humaniza cada um dos presos, criminosos ou inocentes. Seja na sua fraqueza, na impossibilidade de se adequar a uma realidade diferente da prisão, no exercício de uma habilidade para que a justiça, de uma forma ou de outra, fosse feita. Um Sonho de Liberdade é, sobretudo, um filme sobre a amizade e da confiança – apesar do ambiente corrompido e de todos os outros pesares que vêm junto com ele.
ROTEIRO: Afonso Poyart, Izaías Almada
ELENCO: Fernando Alves Pinto, Caco Ciocler, Alessandra Negrini, Marat Descartes
Brasil, 2012 (108 min)
Quem mata dois coelhos com uma cajadada só acaba se dando bem. Economiza tempo, estratégia e ainda sai ganhando algum dinheiro. No caso de Edgar, ganhar algum dinheiro não é bem o objetivo. O que está em jogo é ganhar muito dinheiro, deixar os malandros da corrupção de mão abanando e ainda, de quebra, ficar com o amor da sua vida sem que ninguém o chateie mais. Seriam 3, os coelhos?
2 Coelhos tem uma estrutura narrativa muito diferente e muito interessante, diga-se de passagem. Aliás, tem cara de videogame, do estilo ação-tiroteios-explosões – e acho que esse é o grande trunfo e ponto a favor da originalidade. Além de ser rapidíssimo e de o vai-e-vem do narrador-personagem ser literalmente exemplificado com desenhos e esquemas na tela, o diretor escolhe embaralhar todos os personagens de forma nada, mas nada linear. Até entendermos a relação do nerd perito em tecnologia Edgar (Fernando Alves Pinto, também em Onde Está a Felicidade?), com Walter (Caco Ciocler), que trabalha no restaurante do pai de Edgar , com a promotora corrupta Julia (Alessandra Negrini) e com os tantos marginais do filme entre eles Maicon (Marat Descartes, também em Estamos Juntos, Trabalhar Cansa, É Proibido Fumar), demora. Não que seja confuso, não é isso. Mas a trama se entrelaça propositalmente, ganhando ao mesmo tempo leveza e jovialidade ao roteiro.
Com esse ritmo acelerado, uma quase-metáfora da mente do jovem de hoje, que pensa e atua em vários campos, do real a o virtual, ao mesmo tempo, o diretor novato Afonso Poyart banca uma linguagem diferente no cinema nacional. Para quem ainda torce o nariz para a produção brasileira, 2 Coelhos e outros tantos filmes brasileiros inovadores provam que tem gente batalhando para dar vida a vários coelhos, no mínimo diferentes do que a gente costuma ver por aí.
DIREÇÃO E ROTEIRO: Isabel Coixet
ELENCO: Sarah Polley, Tim Robbins, Sverre Anker Ousdal
Espanha, 2005 (115 min)
Sensível e tocante, esse poder das palavras que o filme traz. Muitas produções – e muitas vezes a própria vida – valoriza sabiamente o silêncio como forma de reflexão e escuta, mas A Vida Secreta das Palavras faz o percursos inverso. Do silêncio que aprisiona, isola e entristece a alma, existe a palavra que dá vida. Aprisionada pelo medo e pavor trazidos por uma experiência extremamente traumática, Hanna (Sarah Polley) cala-se diante da vida, do futuro e fecha a sete chaves seu passado. Escuta o que quer, fala o mínimo necessário, para não ouvir sua própria voz, sua própria história.
São as palavras que a trazem de volta à possibilidade de vida. Funcionária exemplar de uma fábrica, não conversa com ninguém, não falta, não dá trabalho, não tira férias. É como se o tempo livre fosse doloroso demais. Obrigada a tirar férias por um mês, candidata-se a ser enfermeira de Josef (Tim Robbins), um funcionário de uma plataforma de petróleo, que sofreu sérias queimaduras. Isolada nela mesma e na imensidão do mar, Hanna encontra ali o refúgio perfeito, mas as palavras não a deixam calar e é só nesse momento que ficamos sabendo o que realmente aconteceu – um trauma vivido perto de nós, no tempo e no espaço, de dimensões absolutamente cruéis e desumanas. (Claro que não vou falar, porque esse é a revelação do filme.)
ROTEIRO: T.E. Lawrence, Robert Bolt
ELENCO: Peter O’Toole, Alec Guinness, Antony Quinn, Jack Hawkins, Omar Sharif, Anthony Quayle, Claude Rains
Inglaterra, 1962 (216 min)
Guardadas as devidas proporções – que fique bem claro - O Príncipe do Deserto me inspirou a rever o grande clássico Lawrence da Arábia. Esse sim, um épico, com quase quatro horas de duração, vendedor de 7 Oscar e uma paisagem do deserto como poucos filmes conseguiram fazer. Ou nenhum.
Também diretor de filmes como Dr. Jivago e Passagem para a Índia, David Lean constrói um retrato impecável da península arábica durante a Primeira Guerra Mundial, contando a história do oficial britânico que, cansado de executar tarefas no confortável e generoso escritório no Cairo, pede para atuar no campo. E, já naquele começo de século, atuar no campo no Oriente Médio era envolver-se num barril de pólvora. De um lado, as inúmeras tribos árabes rivais, violentas e ditatoriais por definição, disputavam terras e poder na península; de outro, os turcos que invadiam seus territórios, dominavam cidades e abriam caminho para anexá-los ao já enorme Império Otomano. Lawrence entra justamente nesse momento, em que os ingleses não queriam lutar contra os turcos, pois já combatiam na Europa, mas não desejavam o poder deles em uma região tão estratégica; e em que os árabes precisavam lutar contra um inimigo comum, e para isso precisavam colocar de lado seus interesses próprios e richas históricas.
Lawrence da Arábia ganha identidade árabe, agindo como conciliador e estrategista inglês para combater os turcos, graças à sua crença na revolta árabe e profundo conhecimento geográfico da região. Independente de sua controversa postura (que o filme não deixa claro, apenas sugere que tem dúvidas, inseguranças, que questiona sua missão em alguns momentos), é um fator determinante na reconquista da península pelas tribos nativas e sua direta negociação, daquele momento em diante, com os interesses ingleses e ocidentais.
Mesmo se você preferir não entrar nos detalhes dessas questões políticas e dos interesses particulares do Ocidente, fato é que Lawrence da Arábia é um clássico impressionante de cenas de batalhas entre tribos, viagens pelo deserto de fotografia impar. E mais: em se tratando de lutas tribais, de vingança e richas entre líderes, torna filmes como O Príncipe do Deserto algo novelesco e nada mais. Eu já tinha avisado – são propostas diferentes, não tem nem como comparar. Cada um no seu devido lugar.
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