publicidade
VIÚVAS – Viudas
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Para se Divertir, Argentina - 19/12/2012

viúvasDIRETOR: Marcos Carnevale

ROTEIRO: Marcos Carnevale, Bernarda Pagés

ELENCO: Graciela Borges, Valeria Bertuccelli, Rita Cortese

Argentina, 2010 (100 min)

 

Nos cinemas: 21 de dezembro

 

Não é nenhum Elsa &Fred, o grande sucesso do diretor argentino Marcos Carnevale. Nem Família Rodante, outro emblemático filme, desta vez do também argentino Pablo Trapero, sobe o delicado que são as relações humanas. Quem dirá as familiares…. Mas Viúvas é um bom filme. Não me importei com o fato de ser improvável. Faz parte do conto, ainda mais quanto se trata de um assunto difícil que é a aceitação de uma nova realidade.

Elas amam o mesmo homem, até que um AVC tumultua o esquema que vinha funcionando por anos. Ele amava sua mulher Elena (Graciela Borges, também em Dois Irmãos), mas mantinha uma relação também amorosa com Adela (Veleria Bertuccelli), uma moça bem mais jovem. Pouco antes de morrer, ele pede à sua esposa que cuide da garota –  que por si só já é um tanto quanto estranho. O filme tem um bônus importante, que é a participação da atriz argentina Rita Cortese, também em Herencia, Dois Irmãos.

Acho que Carnevale imprime o humor no absurdo da relação que tenta se formar entre a esposa e a amante do seu marido. Há cenas cômicas; há outras que me tocaram quanto foi possível esquecer a traição e valorizar a pessoa, a relação nova e positiva que pode nascer. Quando Elena pode esquecer. Gosto do filme, mais do que andam dizendo por aí. De alguma maneira, é quase um conto sobre a possibilidade de gerar sentimentos novos a partir do improvável.

AMOR À FLOR DA PELE – In The Mood for Love
CLASSIFICAÇÃO: Para Ver Bem Acompanhado, Drama, China - 29/09/2012


DIREÇÃO e ROTEIRO: Kar Wai Wong

ELENCO: Tony Leung Chiu, Maggie Cheung, Ping Lam Siu

China, 2000 (98 min)

In the mood for love. Adoro a versão inglesa do título. Amar depende realmente do estado de espírito. Tem que estar a fim. Os personagens do filme do diretor Kar Wai Wong, também do belo Um Beijo Roubado, estão dispostos a amar. Inicialmente, não se trata de trair, ter um caso. Estão dispostos a amar seus escolhidos, marido e mulher. Mas o andar da carruagem faz com que extravasem esse amor de outra maneira. Ele precisava ser canalizado e dizer a que veio. Só lhes sobrou a via mais difícil.

Ambientada em Hong Kong em 1962, Amor à Flor da Pele fala sobre dois casais, que alugam quartos em um prédio onde moram várias famílias juntas. A esposa de Chow Mo-Wan sempre tem que fazer hora extra, passa a maior parte do tempo fora de casa; o marido de Li-zhen passa a maior parte do tempo em longas viagens ao exterior. Sem companhia, Chow e Li-zhen se tornam amigos e começam a desconfiar que seus companheiros estão tendo um caso.

Sem entrar muito em detalhes, a beleza de Amor à Flor da Pele está na estética do filme. Diferenciada, estilizada, com personalidade. Mas também está na maneira com que os protagonistas veem esse amor. Não se igualam aos seus companheiros, que optaram pela traição. Tentam, às duras penas, encontrar uma saída. Sem descer no fundo do poço. Intenso, marcante, lindamente pensado. Adoro o ritmo, as tomadas de câmera, a maneira com que o contexto histórico de Hong Kong naquela época influencia o destino dos personagens. Para ver bem acompanhado, certamente.

360
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Inglaterra, Drama - 11/08/2012

DIREÇÃO: Fernando Meirelles

ROTEIRO: Peter Morgan

ELENCO: Jude Law, Rachel Weisz, Anthony Hopkins, Maria Flor, Juliano Cazarré, Ben Foster, Jamel Debbouze, Vladimir Vdovichenkov, Lucia Siposavá, Gabriela Marcinkova

Inglaterra, França, Brasil, 2011 (110 min)

Não sabia que este tipo de filme que conta a história de vários personagens, que se entrelaçam em algum momento da narrativa, chama-se filme-coral. Quem contou isso foi Fernando Meirelles, diretor de 360, filme de abertura do Festival de Cinema de Gramado. Interessante essa denominação. E faz todo sentido: um filme com várias vozes, que separadas têm sua força, sua marca, mas juntas formam um todo, um significado diferente. Nessa mesma categoria estão os sempre ótimos Babel e Magnólia (filmes fortíssimos, diga-se de passagem).

Meirelles está em Gramado para promover o filme que estreia dia 17 em circuito nacional. Custou US$ 14 milhões e já foi vendido para 48 países. “É um filme independente, portanto tudo o que está ali é escolha do diretor”, conta ele. “Fui eu quem escolheu o elenco e a ideia de misturar astros conhecidos como Jude Law, Rachel Weisz e Anthony Hopkins com outros desconhecidos foi proposital, mas o ator russo, por exemplo, é desconhecido aqui, mas superfamoso em seu país”, completa. Já havia no roteiro de Peter Morgan os personagens brasileiros, representados por Juliano Cazarré e Maria Flor, que está também em Gramado e contou que contracenar com Anthony Hopkins foi especial, técnico e que a deixa mais preparada para futuros desafios. “Ele foi generoso, mas atua focado nele mesmo, mas foi fantástico”, conta ela.

Se a ideia, como diz o diretor, era fazer um filme sobre conflitos humanos, cada um com seu problema, independente de raça, cor, religião, estado civil, conseguiu. Essencialmente, 360é sobre escolhas. “Nãohá um inimigo em comum, algo que faça os personagens lutarem contra. Eles lutam contra eles mesmos, suas próprias limitações e seus desejos que devem ser reprimidos em prol da construção de uma civilização”, explica ele, também diretor de Cidade de Deus, Ensaio sobre a Cegueira, O Jardineiro Fiel, além da produção de inúmeros títulos, entre eles Xingu, José e Pilar, Lixo Extraordinário. Preocupação constante do diretor, conta ele, afinal, é a repressão dos desejos que constrói arte, história, religião, tradição. Sentiu como se tivesse feito vários curtas, um sobre cada personagem, e precisasse criar maneiras de unir todas as histórias.

Talvez tenha sido assim que surgiu o “fechamento do ciclo”, a ideia embutida no título 360. E suas histórias tratam de uma questão universal, problemas semelhantes em qualquer lugar do mundo, E problemas, por mais que o leque de opções seja imenso, pode se resumir em algo tão simples como “relacionamento”.

Vejamos: uma garota eslovaca acha que a prostituição é a única maneira de ganhar dinheiro rápido, é contratada por um executivo inglês que viaja a trabalho, casado com uma  mulher que se envolve com um homem mais moço. Este, por sua vez é deixado pela mulher, que encontra um senhor alcoólatra à procurada filha desaparecida e que quase cai nas garras de um maníaco. Mas tais prostitutas são administradas por um cafetão, que tem um fiel motorista, casado com uma moça infeliz, apaixonada pelo chefe. Sem dar nome aos bois (e não tente descobrir quem é quem, para não perder a graça) é um emaranhado de narrativas que ressaltam o comum do homem, na suas dificuldades de relacionamento com o outro e consigo próprio.

O filme causa suspense e curiosidade quando precisa – algumas vezes chega a ser intenso no desfecho, mas na maioria das vezes, é sutil nos pequenos detalhes. “A trilha sonora une tudo isso”, conta ele, apresentando o trabalho de Ciça Meirelles. Segundo ela, embora não seja compositora, ao ler o roteiro já conseguiu visualizar (e sentir) a música por trás de cada personagem. Mas nem todos têm a mesma profundidade, alguns realmente parecem dispensáveis, a não ser que você olhe pelo prisma individual de cada um, pelo interessante que pode ser cada dilema pessoal. “Todos passam por um momento de decisão, de tomada de consciência de que caminho tomar diante de uma bifurcação”, arremata o diretor.

De fato, prefiro assim, olhar as histórias separadas – senão alguns deles parecem superficiais, o que enfraquece um pouco a narrativa. Depois da entrevista coletiva, gostei mais do filme. Entrei mais nessa visão  dos bastidores, na ideia do diretor. Fundamental, essa impressão pessoal e vivência de quem filma e de quem coloca a sua experiência pessoal no trabalho. Próximo filme de Meirelles? Ainda no exterior, uma história sobre o magnata grego Onassis. Depois promete voltar a filmar no Brasil. Ótima notícia, já estava na hora.

 

AMADEUS
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Estados Unidos, Drama - 05/08/2012

DIREÇÃO: Milos Forman

ROTEIRO: Peter Shaffer

ELENCO: F. Murray Abraham, Tom Hulce, Elizabeth Berridge

Estados Unidos, 1984 (160 min)

Rever Amadeus é um presente. Não me lembrava que a história de Wolfgang Amadeus Mozart (1756-91) era aqui contada pela voz do compositor Antonio Salieri. Ou melhor, pela voz do seu ciúme, da sua profunda e explícita inveja, baseado na lenda criada pelo dramaturgo inglês Peter Shaffer em sua peça, já no século 20. Salieri compunha para a corte austríaca em meados do século 18, mas quem tinha o brilho e a genialidade era o pequeno, audacioso e descontrolado Mozart. Prato cheio para uma história de vingança e destruição.

Maravilhado pelo talento do compositor de Salzburg e ao mesmo tempo perturbado em não ter sido agraciado com o mesmo dom, Salieri faz do universo musical de Viena o palco perfeito para seu plano maquiavélico. Planeja a morte de Mozart, com estilo, e termina enlouquecido por sua própria raiva, inveja, admiração. Andei pesquisando e pelo pouco que li, parece que essa foi uma licença artística do dramaturgo inglês. Parece que não corresponde ao real. Pouco importa, já que Salieri não é o objeto do filme, mas o meio. Talvez tenha sido a maneira de contar a história de Mozart sem ser tão didático, tão professoral e atingir um público que vai além dos amantes da música clássica.

Funciona, porque tem emoção, intriga, jogo de interesse – algo bem atual e atemporal. Amadeus arrebata oito estatuetas no Oscar em 1985, entre elas a de melhor ator (F. Murray Abraham), diretor, filme, roteiro adaptado – aliás, curioso aqui que o ator de Salieri foi quem venceu a categoria, e não o de Mozart (preferia que tivesse sido ao contrário, acho Mozart o protagonista). Além da música linda, da montagem das óperas, do figurino primoroso e da ambientação da Viena daquele século 18 pré-Revolução Francesa divina, o drama que se instala e é construído, movido pelas artimanhas do italiano Salieri, é envolvente, tem drama e comédia, tragédia e cultura. E dura 2h40. Portanto, reserve tempo, mas não se preocupe: você nem vai vê-lo passar.

 

BEL AMI – O SEDUTOR – Bel Ami
CLASSIFICAÇÃO: Para Ver Bem Acompanhado, Inglaterra, Drama - 01/08/2012

DIREÇÃO: Declan Donnellan, Nicj Ormedor

ROTEIRO: Guy Maupassant (livro), Rachel Bennette

ELENCO: Robert Pattinson, Uma Thurman, Kristin Scott Thomas,Christina Ricci

Inglaterra, França, 2012 (102 min)

 

Nos cinemas: 03 de agosto

 

Não li o livro de Guy Maupassant, em que este filme foi baseado. E já digo que nem quero ler. Claro, depois dessa adaptação tosca, superficial e truncada, não sobra realmente muita coisa. Aliás, sobra sim. O figurino, que é bonito, próprio do final do século 19, com toda a sua opulência e luxo. Mas é só.

Quando Robert Pattinson (também da saga Crepúsculo) fez Água para Elefante, fingi que não era comigo. Assisti ao filme muito incomodada com a artificialidade do ator, com personagens superficiais e um enredo chato. Confesso que nem sentar para escrever sobre o filme me deu vontade – tanto que não está no acervo do Cine Garimpo. Agora de novo, a sensação de impaciência durante a sessão foi total. A que veio, realmente, Robert Pattinson? Estou curiosíssima para ver Cosmópolis, do diretor David Cronenberg, que fez sua première em Cannes este ano estreia em setembro no Brasil. Aí é que nós vamos ver se o diretor dobra o garoto e consegue dar mais veracidade ao personagem.

Isso porque em Bel Ami – O Sedutor, não há. Robert Pattinson é Georges Duroy, um soldado maltrapilho que vaga pelos bares parisienses de segunda classe, sem um tostão e sem o prestígio e as influências necessárias para subir na vida naquele final do século 19. Quando encontra uma brecha com um antigo amigo, passa a ser rodeado e cortejado por belas mulheres (Uma Thurman, Kristin Scott Thomas e Christina Ricci – talentos desperdiçados!), mostra-se um galanteador (embora eu o ache péssimo nessa posição) e passa a ter a projeção que precisava para dar a virada como jornalista formador de opinião naquela sociedade interesseira e hipócrita. E para ganhar dinheiro.

Bel Ami estreia nos cinemas, mas não sei dizer se vai conquistar o público teen que tanto se encantou por ele na Saga Crepúsculo. Vamos ver. Mas me tirem disso, por favor. Adoro filmes de época e romances. Mas este primeiro longo do diretor Declan Donnellan não vale seu ingresso de cinema, seu tempo, sua energia – assista ao trailer abaixo e me diga se estou errada. Tem muita coisa boa para assistir. E se for para ver bons filmes de época, por que não rever Ligações Perigosas, por exemplo? 

 

OS DESCENDENTES – The Descendants
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Estados Unidos, Drama - 27/01/2012

DIREÇÃO: Alexander Payne

ROTEIRO: Alesander Payne, Nat Faxon

ELENCO: George Clooney, Shailene Woodley, Amara Miller, Nick Krause, Patricia Hastie

Estados Unidos, 2011 (115 min)

Histórias mirabolantes e inverossímeis são mais fáceis de resolver, no que diz respeito ao lado humano. A ficção, quase tudo aceita. Acho bem difícil passar um sentimento verdadeiro na tela quando se trata de uma história pouco original, de relações já bastante exploradas pelo cinema – o risco de cair no clichê é bem maior. É aqui que está o grande trunfo de Os Descendentes. Equilibrando muito bem humor e drama, o diretor Alexander Payne (também de Sideways e um dos episódios de Paris, Eu Te Amo,) fala da tristeza da perda, da fria relação entre pai e filhos, da descoberta de uma traição e da necessidade de reinventar as relações com leveza, simplicidade e algumas lágrimas.

Durante o filme todo, George Clooney (também em Tudo Pelo Poder, Amor sem EscalasQueime Depois de Ler11 Homens e um SegredoSyriana – A indústria do Petróleo) nos faz participar de suas descobertas. Excepcional no papel, é indicado ao Oscar melhor ator (aliás, tem meu voto) e consegue transmitir seu sentimento de total perplexidade ao descobrir que tem que dar conta das duas filhas depois que sua esposa entra em coma, da negociação da venda da propriedade e de toda a questão que envolve a traição da sua mulher. Clooney faz rir e faz chorar e transmite sua indignação, tristeza, raiva e simples alegria de retomar as rédeas da vida.

Não há nada de excepcional no roteiro, que é linear, nem na história em si, que é sobre ajustes familiares. Mas é dessa simplicidade que eu gosto, da sensação que me dá de poder realmente entrar no filme e me sentir à vontade. Se não fosse no Havaí, eu bem que diria que quase me “senti em casa”.  Acho até que a beleza toda das ilhas foi pouco explorada – o que valoriza ainda mais o lado humano e real, o fato de estarmos todos (sem exceção) sujeitos a erros e sofrimentos. Os Descendentes, indicado ao Oscar de melhor filme e roteiro adaptado, é essencialmente um filme sobre as relações.

ENFIM VIÚVA – Enfin Veuve
CLASSIFICAÇÃO: Para se Divertir, França, Comédia Romântica - 20/12/2011

DIREÇÃO e ROTEIRO: Isabelle Mergault

ELENCO: Michèle Laroque, Jacques Gamblin, Wladimir Yordanoff

França, 2007 (93 min)

Enfim Viúva começa bem: pelo título (gosto do tom divertido e irônico) e pela cena da praia, com a atriz Michèle Laroque cantando Y Si Tu N’existais Pas. Sugere uma comédia leve e realmente divertida – foi isso justamente o que me atraiu. O primeiro argumento é válido, é realmente leve e não compromete. Mas o segundo, fica um pouco a desejar – distrai, mas achei que fosse mais divertido.

A história é a seguinte: Anne-Marie é casada com um famoso cirurgião plástico, mas o casamento já passou do seu prazo de validade - é infeliz, acha o marido um chato e parece estar presa ao vidão que ele a proporciona. Outro núcleo da história é centrado em Leo (Jacques Gamblin, também em Os Nomes do Amor), que trabalha na restauração de barcos e tem uma viagem programada para a China a trabalho. Obviamente os núcleos se juntam, Anne-Marie e Leo são amantes e a viuvez do título se concretiza na hora certa.

Há situações atrapalhadas e até engraçadas, mas não sai muito do esperado. Gosto dos dois atores – têm jeito para comédia, para fazer rir e eles são o atrativo do filme. Mas a direção deixa a desejar, muito embora seja um filme gostoso de assistir.

PARA POUCOS – Aimez qui Vous Voulez
CLASSIFICAÇÃO: Para Ver Bem Acompanhado, França, Drama - 07/12/2011

DIREÇÃO: Antony Cordier

ROTEIRO: Antony Cordier, Julie Peyr

ELENCO: Marina Foïs, Élodie Bouchez, Roschdy Zem, Nicolas Duvauchelle

França, 2010 (103 min)

 

“Na vida, mesmo se estamos felizes, sempre esperamos que algo nos arrebate.” – Rachel, personagem de Marina Foïs

Cada um entende uma história como melhor lhe convém. Veja a parábola do filho pródigo, por exemplo. Um rico fazendeiro dá aos filhos herança em vida. O mais moço pega sua parte, sai para curtir a vida e quando chegam tempos difíceis e ele se vê sem comida e sem dinheiro, volta correndo para os braços do pai, que o recebe com festa; o mais velho não abandona o pai, segue fiel e trabalhador, e fica furioso com a recepção calorosa para o irmão. No Evangelho, é uma passagem que denota o arrependimento, o acolhimento certo do pai e o perdão.

Mas certamente não é com essa intenção que ela é citada por um dos personagens de Para Poucos, este bonito, forte e enigmático filme francês – embora seja preciso também perdoar. Aqui ela se encaixa sinalizando que aquele que é feliz no casamento e que vai procurar fora dele uma outra relação, experiência ou prazer, alguma hora, cedo ou tarde, vai voltar para casa. Quando perceber que chegam tempos difíceis, que a novidade já não existe, que o que era novo também se tornou corriqueiro, o que era diferente agora é previsível e que ali não há algo essencial como a perspectiva de futuro, segurança, construção, amor realmente, voltar à relação original é o caminho natural. Desde que feliz, é claro.

Para Poucos conta uma história ousada entre dois casais estáveis, famílias constituídas com filhos. Os quatro se envolvem a princípio numa vivência sexual, sem mentir, num pacto de fidelidade entre eles, mas que aos poucos vai entrando na seara do sentimento, do convívio, da família, da cumplicidade. O sexo esbarra no sentimento e confundir as coisas é algo fácil tudo está embaralhado, as funções trocadas e os papéis de marido e mulher que o casamento propõe, totalmente anulados.

Perturba um pouco assistir a entrega cega deles e imaginar, logo de cara, o que aquilo poderia causar. Em francês, o filme se chama Aimez qui Vous Voulez, ou seja, “ame quem você quiser”. A gente sabe que não funciona dessa maneira. Mas acho que saber disso perturba e faz com que o filme seja intenso e forte. Fiquei angustiada com esse jogo estranho e perigoso, muito bem conduzido pelo quarteto, com destaque para as mulheres, que têm presença fortíssima e decisiva (os homens são Roschdy Zem, também em Fora da Lei, London River – Destinos Cruzados; Nicolas Duvauchelle, também em Minha Terra, África). É como se a instituição do casamento de um casal fosse colocada à prova pelos personagens, testando uma das suas prerrogativas fundamentais: a fidelidade.

Próxima página »

© Copyright 2009-2013, Cine Garimpo

Navegue pela nossa versão mobile