DIREÇÃO: Mohamed Diab
ELENCO: Nelly Karim, Bushra, Maged El Kedwany, Ahmed El Fishawy, Bassem Samra, Sadwan Badr
Egito, 2010 (100 min)
Esta semana foi premiado com o Oscar de melhor filme estrangeiro o ótimo A Separação, que não só traz à tona a realidade da cultura islâmica no Irã como um todo nas suas relações familiares e sociais, como ressalta a condição da mulher muçulmana nos países em que o Alcorão é interpretado de forma extremamente machista, gerando distorções sociais e humanitárias absurdas. Cairo 678 é mais um filme sobre o tema que, como já tenho dito em outras matérias sobre produções sobre a cultura árabe, ajuda a jogar um facho de luz sobre essa realidade incompreensível, porém absolutamente atual e real no mundo islâmico, presente diariamente na mídia graças à Primavera Árabe, que sacudiu o norte da África desde o ano passado, politica, econômica e culturalmente.
Só que Cairo 678 trata de um assunto específico, incômodo (principalmente para mulheres) e de difícil solução. Mulheres são molestadas sexualmente à luz do dia, nas ruas, nos transporte público lotados (daí o título Cairo 678, uma referência ao número da linha de ônibus). Não fazem denúncias porque obviamente sentem vergonha e seriam renegadas pelo marido, pai, irmãos. E para completar, teriam de submeter sua queixa ao poder policial, sempre sob tutela masculina. Como é possível denunciar algo a alguém que entende que o crime é legítimo? Sem recursos, nem suporte jurídico em países teocráticos, as mulheres egípcias são vítimas impotentes nas mãos e na cultura dessa sociedade.
O interessante do filme, baseado em histórias reais, é que as vidas dessas três mulheres de classe sociais distintas se cruzam por algo que transcende o poder econômico, social, educacional. Cruzam-se porque tratam da honra, do respeito, do livre arbítrio, da liberdade de ir, vir e pensar. Aqui fica claro que mesmo a classe egípcia abastada, instruída, viajada e profissionalmente bem posicionada também não consegue se livrar dessa educação da obediência e subserviência a que são submetidas as mulheres.
Seba, uma empresária rica e bonita, casada com um médico muito bem posicionado, é violentada durante a comemoração da vitória da seleção egípcia de futebol, evento essencialmente masculino; Fayza é uma dona de casa submissa e simples, que se incomoda com a abordagem física do marido e sofre todos os dias com o assédio sexual nos ônibus lotados da cidade; Nelly é de classe média, batalhadora e contestadora, que sonha em ser comediante como o noivo. Mas ambos têm que trabalhar em setores “de prestígio” para serem aceitos nas respectivas famílias. Ela também sofre abuso sexual e consegue criar coragem para depor, denunciar e processar o criminoso. É nesse contexto que elas se conhecem, com Seba liderando um grupo de mulheres vítimas da violência sexual, que precisam aprender perder o medo, ter coragem e se defender dos abusos e da falta de respeito.
Cairo 678 algumas vezes parece documental – e acredito ser de fato. São histórias reais muito fortes, que vão na direção completamente oposta à maneira milenar de pensar do povo egípcio muçulmano. Agora que a revolução contra os líderes corruptos e déspotas iniciou algumas transformações, mesmo que mínimas, no campo religioso, social e comportamental nos países islâmicos do norte da África, a manifestação de cineastas como Mohamed Diab são valiosíssimas. É para dizer para o mundo que desse jeito não dá. Que não se trata de tirar o véu, se despir das tradições e preceitos religiosos. Também não se trata de um simples “grito feminista”, mas sim de encontrar uma maneira de viver com dignidade e respeito. Básico, não?
ELENCO: André Wilms, Blodin Miguel, Jean-Pierre Darroussin
Finlândia, França – 2001 (93 min)
Nos cinemas: 02 de março
Começo pelo tema, que é cada vez presente, importante e difícil de equacionar. Lidar como fluxo contínuo de imigrantes africanos em terras europeias tornou-se uma questão social, política e econômica complexa demais. Estamos falando mais especificamente das cidades portuárias da França, portas de entrada também para a Inglaterra. O chamado contrabando humano e as migrações de famílias inteiras expõem essas pessoas ao desemprego, à falta de moradia e ao preconceito sem igual. Ainda mais em época de crise como a atual na Europa.
O Porto (referindo-se à cidade portuária de Le Havre, na Normandia) trabalha basicamente com essa questão. Mas de uma forma ingênua, que soa muitas vezes totalmente irreal – parece até fábula. Talvez tenha sido essa a intenção do autor, de mostrar uma sociedade idealizada, em que é possível haver compaixão e acolhimento, sem esperar nada em troca. Confesso que no decorrer do filme esse ritmo inexpressivo de alguns personagens, como do ex-escritor e atual engraxate, Marcel Marx, um senhor de bom coração, que cuida da mulher doente, é amigo dos vizinhos, está cheio de problemas mas mantém a cabeça erguida e o otimismo. É ele que se indigna com o tratamento que a mídia dá à família de refugiados do Gabão, encontrados em um conteiner no porto da cidade, e com a perseguição ao garoto Idrissa (Blodin Miguel), cujo desejo é embarcar para Londres para encontrar-se com a mãe. Enquanto Marcel opta por desafiar as autoridades e ajudar o garoto, a amizade entre os dois se estabelece, numa situação um pouco improvável, eu diria. Tudo muito dentro dos conformes demais. Até o policial, feito pelo ator Jean-Pierre Darroussin (também em Conversas com meu Jardineiro, As Neves do Kilimanjaro) parece ser conivente com a situação.
Acho que esse clima é construído propositalmente e que O Porto, que ganhou o prêmio da crítica em Cannes no ano passado, tem sua razão de ser pelo tema que aborda. Mas também confesso que dois outros filmes sobre “imigração ilegal” abordam o assunto de maneira mais verdadeira e tocante, ambos já em DVD. Já citei algumas vezes Bem-Vindo, com Vincent Lindon. Adoro este filme, que também mostra a realidade na cidade portuária de Calais e o relacionamento entre um professor de natação e um garoto curdo refugiado. Outro é O Visitante, que mostra os imigrantes senegaleses e sírios na Nova York após 11 de setembro. Ambos têm um apelo forte à essa improvável amizade e relação de respeito, que vai mudar a vida das pessoas envolvidas para sempre. E são mais realistas, sensíveis, sem a atmosfera teatral de O Porto.
Importante enquanto reflexão e rico em histórias de vida, o tema imigração na Europa em forte crise é sempre pauta do dia. É sensível, desperta simpatia e compaixão, a vontade de conviver numa sociedade ideal, mas minha dica é correr para a locadora e não deixar de conferir Bem-Vindo e O Visitante, se o tema interessar. São mais realistas, e nem por isso menos humanos.
ROTEIRO: Gleen Close, John Banville
ELENCO: Gleen Close, Janet McTeer, Mia Wasikowska, Aaron Johnson, Pauline Collins, Mary Doyle Kennedy
Inglaterra, Irlanda, 2011 (113 min)
Que opção tem uma mulher pobre, sem recursos, família, herança, senão ser homem na Irlanda machista e católica do fim do século 19? Ficamos sem saber o nome dessa órfã, que vê na oferta de emprego como garçom em um hotel a oportunidade de sobreviver dignamente na cidade de Dublin. Assim surge Albert Nobbs, que assume o papel do sério, dedicado e austero funcionário de um badalado hotel, na pele da simplesmente fantástica Gleen Close. Não se trata de se vestir de homem, mas sim de incorporar a postura, gestos, expressões masculinas, ainda que tenha um toque assexuado. Quase não se percebe a linha que separa os dois mundos, mas a impressão que dá é de um homem ao mesmo tempo determinado e frágil, introspectivo e carente. Impecável maquiagem, impecável interpretação.
Albert Nobbs, no auge da sua elegância, conhece Hubert Page (Janet McTeer) e seus segredos se mesclam numa história só. Hubert também é uma mulher que se passa por homem, por motivos distintos porém semelhantes do que diz respeito à aceitação, oportunidade, trabalho. Concorrendo ao Oscar de melhor atriz e atriz coadjuvante respectivamente, Gleen Close e Janet McTeer dão um show, deixando Helen, vivida por Mia Wasikowska (também em Alice no País das Maravilhas, Minhas Mães e Meu Pai, Inquietos) bem para trás. Mas é por ela que Albert Nobbs se apaixona à sua maneira e é com ela que planeja mudar de vida, abrir seu próprio negócio e ter autonomia.
Não é filme para o grande público. Ainda mais em época em que grandes lançamentos ocupam muitas salas de cinema. Mais lento e o que eu chamaria de “filme de observação” (não perca um só gesto do gentil e minucioso Nobbs), Albert Nobbs tem uma beleza estética marcante, mas também humana. Mesmo na Dublin desumana, assolada pela tifo dos piolhos e pelo desemprego daquele fim de século.
ROTEIRO: Tate Taylor, Kathryn Stockett
ELENCO: Emma Stone, Viola Davis, Octavia Spencer, Bryce Dallas Howard, Jessica Chastain, Ahna O’Reilly, Allison Janney, Sissy Spacek
Estados Unidos, 2011 (146 min)
Nos cinemas: 03 de fevereiro
A Cor Púrpura, de Steven Spielberg, é um filme excelente e ótima introdução ao tema sobre o racismo no sul dos Estados Unidos. Conta a história de Celie, no estado da Georgia no começo do século 20, e de sua condição de “negra, pobre e mulher”, como ela mesma diz no filme, que vai ter suas consequências até os dias em que Histórias Cruzadas é ambientado. Aliás, consequências que continuam presentes até os dias de hoje, o que faz deste filme uma história bastante interessante, atual, presente na cultura brasileira e que portanto pode dar muito pano pra manga nas conversas sobre preconceito, sociedade, desigualdade e sobre o pré-julgamento que fazemos das pessoas.
Não é exatamente um filme para se ver em família, do tipo “diversão e entretenimento”. Mas é sim para ver em família com os filhos e discutir, trazer para o presente. E funciona, eu testei. Em Histórias Cruzadas estamos no Mississipi nos anos 60, quando começa a luta pelos direitos humanos e trabalhistas dos negros, mas as diferenças originárias da cultura escravocrata e servil das décadas anteriores ainda alimentam o preconceito, as desigualdades sociais e o desrespeito em relação aos negros. Negras, melhor dizendo, aquelas que vivem nas casas das famílias abastadas, cuidando e criando seus filhos, empregadas assim como suas mães e avós escravas.
The Help se refere às ajudantes domésticas, que eram chamadas dessa forma. Por isso o título original, que mais uma vez ganha uma adaptação um tanto quando vazia, mas que remete às histórias que são cruzadas e contadas pela jovem jornalista Skeeter (Ema Stone, também em Amor a Toda Prova). Criada por uma empregada negra por quem nutre muito carinho e gratidão, não se conforma com o fato de ela ter sido despedida pela mãe depois de quase 30 anos de serviço. Não se conforma também com a postura de suas amigas que maltratam descaradamente as empregadas que tanto se dedicam e ajudam nas tarefas da casa e principalmente na criação de seus filhos. Apesar da resistência e do medo de represália (por se tratar de um estado com leis racistas), Skeeter consegue reunir os depoimentos de duas moças, Aibileen (Viola Davis, também em Dúvida, Comer, Amar, Rezar) e Minny (Octavia Spencer, também em O Solista) para começar a escrever o livro com essas histórias de vida.
Baseado no livro A Resposta de Kathryn Stockett, Histórias Cruzadas concorre ao Oscar de melhor filme, melhor atriz com Viola Davis (espetacular!), atriz coadjuvante com Octavia Spencer (já venceu o Globo de Ouro) e Jessica Chastain (também em A Árvore da Vida). Portanto, um elenco aclamadíssimo (tem também a ótima Sissy Spacek) escolhido pelo diretor Tate Taylor, amigo pessoal da autora. Vale a pena ver, ainda mais diante da realidade brasileira também de herança escravocrata e ainda preconceituosa.
Pode não ser um filmaço, daqueles que a gente se curva diante de todas as suas facetas; pode ser “arrumadinho” demais, ter um “estilo novela” em que todos os elementos, até os mais improváveis da produção, estão nos devidos lugares; pode não emocionar tanto quanto o tema seria capaz (embora seja capaz de roubar boas lágrimas pela identificação com o assunto); pode não ser tão cuidadoso com a realidade estética quanto o livro, como dizem por aí. Mas é um filme essencialmente sobre o comportamento humano, sobre as dificuldades de construir sociedades igualitárias, de lidar com os próprios preconceitos e de se liberar desse sentimento de superioridade que o passado deixa enraizado.
DIREÇÃO: Martin Scorcese
ROTEIRO: Melissa Mathison
ELENCO: Tenzin Thuthob Tsarong, Gyurme Tethong, Tulku Jamyang Kunga Tenzin
Estados Unidos, 1997
Kundun significa “A Presença”. Era disso que os tibetanos precisavam quando foram invadidos violentamente pela China em 1950, quando o governo comunista de Mao queria banir a religião (considerada um veneno), expulsar os monges, proibir o culto e “libertar” os tibetanos do imperialismo. Incrustrado no Himalaia, o Tibete pediu ajuda internacional para não sucumbir ao poderio chinês, clamou pelo reconhecimento como região autônoma, mas não obteve ajuda. A presença de espírito do 14º Dalai Lama (então com 15 anos) diante do conflito, faz com que adote uma postura de não-violência, mesmo quando vê milhares de camponeses serem mortos pelas tropas do Partido Comunista, quando presencia a invasão de Lhasa e o sofrimento do povo. Mas corre risco de vida e não resiste – acaba fugindo com outros líderes religiosos para a Índia em 1959 respaldado pelo primeiro-ministro indiano na época, Jawaharlal Nehru, e instala ali o governo tibetano no exílio.
Além de extremamente bem cuidado e minucioso, o filme de Martin Scorcese (também em Ilha do Medo) retoma um importante conflito regional, esquecido nas remotas montanhas do Himalaia, mas que tem suas consequências até hoje. Retoma as tradições tibetanas da procura pelo Lama (mestres budistas tibetanos), que eles acreditam ser a reencarnação do Buda da Compaixão, da sua educação dentro dos palácios do Tibete e a interrupção dessa tradição pela ganância chinesa. Vivendo até hoje em Dharamsala, saiu pela primeira vez da Índia em 1967 para lutar pelos direitos humanos, recebeu o prêmio Nobel da Paz em 1989 por sua postura pacífica e desde então percorre o mundo pregando a não-violência e da tolerância.
Os conflitos no Tibete continuam até hoje. Monges tiram a própria vida queimando o corpo em praça pública para protestar e chamar a atenção da comunidade internacional, enfrentam os soldados chineses, pedindo a volta do Dalai Lama ao Tibete e a liberdade religiosa e cultural. Kundun é um importante e lindo registro de um momento histórico que ainda ganha as manchetes dos jornais com notícias de massacres e tensão entre as partes. É um daqueles filmes, assim como Gandhi, que valem ser vistos, não só pela qualidade cinematográfica irretocável, mas também para entender o nosso mundo.
ROTEIRO: Alfred Uhry
ELENCO: Jessica Tandy, Morgan Freeman, Dan Aykroyd
Estados Unidos, 1989 (99 min)
Ao escrever sobre O Último Dançarino de Mao, em cartaz, me dei conta de que Bruce Beresford também dirigiu Conduzindo Miss Daisy. Vencedor do Oscar de melhor atriz para Jessica Tandi (também em Tomates Verdes Fritos), melhor filme e roteiro adaptado, é infinitamente melhor e mais profundo do que o filme sobre o bailarino chinês (não estou desmerecendo, mas são produções de patamares totalmente distintos, veja o comentário no link do filme).
Mas isso foi em 1989 e no auge dos meus 19 anos não fui capaz de sentir a profundidade dessa obra, nem da amizade entre o motorista negro e a patroa judia. Não como hoje. Além do fator óbvio da idade, o que está em jogo aqui é a vivência. Entender que uma amizade se constrói nas diferenças e respeito mútuo é algo possível se vivido. Sem querer que isso pareça um discurso moralista, daqueles que enaltecem a experiência de vida, é verdade que com 20 e tantos anos a mais Conduzindo Miss Daisy me tocou fundo, não como um triste relato da velhice que chega inclemente, arrebata quem vê pela frente e dá um fim em vidas muitas vezes mal vividas, mas como uma homenagem à tolerância, uma prova de que ela compensa, de que os diversos se complementam nas características, no temperamento, nas trocas de experiências. Lembra o belo filme francês Minhas Tardes com Margueritte, com Gérard Depardieu e Gisèle Casadesus (também recomendo).
Para quem não viu, Miss Daisy é uma senhora judia viúva totalmente ativa, independente e muito dona de si, que vive seus 70 anos sozinha em uma casa grande e confortável no estado da Georgia, da maneira que lhe convém. Vai onde quiser, na hora que quiser, sem que seja preciso pedir permissão a ninguém. Até que se mete em um acidente e seu filho Bollie (Dan Aykroyd) se convence de que a mãe precisa de um motorista. Sob protestos, Hoke (Morgan Freeman, também em Invictus, Winter, O Golfinho) é contratado para acompanhá-la e, aos poucos, vai conquistando a confiança de Miss Daisy, até realmente fazer parte da sua vida.
Conduzindo Miss Daisy é uma emoção do começo ao fim. Toca também no ponto do preconceito, numa Georgia ainda tomada pelo racismo. Uma judia e um negro, numa bonita e emocionante reverência à amizade. A parte da velhice… deixe pra lá. Também emociona, mas traz um alento, talvez seja o do envelhecer compartilhado. Mas ele não vem por acaso, nem de uma hora para outra. É preciso uma vida toda de dedicação à amizade. Nunca é tarde para começar…
DIREÇÃO: Gilles Paquet-Brenner
ROTEIRO: Gilles Paquet-Brenner, Serge Joncour, Tatiana De Rosnay (livro)
ELENCO: Kristin Scott Thomas, Mélusine Mayance, Niels Arestrup, Fréderic Pierrot, Michel Duc
haussoy, Dominique Frot, Natasha Mashkevich, Gisèle Casadesus, Aidan Quinn
França, 2010 (111 min)
Diante de tantas histórias, relatos, filmes, documentários sobre o Holocausto, difícil criar algo novo no cinema que emocione real e profundamente de uma maneira singular. Por isso, digo sem medo de errar: A Chave de Sarah tem uma história forte e emocionante, um elenco talentosíssimo e transita entre passado e presente, dando o ritmo de suspense e descoberta, que são a alma deste filme.
Produção selecionada para a abertura do 15º Festival de Cinema Judaico exibido em agosto passado em São Paulo, tem um elenco liderado pela espetacular Kristin Scott Thomas (também em Há Tanto Tempo que Te Amo, Partir, O Paciente Inglês, O Garoto de Liverpool), no papel da jornalista Julia. Também conta com Niels Arestrup (também em O Profeta, O Escafandro e a Borboleta, De Tanto Bater Meu Coração Parou) e Gisèle Casadesus (também em Minhas Tardes com Margueritte) - claro que isso faz toda e qualquer diferença na naturalidade e segurança da atuação, e consequentemente no envolvimento que nós, espectadores, temos com o filme. Neste caso, confesso que é total.
Pautada para desenvolver uma matéria sobre a prisão em massa de judeus no velódromo de Paris, o Vélodrome d’Hiver (apelidado de Vel d’Hiv), pelo governo colaboracionista francês em 1942, Julia começa sua apuração e se envolve com o caso mais do que poderia imaginar. Naquela ocasião, mais de 13 mil judeus foram presos e depois deportados para os campos de concentração, entre elas a família de Sarah, moradora do bairro parisiense do Marais, cuja vida vai ser a espinha dorsal de toda a história.
O que acontece entre Sarah (Mélusine Mayance, também em Ricky) e Julia é um entrelace tão doloroso quanto profundo, capaz de alterar o rumo de várias vidas. Além de me emocionar pelos horrores da guerra e das perdas, A Chave de Sarah me tocou profundamente pelo poder que tem o desvendar de uma história perdida no tempo, de uma verdade mascarada, de uma vida pouco conhecida. Se eu disser algo mais, caio inevitavelmente no sentimentalismo, que não é em absoluto o foco do filme. Esta produção é extremamente humana e tocante e não nos deixa sair do cinema ilesos.
Estreia nos cinemas dia 18 de novembro.
ROTEIRO: Taylor Hackford, James L. White
ELENCO: Jamie Foxx, Regina King, Keery Washington, Clifton Powell, Harry J. Lennix, Bokeem Woodbine, Aunjanue Ellis, Sharon Warren, C.J. Sanders
Estados Unidos, 2004 (152 min)
Posso apontar várias razões pelas quais vale a pena assistir – ou rever – Ray. A começar pelo óbvio: quem gosta das músicas que eternizaram a voz e o estilo de Ray Charles vai se deliciar. Jamie Foxx (também em Quero Matar Meu Chefe, O Solista), vencedor do Oscar de melhor ator pelo papel, canta e interpreta com perfeição Georgia on My Mind, I’ve Got a Woman, Hit the Road Jack, Unchain My Heart, I can’t Stop Loving You, entre outras, com direito aos trejeitos do verdadeiro Ray.
Num segundo momento, mas não menos importante se você for como eu e gostar quando o cinema faz o retrato de uma época, Ray relata a vida do cantor, músico e compositor desde sua infância pobre em Georgia, a relação forte com a mãe, o sentimento de culpa pela morte do irmão, passando pela influência de Nat King Cole, mostrando seu estilo próprio no soul, gospel, jazz e R&B, viciando-se em heroína e em mulheres, lutando contra a segregação racial nos anos 50 e 60, até seu estrelado internacional. O filme mostra também sua trajetória pelas gravadoras, pelo racismo daquela época e pelas dificuldades por que passava por ser cego.
Belo e extremamente musical – não poderia ser diferente – é certamente um filme-homenagem. Há quem diga que quando Hollywood faz biografias é porque está sem ideias novas, sem criatividade. Ora, só pode ser intriga da oposição. A vida de Ray Charles é sim digna de um bom filme, com seus elementos fictícios e controversos, é verdade, mas nem por isso menos merecedor de todo respeito. Gostei do que revi, recomendo para quem ainda não viu. Faz bem para os ouvidos, tem uma produção muito cuidadosa e é uma história de vida no mínimo muito interessante.
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haussoy, Dominique Frot, Natasha Mashkevich, Gisèle Casadesus, Aidan Quinn



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