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FREE ZONE
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Para Entender o Nosso Mundo, Israel, Drama - 16/05/2012

DIREÇÃO: Amos Gitai

ROTEIRO: Amos Gitai, Marie-Jose Sanselme

ELENCO: Hanna Laslo, Hiam Abbass, Natalie Portman, Carmem Maura

Israel, 2005 (96 min)

Filme feminino, em pleno conflito árabe-israelense – um assunto que automaticamente associamos a temas masculinos, como guerra, poder, violência. Assim como outros filmes como A Noiva Síria e Lemon Tree, as diferenças religiosas, desavenças territoriais e rixas históricas são mostradas através da alma feminina. Em Free Zone, elas são uma palestina, americana filha de israelense e uma judia que se encontram quase que por acaso: Rebecca briga com o namorado em Israel, entra no táxi de Hanna que não pode levá-la a lugar nenhum porque está indo para a Jordânia cobrar uma dívida. Cada uma com sua história, mas todas mulheres e mães. Como se isso bastasse quando se trata de solidariedade e identidade.

Na pele de três grandes atrizes, Free Zone é uma bonita história sobre a dificuldade de lidar com as diferenças e a facilidade de encontrar, até mesmo nas situações mais improváveis e mais controversas, pontos em comum, interesses parecidos, vontades semelhantes quando há boa vontade. Mesmo quando se trata do barril de pólvora que é o Oriente Médio. A cena das três cantando felizes no carro é emblemática – e emocionante.

Na pele de grandes atrizes como Natalie Portman (também em Cisne Negro, Nova York, Eu Te Amo, Closer – Perto Demais, Sexo sem Compromisso, As Coisas Impossíveis do Amor), Hiam Abbass (também em A Noiva Síria, Lemon Tree, O Visitante, Miral, Munique, Conversa com meu Jardineiro) e Hanna Laslo (melhor atriz em Cannes), o diretor israelense Amos Gitai (também em Aproximação, O Dia do Perdão) acerta no tom feminino, no que ele tem de mais humano e característico: a emoção, no choro de Rebecca; a teimosia, na insistência de Hanna; a maternidade, no pedido final de Leila. Assim como Caramelo e A Fonte das Mulheres, que também ajudam a construir quem são as mulheres do Oriente Médio.

 

SETE DIAS COM MARILYN – My Week with Marilyn
CLASSIFICAÇÃO: Para Ver Bem Acompanhado, Inglaterra, Drama, Biografia - 26/04/2012

DIREÇÃO: Simon Curtis

ROTEIRO: Adrian Hodges, Colin Clark (livro)

ELENCO: Michelle Williams, Eddie Redmayne, Kenneth Branagh, Julia Ormond, Pip Torrens, Geraldine Somerville, Dougray Scott, Judie Dench, Emma Watson

Inglaterra, 2011 (99 min)

 

Nos cinemas: 27 de abril

Em agosto de 2012 faz 50 anos que Marilyn morreu. Mesmo para quem veio depois de sua morte, que é o meu caso, a sua imagem é fortíssima, marcante, única, um ícone. Não há outra Marilyn. Nem outra com a dimensão da sua fama, beleza e capacidade de atrair a atenção – feminina, também, diga-se de passagem. Portanto, eu diria que apresentar Marilyn Monroe (1926-62) é chover no molhado. Mesmo para quem não sabe direito em que filmes atuou, quantos casamentos teve, por que morreu tão jovem aos 36 anos, por que vivia tão deprimida, por que a vida não lhe dava paz – aquilo que ela mais queria – para continuar usufruindo com tudo aquilo que a vida lhe deu de bandeja: fama, dinheiro, sucesso.

Não há outra Marilyn, é verdade. Mas Michelle Williams (também em Namorados para Sempre, Ilha do Medo) consegue parecer Marilyn de fato. Em Sete Dias com Marilyn, que estreia dia 27 de abril nos cinemas, a atriz conseguiu incorporar o que para mim é o que mais me chama atenção na diva: o olhar dúbio, ao mesmo tempo poderoso e extremamente carente.

Não se trata de uma biografia – o que é bem interessante. São somente sete dias que conseguem nos mostrar essa faceta em que, antes de ser atriz, Marilyn é uma mulher como todas nós, com seus medos, inseguranças e dúvidas. Em somente sete dias a vida do jovem e rico aspirante a produtor Colin Clark (Eddie Redmayne, também em Os Pilares da Terra) muda completamente. Assistente do famoso cineasta e ator Laurence Olivier (Kenneth Branagh), ele trabalha na filmagem de O Príncipe Encantado (The Prince and the Showgirl) em 1956. Encanta-se com Marilyn e vive com ela esses sete dias mágicos e irreais, quando seu marido, o dramaturgo Arthur Miller, volta para os Estados Unidos. Colin Clark conta sua experiência no livro The Prince, the Showgirl and Me (sugestivo, o título), mas só revela esta semana fatídica mais tarde em livro homônimo, agora adaptado para o cinema.

Além de plasticamente muito bonito e até poético, o filme é uma viagem no tempo, principalmente para quem não tem a filmografia de Marilyn fresca na cabeça, nem paciência (ou vontade) de assistir a seus filmes. Este vale a pena. Para mim, soou perfeita a observação que um dos personagens faz sobre seus atrasos, sua postura egocêntrica, frágil e conturbada no set de filmagens. Marilyn seria uma estrela, que tenta ser uma grande atriz. Daí a dificuldade dos grandes atores lidarem com ela, porque talvez nunca cheguem ao patamar de estrelas. Ela brilha, mesmo na sua insegurança indiscutível. E Michelle Williams, que venceu o Globo de Ouro pelo papel, foi muito corajosa em aceitar tamanha responsabilidade. Afinal, não há duas Marilyns.

DESDE QUE OTAR PARTIU – Depuis qu’Otar est Parti
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, França, Drama, Bélgica - 04/04/2012

 

DIREÇÃO: Julie Bertuccelli

ROTEIRO: Jullie Bertuccelli, Bernard Renucci

ELENCO: Esther Gorintin, Nino Khomasuridze, Dinara Drukarova

França, Bélgica, Georgia, 2003 (103 min)

Na Geórgia independente, ex-república soviética, falta luz e água com frequência, além de emprego, oportunidades, prosperidade. Nada mais natural do que migrar, como fez Otar, para a Europa ocidental. Mesmo sendo médico, sujeita-se a trabalhar como pedreiro para ganhar a vida em Paris. E desde que Otar partiu, quem ficou na Geórgia faz disso um mito. Sua mãe Eka, uma senhora que viveu os tempos gloriosos de Stalin e ainda se gaba dessa época de “estabilidade”, acredita piamente que o filho é um herói. Ele parte, ela nutre seus dias com suas cartas, lembranças e um dinheirinho que ele manda.

É Eka quem comanda e dá o tom da narrativa da diretora francesa Julie Bertuccelli, também de A Árvore, publicada recentemente aqui no blog. Ao seu lado ficou o ramo feminino da família: sua filha Marina, ressentida e enciumada, faz parte da geração frustrada que teve a profissão e a possibilidade de uma vida melhor tolhidas pelo regime e sua queda; sua neta, Ada, uma moça inteligente e viva, que não vê perspectiva na Geórgia, mas que tem ainda acesa a chama do sonho de fazer uma carreira e viver em um lugar melhor. Elas coordenam a vida de Eka, sem perceber que Eka tem vida própria. Elas escondem um grande segredo, sem perceber que Eka também faz isso muito bem. O jogo de sabedoria e sensibilidade do filme nas questões humanas e familiares é muito interessante, fazendo, é claro, lembrar Adeus, Lênin! – em que também uma mentira tem como objetivo poupar alguém da dor, subestimando, assim, o olhar sagaz da maturidade.

Desde que Otar Partiu tem elementos opostos carregados de significado como a escuridão do apartamento e as luzes de Paris, o que torna o filme ainda mais sutil. E sensível, humano. A cena final do aeroporto, o entendimento de Eka do presente, passado e futuro é o que poderia se chamar de sabedoria.

SAVING FACE
CLASSIFICAÇÃO: Paquistão, Estados Unidos, Drama, Documentário - 30/03/2012

DIREÇÃO: Daniel Jung

Estados Unidos, 2012 (40 min)

É Tudo Verdade. Mulheres paquistanesas são queimadas por ácido por seus maridos, em represália a qualquer corriqueira desobediência. Desfiguradas, passam a vida se escondendo de tudo e de todos atrás do véu, e seus maridos ficam satisfeitos e com a sensação de missão cumprida. Já que não obedecem, não aceitam fazer sexo, não se submetem do jeito que eles gostariam, não serão desejadas mais por ninguém.

Salvando a Face foi exibido no É Tudo Verdade, o 17° Festival Internacional de Documentários, que vai até domingo dia 1° de abril e venceu o Oscar de melhor documentário em 2012 e chama a atenção para mais uma situação absurda. Não é difícil imaginar a situação dessas mulheres, sem recursos e sem conhecimento para recorrer a uma cirurgia plástica ou a um tratamento especializado. Envergonhadas e com fortes dores físicas, elas hoje são acolhidas num centro de queimados especialmente montado para recebê-las e dar assistência psicológica. Os rostos desfigurados e o olhar de desespero é realmente arrebatador.

Em meio à tragédia, um cirurgião plástico de origem paquistanesa, com residência em Londres, sensibiliza-se com essa realidade e se dispõe a reconstituir aquilo que a medicina moderna é capaz de devolver a essas mulheres. Claro que muitos movimentos não podem ser recuperados, assim como a consistência e aparência da pele – na grande maioria das vezes as mulheres não passam por tratamentos depois da queimadura, mas são simplesmente enfaixadas, o que significa permanente perda muitas vezes da visão e da possibilidade de reconstituição plástica. Mesmo assim, o que vemos no filme são milagres, obras de arte com matérias primas e autoestimas destruídas por completo.

Além de mostrar a técnica, o documentário mostra o trabalho de resgate da dignidade dessas mulheres, num trabalho humano e generoso. Além de competente. É uma oportunidade de conhecer a realidade, de divulgar mais uma atrocidade e de curvar-se diante da delicadeza do atendimento a um universo tão fragilizado.

 

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PARA MAIS INFORMAÇÕES:

É Tudo Verdade – de 22/03 a 01/04 (SP e Rio); 10/04 a 15/04 (Brasília)

EM DIREÇÃO AO SUL – Vers le Sud
CLASSIFICAÇÃO: Para Ver Bem Acompanhado, França, Drama - 19/03/2012

DIREÇÃO: Laurent Cantet

ROTEIRO: Laurent Cantet, Robin Campillo

ELENCO: Charlotte Rampling, Karen Young, Louise Portal, Ménothy Cesar

França, 2005 (108 min)
Se o que atraiu você neste filme foi o fato de ele tratar da história de três mulheres que vão ao Haiti passar férias em busca do turismo sexual, pode até ser interessante – muito embora também tenha achado esse viés um pouco arrastado e deprimente. Mas se você pretendia, como eu, assistir a algo mais voltado para a questão social do Haiti, em contraste com os resorts e luxos que atraem os europeus e americanos à ilha, vai se decepcionar. Confesso que assisti ao filme um tanto quanto impaciente.

Em Direção ao Sul conta a história de três mulheres, entre outras tantas, com seus 40, 50 anos, que vão ao Haiti buscando satisfazer seus desejos sexuais, manter relações provisórias, porém prazerosas, como nunca antes em suas vidas rotineiras, com seus parceiros e maridos. Em contrapartida, o país vive uma ditadura ferrenha naquela década de 1980 e todo o luxo dos resorts contrasta com a pobreza e intimidação policial na capital Porto Príncipe. A ideia é interessante e poderia render um bom filme, ainda mais pelo olhar habilidoso do diretor Laurent Cantet, também responsável pelo ótimo documentário Entre os Muros da Escolavencedor da Palma de Ouro em Cannes. Mas aqui as personagens se arrastam entre suas crises de ciúme, entre a luta pela posse dos amantes da ilha, frustrações e lamúrias de vida, o que me deixou realmente desinteressada. Voilá, drama por drama, melhor partir para A Agenda, também do mesmo diretor – esse sim, profundo e interessante.

CAIRO 678 – 678
CLASSIFICAÇÃO: Para Entender o Nosso Mundo, Egito, Drama - 02/03/2012

DIREÇÃO: Mohamed Diab 

ELENCO: Nelly Karim, Bushra, Maged El Kedwany, Ahmed El Fishawy, Bassem Samra, Sadwan Badr

Egito, 2010 (100 min)

Esta semana foi premiado com o Oscar de melhor filme estrangeiro o ótimo A Separação, que não só traz à tona a realidade da cultura islâmica no Irã como um todo nas suas relações familiares e sociais, como ressalta a condição da mulher muçulmana nos países em que o Alcorão é interpretado de forma extremamente machista, gerando distorções sociais e humanitárias absurdas. Cairo 678 é mais um filme sobre o tema que, como já tenho dito em outras matérias sobre produções sobre a cultura árabe, ajuda a jogar um facho de luz sobre essa realidade incompreensível, porém absolutamente atual e real no mundo islâmico, presente diariamente na mídia graças à Primavera Árabe, que sacudiu o norte da África desde o ano passado, politica, econômica e culturalmente.

Só que Cairo 678 trata de um assunto específico, incômodo (principalmente para mulheres) e de difícil solução. Mulheres são molestadas sexualmente à luz do dia, nas ruas, nos transporte público lotados (daí o título Cairo 678, uma referência ao número da linha de ônibus). Não fazem denúncias porque obviamente sentem vergonha e seriam renegadas pelo marido, pai, irmãos. E para completar, teriam de submeter sua queixa ao poder policial, sempre sob tutela masculina. Como é possível denunciar algo a alguém que entende que o crime é legítimo? Sem recursos, nem suporte jurídico em países teocráticos, as mulheres egípcias são vítimas impotentes nas mãos e na cultura dessa sociedade.

O interessante do filme, baseado em histórias reais, é que as vidas dessas três mulheres de classe sociais distintas se cruzam por algo que transcende o poder econômico, social, educacional. Cruzam-se porque tratam da honra, do respeito, do livre arbítrio, da liberdade de ir, vir e pensar. Aqui fica claro que mesmo a classe egípcia abastada, instruída, viajada e profissionalmente bem posicionada também não consegue se livrar dessa educação da obediência e subserviência a que são submetidas as mulheres.

Seba, uma empresária rica e bonita, casada com um médico muito bem posicionado, é violentada durante a comemoração da vitória da seleção egípcia de futebol, evento essencialmente masculino; Fayza é uma dona de casa submissa e simples, que se incomoda com a abordagem física do marido e sofre todos os dias com o assédio sexual nos ônibus lotados da cidade; Nelly é de classe média, batalhadora e contestadora, que sonha em ser comediante como o noivo. Mas ambos têm que trabalhar em setores “de prestígio” para serem aceitos nas respectivas famílias. Ela também sofre abuso sexual e consegue criar coragem para depor, denunciar e processar o criminoso. É nesse contexto que elas se conhecem, com Seba liderando um grupo de mulheres vítimas da violência sexual, que precisam aprender perder o medo, ter coragem e se defender dos abusos e da falta de respeito.

Cairo 678 algumas vezes parece documental – e acredito ser de fato. São histórias reais muito fortes, que vão na direção completamente oposta à maneira milenar de pensar do povo egípcio muçulmano. Agora que a revolução contra os líderes corruptos e déspotas iniciou algumas transformações, mesmo que mínimas, no campo religioso, social e comportamental nos países islâmicos do norte da África, a manifestação de cineastas como Mohamed Diab são valiosíssimas. É para dizer para o mundo que desse jeito não dá. Que não se trata de tirar o véu, se despir das tradições e preceitos religiosos. Também não se trata de um simples “grito feminista”, mas sim de encontrar uma maneira de viver com dignidade e respeito. Básico, não?

 

ALBERT NOBBS
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Irlanda, Inglaterra, Drama - 24/02/2012

DIREÇÃO: Rodrigo García

ROTEIRO: Gleen Close,  John Banville

ELENCO: Gleen Close, Janet McTeer, Mia Wasikowska, Aaron Johnson, Pauline Collins, Mary Doyle Kennedy

Inglaterra, Irlanda, 2011 (113 min)

Que opção tem uma mulher pobre, sem recursos, família, herança, senão ser homem na Irlanda machista e católica do fim do século 19? Ficamos sem saber o nome dessa órfã, que vê na oferta de emprego como garçom em um hotel a oportunidade de sobreviver dignamente na cidade de Dublin. Assim surge Albert Nobbs, que assume o papel do sério, dedicado e austero funcionário de um badalado hotel, na pele da simplesmente fantástica Gleen Close. Não se trata de se vestir de homem, mas sim de incorporar a postura, gestos, expressões masculinas, ainda que tenha um toque assexuado. Quase não se percebe a linha que separa os dois mundos, mas a impressão que dá é de um homem ao mesmo tempo determinado e frágil, introspectivo e carente. Impecável maquiagem, impecável interpretação.

Albert Nobbs, no auge da sua elegância, conhece Hubert Page (Janet McTeer) e seus segredos se mesclam numa história só. Hubert também é uma mulher que se passa por homem, por motivos distintos porém semelhantes do que diz respeito à aceitação, oportunidade, trabalho. Concorrendo ao Oscar de melhor atriz e atriz coadjuvante respectivamente, Gleen Close e Janet McTeer dão um show, deixando Helen, vivida por Mia Wasikowska (também em Alice no País das Maravilhas, Minhas Mães e Meu Pai, Inquietos) bem para trás. Mas é por ela que Albert Nobbs se apaixona à sua maneira e é com ela que planeja mudar de vida, abrir seu próprio negócio e ter autonomia.

Não é filme para o grande público. Ainda mais em época em que grandes lançamentos ocupam muitas salas de cinema. Mais lento e o que eu chamaria de “filme de observação” (não perca um só gesto do gentil e minucioso Nobbs), Albert Nobbs tem uma beleza estética marcante, mas também humana. Mesmo na Dublin desumana, assolada pela tifo dos piolhos e pelo desemprego daquele fim de século.

 

A FONTE DAS MULHERES – La Source des Femmes
CLASSIFICAÇÃO: Para se Divertir, Itália, França, Comédia - 15/02/2012

DIREÇÃO: Radu Mihaileanu

ROTEIRO: Radu Mihaileanu, Alain-Michel Blanc

ELENCO: Leïla Bekhti, Hafsia Herzi, Biyouna, Sabrina Ouazani, Saleh Bakri, Hiam Abbass, Mohamed Majd

França, Itália, Bélgica, 2011 (135 min)

Adoro – e já disse isso aqui – essa rica leva de filmes sobre a cultura árabe, sejam eles de um viés mais duro, como é o caso dos excelentes O Profeta e Incêndios, seja de uma perspectiva mais política como Lemon Tree, Free Zone, Miral, mais humana como A Noiva Síria e Homens e Deuses ou mais colorida e feminina como Caramelo. São filmes cheios de conteúdo importante sobre a cultura, costumes, política e relações humanas do mundo islâmico. A Fonte das Mulheres passa por tudo isso, mas tem um viés colorido e bem humorado, que se utiliza do mundo feminino para contar uma história que mais parece uma fábula das “não-mil e uma noites”.

Estamos em uma pequena aldeia no norte da África muçulmana, onde a seca, o desemprego a falta de perspectiva assolam a população. Já não há mais guerra que ocupe os homens – que passam o dia bebendo chá e jogando conversa fora no bar. Já as mulheres têm que manter a tradição milenar de tecer, cuidar da casa e das crianças, procriar e buscar água na fonte que fica morro acima. O esforço é tão grande que muitas delas, grávidas, acabam perdendo seus bebês durante o caminho. Lideradas pela jovem Leila (Leïla Bekhti, também em O Profeta, Eu, Você, os Outros), resolvem contestar esse poder de decisão dos maridos, essa distorção do Alcorão de que a mulher precisa obedecer, fazendo greve de sexo. As mais velhas não concordam e causam polêmica, como sua sogra Fatima (Hiam Abbass, também em Lemon Tree, Free Zone, O Visitante, A Noiva Síria, Conversas com meu Jardineiro), no entanto as mais jovens aderem à causa como Loubna (Hafsia Herzi, também em O Segredo do Grão) e Rachida (Homens e Deuses). Greve mesmo, até que os homens fiquem responsáveis pela água do poço.

A Fonte das Mulheres, todo falado em árabe, é um filme que trata das diferenças entre homens e mulheres no mundo muçulmano, das obrigações femininas e os maltratos que sofrem, sem ser propriamente violento. Pelo contrário, tem bom humor. O diretor romeno Radu Mihaileanu, também de O Concerto, consegue novamente dar leveza ao assunto, com graça, cor e música – quase também num tom de fábula. A bela Leila comanda a voz jovem, que casa por amor, defende o que pensa, não teme ser reprimida e se contrapõe à força da tradição familiar levada a ferro e fogo no campo da desonra, do repúdio, da obediência. Defende sua condição de mulher e mãe, de ser humano que sabe e quer fazer suas próprias escolhas, sem precisar que o marido, irmão ou pai decidam por ela.

Vale a pena assistir, mesmo que para isso seja preciso se encaixar nos pouquíssimos horários disponíveis no cinema.

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