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LOUP – UMA AMIZADE PARA SEMPRE – Loup
CLASSIFICAÇÃO: Para Ver em Família, Para se Emocionar, França, Aventura - 19/05/2012

DIREÇÃO: Nicolas Vanier

ROTEIRO: Nicolas Vanier, Ariane Fert

ELENCO: Nicolas Brioudes, Pom Klementieff, Min Man Ma

França, 2009 (102 min)

 

“Os lobos não são amigos. Para isso existem os cachorros.”

A paisagem é espetacular. O ritmo, lento, contemplativo, monótono inclusive. Assim como deve ser o inverno numa região montanhosa da Sibéria. Mas não acho que isso seja empecilho, mas é preciso ir preparado. Falado em francês, Loup – Uma Amizade Para Sempre é um filme sobre a amizade entre um rapaz e os lobos siberianos, e não propriamente um filme de ação. É para ser apreciado, inclusive na narrativa singela e na cultura do povo nômade, que é, no mínimo, muito interessante.

Sergeï faz parte de uma família de nômades, que mora nas montanhas da Sibéria e tem como única fonte de sustento o rebanho de renas. A tradição familiar a é escolher, a cada verão, uma pessoa responsável pelo rebanho e por protegê-los dos lobos que vivem no mesmo habitat. Sergeï acata a missão, mas se depara com uma alcatéia cheia de lobinhos. Ao vê-los crescer, apega-se a eles e embora sejam ameaça constante ao patrimônio do clã, seu instinto é protegê-los e não matá-los como espera sua família. O conflito faz com que os personagens percorram diversas partes da montanha, no verão e no inverno, o que nos presenteia com a linda paisagem, inclusive a aurora boreal.

Loup tem o aspecto familiar, de apego e respeito aos animais que é sempre muito sensível. Assim como Winter – O Golfinho, Marley e Eu, Sempre ao Seu Lado. Mas Loup tem alguns trunfos, que são essa natureza inóspita, esses animais tão incomuns que são as renas, e o modo de vida desse povo tão diferente. Mas o diretor francês ressalta também aquilo que é igual na maneira de se relacionar, colocando a amizade e a família acima de tudo.

 

A PERSEGUIÇÃO – The Grey
CLASSIFICAÇÃO: Suspense, Para se Divertir, Estados Unidos - 10/05/2012

DIREÇÃO: Joe Carnahan

ROTEIRO: Joe Carnahan, Ian Mackensie Jeffers

ELENCO: Liam Neeson, Dermot Mulroney, Frank Grillo, Dallas Roberts, Joe Anderson, Nonso Anozie, James Badge Dale, Ben Bray

Estados Unidos, 2012 (117 min)

Achei que veria um filme de sobrevivência diferente. Tinha me impressionado com as críticas que diziam que percebíamos os ataque dos lobos somente pelos uivos e por seus olhos na escuridão do gelado Alaska. Que os animais mal eram vistos e que, portanto, o trabalho de sonoplastia era muito bom.

De fato, é bom mesmo. Pelo som da matilha de lobos, percebemos o nível do suspense prentendido pelo diretor. Mas, na maioria das vezes, em seguida os lobos aparecem sim e fiquei frustrada com esse argumento de que só os uivos criavam o clima de pavor vivido pelos personagens. Fora o detalhe interessante da sonoplastia, A Perseguição é mais um filme de sobrevivência após um trágico acidente de avião em que só 7 passageiros ficam vivos no meio da imensidão do território coberto de gelo e neve. O líder é Liam Neeson (também em 72 horas, Cruzada, A Lista de Schindler), exímio conhecedor do comportamento dos lobos, que ameaçam o grupo o tempo todo. Eles lutam contra o frio, a fome, o cansaço, as intrigas, as diferenças de temperamento, mas o filme não apresenta novidades.

Do gênero, gosto mais de Caminho da Liberdade – mais interssante, mais envolvente, uma história melhor. No fim das contas, não sei a que veio este título: se os sobreviventes é que perseguem o caminho para a improvável salvação, ou se são os lobos que perseguem os sobreviventes. Fato é que o título original é The Grey, referindo-se aos lobos cinzas que os ameaçam. Teria sido melhor manter algo parecido em português. Afinal, são eles os agentes da história.

EU RECEBERIA AS PIORES NOTÍCIAS DOS SEUS LINDOS LÁBIOS
CLASSIFICAÇÃO: Para Ver Bem Acompanhado, Drama, Brasil - 04/05/2012

DIREÇÃO: Beto Brant e Renato Ciasca

ROTEIRO: Marçal Aquino (livro), Beto Brant e Renato Ciasca

ELENCO: Camila Pitanga, Gustavo Machado, Zé Carlos Machado, Gero Camilo, Adriano Barroso, Antonio Pitanga

Brasil, 2011 (100 min)

Assumo a culpa – deveria ter chamado atenção para este filme, antes de ele minguar nos cinemas brasileiros. Uma pena. Cinema de qualidade, história boa, roteiro amarrado e interessante, elenco, lindo e competente. Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios, baseado no romance homônimo de Marçal Aquino, não vai durar muito em cartaz – nem o belo Xingu parece ter despertado o interesse das pessoas por algo diferente do enlatado campeão de bilheteria. Portanto, duas ótimas propostas para o fim de semana. Brasileiríssimas.

Li o livro há algum tempo e me lembro bem da sensação da intensa paixão entre Lavínia (Camila Pitanga) e Cauby (Gustavo Machado) e do calor intenso da região norte do Brasil, onde se passa a história. Ele é fotógrafo, forasteiro, de passagem na região para fotografar e registrar pessoas, cenas e denúncias de desmatamento e garimpo ilegal no Pará. Ela ex-prostituta resgatada das ruas pelo pastor Ernani (Zé Carlos Machado, também em Estamos Juntos), também ex-viciado e alcoólatra, que se ancora na recuperação de Lavínia e na salvação da sua própria alma através da palavra. Lavínia e Cauby vivem uma relação carnal, perigosa, em uma terra extremamente machista, em que a justiça é feita com as próprias mãos, ou através de matadores de aluguel.

Já foi bastante comentada a nudez de Camila Pitanga e as cenas de sexo do filme. Eu diria que o que chama mais atenção é a química entre os atores, a entrega e o real desespero diante dos fatos que o roteiro bem estruturado apresenta ao espectador. O filme é belo nesse sentido, o da entrega. Não é tarefa fácil conseguir tirar isso dos atores. Gostei demais. Tem um final doce, um sorriso de quem indica que valeu o sacrifício, a perda, a renúncia. Mas não é filme que atrai público, é sutil demais. Lavínia se divide entre a gratidão e a paixão pelo fotógrafo, entre a palavra e o corpo, entre a razão e a emoção de uma maneira forte e muito bem trabalhada. Gostei, cinema de qualidade.

 

TOMBOY
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, França, Drama - 10/02/2012

DIREÇÃO e ROTEIRO: Céline Sciamma

ELENCO: Zoé Héran, Malonn Lévana, Jeanne Disson, Sophie Cattani

França, 2011 (84 min)

Tomboy é o termo em inglês para meninas que se comportam e se vestem como meninos. Preferem a companhia de meninos, querem usar bermudas largas e camisetas, cortar o cabelo curto e optam pelas brincadeiras e jogos masculinos. É como se a menina desejasse ser menino – uma escolha fora dos padrões estabelecidos de comportamento, assim como ocorre também com meninos que se encantam com o universo feminino. Chamado Transtorno de Identidade de Gênero, faz com que a criança não se identifique com outras do mesmo gênero, o que pode causar dificuldade de aceitação, sociabilidade e problemas futuros de auto-estima. Tudo isso para dizer que, diante de uma questão tão complexa como essa, a diretora Céline Sciamma conseguiu tratar o assunto com uma delicadeza impar, sem qualquer julgamento de valor. Digna de ser vista, com toda a reflexão que ela gera sobre os conceitos de masculino e feminino, sobre a postura dos pais, as expectativas da sociedade, a chamada  harmonia entre sexo (genético) e gênero (construído).

O “tomboy” em questão é Laure (Zoé Héran, atuação impressionante), que se veste como menino, se comporta como tal e realmente finge, para pessoas que não o conhecem, que é um garoto. Cria uma nova identidade, um nome (Michaël), com a qual passa a se relacionar com as outras pessoas. No começo do filme, realmente dá a impressão de que Laure é um menino. Ainda mais diante da super feminina Jeanne (Malonn Lévana), sua irmã mais nova, que tem tiradas ótimas e engraçadas. O que começa com um jogo interno da própria Laure para integrar-se com a nova turma, para ser aceita, torna-se um beco sem saída. Claro que a mentira não pode ir muito adiante, mesmo com a ajuda e cumplicidade da espirituosa Jeanne e com o encanto que desperta na jovem Lisa.

É claro que os pais se dão conta de que algo é diferente. As preferências de Laure são explícitas, mas parecem não incomodar. Pelo contrário. O carinho e delicadeza deles (Sophie Cattani, também em Feliz que Minha Mãe Esteja Viva) com as filhas é imenso e genuíno, ressaltando ainda mais a questão do vínculo familiar como fonte base para lidar com questões como esta. Tratar o assunto com naturalidade e compreensão foi uma escolha da diretora ao construir o perfil da família. Sem sofrer pressão da sociedade, os pais de Laure demonstram uma aceitação incondicional, desde que ela não enverede pela mentira, que nesse ponto já mexe com normas éticas de conduta. Apesar disso, a visão adulta não interfere no filme. O que prevalece é a visão infantil, pré-adolescente, da descoberta da sexualidade, do sexo oposto, da mudança de corpo, dos interesses pessoais, da individualidade. São os olhos de Laure que dão o tom do filme e é isso que o faz ser tão natural e genuíno.

 

TULPAN
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Drama, Cazaquistão - 20/12/2011

DIREÇÃO: Sergei Dvortsevoy

ROTEIRO: Sergei Dvortsevoy, Gennadi Ostrovsky

ELENCO: Tolepbergen Baisakalov, Samal Yeslyamova, Ondas Besikbasov, Bereke Turganbayev, Nurzhigit Zhapabayev

Cazaquistão, Rússia, 2008 (100 min)

Não vejo como conhecer lugares como Cazaquistão se não for através do cinema, da fotografia, da literatura. Será que um dia me aventuro por aquelas bandas? Quem sabe? Quem se interessa por realidades e culturas completamente diferentes, formas de vida que em nada se parecem com o modo ocidental de viver, aproveite obras como esta. Tulpan, premiado como melhor filme em Cannes na categoria Um Certo Olhar, retrata a natureza inclemente das planícies da Ásia central, o clima desértico e árido dessa região das estepes, onde ser nômade é uma questão de sobrevivência.

Vivendo aqui e lá, de acordo com os mandos dos proprietários de terra, os camponeses cuidam do rebanho de ovelhas de outros, quando não têm a oportunidade (rara) de ter o seu próprio. É o que busca Asa, que se formou na Marinha russa, quer se casar e assim conseguir seu próprio rebanho, sua forma de sustento. Sai à procura de uma moça para casar-se na região e Tulpan, filha de camponeses vizinhos, é a única disponível. Mas ela se recusa, implica com suas orelhas grandes e a Asa resta viver com a irmã Samal, seu marido Ondas e seus filhos.

Na rotina da vida nômade nas estepes cazaques, a vida dessas pessoas parece ser desoladora – não deixe de assistir ao trailer abaixo. Não há diversão e a alegria se restringe ao convívio familiar, à música americana, aos passeios de trator pela paisagem de areia. Se há trabalho, água e comida, já está de bom tamanho.

Segundo depoimento do diretor Sergei Dvortsevoy, o retrato do filme é bem próximo da realidade. Algumas cenas são especialmente bonitas, como a do nascimento do carneiro e a narração que o garoto faz dos acontecimentos ao redor do mundo. A única maneira de ter notícias é através de um antigo aparelho de rádio, que é pilotado pelo sobrinho de Asa e as notícias que chegam sobre política, economia e desastres naturais parecem algo realmente de outro planeta.

Embora lento, Tulpan não é monótono. Transmite o ritmo do local, onde é preciso sobreviver todos os dias. O carneiro que nasce em situação tão adversa é metáfora da luta, do esforço pela vida. Tulpan é um filme poético, para quem gosta de contemplação da vida humana e da natureza (aliás, que fotografia!) e tem curiosidade por terras desconhecidas. Mas não é filme para quem quer movimento, ação, dinamismo. Tem o ritmo do vento que sopra do lado de fora das tendas – deu até para imaginar o que é viver nessa terra de ninguém. Com uma realidade tão dissonante, seria impossível esperar de um cineasta cazaque algo semelhante ao cinema e ao olhar ocidental. Tinha que ser realmente outro olhar.

HAPPY FEET 2
CLASSIFICAÇÃO: Para Ver em Família, Para se Divertir, Austrália - 24/11/2011

DIREÇÃO: George Miller

ROTEIRO: George Miller, Paul Livingston, Warren Coleman

Estados Unidos, 2011 (100 min)

Politicamente correto, os pinguins e todas as outras espécies que vivem na Antártida têm que se unir contra o inimigo comum: o aquecimento global. O homem, vilão do primeiro Happy Feet, agora até que tenta colaborar, mas parece que o estrago já está feito e que a natureza está louca pela desforra. Claro que nem tudo é lição de moral, do tipo “fizeram-agora-engulam”. Mas nas entrelinhas, deixa bem claro que é preciso a colaboração de todos se quisermos lutar contra um mal poderoso e implacável – e isso serve também para os animais, liderados pelos pinguins imperadores.

Mano, o pinguin que no primeiro filme sentia-se deslocado porque não sabia cantar com os outros da sua espécie, sabia sapatear como ninguém. Casa-se com sua paixão, a charmosa Glória, que canta maravilhosamente bem, e com ela tem um filho, Erik. Ele é a grande estrela deste filme, mas não sabe sapatear, tem vergonha, sente-se carta fora do baralho por isso e vai literalmente procurar outra turma. Com outra espécie de pinguins, elefantes-marinhos e os minúsculos krills, os imperadores precisam enfrentar os deslocamentos dos gigantescos icebergs, o derretimento da neve e a mudança que isso causa na cadeia alimentar e na sobrevivência das espécies.

Apesar dessas situações ecologicamente corretas, que podem despertar nas crianças a tão desejada necessidade de preservação do meio ambiente e render conversas interessantes, acho que Happy Feet 2 é mais bonito e graficamente impecável (é 3D!) do que moralista; mais agradável e divertido do que político. Adoro animação – já disse isso aqui – e se você for acompanhado de crianças que ainda se encantam com a graça do pequeno Erik e dos filhotes de elefante-marinho, tanto melhor. Um delicioso programa em família!

 PROGRAME-SE: Em cartaz dia 25 de novembro!

 

 

ERA UMA VEZ NA ANATOLIA – Once Upon a Time in Anatolia
CLASSIFICAÇÃO: Turquia, Para Pensar - 02/11/2011

DIREÇÃO: Nuri Bilge Ceylan

ROTEIRO: Nuri Bilge Ceylan, Ebru Ceylan

ELENCO: Muhammet Uzuner, Yilmaz, Erdogan, Taner Birsel, Firat TAnis, Ercan Kesal, Ahmet Mumtaz Taylan

Turquia, 2011 (157 min)

Demorei alguns dias para sentar e escrever sobre este filme, que tem mesmo o ritmo de era uma vez… Lento, ritmo de prosa sem pressa, de prosa que enaltece a paisagem várias vezes, que fala de sua beleza, de sua imensidão, do que os personagens pensam, sentem, sem que o enredo propriamente dito se desenrole. Muito aguardado na Mostra de Cinema, este é um filme do diretor turco Nuri Ceylan, também de Climas – assisti e não sei por que razão acabei não escrevendo sobre ele. Agora entendo o tamanho do desconforto que seus filmes causam. Desta vez não tenho escapatória senão dar minha opinião sobre Era Uma Vez na Anatólia, como escapei, furtivamente, de Climas.

Não vou tentar explicar, mesmo porque não acho que se trata de entender, mas de sentir o filme. O desconforto que produziu em mim está em vários aspectos. Primeiramente, e mais óbvio, no ritmo. Lento, cansativo, não tem a pressa, preenche seus 157 minutos quase em tempo real – modo de dizer, mas juro que é essa a sensação. Sendo que os primeiros 70 minutos se passam no escuro. Sim, é noite, um grupo composto de policiais, um promotor, um médico, dois coveiros e um criminoso percorrem as colinas desertas e inóspitas da Anatólia atrás do corpo da vítima. Só que tudo parece prosaico, tem diálogos inteligentes (embora o filme prime pelo silêncio) e não há clima de mistério, mas de rotina. Conversam sobre seus males, família, mazelas, expectativas.

A outra metade se passa na cidade, no necrotério onde é feita a autópsia do corpo, onde a esposa reconhece o defunto, onde os procedimentos de registro, documentação e causa da morte são feitos sem rigor, assim como se faz qualquer outra coisa que se tenha escolha. O essencial no filme não são os procedimentos, mas sim as sensações, as impressões, as experiências, as dores humanas.

Portanto, continuo sem qualquer conclusão sobre o filme. Se o objetivo era incomodar, tirar o espectador do imediatismo do enredo que tem começo, meio e fim, e colocá-lo na seara das sensações, conseguiu. A estranheza de uma semana atrás foi se dissipando no decorrer dos dias e agora, confesso, que admiro vários elementos e ousadias ali presentes. Que é um primor em termos de paisagem, fotografia, essência humana, isso é. Mas é também uma mostra inquestionável da capacidade desse diretor de separar o joio do trigo, ou seja, não cair na armadilha de contar uma história, sem que ela fosse importante. Ele quer falar sobre pessoas e consegue fazer com que o enredo não seja essencial na sua forma, mas no seu conteúdo e na sua linguagem cinematográfica. Acho que agora entendo um pouco mais o ritmo de Climas, lento, contemplativo – um retrato da alma humana em suas perturbações. Vou rever e vencer a barreira. Fiquei devendo essa.

 

CAPITÃES DA AREIA
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Brasil, Aventura - 07/10/2011

DIREÇÃO: Cecilia Amado, Guy Gonçalves

ROTEIRO: Cecilia Amado, Hilton Lacerda

ELENCO: Jean Luis Amorim, Ana Graciela, Roberio Lima, Israel Gouvea, Paulo Abade, Marinho Gonçalves, Ana Cecília

Brasil, 2011 (96 min)

“Ela [Dora] me chama de Pedro. Até me sinto gente.”

– Pedro Bala

Sentir-se gente. Era assim que o grupo de meninos de rua da Salvador dos anos 1950 queria se sentir. Sem casa, sem família, sem perspectiva, vagavam pelas ruas da cidade roubando, aprontando e fazendo de tudo para sobreviver. Jorge Amado os chamou de Capitães da Areia em seu livro homônino, de 1937. Adaptado para o cinema por sua neta Cecília Amaro, o filme é belo e humano e consegue transmitir ao mesmo tempo o contraponto da liberdade da adolescência e o abandono da vida na rua.

De novo a adolescência em pauta, neste livro que normalmente é lido justo quando estamos nessa fase da vida. Interessante revisitar Jorge Amado agora – e curioso como o filme me despertou o olhar para reler o livro. Segundo a diretora em entrevista após a exibição do filme, o abandono que esses ‘capitães da areia’ vivem está presente não só na vida das pessoas sem casa, sem educação, sem família. Está presente em todos nós, em algum momento da vida. Daí a atualidade da obra de Amado, sem contar que a realidade desses meninos na Bahia dos anos 1950 parece não ter mudado muito.

Para selecionar o elenco, Cecília circulou durante anos por projetos de ONGs bahianas, até para sentir se o universo percebido por seu avô ainda era o mesmo. A ideia era angariar não-atores para o projeto. Com tristeza, percebeu que sim, tudo continuava igual. Mas também percebeu que personagens como Pedro Bala, Dora, Professor, Sem Pernas e Gato são metáforas da dificuldade de se encontrar, de escolher caminhos, de amadurecer, metáforas do rito de passagem da adolescência para a fase adulta.  Além de tratar do universo social malandro e bandido em Capitães da Areia, Cecília Amaro trata do humano, do amigo, do amor, da beleza da natureza, da ingenuidade, da descoberta da sexualidade. E faz isso com delicadeza e poesia. Seu avô deve estar feliz, ainda mais agora que o filme é lançado justamente no seu centenário – Jorge Amado faria 100 anos em 2012. Parabéns!

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