ROTEIRO: Radu Mihaileanu, Moni Ovadia
ELENCO: Lionel Abelanski, Rufus, Clément Harari, Michel Muller, Agathe de la Fontaine, Johan Leysen, Bruno Abraham-Kremer, Marie-José Nat
Romênia, 1998 (103 min)
“O alemão é uma língua rígida, concisa e triste. O iídiche é uma paródia do alemão, mas tem humor a mais. Para perder o sotaque iídiche é preciso retirar o humor. Só isso.”
Fazia tempo que queria conferir Trem da Vida, filme do diretor romeno Radu Mihaileanu. Desde que assisti aos ótimos A Fonte das Mulheres e O Concerto, notei que há algo em comum nos filmes que instiga a curiosidade sobre o olhar do diretor perante a vida. O humor, talvez, mas sobretudo possibilidade de rir de si próprio sem infantilizar ou ridicularizar. Uma sutileza que afasta gentil, porém firmemente, o pessimismo e o mau humor e aplaude a incrível capacidade de agradecer o dom da vida. Mihaileanu mistura situações da vida com outras improváveis, eu diria até fantasiosas, sem fazer realismo fantástico, mas numa dose boa para não parecer ridículo. Faz praticamente de um limão, uma limonada, da tragédia, uma parábola. É bem essa sensação que dá. E positiva.
Em Trem da Vida, o diretor fala do Holocausto, sem ser dramático ou catastrófico. Consegue transmitir a mensagem da dimensão do absurdo e da barbárie, através de um viés interessante da tragédia vivida pelos judeus durante a Segunda Guerra. Monta uma paródia do caos. Tudo começa em vilarejo na Europa ocidental, quando os habitantes dessa comunidade judaica recebem a notícia de que os nazistas vão deportá-los para um campo de concentração. Quem dá a notícia é o louco da comunidade, que também apresenta a solução – um tanto quando inusitada. Já que seria impossível furar o bloqueio dos alemães, por que não se passar por eles? Seria preciso só falar alemão sem sotaque, encontrar um comandante nazista, soldados, um maquinistas, prisioneiros e um trem para chegar em Israel a salvo.
Esquema montado, personagens escolhidos, a farsa começa e todos os habitantes do vilarejo embarcam no trem. É no trajeto que são contadas as histórias do povo judeu, em que são encenadas as tradições, em que aparecem outras minorias pelo caminho, também perseguidas, como os ciganos, em que grupos opostos se formam, em que é celebrada a vida em meio ao caos. Mihaileanu usa e abusa da cor, do texto afiado, do humor sutil e inteligente para envolver o espectador e quase nos fazer acreditar que isso seria possível. A começar pelo diálogo sobre a diferença entre a língua alemã e o iídiche, língua derivada do alemão medieval, falado por milhões de judeus na Europa na época da guerra. Passar-se por alemão significava falar sem sotaque iídiche. Para tanto, era só tirar o humor, a sutileza, e transformá-los em rigidez. Fantasiados de nazistas, seriam perfeitos alemães. Brilhante!
Outros filmes sobre o Holocausto: A Chave de Sarah, Marcha da Vida, A Lista de Schindler, O Menino do Pijama Listrado, O Pianista, O Leitor, Os Falsários, Um Homem Bom
DIREÇÃO e ROTEIRO: Nanni Moretti
ELENCO: Nanni Moretti, REnato Carpentieri, Giovanna Bozzolo
Itália, 1993 (100 min)
Quem gosta da narrativa do diretor italiano Nanni Moretti e ainda não assistiu a Caro Diário, aí vai a dica. Fui atrás dessa obra porque particularmente acho o cineasta um sujeito corajoso. Conta histórias à sua maneira, fora dos padrões narrativos e parece simplesmente não se importar com supostas críticas ou desconfortos. Só por isso, já acho que vale a pena conferir. Confesso que Caro Diário, pelo qual Moretti levou o prêmio de melhor diretor em Cannes em 1994, não é dos meus favoritos. Gosto muito mais de O Quarto do Filho, Caos Calmo e Habemus Papam - os dois primeiros profundos, sobre dor e adaptação, sobre o caos que se instala em alguns momentos da vida; o último, sobre o papa, que não sabe o que fazer com o trono.
Bem, Caro Diário é dividido em três partes, propriamente o que diz o título, um diário. De novo Moretti é ator de seus filmes e ele próprio é protagonista dos três episódios. No primeiro deles, vaga por Roma observando sua arquitetura, sua conjuntura, sua forma de vida. Divagações, como se conversasse com um amigo. É como se nos levasse junto com ele, de lambreta. No segundo, percorre as ilhas italianas, a procura de um lugar tranquilo para escrever. Dessa jornada, ficamos sabendo da forma de vida das pessoas, das peculiaridades de lugares isolados pela própria natureza ou pelo rigor do inverno. Nos dois episódios, senti como se Moretti realmente tivesse resolvido compartilhar isso com o espectador, da maneira simples como a vê e a sente.
Mas é do terceiro episódio que gosto mais – e por ele digo que vale mais a pena o filme todo. Nanni Moretti expõe não suas ideias e percepções, mas o calvário por que passou enquanto os médicos não conseguiam fazer o diagnóstico preciso dos males que o estavam deixando maluco. Sentia coceiras e suores terríveis, percorreu todas as especialidades médicas possíveis, comprou dezenas de medicamentos em vão, até ser diagnosticado com câncer. Retrata com um humor muito sutil, bastante direto e de forma inteligente o que foi viver essa fase da vida. Sem drama, com ironia. Faz um relato praticamente documental – e é essa a sua maneira mais peculiar de contar uma história. Por essas e outras, enquanto espera-se Habemus Papam chegar aos cinemas (já passou por aqui na Mostra Internacional de Cinema), Caro Diário vai recheando a filmografia do italiano que tem um jeito todo especial de ser ator e diretor, de contar um história, mesmo que ela não tenha nada de especial. São relatos do simples cotidiano.

DIREÇÃO e ROTEIRO: Thomas McCarthy
ELENCO: Paul Giamatti, Amy Ryan, Jeffrey Tambor, Bobby Cannavale, Burt Lynskey, Alex Shaffer, Margo Martindale
Estados Unidos, 2011 (106 min)
Por favor, corrijam-me se estiver errada. Entendo que o título em inglês Win Win denota uma negociação onde ambas as partes saem ganhando. Não tem o significado negativo implícito na tradução Ganhar ou Ganhar. O título escolhido em português dá a impressão que é preciso vencer a qualquer custo, passando por cima de qualquer um. Não, seria muito mais um “ganha-ganha”, como se costuma dizer. E é exatamente o que acontece com Mike (Paul Giamatti, também em Tudo Pelo Poder, A Minha Versão do Amor, A Última Estação): com problemas financeiros, toma uma decisão em que ele também se beneficia, mas que acaba dando colocando sua vida de cabeça pra baixo.
Mike é um professor de luta livre nas horas vagas e advogado com sérios problemas financeiros. Um de seus clientes é um senhor de idade que precisa de um tutor. Sem contar para sua esposa Jackie (Amy Ryan), aceita ser responsável pelo cliente e por isso passa a receber um valor mensal que o ajuda a pagar as contas. Um dia aparece o neto desse senhor, cheio de problemas com a mãe e quer se instalar com o avô – que foi colocado em um abrigo para a terceira idade por Mike. Ele não tem outra opção senão acolher o garoto, que se mostra uma boa pessoa e um ótimo lutador de luta livre.
A história que se constrói a partir da chegada de Kyle (Alex Shaffer) é uma daquelas histórias de virada. Quantas vezes percebemos que precisamos mudar algo na vida, mas ficamos paralisados pelo medo? Algo precisa acontecer para que tenhamos coragem de mudar. Kyle é o agente da mudança, em que Mike percebe seus erros, suas limitações e a importância de tomar as decisões que realmente possam fazer diferença, que possam ser construtivas e mudar o futuro. Ganhar ou Ganhar tem um humor sutil e também tem um ponto interessante sobre o contexto familiar, do apoio, da compreensão e do empurrão importante que normalmente vem de quem está mais perto, neste caso, a esposa.
O diretor Thomas McCarthy também é responsável por O Visitante – aliás, uma ótima dica em DVD. Ambos os filmes têm esse viés humano, da postura rígida que ganha novos contornos quando um novo elemento de fora se aproxima. Carregado de significado… Quando essas surpresas da vida acontecem, é melhor fica de olhos bem abertos. A chance de acontecer um ganha-ganha, no sentido positivo, é muito grande.
ROTEIRO: Kristen Wiig, Annie Mumolo
ELENCO: Kristen Wiig, Maya Rodolph, Rose Byrne, Melissa McCarthy, Chris O’Dowd, Jon Hamm, Matt Lucas, Ellie Kemper
Estados Unidos, 2011 (125 min)
Antes mesmo de começar a escrever, já tenho a impressão de que esta coluna será um desabafo. Nada trágico – até porque o tema não permite. Pelo contrário, cômico, considerando todo o exagero de Missão Madrinha de Casamento, em cartaz nos cinemas. Mas pensando bem, não dá para não exagerar quando a alma feminina está em xeque, com os nervos à flor da pele, bem no momento de subir no altar. Este é aquele típico filme caricato, é verdade, mas também é preciso dizer que nós, mulheres, vestimos a carapuça e vamos rindo por dentro das situações única e exclusivamente femininas. Afinal, quem mais seria capaz de passar pela ‘crise-de-ciúme-da-melhor-amiga’ senão nós mesmas?
Não dá pra dizer que esse é um comportamento típico da adolescência – acho que nunca deu. Até hoje, com a adolescência já no século passado, acho engraçada a denominação ‘melhor amiga’ entre adultos. Hoje as meninas usam até a expressão best friends forever, com direito à consagrada abreviação BBF e vários apetrechos com os dizeres mágicos. Mas entre adultos, acho bem curioso. Chega uma fase da vida que conseguimos (o que é um luxo!) juntar algumas grandes e eternas amigas. Cada uma para um momento – ou para todos ao mesmo tempo – e fica claro que a ‘melhor amiga’ já não se encaixa no contexto dos anos em as amizades foram sendo solidificadas.
Mas, devaneios à parte, o que interessa aqui é que esse ciúme todo vem à tona no filme justamente no casamento da ótima Lilian (Maya Rudolph). Sua amiga de infância Annie (a divertida Kristen Wigg) vive um péssimo momento, perde o emprego, fica sem dinheiro e sente-se arrasada quando é preterida por Lilian, que se encanta com uma amiga nova, prestativa, bonita e rica. As situações são engraçadas, embora muitas vezes previsíveis, pelo exagero na preparação do casamento e por essa típica situação feminina da ‘sobreposição-de-melhores-amigas-de-acordo-com-a-fase-da-vida’. Para mim, tem sabor de sátira – principalmente porque sempre achei muito curioso esse costume americano de que as madrinhas têm que vestir roupas iguais no casamento. É quase uma tentativa, no mínimo esquisita, de igualar o inigualável. É verdade que não vivemos sem as amigas, mas com cada uma delas a história é única.
DIREÇÃO e ROTEIRO: Sebastián Borensztein
ELENCO: Ricardo Darín, Muriel Santa Anna, Ignacio Huang, Javier Pinto
Comecemos pelo início, pelo conto chinês. E pelo problema das traduções dos títulos – e, eu diria, das traduções em geral – é que muitas vezes não encontram equivalente de sentido na língua meta e deixam pelo caminho uma parcela importante do significado que carrega o original. Trocando em miúdos é o seguinte: em espanhol, quando se diz que uma história é um cuento chino, está implícita a ideia de que aquela história é uma mentira, uma ‘história para boi dormir’, uma ‘história de pescador’ – entre tantos outros provérbios que temos em português para dizer que, de tão improvável, aquele conto é uma verdadeira lorota. Como o conto inacreditável deste delicioso filme argentino se passa justamente com um chinês, ficou fácil encontrar um equivalente em português, porém sem a sutileza que traz a língua fonte – o que é uma grande perda.
Mas isso não diminui a riqueza, a simplicidade, a sinceridade da atuação de Ricardo Darín, que andou fazendo filmes fortes e de suspense como O Segredo dos Seus Olhos e Abutres, e agora volta à comédia. E com todo o estilo de um bom filme argentino, trata de questões singelas, relações triviais, de uma maneira humana, engraçada e despretensiosa. Um Conto Chinês fala de Roberto (Darín), um sujeito fechado, emburrado e sozinho, cheio de manias – como colecionar presente de aniversário para a mãe que faleceu no seu nascimento – e histórias improváveis e inacreditáveis que ele lê no jornal, verdadeiros cuentos chinos. Sua vida monótona sofre um revés, graças ao seu ainda vivo viés solidário: um chinês está perdido em Buenos Aires, não fala uma só palavra de espanhol, não tem para onde ir e Roberto o coloca para dentro de casa.
Além de ser delicioso de assistir, Um Conto Chinês é de fato muito criativo. A cena de abertura já mostra que algo diferente está para acontecer – o cartaz do filme em que Darín aparece ao lado de uma vaca, também sugere uma história curiosa. De fato, no melhor estilo argentino de fazer você se divertir.
Esta semana já tem pré-estreia.
ROTEIRO: Michael Markowitz, John Francis Daley
ELENCO: Jason Bateman, Charlie Day, Jason Sudeikis, Kevin Spacey, Jennifer Aniston, Colin Farrell, Jamie Foxx
Estados Unidos, 2011 (98 min)
Na saída do cinema, depois de dar risada com o filme Quero Matar Meu Chefe, um dos jornalistas se perguntava em voz alta por que temos a tendência de sempre racionalizar tanto. Interessante esse ponto de vista. O filme que diverte, pelo simples prazer da risada e das inúmeras bobagens protagonizadas pelos atores na telona, também pode ser bacana. É entretenimento, distrai e nos tira da quase incontrolável mania de analisar e rotular tudo aquilo que vemos.
O título original Horrible Bosses, dá a informação de que os chefes não são flor que se cheire. Com a opção em português, sabemos que o que o trio de atores-humoristas Jason Bateman (Juno, Amor sem Escalas), Charlie Day e Jason Sudeikis realmente quer é matar seus respectivos chefes, na pele dos ótimos Kevin Spacey, Jennifer Aniston (Marley e Eu) e Colin Farrell (Caminho da Liberdade). Claro que o que se vê é uma sequência de confusões e exageros, mas principalmente de caras e bocas, inúmeras referências ao cinema e uma bela sintonia do elenco. Isso garante que o filme atinja seu objetivo, que está longe de ser algo elaborado ou profundo. Quer fazer você rir. Sabe aquela risada que demos com o brasileiro De Pernas Pro Ar ou com o italiano O Primeiro que Disse? Ou ainda com o ótimo Queime Depois de Ler, numa sátira ao mundo espertíssimo da espionagem? Pois bem, com Quero Matar Meu Chefe você vai se divertir com as situações tão improváveis quanto criativas, dirigidas por Seth Gordon. Simples assim!
Estreia dia 05 de agosto nos cinemas.
ROTEIRO: José Antônio de Souza
ELENCO: Ana Lúcia Torre, Marcos Cesana, Germano Haiut, Aramis Trindade, Fabíula Nascimento, Selton Mello (liquidificador),
À medida em que avançavam as confissões e reflexões daquele antigo liquidificador, mais eu me lembrava do ótimo filme, também brasileiro, É Proibido Fumar. As semelhanças, deixo suspensas para não estragar a surpresa. Mas posso dizer que a maneira divertida, inteligente e dissimulada com que ambos lidam com o humor negro e com o absurdo é realmente o que faz a diferença.
A começar pelo título e pelas imagens de Elvira, dona de casa que empalha animais nas horas vagas, carregando um liquidificador. Precisa ser muito bom para colocar um liquidificador falante e palpitador num longa, sem parecer piegas, brega ou, para dizer o mínimo, infantil. Aqui não tem nada disso. O eletrodoméstico ganha vida pela voz de nada menos que Selton Mello – portanto, imagine seu tom de voz, sua ironia, seu tom de camaradagem ao se tornar o confidente e melhor amigo de Elvira. Muito bem construído, o “personagem” – se é que podemos chamá-lo assim. Além de ser fundamental para a trama. Você saberá por quê. Mas o que o liquidificador e a dona de casa vivem é uma fase diferente de suas vidas, que vai mudar absolutamente tudo. O marido de Elvira sai um dia e não volta – estilo foi-comprar-cigarro-e-desapareceu. Ela faz o boletim de ocorrência, comunica o sumiço do marido e a polícia começa a investigação. Aí ficamos sabendo dos meandros da história, da vida da vizinha, do carteiro, do marido e do liquidificador – que também tem muito o que contar.
Fica a dica. Mas acho esse tipo de filme, descompromissado, que trabalha o humor de uma maneira despretensiosa, que lida com questões e sentimentos do dia a dia de uma maneira muito simples, uma maravilha. Dá leveza ao gênero, diverte e mostra como é difícil trabalhar temas aparentemente rasos de uma maneira delicada e subliminar. Aliás, a gente até se identifica com algumas questões. Ah, se as paredes falassem…
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