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O HOMEM QUE VIU O INFINITO – The Man Who Knew Infinity
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Para Entender o Nosso Mundo, Inglaterra, Garimpo na Locadora, Drama, Biografia - 23/09/2016

Esta é daquelas histórias que, se não fosse o cinema, a gente não ficaria sabendo. Quem não se lembra do filme Mente Brilhante? Fico imaginando quantos gênios improváveis têm escondidos por aí, fazendo a diferença nas várias áreas do conhecimento. Srinivasa Ramanuja é um deles.

É verdade que a matemática complexa que Ramanuja domina não faz parte do repertório fora dos meios acadêmicos, mas os teoremas do jovem, que era atendente alfandegário em uma pequena cidade da Índia colonial em 1913, são analisados até hoje. Obcecado pelo estudo, Ramanuja entra em contato com a elegante e conceituada Universidade de Cambridge, na Inglaterra, consegue chamar a atenção de um importante professor e arrisca tudo para provar suas teorias. Além de ser um filme sobre as diferenças culturais e o preconceito, O Homem Que Viu O Infinito é sobre a amizade que nasce entre o indiano e o inglês.

Dev Patel (também em Quem Quer Ser Um Milionário) e Jeremy Irons (também em Beleza Roubada) formam uma boa dupla, principalmente na caracterização dessa disparidade cultural – o que, no fim das contas, não deveria fazer diferença alguma.

DIREÇÃO e ROTEIRO: Matt Brown ELENCO: Dev Patel, Jeremy Irons, Malcolm Sinclair | 2015 (108 min)

 

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MEMÓRIAS SECRETAS – Remember
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Para Entender o Nosso Mundo, Garimpo na Locadora, Drama, Canadá - 13/05/2016

Inesgotável fonte de histórias, o holocausto nazista continua rendendo narrativas de tirar o fôlego e tem, no cinema, um registro importante do que foi esse horror. Memórias Secretas tem dois trunfos que você não pode perder. O mais evidente é a atuação de Christopher Plummer, o eterno capitão Von Trapp de A Noviça Rebelde, que no auge dos seus 86 anos, não dá sinal de quem vai parar de trabalhar tão cedo. O segundo é o desfecho, que vai deixar bem clara a qualidade do roteiro.

Plummer, também em Não Olhe Pra Trás, é Zev Guttman, um sobrevivente do campo de concentração de Auschwitz, que mora numa casa de repouso, sofre com a perda da mulher e da memória e, embora idoso, ainda tem uma missão a cumprir. Sob comando de Max, um amigo judeu também sobrevivente, Zev tem que encontrar o nazista que matou suas famílias e acertar as contas. Ele segue à risca as instruções escritas por Max numa carta e não descansa até o último minuto do filme.

Memórias Secretas tem um bom ritmo de road movie de suspense. Aton Egoyan, também diretor de À Procura, é bom em envolver o espectador no drama. Vai te deixar preso na cadeira até o último minuto, pode acreditar.

 

DIREÇÃO: Aton Egoyan ROTEIRO: Benjamin August ELENCO: Christopher Plummer, Dean Norris, Martin Landau | 2015 (94 min)

 

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A GAROTA DINAMARQUESA – The Danish Girl
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Para Pensar, Inglaterra, Garimpo na Locadora, Drama, Biografia - 11/02/2016

Muito se fala sobre a transgeneridade e é muito bom que esse diálogo seja possível. E muito se vai falar sobre A Garota Dinamarquesa abordando esse seu tema principal: a história real de Lili, uma artista plástica transgênera, que viveu nos anos 1920 na Dinamarca e que foi pioneira na mudança de sexo. E é isso mesmo. Além de lindo e delicado, o filme tem esse protagonismo importante, na pele do excelente ator Eddie Redmayne (vencedor do Oscar com o personagem Stephen Hawking em A Teoria de Tudo).

Portanto, pela qualidade cinematográfica, pela atuação da atriz sueca Alicia Vikander (também em O Amante de Rainha), pela beleza da luz, do figurino, das cores, da reconstituição da época, vale seu ingresso. Sem dúvida. Mas vale ainda mais se pensarmos naquilo que possibilitou Einar Wegener se perceber mulher, aceitar-se dessa maneira e tomar a decisão de mudar de sexo. Tudo teria sido diferente se o amor de sua esposa Gerda não tivesse sido incondicional. E aqui, dá pra ir bem longe nas questões humanas de aceitação e compaixão.

Não acho que Tom Hooper, também diretor de O Discurso do Rei e Os Miseráveis, foi conservador na sua leitura do personagem. Ele faz a escolha do tom certo, para que A Garota Dinamarquesa chegasse para o espectador com a convicção e a força que o tema merece, mas principalmente com a intensidade dessa relação humana que abraça, acolhe e faz toda a diferença.

 

Concorre ao Oscar em quatro categorias: ator, atriz coadjuvante, direção de arte e figurino.

 

DIREÇÃO: Tom Hooper ROTEIRO: David Ebershoff, Lucinda Coxon ELENCO: Eddie Redmayne, Alicia Vikander, Amber Heard, Matthias Schoenaerts, Sebastian Kock | 2015 (119 min)

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CAROL
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Garimpo na Locadora, Estados Unidos, Drama - 19/01/2016

O mais impressionante de Carol é a direção de arte. Impecáveis os figurinos dos anos 50, toda a ambientação por onde circulam Therese, a jovem balconista, e Carol, a elegante aristocrata. Claro que sem uma forte atuação de Cate Blanchet (também em Blue Jasmine, Babel) e Rooney Mara (também em Terapia de Risco, Os Homens que Não Amavam as Mulheres), essa beleza plástica não teria tanto brilho assim. O problema é que falta realismo – e isso faz com que o filme seja um “quase”.

O romance é proibido: Carol está se separando do marido, precisa garantir a guarda da filha, mas não resiste aos encantos da moça que conhece numa loja de departamentos. Therese é uma jovem simpática e prestativa, que mantém um relacionamento acomodado, vai na lábia da chiquérrima Carol e é incapaz de dizer não aos seus convites. Tudo parece uma pintura, os diálogos são frios e falta aquele toque de impulsividade que seria natural numa relação como esta: nos anos 50, pensar no relacionamento entre duas mulheres de classes sociais e idades diferentes, era um verdadeiro escândalo. Seria preciso muita química pra fazer o romance realmente rolar.

E se for pela química, não é o forte de Carol – adaptado do romance de Patricia Highsmith, publicado na década de 50. O trunfo, que rende indicação às duas atrizes para o Oscar, é a atuação delas na construção destes personagens calculistas, que medem as palavras e gestos – como se para não ofender o espectador. Poderia ser mais natural – ou talvez seja uma maneira de tratar o assunto proibido com a discrição necessária para aquele tempo. O que equilibra é o seu papel como mãe, que finalmente deixa o afeto extravasar, as máscaras caírem e o lado humano ser mais forte do que a embalagem – quem se lembra da expressiva Cate Blanchett em Blue Jasmine, pode imaginar algo do lado oposto, o que não deixa de ser uma atuação e tanto. De qualquer forma, Carol é um lindo filme, indicado ao Oscar de melhor figurino, fotografia, trilha sonora e roteiro adaptado, que vale o seu ingresso de cinema – ver na telona faz toda a diferença.

 

DIREÇÃO: Todd Haynes ROTEIRO: Phyllis Nagy, Patricia Highsmith ELENCO: Cate Blanchett, Rooney Mara, Sarah Paulson, Kyle Chandler | 2015 (118 min)

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CASA GRANDE
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Garimpo na Locadora, Drama, Brasil - 03/07/2015

Quanto mais eu penso sobre Casa Grande, mais o filme faz sentido. E mais percebo como tecer esse teia de relações foi complexa. Relacionamentos já são complexos por definição – e pela experiência de cada um de nós. O que o diretor Fellipe Barbosa fez aqui foi construir o universo da classe brasileira mais abastada, entrar nos meandros da sua casa, das relações entre a família e seus empregados, da intimidade e dos tabus sociais, para depois desconstruí-lo a partir de duas descobertas: a falência financeira e os questionamentos da adolescência.

Quanto mais eu penso sobre Casa Grande, mais questão surgem e mais me intriga essa relação que existe da servidão, da diferença de classes e da classificação descarada que rotula pessoas pelo seu status social. Eu sei, é assim em vários lugares. É do ser humano. Mas está na nossa sociedade de maneira muito preconceituosa. Em Casa Grande, Jean é um adolescente que questiona a condição financeira do pai (que faz investimentos ruins, fica sem emprego, mas não admite baixar a crista), mantém uma relação honesta e afetiva com os empregados da casa (motorista, cozinheira e arrumadeira) e desperta para a sua sexualidade quando conhece uma garota diferente dele, de outra cor, de outra classe social. Tudo isso junto acaba vindo à tona como uma tormenta e indica ser um divisor de águas na vida desse personagem tão cheio de dúvidas.

Só mesmo recorrendo ao diretor carioca para levantar alguns assuntos e entender como essa teia foi montada. Casa Grande dá muito pano pra manga. Rende conversa em casa, é profundo e não se esgota em uma única sessão. Fellipe Barbosa deu sua contribuição valiosa, comentando algumas das minhas indagações na entrevista abaixo. Quanto mais penso sobre o filme, mais vejo o reflexo da nossa sociedade nas entranhas dessa grande casa grande.

 

Cine Garimpo – Gosto do recorte feito da sociedade brasileira em Casa Grande: a classe abastada é mais distante, mascarada e resistente à mudanças; os empregados são afetivos, são mais espontâneos, adaptam-se com mais facilidade à nova realidade. Como você vê isso? Isso é exclusivo da nossa sociedade acostumada com a servidão de uns a favor dos outros?

Fellipe Barbosa – Tem um certo romantismo nessa leitura de que os afetos reais estão entre os empregados ou na favela. Talvez eu seja um romântico. Mas creio que o dinheiro em excesso acaba sufocando os afetos, e que a felicidade não tem nada a ver com a riqueza, muito pelo contrário. Isso não é exclusivo do Brasil, senti muito isso viajando pela África também. O que é particular do Brasil é essa cordialidade alienada, onde os patrões são extremamente próximos dos empregados, os tratando como parte da família, e ao mesmo tempo completamente ignorantes da sua realidade, o que não torna o afeto menos real. Essa contradição é muito brasileira, e é o motivo do pranto de Jean ao reencontrar Severino na favela: a vergonha da própria ignorância, sua culpa burguesa. Nos últimos 12 anos no Brasil houve uma tomada de consciência dos empregados sobre o lugar que ocupam na casa grande, acompanhada pela consciência de seus direitos. A Pec das domésticas de 2012 foi uma evidência desse despertar, que é irreversível e resistirá à qualquer crise.

 

CG – Tenho um interesse particular no comportamento dos adolescentes, porque meus dois filhos estão passando por essa fase agora. O filme junta o questionamento natural da adolescência com questões familiares impossíveis de serem respondidas ou solucionadas. Com isso, senti que os conflitos ficam ainda mais nebulosos: lidar com o preconceito dos pais, com a diferença de classes, com o distanciamento afetivo entre pais e filhos, com a pressão da sociedade com as escolhas profissionais. O filme foi estruturado na figura do Jean como alicerce para todos os conflitos ou pensou-se na crise familiar como um todo e os personagens foram sendo delineados à medida em que a trama foi se desenrolando?

FB – Eu pensei a trama ao redor de Jean, sem dúvida. O filme conta a estória desse adolescente diante da encruzilhada do vestibular, que vai tornando-se mais presente e atento à medida que a família vai a falência. Como a família esconde a crise do filho a fim de protegê-lo, o filme precisava ter acesso aos outros personagens da casa para entender o que está sendo escondido de Jean. Ou seja, para ter ironia dramática, o filme precisava saber mais do que Jean. Assim, o ponto de vista na casa é da casa: podemos estar com qualquer personagem, mesmo que sem o Jean. Mas só saímos de casa com o Jean. Assim, o filme é uma espécie de comédia de costumes no interior da casa e um romance de formação no trajeto entre casa e colégio, pois é no ônibus que Jean conhece Luiza.

 

CG – Costumo assistir às cabines de imprensa sabendo muito pouco sobre o filme. Não me aprofundo, não leio resenhas, nem releases das assessorias. Assim, tento ser mais isenta e mais fiel aos meus sentimentos e sensações durante a sessão, inclusive para escrever meu comentário depois. Tudo isso pra dizer que quando fui assistir a Casa Grande, não conhecia o enredo. Mas o título já me remeteu à Casa Grande & Senzala, ao preconceito, à diferença de classes, à sociedade estratificada, ao racismo, à valorização excessiva do poder econômico. Como surgiu esse nome? Alguma relação explícita à obra de Gilberto Freyre ou só uma citação?

FB – Esse título surgiu nos laboratórios de Sundance, onde trabalhei o roteiro em 2008. Antes o filme de chamava “Cotas”, e Sundance insistiu que eu mudasse. Intuitivamente sugeri “Casa Grande”, e eles gostaram. Meu desafio a partir daí foi encontrar uma imagem que estivesse à altura do título. E assim surgiu a abertura do filme, que é uma descrição minuciosa dessa casa que é de fato muito grande. No filme, o literal vem sempre antes do simbólico. Mas é inegável que existe uma relação com a obra de Freyre. Após mudar o título, fui percebendo que as cotas raciais deveriam ser mais um pano de fundo — mais uma ameaça à essa família rica — e a relação entre empregados e patrões deveria ficar em primeiro plano. E assim estruturei o filme em torno de três demissões.

 

CG – Gosto muito da escolha dos atores: Marcello Novaes e Suzana Pires estão ótimos no papel do casal falido, que está mais preocupado com o que os outros vão pensar, do que em começar a resolver os seus sérios problemas. Thales Cavalcanti é o grande alicerce do filme e faz o papel com muita força. Vi que é seu primeiro longa. Como ele foi descoberto e como foi a sua preparação para assumir esse trabalho?

Creio que Sônia (vivida por Suzana Pires, grande parceira minha) é uma personagem bem pragmática, disposta a encarar a realidade e resolver os problemas. Quando vem a crise, ela arregaça as mangas, engole o orgulho e começa a vender cosméticos para sustentar a família.

Quanto ao Jean, o descobri no Colégio de São Bento, onde se passa a ação, assim como todos os outros adolescentes do filme. Acreditava que a maneira mais justa de retratar esse ambiente tão específico do único colégio só para homens no Brasil, precisava trabalhar com meninos de lá. Busquei o grupo ideal ao invés do Jean ideal, e nesse grupo apareceu o Thales. Era uma turma muito carismática e curiosa, e vários deles eram músicos que inclusive compuseram as músicas que eles tocam no filme. O Thales emprestou uma característica dele muito importante para o personagem: uma ingenuidade e sinceridade à flor da pele, que torna sua jornada de amadurecimento e tomada de consciência mais dilatada e dramática.

 

DIREÇÃO: Fellipe Barbosa ROTEIRO: Fellipe Barbosa, Karen Sztajnberg ELENCO: Marcello Novaes, Suzana Pires, Thales Cavalcanti, Clarissa Pinheiro, Marília Coelho, Bruna Amaya | 2015 (115 min)

 

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QUE MAL EU FIZ A DEUS? Qu’est-ce qu’on a fait au Bon Dieu? (Varilux)
CLASSIFICAÇÃO: Para se Divertir, França, Especiais, Comédia - 18/06/2015

Agora entendo por que esta comédia levou 12 milhões de pessoas ao cinema e se tornou o filme de maior sucesso na França em 2014. Divertidíssimo, é a cara do território francês hoje (e também da Europa): uma mistura de raças, cores e tradições, em todas as camadas da sociedade. Quem dera tudo fosse visto com esse bom humor!

Claude e Marie Verneuil são um casal católico e tradicional, que deseja um bom casamento para cada uma de suas quatro filhas. Com tudo o que têm direito. Mas as coisas não saem como planejado e suas lindas herdeiras se casam com um judeu, um muçulmano, um chinês e um africano. Negro.

Os diálogos são engraçados, o elenco é rico e abundante, e a temática, divertidíssima. Pra quem ainda acha que cinema francês é pesado e escuro, voilà!

 

DIREÇÃO: Philippe de Chauveron ROTEIRO: Philippe de Chauveron, Guy Laurent  ELENCO: Christian Clavier, Chantal Lauby, Noon Diawara, Ary Abittan, Medi Sadoun, Frédéric Chau, Frérérique Bel, Julia Piaton, Emilie Caen, Elodie Fontan | 2014 (97 min)


Confira os horários da repescagem no site do Festival Varilux.

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GAROTAS – Bande de Filles
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Garimpo na Locadora, França, Drama - 05/05/2015

Outro dia mesmo garimpei filmes sobre adolescência. Selecionei produções de nacionalidades e realidades bem distintas, mas é curioso notar que essa fase é igual em qualquer canto. Só muda o endereço. As questões sobre sexualidade, autoafirmação, aceitação pelo grupo, bullying são universais. Até assusta. Não entrou na minha lista o ótimo Entre os Muros da Escola, que mostra a realidade de uma escola na periferia de Paris, que recebe principalmente filhos de imigrantes. Agora que assisti a Garotas, da francesa Céline Sciamma, esse filme de Laurent Cantet não me sai da cabeça.

Cantet, que venceu a Palma de Ouro em Cannes com Entre Les Murs, é diretor também de Foxfire – Confissões de uma Gangue de Garotas. Como o nome já diz, é sobre meninas adolescente, suas gangues e seus objetivos escusos, que definem seu território de atuação, preparam-se sem medo para enfrentamentos e são capazes de tudo para marcar território. Uma juventude que transgride e não quer nem saber de comprar a passagem de volta. Gangue de Garotas é como deveria chamar este novo filme da cineasta Céline Sciamma, e não só Garotas. Acho até interessante a escolha feita pela distribuidora no Brasil – talvez seja na tentativa de não descriminar o grupo, de dar a ele um viés humanista, quase que uma chance em meio a tanta audácia.

Garotas é uma produção escrita e dirigida por uma mulher, que fala sobre mulheres, mas é para todos, sem exceção. Estamos mais acostumados a ver no cinema relatos de gangues masculinas, recheados de violência e intimidação destemidas. Quando entra no feminino, a ousadia passa pela vaidade, pela beleza, pelo desejo da maternidade, pela dúvida em deixar a família. Em Garotas, Céline faz isso: mostra o ciclo vicioso da vida na periferia, do desinteresse pela educação, do subemprego, do dinheiro fácil, do crime e da prostituição nas comunidades negras que vivem em guetos fora de Paris. Filhos de imigrantes que sofrem com toda a questão racial que transtorna a Europa e que deixa as autoridades cada vez mais perturbadas e sem saber como agir, os jovens se sentem carta fora do baralho e são presas fáceis para os espertinhos aliciadores, agiotas e gigolôs de plantão. A diretora constrói tudo isso através de um grupo de jovens populares, que cativa uma menina mais frágil e suscetível, dá a ela as ferramentas para sair da caretice da família e se dar supostamente bem.

A gente não precisa ir muito longe para transportar essa realidade dos guetos raciais, do preconceito, da dificuldade de absorção do imigrante e suas diferenças culturais na sociedade. Basta olhar para nós mesmos. Garotas tem um contraste bonito entre a convicção do sonho e a dureza da realidade na figura das meninas – há, inclusive, cenas lindas envoltas pela trilha sonora escolhida a dedo. Sensível, assim como fez em Tomboy (também muito bom), Céline Sciamma tem realmente talento em mostrar o jovem nas suas peculiaridades, no contexto da minoria, na tentativa de escrever sua própria história. Diz respeito a todos nós.

 

DIREÇÃO e ROTEIRO: Céline Sciamma ELENCO: Karidja Touré, Assa Sylla, Lindsay Karamoh, Mariétou Touré, Idrissa Diabaté, Simina Soumaré | 2014 (113 min)

 

 

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LIBERTEM ANGELA DAVIS – Free Angela and All Political Prisoners
CLASSIFICAÇÃO: Para Entender o Nosso Mundo, Garimpo na Locadora, Documentário, Biografia - 12/03/2015

Por Eduardo Lucena

No meio de tantas estreias nos cinemas toda semana, é difícil ter espaço para documentários que, quando conseguem uma brecha na programação, entram e saem de cartaz em poucas semanas. Eventuais lançamentos do gênero em DVD acabam sendo uma forma de conhecer e apreciar trabalhos importantes, e de relevância histórica, como Libertem Angela Davis.

Escrito e dirigido por Shola Lynch, o filme reconstitui parte da trajetória da ativista Angela Davis em sua luta pelos direitos civis dos negros, nos anos 1960 e 70. Afro-americana nascida no Alabama, Angela estudou filosofia em Frankfurt, na Alemanha, e retornou aos EUA em 1967. Dois anos depois, sua admissão como professora de filosofia na renomada UCLA (Universidade da Califórnia em Los Angeles) deflagra uma crise na instituição, transformando-a  em alvo do FBI e até de Ronald Reagan, então governador da Califórnia e ferrenho opositor do comunismo.

Demitida da universidade, em razão de seu envolvimento com o Partido Comunista dos EUA e com o grupo radical Panteras Negras, Angela ainda viria a ser, como o espectador verá mais tarde, incluída na lista dos 10 fugitivos mais procurados do FBI, além de ser chamada de “perigosa terrorista” pelo presidente Richard Nixon.

Hoje com 71 anos, Angela é quem narra o documentário, composto por imagens de arquivo, depoimentos dos envolvidos na época e encenações com atores. Se na primeira parte acompanhamos a imersão dela nos movimentos civis, na segunda metade o filme investiga a sua prisão e julgamento, em 1970. O ataque frustrado de um jovem ligado aos Panteras Negras termina com a morte de um juiz, implicando Angela, já que as armas usadas na tragédia estavam registradas em seu nome.

Foragida da justiça, ela vai a julgamento, acusada de conspiração, sequestro e assassinato, passíveis de pena de morte. Começa então uma longa batalha judicial à la Davi versus Golias, na qual Angela representa o indivíduo em luta contra as injustiças do Estado. O resultado do julgamento (e suas consequências), o espectador vai saber apenas no final.

O documentário peca apenas pelo tom “chapa-branca” de sua denúncia, não dando voz a representantes das autoridades americanas, e também por não questionar o radicalismo dos Panteras Negras. Contudo, os depoimentos emocionados da biografada e as poderosas imagens de arquivo – como uma gravação de Nixon ao lado de J. Edgar Hoover anunciando a prisão de Angela, ou fotos de negros sendo espancados – causam indignação e falam por si só. Reverberam até hoje, quando vemos sucessivos (e flagrantes) casos de racismo ocorrendo não só nos EUA, mas em todo o mundo. Ao menos, Angela, diferentemente de Malcolm X e Martin Luther King (lembrado recentemente no filme Selma), sobreviveu para contar sua história.

 

DIREÇÃO e ROTEIRO: Shola Lynch  ELENCOAngela Davis, Eisa Davis | 2012 (102 min)

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FRUITVALE STATION – A ÚLTIMA PARADA – Fruitvale Station
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Garimpo na Locadora, Drama, Biografia - 02/04/2014

Não tem como não lembrar da história do brasileiro Jean Charles de Menezes, assassinado por engano no metrô de Londres em 2005. Rendeu até filme, está aqui no blog, Jean Charles. A história é muito parecida: um sujeito é injustamente morto no metrô, sem que ao menos tivesse direito a defesa. Assassinato a sangue frio. Por policiais. A cena é filmada por alguns dos usuários do metrô, o que não deixa dúvida sobre a culpa da polícia.

O brasileiro foi confundido com um terrorista, que estava sendo procurado em Londres. O americano não. Foi agredido no metrô na noite de ano novo, por ex-colegas de prisão. Sim, havia passado uma temporada preso anteriormente, mas estava decidido a mudar de vida, firmar-se num emprego e cuidar da família. Leva uma surra, a polícia de Oakland, Califórnia, é acionada, a turma encurralada na estação de metrô Fruitvale. Todos negros, sob a pistola de policiais brancos. Confusão, protestos  de que não tinham culpa de nada e um tiro. Atinge Oscar Grant III. 22 anos, pai de uma menina de quatro. Ele não resiste, morre no hospital.

Embora de dimensões semelhantes, Fruitvale Station – A Última Parada é um filme superior, sem dúvida. Michael B. Jordan como Oscar e Octavia Spencer, na pela de sua mãe, conseguem transmitir a intensidade do drama que deve ter sido aquela madrugada – e os anos anteriores a ela, em que o rapaz tentava reconstruir a vida. O lance do preconceito versus a simplicidade de Oscar e sua genuína gentileza é cruel e se torna ainda mais dramático à medida que sabemos que isso é a pura verdade. Frutivale Station foi premiado no Sundance Festival e exibido na categoria de Cannes que eu gosto mais, Um Certo Olhar (Un Certain Regard). E tem mesmo, um olhar dramático, humano, sensível, amoroso e  realista, mostrando como a mente perversa e conturbada das pessoas funciona. E o tamanho do abismo social que existe.

 

DIREÇÃO e ROTEIRO: Ryan Coogler ELENCO: Michael B. Jordan, Melonie Diaz, Octavia Spencer| 2013 (85 min)

 

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