ROTEIRO: Simon Beaufoy, Paul Torday (livro)
ELENCO: Ewan McGregor, Emily Blunt, Amr Waked, Kristin Scott Thomas, Rachel Stirling, Tom Mison, Catherine Steadman
Inglaterra, 2011 (107 min)
A Pesca do Salmão no Iêmen é a tradução livre do título original deste filme, baseado em livro homônimo. Optar por comercializá-lo com o horroroso clichê Amor Impossível é realmente muita falta de imaginação. Fico boquiaberta com essas opções, que praticamente menosprezam a inteligência do espectador e até a sua capacidade de interessar-se por algo que fuja do padrão comercial de títulos com “amor”, “felicidade” e coisas do gênero. E digo mais: além desse péssimo começo para um filme que é, de fato, charmoso, não acho que o amor seja impossível no filme; o que é impossível é o projeto visionado pelo xeique Mohammed (Amr Waked), mas é ele que move os personagens e deveria sim ter sido, ao menos, adaptado. Pobres e renegados salmões!
A impossibilidade desse projeto consiste na dificuldade de levar 10 mil peixes para as montanhas do Iêmen. Para tanto, a consultora de investimentos Harriet (Emily Blunt, também em A Jovem Rainha Vitória, A Mente que Mente, Os Agentes do Destino), a pedido do xeique, contrata a especialista em pesca Dr. Alfred Jones (Ewan McGregor, também em Sentidos do Amor, O Escritor Fantasma, Toda Forma de Amor) para ajudá-la a satisfazer os caprichos desse rei generoso e progressista. Claro, com apoio do governo inglês na pele da agitada assessora de imprensa do primeiro ministro (Kristin Scott Thomas, também em Há Tanto Tempo que Te Amo, A Chave de Sarah, O Garoto de Liverpool, Partir, O Paciente Inglês) que precisa de uma boa história para tirar os olhos dos cidadãos ingleses das encrencas em que a Inglaterra anda metida.
No entanto, os terroristas de plantão do Oriente Médio não gostam da intervenção do xeique, o casamento de Alfred não vai bem, Harriet está inconsolável com o sumiço do namorado, o que dá margem para as reviravoltas acontecerem. Entre bonitos cenários e boas tiradas, o diretor sueco Lasse Hallström (também de Sempre ao Seu Lado) faz crescer o clima de romance e os salmões vão compor o pano de fundo. O que não é demérito – acho até que tem um bom equilíbrio, contribuindo para o filme ser uma graciosa comédia romântica.
ROTEIRO: Willy Russell
ELENCO: Pauline Collins, Tom Conti, Julia McKenzie, Bernard Hill
Inglaterra, 1989 (108 min)
Shirley Valentine tem 42 anos! Fiquei chocada. A minha idade. Quando assisti pela primeira vez, eu devia estar na casa dos 20 e sua realidade parecia algo muito, mas muito longínquo. Engraçado ver por essa perspectiva, do tempo que passa e de como cada personagem nos conta uma história dependendo da época. Mas o que importa é que o filme Shirley Valentine está na mesma prateleira de Bagdad Café – aqueles filmes que dizem, de uma maneira simples e sensível, uma história trivial: donas de casa aos 40, já sem filhos em casa, questionam o que fizeram com a vida, onde está a paixão da época do casamento e a sua identidade. Deslocar-se do lugar comum ajuda nessa procura: uma vai para a Grécia, a outra, para um decadente café na beira de uma estrada deserta.
Embora de maneiras completamente diferentes, lidam com a mesma questão. Bagdad Café, de uma maneira mais poética, musical, quase improvável; Shirley Valentine (Pauline Collins, também em Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos, Albert Nobbs) é mais teatral.Ela fala com a câmera, como se falasse conosco, quase num exame de consciência. E não apresenta final, deixa em aberto, para cada um se encaixar, ou não, como bem entender.
Resumo da ópera: tenha você 42 ou não, Shirley é o emblema da dona de casa inglesa (e de muitos outros países), que perdeu a identidade durante um casamento acomodado. Não sem humor e graça. Delicioso, feminino, mas não feminista. Assim como Bagdá Café. Doce. Reconciliador.
ROTEIRO: David Lean, E.M. Forster (livro)
ELENCO: Judy Davis, Victor Banerjee, Peggy Ashcroft, James Fox, Alec Guinness, Nigel Havers, Richard Wilson
Inglaterra, 1984 (164 min)
Depois de assistir a O Exótico Hotel Marigold, lembrei-me de Passagem para a Índia, um registro interessante sobre os conflitos raciais, econômicos, políticos e sociais entre o império britânico e sua colônia, a Índia, nos anos 20. Interessante e colorido, é dirigido por David Lean, do grande e incomparável Lawrence da Arábia.
Passagem para a Índia, para quem não viu, vale a pena. Toca na questão do preconceito racial dos brancos imperialistas e indianos, na diferença humana feita pela cor da pele, na maneira de tratar e sentir-se superior dos ingleses. Adela (Judy Davis) vai à Índia acompanhada pela sogra, para encontrar o noivo que exerce uma função importante no poder jurídico – nada imparcial, diga-se de passagem. Desprovida de preconceitos e sem compartilhar da mesma atitude de seus compatriotas que usufruem das mordomias e desprezam os indianos, Adela quer conhecer a verdadeira Índia. Sua disposição em viajar e conviver com os locais deflagra o conflito do filme. Do lado de Adela está um educador inglês, que tem uma visão humanista e positiva do que a presença britânica poderia contribuir para o país e sua população.
Uma grande produção, sem dúvida. A Índia é sempre um assunto de grande interesse e diversidade, que contribui para aumentar o repertório, enriquecer culturalmente e sair do cenário comum. Quem gosta do tema pode ver também o aclamado Gandhi (aliás, imperdível pela importância do tema e pela qualidade cinematográfica), Quem Quer Ser um Milionário ou ainda o simpático Despachado para a Índia. Sem esquecer de O Exótico Hotel Marigold, nos cinemas.
DIREÇÃO e ROTEIRO: Lúcia Murat
ELENCO: Caio Blat
Brasil, 2011 (97 min)
A viagem parece durar até hoje. Quando revira as lembranças, cartas, sensações, descobertas e medos do passado, a cineasta Lúcia Murat decide contar o que viveu. E mais, o que viveram seus irmãos. Miguel morreu recentemente, o que motivou Lúcia a recordar, puxar pela memória a experiência daqueles anos de ditadura. Auxiliada pelo irmão Heitor, que dá seu depoimento emocionante e também é representado na telona por Caio Blat, ela escreve o roteiro daquilo que ficou registrado na mente e na alma dos membros da família.
É por isso que a viagem é longa. Começa no fim dos anos 1960, quando Lúcia milita contra a ditadura no Brasil e Heitor é mandado pela família para Londres para não acabar também na cadeia. E dura até hoje. Heitor não só vai a Londres, como viaja por anos pelo mundo todo, vive uma época em que a contracultura está solta, em que as drogas, o sexo e o rock ‘n roll são a ordem da vez e ele se envolve profundamente com narcóticos de todos os tipos. Acaba ficando esquizofrênico, o que acarretou inúmeras intervenções psiquiátricas, como podemos perceber pela maneira de falar e recordar o seu passado nos depoimentos do filme. A viagem que começou naquela época teve sérias implicações até hoje e leva o espectador também por esse túnel de emoções pessoas e muito particulares. E esse é o ponto principal do filme, as sequelas emocionais que ficam, os valores que são criados e alimentados com as experiências da vida. E claro, a coragem de Lúcia Murat de abrir sua intimidade desta maneira.
Em off, Lúcia narra suas lembranças neste documentário, o grande vencedor do Festival de Gramado do ano passado. A construção das passagens de Heitor na pele de Caio Blat (também em Bróder, Xingu, Carandiru, Os Inquilinos, As Melhores Coisas do Mundo, O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias) têm algo de surrealista, com base naquilo que foi escrito nas cartas enviadas por ele dos quatro cantos do mundo, guardadas por sua mãe. Não pretende parecer biográfico, acho que não. Mas sim um registro da memória afetiva de uma época que marcou a família e fez de seus membros aquilo que eles são hoje.
ROTEIRO: Laurent Cantet, Robin Campillo
ELENCO: Charlotte Rampling, Karen Young, Louise Portal, Ménothy Cesar
França, 2005 (108 min)
Se o que atraiu você neste filme foi o fato de ele tratar da história de três mulheres que vão ao Haiti passar férias em busca do turismo sexual, pode até ser interessante – muito embora também tenha achado esse viés um pouco arrastado e deprimente. Mas se você pretendia, como eu, assistir a algo mais voltado para a questão social do Haiti, em contraste com os resorts e luxos que atraem os europeus e americanos à ilha, vai se decepcionar. Confesso que assisti ao filme um tanto quanto impaciente.
Em Direção ao Sul conta a história de três mulheres, entre outras tantas, com seus 40, 50 anos, que vão ao Haiti buscando satisfazer seus desejos sexuais, manter relações provisórias, porém prazerosas, como nunca antes em suas vidas rotineiras, com seus parceiros e maridos. Em contrapartida, o país vive uma ditadura ferrenha naquela década de 1980 e todo o luxo dos resorts contrasta com a pobreza e intimidação policial na capital Porto Príncipe. A ideia é interessante e poderia render um bom filme, ainda mais pelo olhar habilidoso do diretor Laurent Cantet, também responsável pelo ótimo documentário Entre os Muros da Escola, vencedor da Palma de Ouro em Cannes. Mas aqui as personagens se arrastam entre suas crises de ciúme, entre a luta pela posse dos amantes da ilha, frustrações e lamúrias de vida, o que me deixou realmente desinteressada. Voilá, drama por drama, melhor partir para A Agenda, também do mesmo diretor – esse sim, profundo e interessante.
DIREÇÃO: Emilio Estevez
ROTEIRO: Emilio Estevez, Jack Hitt (livro)
ELENCO: Matin Sheen, Emilio Estevez, Debarah Kara Unger, Yorick van Wageningen, James Nesbitt
Estados Unidos, Espanha, 2010 (123 min)
Há algum tempo, publiquei aqui no Cine Garimpo um comentário sobre Onde está a Felicidade, de Carlos Alberto Riccelli- aliás, um comentário ardido, filme fraco… Não só não gostei do filme, como achei um grande desperdício, já que o Caminho de Santiago de Compostela é em si um cenário, um panorama, uma proposta, uma história incrível, que pode ser mostrado sob diversos ângulos. Não vou me estender naquilo que não gostei, portanto, recomendo que não percam tempo com a Bruna Lombardi do filme acima. Mas se tiverem oportunidade de assistir a The Way (O Caminho, tradução livre, porque não foi lançado no Brasil mas tem no AppleTV), assistam. É singelo, simples e transmite uma faceta importante da peregrinação pelo caminho até a cidade de Santiago de Compostela, na Espanha.
The Way, ou El Camino como dizem os espanhóis, é percorrido pelos peregrinos que saem de diversos lugares da Europa, para chegar à catedral de Santiago há mais de 1000 anos, onde estão enterrados os restos mortais do santo. Mais do que a chegada em si, o grande desafio é o “durante”. O caminho é reconhecidamente frequentado por pessoas que querem revisar suas vidas, ter um momento de distanciamento que o cotidiano não permite e muitas vezes partem sozinhos na empreitada. Segundo foi dito em The Way, ninguém faz o caminho por alguém, mas faz por si mesmo. E essa é o grande fator de mudança.
Quem parte em peregrinação, sem ser exatamente religioso ou praticante, é Tom, pai de Daniel, que morreu ao começar o caminho. Oftalmologista da Califórnia, Tom acredita ter uma boa vida, estável e sem grandes surpresas. Acredita ter a vida que escolheu. Seu filho, no entanto, vive viajando pelo mundo, sem rumo e sem endereço, e principalmente sem se preocupar com o futuro. Com visões tão opostas, é de se imaginar que as duas formas de vida entrem em conflito regularmente. Mas Daniel morre e Tom viaja para a Espanha para pegar os pertences do filho. Ao chegar na cidadezinha francesa de St Jean Pied de Port, Tom muda de ideia. Sente de alguma maneira que precisa fazer o caminho e jogar as cinzas do filho pelo trajeto.
Durante os cerca de 800 km, Tom encontra-se com um holandês que precisa emagrecer, uma canadense que vive “brava” e um escritor irlandês que não tem escrito nada nos últimos tempos. Cada um com seus conflitos e questões para serem resolvidas internamente, partem pelo caminho de uma maneira simples, despretensiosa. Com cenários lindos e diálogos sensíveis, The Way mostra pontos importantes sobre a amizade e o respeito e traz algo interessante sobre o que eu imagino ser o trajeto. Simplicidade, reflexão, natureza, escolhas.
ROTEIRO: Marcos Bernstein, João Emanuel Carneiro, Walter Salles
ELENCO: Fernanda Montenegro, Vinícius de Oliveira, Marília Pêra, Matheus Nachtergaele, Soia Lira, Othon Bastos, Otávio Augusto, Stela Freitas
Brasil, 1998 (113 min)
Comentei outro dia que ia rever o belíssimo Central do Brasil. Afinal, o filme que colocou definitivamente o Brasil no circuito internacional e foi premiado no mundo todo (Inglaterra com o Bafta, Estados Unidos com o Globo de Ouro, Festival de Berlim, além de ter tido várias indicações, inclusive no Oscar) já tem 13 anos. Difícil esquecer a essência humana desta obra-prima de Walter Salles (também de Diários de Motocicleta, Linha de Passe), mas alguns detalhes vão ficando para trás e achei que faltava falar dele no Cine Garimpo. Meu comentário rendeu réplicas do tipo “inesquecível”, “lindo, mas velho”, ou “como é mesmo a história?”.
Fiquei, obviamente, ainda mais instigada a rever. E respondo sem medo de errar: filmes como este não envelhecem. São referências em vários aspectos, a começar pela sua importância no posicionamento da produção brasileira no mercado nacional e internacional, na renovação do cinema brasileiro como arte, roteiro, capacidade criativa, inteligência – inclusive emocional – de lidar com temas sensíveis, humanos e muito sutis – normalmente os mais difíceis de serem traduzidos em qualquer forma artística. Portanto, quem não assistiu, faça isso logo. Quem já viu, garanto que se emocionará de forma diferente e com mais intensidade. Não vai se arrepender.
Respondendo à questão da história em si, eu diria que o roteiro é perfeitamente equilibrado na simplicidade do enredo e na complexidade dos personagens. Dora (a espetacular Fernanda Montenegro, também em Casa de Areia) ganha a vida escrevendo cartas na Central do Brasil, no Rio. Escreve em nome de pessoas analfabetas, que querem mandar uma mensagem para parentes e amigos em outras cidades. Ela e a irmã Irene (Marília Pêra) vivem de rolos e trambiques, numa vida que mostra bem a realidade da periferia do Rio e das grandes cidades brasileiras, com extrema desigualdade social, luta diária pela sobrevivência, violência e impunidade. A Central do Brasil aqui é uma metáfora fortíssima da migração de milhares de brasileiros para as grandes cidades em busca de uma vida melhor, do centro onde se reúnem todas as crenças e esperanças, onde pessoas se encontram, chegam e partem para todos os lugares do Brasil, a procura de emprego, de amor, do pai, da mãe, do filho, do dinheiro, da saúde – a grande simbologia do filme, sem sombra de dúvida.
Um dia, Ana e seu filho Josué pedem que ela escreva uma carta para o pai do menino, que os abandonou. A partir daí, a relação de amizade e respeito entre Dora e Josué é inevitável. Vai sendo construída à medida que desconstrói a Dora rígida e amarga, trazendo à tona as lembranças, tristezas, arrependimentos por que passou no decorrer da vida. O lado humano é muito forte, a emoção latente – mérito de Walter Salles que dirige Fernanda Montenegro e Vinícius Oliveira (também em Assalto ao Banco Central, Linha de Passe) com maestria. Não dá para não se emocionar. Assista a Central do Brasil. Fica como lição de casa. Depois você me conta se achou o filme “velho”.
ROTEIRO: Richard Linklater, Julie Delpy
ELENCO: Ethan Hawke, Julie Delpy, Vernon Dobtcheff
Estados Unidos, 2004 (80 min)
Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy) se conheceram em 1995, em um trem na Europa. A química entre eles foi tão grande que combinaram de se encontrar novamente depois de 6 meses. Essa história foi contada em Antes do Amanhecer, que está publicado aqui no blog. Depois de nove anos, o diretor Richard Linklater filma a sequência, em que Jesse e Celine se reencontram em Paris, no lançamento do livro dele, inspirado no dia que passaram juntos em Viena. Mas suas vidas já não estão mais desimpedidas como estavam quando tinham 23 anos. Nesse tempo, fizeram a suas escolhas.Agora em Paris, conversam sobre o que teria acontecido se realmente tivessem se encontrado depois de alguns meses.
O filme é basicamente o diálogo entre eles. Passam a limpo esses anos em que não se viram, contam como anda o coração, a profissão, a vida como um todo e que caminho almejam seguir. Tudo é mostrado de uma maneira muito simples, natural e poética – quase um tratado das diversas áreas da vida por que precisamos permear. Indiscutível a liga e a harmonia entre o casal. Será que teria dado certo? Será?
Vale dizer que não tem graça assistir a Antes do Pôr-do-Sol sem ter visto Antes do Amanhecer. As referências ao tempo que passaram juntos são muitas e você vai perder parte da nuance e da suavidade do filme. Bem melhor o programa completo; muito melhor se for bem acompanhado. Diante da profusão de filmes bobos e idênticos sobre mulheres frustradas, rodadas demais e sem perspectiva de achar marido, ou seja, um apelação total, você tem ainda mais motivos para assistir a estes dois filmes, singelos, profundos e inteligentes.
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