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CENTRAL DO BRASIL
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Brasil - 27/11/2011

DIREÇÃO: Walter Salles

ROTEIRO: Marcos Bernstein, João Emanuel Carneiro, Walter Salles

ELENCO: Fernanda Montenegro, Vinícius de Oliveira, Marília Pêra, Matheus Nachtergaele, Soia Lira, Othon Bastos, Otávio Augusto, Stela Freitas

Brasil, 1998 (113 min)

 

Comentei outro dia que ia rever o belíssimo Central do Brasil. Afinal, o filme que colocou definitivamente o Brasil no circuito internacional e foi premiado no mundo todo (Inglaterra com o Bafta, Estados Unidos com o Globo de Ouro, Festival de Berlim, além de ter tido várias indicações, inclusive no Oscar) já tem 13 anos. Difícil esquecer a essência humana desta obra-prima de Walter Salles (também de Diários de Motocicleta, Linha de Passe), mas alguns detalhes vão ficando para trás e achei que faltava falar dele no Cine Garimpo. Meu comentário rendeu réplicas do tipo “inesquecível”, “lindo, mas velho”, ou “como é mesmo a história?”.

Fiquei, obviamente, ainda mais instigada a rever. E respondo sem medo de errar: filmes como este não envelhecem. São referências em vários aspectos, a começar pela sua importância no posicionamento da produção brasileira no mercado nacional e internacional, na renovação do cinema brasileiro como arte, roteiro, capacidade criativa, inteligência – inclusive emocional – de lidar com temas sensíveis, humanos e muito sutis – normalmente os mais difíceis de serem traduzidos em qualquer forma artística. Portanto, quem não assistiu, faça isso logo. Quem já viu, garanto que se emocionará de forma diferente e com mais intensidade. Não vai se arrepender.

Respondendo à questão da história em si, eu diria que o roteiro é perfeitamente equilibrado na simplicidade do enredo e na complexidade dos personagens. Dora (a espetacular Fernanda Montenegro, também em Casa de Areia) ganha a vida escrevendo cartas na Central do Brasil, no Rio. Escreve em nome de pessoas analfabetas, que querem mandar uma mensagem para parentes e amigos em outras cidades. Ela e a irmã Irene (Marília Pêra) vivem de rolos e trambiques, numa vida que mostra bem a realidade da periferia do Rio e das grandes cidades brasileiras, com extrema desigualdade social, luta diária pela sobrevivência, violência e impunidade. A Central do Brasil aqui é uma metáfora fortíssima da migração de milhares de brasileiros para as grandes cidades em busca de uma vida melhor, do centro onde se reúnem todas as crenças e esperanças, onde pessoas se encontram, chegam e partem para todos os lugares do Brasil, a procura de emprego, de amor, do pai, da mãe, do filho, do dinheiro, da saúde – a grande simbologia do filme, sem sombra de dúvida.

Um dia, Ana e seu filho Josué pedem que ela escreva uma carta para o pai do menino, que os abandonou. A partir daí, a relação de amizade e respeito entre Dora e Josué é inevitável. Vai sendo construída à medida que desconstrói a Dora rígida e amarga, trazendo à tona as lembranças, tristezas, arrependimentos por que passou no decorrer da vida. O lado humano é muito forte, a emoção latente – mérito de Walter Salles que dirige Fernanda Montenegro e Vinícius Oliveira (também em Assalto ao Banco Central, Linha de Passe) com maestria. Não dá para não se emocionar. Assista a Central do Brasil. Fica como lição de casa. Depois você me conta se achou o filme “velho”.

 

PARIS, EU TE AMO – Paris, Je T’aime
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, França - 18/06/2011

DIREÇÃO: Joel Coen, Walter Salles, Olivier Assayas, Frédéric Auburtin, Gérard Depardieu, Gurinder Chadha, Sylvain Chomet, Ethan Coen, Isabel Coixet, Wes Craven, Alfonso Cuaron, Christopher Doyle, Richard LaGravanese, Vincenzo Natali, Alexander Payne, Bruno Podalydès, Daniela Thomas, Olivier Schmitz, Nobuhiro Suwa, Tom Tykwer, Gus Van Sant, Emmanuel Benvihy

ELENCO: Gaspard Ulliel, Steve Buscemi, Catalina Sandino Moreno, Juliette Binoche, Willem Dafoe, Nick Nolte, Ludivine Sagnier, Maggie Gyllenhaal, Bob Hoskins, Natalie Portman, Elijah Wood e outros

França, Alemanha, Suíça, 2006 (120 min)

A Paris de Woody Allen no seu mais novo filme é a Paris perfeita. Em Meia-Noite em Paris, o diretor não só mostra a atualidade de uma maneira deliciosa e encantadora, como viaja no tempo, mostrando o que Paris tem de mais eterno: sua arte. Com essa imagem na cabeça, resolvi rever o oposto, a Paris multifacetada, disforme, imperfeita - mas não menos especial. Para quem tem com Paris uma relação além da turística, Paris, Eu Te Amo é uma pequena amostra da personalidade múltipla de uma cidade universal.

Este filme é parte do projeto Cities of Love, que conta com Nova York, Eu Te Amo e ainda filmará no Rio, Jerusalém e Xangai. A beleza e originalidade de Paris, Eu Te Amo está na proposta de direção. Cada diretor convidado teve 5 minutos para filmar uma faceta da cidade, de acordo com a sua perspectiva. Desta forma, os 20 arrondissements parisienses são retratados, sob um prisma bastante diverso, mas todos intensos. Deixa claro que Paris é, e sempre será, a Cidade Luz de Woody Allen, mas é muito mais do que isso. Numa colcha de retalhos, os diretores mostram a cidade dos homossexuais, dos solitários, dos que não se comunicam, dos imigrantes, dos muçulmanos, chineses, africanos e hispanos, do preconceito e do altruísmo, dos turistas, do humor, dos encontros e desencontros entre pais, filhos, maridos e mulheres, da tradição, da arte e da ironia de tudo isso dentro da rigidez de uma metrópole.

Fimes como Paris, Eu Te Amo são um exercício e um alento, principalmente para pessoas como eu que tendem a enxergar os pontos positivos e negativos em uma só cidade, momento ou situação. E assim fica muito difícil responder à pergunta que não quer calar: qual dos quadros eu mais gosto? Particularmente – e essa não é uma escolha tendenciosa pela nacionalidade do diretor, que fique bem claro - adoro e me emociono cada vez que assisto ao curta de Walter Salles, Longe do 16º. O diretor brasileiro consegue humanizar o desumano. Anna (Catalina Sandino Moreno, também em Maria Cheia de Graça) sai de sua casa bem cedo, na periferia de Paris, deixa seu bebê na creche e pega várias conduções para chegar ao chiquérrimo 16º arrondissement, para trabalhar como babá, de uma criança da idade da sua. É uma síntese de uma metrópole como qualquer outra, das difíceis relações de poder social. Assista e veja qual dos curtas mais emociona, ou mais encanta, ou mais faz rir, etc. Assim é Paris, uma cidade de múltiplas emoções. É por isso que vale a pena.

MINHA TERRA, ÁFRICA – White Material
CLASSIFICAÇÃO: Para Entender o Nosso Mundo, França - 27/04/2011

DIREÇÃO: Claire Denis

ROTEIRO: Claire Denis, Marie N’Diaye, Lucie Borleteau

ELENCO: Isabelle Huppert, Isaach De Bankolé, Christopher Lambert, Nicolas Duvauchelle, William Nadylam, Adèle Ado, Daniel Tchangang, Michel Subor

França, 2009 (106 min)

“Cabelos loiros demais trazem azar; seus olhos azuis são problemáticos. É algo que desejamos destruir.”

“Seu filho nasceu aqui, mas esta não é a sua terra.”

– prefeito da cidade africana, dando o recado à francesa Maria Vial

White Material. Este é o título original e eu bem que queria que a tradução não fosse tão livre. A palavra ‘branco’ faz referência ao ponto principal da trama: a raça branca, colonizadora, pertence à África? Pode sentir-se parte do continente negro? Para os seus habitantes originais, a resposta é não. Os cabelos loiros são sinônimo de azar, os olhos azuis, significam problemas. Nesse país africano sem nome (nem precisa, representa vários deles em guerra civil e total intransigência), a família fazendeira branca não pertence à terra africana quando o que conta é a origem, a cor da pele, a força, as armas, a intimidação.

Quando explode a guerra civil entre forças milicianas do governo corrupto e forças rebeldes, o trabalho, a organização, a produção, o cuidado com a terra e com o ser humano se torna descartável. Prepondera o medo e a violência. A francesa Maria Vial (Isabelle Huppert) resiste, mas não tem mais como colher café. O exército francês foi embora, os empregados da fazenda fugiram, o medo provoca o silêncio e a conivência – ou a morte, para quem enfrenta. Minha Terra, África coloca lado a lado a coragem e a responsabilidade de uma única mulher em terra negra e machista, contra a covardia daqueles que pegam em armas, inibem, torturam e matam. As cenas do exército de crianças rebeldes, com armas em punho e espírito deturpado, são emblemáticas de uma África que recrutou sua infância em prol da ganância adulta. Cenas incríveis – e desoladoras.

O relato de Maria Vial sobre sua trajetória e seu fim é claro no seu semblante. De esperançosa e trabalhadora (aliás, as cenas da lida com o café são até poéticas), à amedrontada e esgotada, Maria não consegue enxergar a realidade e o perigo. Simboliza o material branco que carrega o estigma da colonização sem progresso, desenvolvimento, planejamento. E seu ex-marido (Christopher Lambert), representa os acordos escusos, o oportunismo. Com conflitos familiares extremos, jogo de interesses, falta de perspectiva e de mudança de visão, o filme é um impressionante relato de uma África que pouco conhecemos e pouco conseguimos imaginar. De tudo que se ouve e se lê sobre as crianças recrutadas por forças rebeldes para matar e morrer, aqui dá para olhar no olho desses pequenos grandes criminosos e sentir a extensão do caminho que esses povos têm que percorrer para tentar mudar alguma coisa. Se é que há um caminho…


 

 

BIUTIFUL
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Para Pensar, México - 21/01/2011

DIREÇÃO: Alejandro González Iñárritu

ROTEIRO: Alejandro González Iñárritu, Armando Bo, Nicolás Giacobone

LENCO: Javier Bardem, Maricel Álvarez, Eduard Fernández, Cheikh Ndiaye, Diaryatou Daff, Cheng Tai Shen

México, 2010 (147 min)

A filha pergunta ao pai como se escreve beautiful, para que a palavra complete seu desenho. Ele soletra b-i-u-t-i-f-u-l e assim ela registra e adjetiva aquele momento simples, cotidiano e bonito de um pai que cuida dos filhos, apesar de todos os pesares. E os pesares são muitos. Uxbal (Javier Bardem, também em Mar Adentro, Vicky Cristina Barcelona, Comer, Rezar, Amar) é esse pai amoroso, que tem de lidar com a ex-mulher bipolar, com as dificuldades do submundo de Barcelona, com as lembranças do pai que não conheceu. Mas só faz esse balanço quando sabe que vai morrer.

Esse emaranhado de escolhas e conjunturas da vida vem na forma do câncer que o aproxima da morte e na forma dos mortos que Uxbal é capaz de ver. Vem impresso na economia informal da cidade, na sua condição de sobrevivente urbano, no imigrante clandestino e no produto pirata, no trabalho forçado e escravo, na perda da legalidade, na consciência pesada por participar de tudo isso, na culpa por não conseguir ser diferente. O forte do filme não é só essa condição desumana de vida, mas a linha tênue entre a dignidade e o desumano das relações, entre a compaixão e a cruel realidade.

Diferente de Babel, o diretor Alejandro González Iñárritu constrói aqui um só personagem e uma narrativa linear. Mas em ambos ressalta a dualidade do ser humano que quer acertar, mas erra o caminho; que quer se reconciliar com o bem, mas escolhe as ferramentas erradas. Uxbal é assim. Um sujeito intenso, sensitivo, conturbado, desiludido. Por isso Biutiful tem uma atmosfera atormentada – e talvez por esse motivo não tenha levado o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro (que premiou o dinamarquês Em Um Mundo Melhor), embora Bardem tenha sido o melhor ator em Cannes. O filme é forte e perturbador e por isso a escolha do título me pareceu tão importante e significativa. Há momentos bonitos na vida perturbada de Uxbal; há boas intenções nas escolhas mal feitas do personagem e há beleza na dureza do registro do diretor mexicano. É preciso ler nas entrelinhas e estará escrito assim mesmo: biutiful. 

O CONCERTO – The Concert
CLASSIFICAÇÃO: Rússia, Para se Divertir, França - 17/12/2010

DIREÇÃO e ROTEIRO: Radu Mihaileanu

ELENCO: Alexeï Guskov, Dmitry Nazarov, Mélanie Laurent, François Berleand, Miou Miou, Valeri BArinov, Anna Kamenkova Pavlova

França, Rússia, Bélgica, Itália, Romênia, 2010 (119 min)

Leve, descontraído e em algumas situações engraçado, a meu ver O Concerto é uma comédia mais russa do que francesa. E esse é o ponto interessante da história. Embora parte dos personagens fale francês e parte do filme gire justamente em torno da ida dos músicos ao concerto em Paris, a essência é russa, a cultura é russa, a paródia social é russa, a música é Tchaikovsky. Eu diria que é uma comédia irônica tanto do socialismo, com seus mandos e desmandos sem sentido, quanto da atual sociedade russa, em que os cidadãos que sofreram com o regime ainda tentam achar seu lugar ao sol.

A história é curiosa: um importante maestro russo é despedido do seu cargo e tem sua carreira definitivamente arrasada quando decide não demitir os músicos judeus da orquestra. Isso em 1980, quando o partido socialista mandava e quem não obedecia era fadado ao eterno fracasso. Agora, em 2010, ele resolve fingir ser novamente o maestro do Bolshoi, convoca os músicos daquela época e embarca na aventura para Paris. Tem cenas caricatas de bebedeira, um pouco de exagero na farra, na caracterização dos músicos ciganos e na preparação da viagem, mas acho que faz parte da proposta da sátira.

Além dos músicos russos, a atriz francesa Mélanie Laurent (também em Bastardos Inglórios, Não se Preocupe, Estou Bem) integra o elenco e é sempre uma presença forte e convincente. É um filme leve, com uma pitada de cultura russa e de drama familiar – boa pedida para quem fica na cidade no feriado de fim de ano. O Concerto concorre na categoria melhor filme estrangeiro no 68º Globo de Ouro, em janeiro, disputando o prêmio com o forte dinamarquês Em Um Mundo Melhor. É esperar para ver.

Estreia dia 24 de dezembro nos cinemas.

CRASH – NO LIMITE – Crash
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Estados Unidos - 14/12/2010

DIREÇÃO: Paul Haggis

ROTEIRO: Paul Haggis e Bobby Moresco

ELENCO: Sandra Bullock, Don Cheadle, Matt Dillon, Jennifer Esposito, William Fichtner, Brendan Fraser, Terrence Dashon Howard, Chris Ludacris Bridges, Thandie Newton, Ryan Phillippe, Larenz Tate, Nona Gaye

Estados Unidos, 2004 (107 min)

Conflito, colisão, atrito, colapso. Crash é isso e muito mais. Há alguns filmes que ganham subtítulos em português absolutamente desnecessários. “No Limite”, neste caso, é um deles, porque tenta dar significado à palavra inglesa “crash”, caso alguém não entenda. Não gosto da combinação. Mas gosto só de “No Limite”, porque é exatamente assim que estão todos os personagens do filme: a ponto de explodir, só falta alguém que risque o fósforo.

O estopim de Crash – No Limite, que levou o Oscar de melhor filme em 2006, é o racismo. Eu já tinha visto e mesmo assim voltei a me impressionar com a maneira forte, cruel e realista com que o tema ‘preconceito’ é abordado. Dói, de tão real. Seguindo aquele formato de filme em que várias histórias de vida que se cruzam, o racismo permeia todas elas a ponto de determinar o fim de um relacionamento, a revisão de um casamento, a morte, a reinvenção de uma forma de viver. Racismo e preconceitos que abalaram o mundo depois do 11 de setembro de 2001 e que é discutido aqui como causa e consequência não só de desastres de proporções mundiais, mas também de atitudes corriqueiras do dia a dia.

Os relacionamentos superficiais e a falta de comunicação entre as pessoas serviu de inspiração para criar personagens que despejam suas frustrações, infelicidades, preconceitos raciais  e sociais contra negros, tatuados, árabes, pobres, latinos, ricos de maneira inconsequente, egoísta e extremamente agressiva. Crash abre a infindável discussão sobre a sociedade e a insatisfação permanente do ser humano, mas também fala da incrível capacidade de, apesar de tudo, repensar e reestruturar as relações. O roteiro é muito bem construído e amarrado e não tem a pretensão de concluir nada. Simplesmente constata a fraqueza e imaturidade do ser humano e da nossa sociedade. A gente veste a carapuça, é verdade. É daqueles filmes que terminam e a gente ainda fica diante da televisão digerindo o assunto, sem saber o que dizer.

FORA DA LEI – Hors la Loi
CLASSIFICAÇÃO: Para Entender o Nosso Mundo, França, Argélia - 19/10/2010

DIREÇÃO e ROTEIRO: Rachid Bouchareb 

ELENCO: Sami Bouajila, Jamel Debbouze, Roschdy Zem, Chafia Boudraa, Bernard Blancan

Argélia, França, 2010 (138 min)

A presença do diretor franco-argelino Rachid Bouchareb em Cannes causou tumulto e protestos quando Fora da Lei foi exibido. Não é para menos: o filme abre a ferida nacionalista francesa, fala da guerra pela independência da Argélia e mostra uma França que tortura e forma milícias assassinas em prol do poderio colonial. Mas também filma o contraponto, os movimentos de resistência argelinos, os terroristas separatistas e a luta por seus ideais de forma muito violenta. Independente de que lado você esteja, todos no filme são ‘foras da lei’. Ninguém se salva. E é isso que o torna interessante, este olhar dúbio.

Fora da Lei conta a história da guerra argelina em solo francês, através da trajetória de uma família. Expulsa de suas terras pelas autoridades francesas em 1925, a família presencia o massacra de Sétig, em 1945, quando os argelinos fazem uma passeata pela independência após a vitória dos Aliados. Depois disso, os três irmãos tomam rumos diferentes: um vai combater na Indochina, lutando contra a independência das colônias francesas; outro é preso na França por ‘atividades subversivas’ e o terceiro passa a viver em uma favela nos arredores de Paris e vira ‘empresário’. Através da história de vida de cada um deles, o diretor Bouchareb, também de London River - Destinos Cruzados, conta como se fez a guerra na clandestinidade. De um lado, os grupos de luta armada liderados pela FLN (Frente de Libertação Nacional), que articulou inúmeros atos terroristas na França e toda a rede de informação; de outro, uma organização secreta da própria polícia francesa, respaldada pelo governo, na repressão violenta ao movimento nacionalista, que finalmente consegue a independência em 1962.

Fora da Lei retrata mais uma daquelas histórias sangrentas de dominação e poderio pela força de ambos os lados, de falta de diálogo e de luta cega pelos ideais. Tem uma produção muito cuidadosa, cheia de detalhes e envolvente, com a família mafiosa como o centro - inclusive com algumas referências claras ao clássico O Poderoso Chefão. Muito bom para entender o nosso mundo sem lei.

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Programe-se: Fora da Lei será exibido na 34ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que começa dia 22 de outubro. Confira os horários abaixo:

UNIBANCO ARTEPLEX 3 – 22/10/2010 – 16:50 – Sessão: 16 (Sexta)
CINEMA SABESP – 23/10/2010 – 22:00 – Sessão: 145 (Sábado)
CINEMARK CIDADE JARDIM sala 5 – 25/10/2010 – 21:00 – Sessão: 380 (Segunda)
UNIBANCO ARTEPLEX 2 – 27/10/2010 – 15:20 – Sessão: 504 (Quarta)
CINEMARK SHOPPING ELDORADO sala 7 – 29/10/2010 – 21:00 – Sessão: 788 (Sexta)

Mais informações no site www.mostra.org.

LONDON RIVER – DESTINOS CRUZADOS – London River
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Para Entender o Nosso Mundo, Inglaterra, Drama - 30/09/2010

 

DIREÇÃO: Rachid Bouchareb

ROTEIRO: Rachid Bouchareb, Zoé Galeron e Olivier Lorelle

ELENCO: Brenda Blethyn, Sotigui Kouyaté, Francis Magee, Sami Bouajila, Roschdy Zem, Marc Baylis

Inglaterra, França, 2009 (97 min)

Cada vez mais se tem notícia de uma Europa multicultural, multiétnica, multifacetada. Cada vez mais se tem notícia das dificuldades de lidar com esse caldeirão de culturas e religiões, interesses e conflitos, invasões e expulsões. Cada vez mais a intolerância étnica e religiosa aparece como causa e consequência de conflitos, ataques terroristas ou simples desavenças cotidianas.

London River – Destinos Cruzados trata de todas essas diferenças, mas fala sobretudo das semelhanças entre os povos e da possibilidade de tolerância e entendimento diante das dificuldades. Toca na ferida do mundo globalizado também nos atentados terroristas, justo nesta semana em que vimos ameaças de bombas concomitantes em Paris, Berlim e Londres.

No filme, o cenário londrino é o fatídico 7 de julho de 2005, quando o explodem bombas em trens do metrô e em um ônibus, matando dezenas de pessoas na hora do rush. Uma senhora inglesa, que mora em uma ilha no Canal da Mancha, e um senhor africano, que imigrou para a França, buscam seus filhos, desaparecidos desde o dia do atentado. A fé e tradição da inglesa protestante se chocam com o islã, com o silêncio e submissão do imigrante negro. São várias os contrastes de cor, postura, discurso, idioma; do imperialista e do colonizado; da boa intenção e do preconceito.  Sra. Sommers e Ousmane têm mais semelhanças do que imaginam e isso dá ao filme um bonito e generoso traço humano.

London River rendeu ao ator Sotigui Kouyaté o Urso de Prata de Melhor Ator em Berlim no ano passado e tem uma mensagem intrigante na cena final. Fica a dúvida até quando é possível nutrir esperanças de relações mais humanas; o que fazer quando a descrença é maior tudo, a ponto de desistirmos da luta pela preservação dos ideais.

Estreia dia 1º de outubro nos cinemas.

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