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HOTEL RUANDA – Hotel Rwanda
CLASSIFICAÇÃO: Para Entender o Nosso Mundo, Estados Unidos, Drama, África do Sul - 21/04/2012

DIREÇÃO: Terry George

ROTEIRO: Terry George, Keir Pearson

ELENCO: Don Cheadle, Sophie Okonedo, Joaquin Phoenix, Cara Seymour, Nick Nolte

Estados Unidos, Inglaterra, África do Sul, 2004 (121 min)

Nossa tarefa é manter a paz, não estabelecer a paz. Temos ordem para não intervir.” – funcionário das Nações Unidas

Um pequeno resumo, para nossas mentes distraídas: Ruanda, na África, era colônia belga, governada com consentimento dos tutsis, etnia minoritária. Depois da independência, os hutus, etnia majoritária, tomam o poder, têm sede de vingança, armam a violenta e implacável milícia Interahamwe e comandam um massacre de mais de 800 mil pessoas – inclusive crianças, para dizimar os tutsis pela raiz. Apesar da presença das Nações Unidas no país, apesar do acordo de paz firmado. Apesar de tudo, o massacre aconteceu bem embaixo dos olhos de todo o mundo. Literalmente.

Hotel Ruanda refresca a nossa memória. Quem não se lembra da notícias sobre a matança, os estupros, a presença das forças de paz e a incapacidade de fazer a diferença? O filme é encabeçado pelo gerente do hotel Mille Collines, Paul Rusesabagina (Don Cheadle, também em Crash – No Limite, Um Hotel Bom pra Cachorro, Doze Homens e Outro Segredo), um hutu, que faz de seu hotel em Kigali um abrigo para os tutsis perseguidos. O filme é absolutamente devastador, tanto do ponto de vista humano, desumano, de solidariedade e descaso, de generosidade e atrocidade. Segue a mesma linha Darfur – Deserto de Sangue no quisito barbaridade, mas é muito mais cruel e muito melhor no quisito cinema.

Assista. Além de um ótimo filme por toda a sua carga trágica e humana ao mesmo tempo, faz parar para pensar. A história é real, Paul Rusesabagina realmente lutou para salvar a vida de centenas de pessoas e tudo isso ocorreu há menos de 20 anos, cansando um êxodo de refugiados para os países vizinhos gigantesco. Impressionante, não?

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Sobre a África, assista também a Diamante de Sangue, Life, Above All, Minha Terra, África, Infância Roubada.

LAWRENCE DA ARÁBIA – Lawrence of Arabia
CLASSIFICAÇÃO: Para Rever, Para Entender o Nosso Mundo, Inglaterra, Épico, Biografia - 15/04/2012

DIREÇÃO: David Lean

ROTEIRO: T.E. Lawrence, Robert Bolt

ELENCO: Peter O’Toole, Alec Guinness, Antony Quinn, Jack Hawkins, Omar Sharif, Anthony Quayle, Claude Rains

Inglaterra, 1962  (216 min)

Guardadas as devidas proporções – que fique bem claro - O Príncipe do Deserto me inspirou a rever o grande clássico Lawrence da Arábia. Esse sim, um épico, com quase quatro horas de duração, vendedor de 7 Oscar e uma paisagem do deserto como poucos filmes conseguiram fazer. Ou nenhum.

Também diretor de filmes como Dr. Jivago e Passagem para a Índia, David Lean constrói um retrato impecável da península arábica durante a Primeira Guerra Mundial, contando a história do oficial britânico que, cansado de executar tarefas no confortável e generoso escritório no Cairo, pede para atuar no campo. E, já naquele começo de século, atuar no campo no Oriente Médio era envolver-se num barril de pólvora. De um lado, as inúmeras tribos árabes rivais, violentas e ditatoriais por definição, disputavam terras e poder na península; de outro, os turcos que invadiam seus territórios, dominavam cidades e abriam caminho para anexá-los ao já enorme Império Otomano. Lawrence entra justamente nesse momento, em que os ingleses não queriam lutar contra os turcos, pois já combatiam na Europa, mas não desejavam o poder deles em uma região tão estratégica; e em que os árabes precisavam lutar contra um inimigo comum, e para isso precisavam colocar de lado seus interesses próprios e richas históricas.

Lawrence da Arábia ganha identidade árabe, agindo como conciliador e estrategista inglês para combater os turcos, graças à sua crença na revolta árabe e profundo conhecimento geográfico da região. Independente de sua controversa postura (que o filme não deixa claro, apenas sugere que tem dúvidas, inseguranças, que questiona sua missão em alguns momentos), é um fator determinante na reconquista da península pelas tribos nativas e sua direta negociação, daquele momento em diante, com os interesses ingleses e ocidentais.

Mesmo se você preferir não entrar nos detalhes dessas questões políticas e dos interesses particulares do Ocidente, fato é que Lawrence da Arábia é um clássico impressionante de cenas de batalhas entre tribos, viagens pelo deserto de fotografia impar. E mais: em se tratando de lutas tribais, de vingança e richas entre líderes, torna filmes como O Príncipe do Deserto algo novelesco e nada mais. Eu já tinha avisado – são propostas diferentes, não tem nem como comparar. Cada um no seu devido lugar.

DIAMANTE DE SANGUE – Blood Diamond
CLASSIFICAÇÃO: Para Entender o Nosso Mundo, Estados Unidos, Drama - 12/02/2012

DIREÇÃO: Edward Zwick

ROTEIRO: Charles Leavitt

ELENCO: Leonardo DiCaprio, Djimon Hounsou, Jennifer Connelly, Kagiso Kuypers, Arnold Vosloo

Estados Unidos, 2006 (143 min)

Recentemente publiquei um comentário sobre o filme Darfur – Deserto de Sangue, que me impressionou não pela qualidade do cinema, mas pela realidade africana da guerra civil. Imediatamente me lembrei de Diamante de Sangue, que na época do lançamento deixou todo mundo de queixo caído com as atrocidades cometidas na África pelas milícias que combatem os governos em diversos países, matam seus compatriotas, recrutam crianças para combater e inevitavelmente deixam milhões sem casa, família, comida, em campos de refugiados lotados espalhados pelo continente.

Diamante de Sangue trata especificamente de uma região africana: Serra Leoa. Nos anos 1990, suas minas de diamante eram motivo de disputa entre as milícias rebeldes Frente Revolucionária Unida e o governo, envolvendo contrabandistas que levavam as pedras para a Libéria, corrompiam as autoridades para exportar “legalmente” os diamantes para a Europa e atender ao mercado consumidor ocidental, ávido por joias. Na pele do ótimo Leonardo DiCaprio (também em A Origem, J.Edgar, Ilha do Medo, Titanic, Foi Apenas um Sonho), o contrabandista do Zimbábue, Danny Archer, vive desse trâmite, dançando conforme a música para atender aos chefões do tráfego africano, que abastecem o mercado europeu. Em plena guerra civil totalmente descontrolada, o pescador Salomon Vandy (Djimon Hounsou) é separado da família, forçado a trabalhar em uma mina, onde encontra um diamante rosa, que balizará toda a trama, manchará a mão de todos de sangue e será seu trunfo para ter sua esposa e filhos de volta. Enquanto cada um joga conforme seus interesses, a jornalista americana Maddy (Jennifer Connelly) é daquelas idealistas que não se conforma com o status quo, quer informar o ocidente do que acontece nos países africanos em guerra e delatar as empresas joalheiras que são coniventes com o tráfego de pedras preciosas e consequentemente de armas e munições para a guerra civil, sendo assim corresponsáveis pela morte de milhares de pessoas.

Além de ser eletrizante pela dramaticidade da situação de guerrilha e destruição, Diamante de Sangue toca no assunto do consumo de produtos gerados por uma linha de produção duvidosa e criminosa – assim como são aqueles produtos que advém do trabalho escravo. Não vou entrar no mérito do exagero ou não sobre o envolvimento da indústria ocidental no mercado ilegal de diamantes. Acho que o assunto em voga aqui é a lei da oferta e da demanda, bem mais amplo, que atinge vários setores da economia. Se não houver quem compre, não haverá oferta do produto, do contrabando, da droga, da pirataria, etc – tudo isso muito perto de nós. Indo mais além, pela voz da jornalista, vem à tona o domínio dos brancos sobre o continente africano, a exploração das riquezas do continente sem a preocupação com a formação, crescimento e sustentabilidade dos países.

Assistam a Diamante de Sangue. Outros bons filmes sobre a África ilustram situações desoladoras como:

Life, After All - drama humano consequente da epidemia da AIDS – África do Sul

Minha Terra, África - relação dos fazendeiros de café europeus com milícias locais

Infância Roubada - marginalização das crianças – África do Sul

Hotel Ruanda - guerra civil – Ruanda

Flor do Deserto - denúncia da mutilação genital feminina (biografia de Waris Dirie) - Somália

O Jardineiro Fiel - denúncia da influência oportunista das indústrias farmacêuticas sobre os países africanos – Quênia.

CAVALO DE GUERRA – War Horse
CLASSIFICAÇÃO: Para Ver em Família, Para se Emocionar, Estados Unidos, Drama, Ação - 05/01/2012

DIREÇÃO: Steven Spielberg

ROTEIRO: Lee Hall, Richard Curtis

ELENCO: Jeremy Irvine, Emily Watson, David Thewlis, Niels Arestrup, David Thewlis, Tom Hiddleston, Benedict Cumberbatch, Celine Buckens

Estados Unidos, 2012

Nos cinemas: 06 de janeiro

Steven Spielberg volta mostrando seu indiscutível talento para filmes sensíveis e produções grandiosas. Portanto, quem gosta da sua maneira de filmar, vai curtir e se emocionar. E volta em dose dupla, porque teremos também a estreia de As Aventuras de Tintim logo mais. O belo Cavalo de Guerra me fez lembrar de O Império do Sol, em que o protagonista também é um garoto, só que na Segunda Guerra (confesso que gosto mais desse primeiro filme do que do atual). Aqui ele retoma o tema da perda da adolescência, dos sonhos, das amizades, das referências e da transformação da vida pela guerra. Sempre do ponto de vista de quem está começando a vida, ainda é inocente e guarda a pureza que a vivência muitas vezes acaba destruindo – portanto, carregado de sentimentalismo muitas vezes exagerado. Então, atenção: Cavalo de Guerra não é um filme de guerra propriamente dito – se você for com essa expectativa, vai se decepcionar. Não tem nada a ver com A Lista de Schindler, por exemplo, que é feita para adultos, sobre o mundo adulto. Este aqui é feito para jovens, do ponto de vista do jovem, que fantasia uma realidade adulta.

Presente como produtor executivo em vários filmes nos últimos anos, entre eles Super 8, Bravura Indômita, Além da Vida, Cartas de Iwo Jima, A Conquista da Honra, Spielberg dirige uma história que teria tudo para ser somente mais um conto melodramático sobre a guerra e a amizade entre um rapaz e um cavalo. Mas constrói os personagens de uma maneira que não cai na pieguice (apesar do sentimentalismo, música de fundo, encenação do cavalo, etc). É na simplicidade do enredo que Cavalo de Guerra se torna um filme bem feito. A espinha dorsal é Albert (Jeremy Irvine), que mora com sua família em uma fazenda na Inglaterra no começo do século XX. Por circunstância que não vêm ao caso, acaba criando e domando um lindo potro, com quem estabelece uma relação muito especial. A Primeira Guerra explode e a vida de todos vira de ponta cabeça. Inclusive  do cavalo, que é vendido e vai para o front de batalha.

São várias as reviravoltas, mas o fato é que os 146 minutos de filme prendem a atenção. A composição dos personagens franceses (Niels Arestrup, também em O Profeta, A Chave de Sarah), dos pais de Jeremy, dos soldados no front são histórias paralelas em meio à produção impecável dos campos ingleses, das batalhas, das cenas em que o cavalo é o protagonista. Dizer muito mais sobre o filme, é diminuir a sua composição cinematográfica como um todo – que é o que ele tem de mais bonito. O que é basicamente um filme sobre  o amor de um rapaz por um cavalo (como tantas outras vezes no cinema), ganha na tela a dimensão de um grande feito e de uma grandiosa produção.

NOTA: Assisti pela segunda vez a Cavalo de Guerra. Quem foi esperando um filme de guerra, se decepcionou, como alertei acima. Achou falso, forçado, estilo “sessão da tarde”. Mas de fato é esse o apelo: da emoção do jovem, do sentimento de fidelidade dessa fase da vida, do apego ao animal. É um programa para ver em família – do estilo Spielberg de filmar. Mas é cinema bem feito.

 

O DIA DO PERDÃO – Kippur
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Israel, Drama - 03/01/2012

DIREÇÃO: Amos Gitai

ROTEIRO: Amos Gitai, Marie-Jose Sanselme

ELENCO: Liron Levo, Tomer Russo, Uri Klauzner, Yoram Hattab, Guy Amir, Juliano Mer-Khamis, Ran Kauchinsky

Israel, 2000 (117 min)

Filme de guerra, sobre qualquer guerra. Não entra no mérito de quem é a culpa, quem são as pessoas envolvidas, quem vence o conflito. Retrata simplesmente a matança desenfreada, a devastação e a tentativa de um grupo de soldados de salvar aqueles que ainda são encontrados com vida no front de batalha. Durante as cenas de resgate, parece até documental. O diretor israelense Amos Gitai (também de Aproximação, Free Zone) participou da guerra em questão e conta o que viu e sentiu.

A guerra do filme é a do Yom Kippur, em 1973, em que as tropas da Síria e do Egito atacaram Israel de surpresa, bem no dia sagrado do Yom Kippur, Dia do Perdão. Bombardearam o Sinai e as Colinas de Golã, na tentativa de reaver os territórios perdidos na guerra de 1967. O que começa com um dia calmo, com ruas desertas, termina com bombardeios, mortos em trincheiras, granadas, campos devastados pelas marcas dos tanques de guerra, lama, sangue e morte. Não se vê combate, nem a cara do inimigo. A história que Amos Gitai conta é sobre dois soldados israelenses, que não encontram seu batalhão, acabam se juntando à equipe de um médico, que tem a insana e humanitária missão de percorrer os campos de batalha a procura de sobreviventes para tentar salvar essas vidas e não morrer.

O Dia do Perdão não é um filme de guerra normal, como tantos outros. Tive a impressão que os resgates são filmados para dar a impressão genuína da dificuldade, da aflição, do perigo. Tive a impressão de serem em tempo real, com planos demorados, repetitivos, numa sequência que se repete quantas vezes for preciso, até quando os soldados tiverem energia, até quando estiverem vivos. Independente do local, do nome, da época dessa guerra em si, este filme serve para todos os conflitos. E passe realmente uma sensação de completa desesperança.

 

ÀS CINCO DA TARDE – At Five in the Afternoon
CLASSIFICAÇÃO: Para Entender o Nosso Mundo, Irã, Drama, Afeganistão - 27/12/2011

DIREÇÃO: Samira Makhmalbaf

ROTEIRO: Mohsen Makhmalbaf, Samira Makhmalbaf

ELENCO: Agheleh Rezaie, Abdolgani Yousefrazi, Razi Mohebi

Irã, Afeganistão, 2003 (105 min)

A jovem cineasta Samira Makhmalbaf só tem 31 anos e já faturou duas vezes o Prêmio Especial do Júri em Cannes. A primeira vez foi com apenas 20 anos, com o filme The Black Board (2000); a segunda com Às Cinco da Tarde, quando tinha 23. Aprendeu em casa, com o pai Mohsen Makhmalbaf, também cineasta, responsável pelo fantástico A Caminho de Kandahar, e com a irmã, diretora do filme Green Days. Família de artistas com olhar apuradíssimo. Ainda bem, porque é  através deles que temos a oportunidade de conhecer um pouco dessa cultura complexa e milenar, da situação social e política do Irã e da condição da mulher nos países muçulmanos.

Por causa da perseguições aos cineastas no Irã (ver comentário sobre Isto Não É um Filme), a família Makhmalbaf vive fora do país, inclusive no vizinho Afeganistão. Isso fez com que esta década de profundas mudanças no país fosse tema importante analisado em seus filmes, sempre trazendo à tona o ponto de vista feminino, a sensibilidade da maternidade e a agonia da falta de perspectiva. Noqreh (Agheleh Rezaie) quer ser presidente do Afeganistão. Inspira-se em mulheres que lideraram o poder no mundo, principalmente a paquistanesa Benazir Bhutto e a indiana Indira Gandhi, e quer desesperadamente saber o que esses dirigentes dizem ao povo para serem eleitos. Mas é claro que no Afeganistão tudo é diferente. Mesmo porque seu pai, um senhor conservador e autoritário, não quer que ela volte a estudar. Agora que o país já não está sob o comando do Taleban, as mulheres voltaram aos bancos da escola, onde discutem a situação política do país, suas ambições profissionais e pessoais e tentam achar um caminho para a sociedade esfacelada pela guerra e sofrida pelas perdas e mutilações.

Mas não há de ser a sua vontade a que prevalece – o pai a obriga a cobrir-se, estudar os ensinamentos do Alcorão, a jurar obediência e vê blasfêmia em tudo. Num país em que falta moradia, comida, água, a questão maior é a sobrevivência. Comandada pelo pai, segue com a cunhada pelo deserto, buscando um gole de água e um teto, lutando para salvar a vida do sobrinho e para entender como é possível viver num país totalmente destruído, material e emocionalmente.

Às Cinco da Tarde tem um tom desolador. Um provação do começo ao fim, com um olhar feminino sensível e apurado para as humilhações, como o uso da burca que esconde o rosto, a identidade e individualidade, assim como para as vaidades femininas, como o sapato branco de salto em meio ao deserto. Mostra uma sociedade sem rumo, perdida em seus conceitos autoritários, egoístas e machistas, perdida na aridez e na precariedade que o deserto já traz por si só, e que o homem tratou de piorar ainda mais.

 



RAPSÓDIA EM AGOSTO – Rhapsody in August
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Japão - 22/11/2011

DIREÇÃO: Akira Kurosawa

ROTEIRO: Akira Kurosawa, Kiyoko Murata (livro)

ELENCO: Sachiko Murase, Richard Gere, Hisashi Igawa, NArumi Kayashima, Tomoko Ôtakara, Mitsunori Isaki, Toshie Negushi

Japão, 1991 (98 min)

“Há pessoas que ficam silenciosas quando falam.”

 

Alguns falam, mas não dizem nada; outros preferem o silêncio, que é mais eficiente que um discurso inteiro. Com sábias palavras como essas, olhares, gestos e silêncio, a matriarca da família japonesa atravessa o tempo de dor pela perda do marido na explosão da bomba atômica de Nagasaki em 1945, da destruição da cidade, da necessidade de seguir viva, cuidando, educando e transmitindo sabedoria e paciência às novas gerações. Na cultura japonesa já ocidentalizada em muitos aspectos, Rapsódia em Agosto é um exercício de compreensão dos sentimentos e razões para se viver em cada uma das épocas. Filme de observação.

A senhora Kane é uma sobrevivente da guerra. Perdeu o marido ainda jovem, separou-se dos irmãos que foram se dispersando para outros cantos. O que foi para o Havaí, casa-se por lá, forma uma família ocidental, faz fortuna e perde o contato com os familiares e com a cultura japonesa. Quando os sobrinhos vão visitar o tio (pai de Richard Gere) que está morrendo nos Estados Unidos, os quatro netos adolescentes têm a chance de conviver com a avó e com o rico e antiquado, mas não menos importante, repertório e vivência desta senhora.

Rapsódia em Agosto traz questões muito interessantes sobre as heranças históricas e familiares que cada geração carrega. A geração pós-guerra japonesa carrega o trauma da bomba nuclear e a americana, a culpa por isso, da mesma forma que os alemães têm que conviver com o fantasma do nazismo dos tempos de Hitler (falamos disso em filmes alemães como Se Não Nós, Quem?). Como as gerações processam as atitudes passadas e elaboram o perdão e a culpa? Uma senhora, que viveu os horrores da bomba atômica e suas mais cruéis consequências, consegue perdoar e ensinar a perdoar, mas não a esquecer. O ritual de homenagensàs vítimas do ataque em agosto são singelos e de forte impacto, e se perpetuam no tempo.

Assim como em Marcha da Vida, em que judeus que viveram o Holocausto percorrem o caminho entre os campos de concentração com jovens, para que o passado não seja esquecido e que os ensine a olhar para frente e construir um mundo melhor, a senhora japonesa de Rapsódia em Agosto faz esse papel. Ensina seus netos a não guardar rancor, a lembrar para não repetir. O que deve apaziguar a alma, mas não diminuir a dor.

Rapsódia em Agosto é um singelo e bonito retrato da passagem do tempo. A dor é retratada pelo esforço (a última cena da chuva), pela sabedoria, pela lembrança. O importante diretor japonês Akira Kurosawa entrega aos jovens a carga da esperança, da construção de um mundo com menos mágoas. Deposita neles o futuro, mas enaltece a importância do passado, da história, das raízes e da família.

 

A CAMINHO DE KANDAHAR – Safar e Ghandehar
CLASSIFICAÇÃO: Para Entender o Nosso Mundo, Irã - 19/11/2011

DIREÇÃO e ROTEIRO: Mohsen Makhmalbaf

ELENCO: Nelofer Pazira, Hassan Tantai, Ike Ogut, Sadou Teymouri

Irã, França 2001 (85 min)

“O amor é capaz de atravessar a escuridão da burca?”

- Nafas, afegã que vive no Canadá

Assim como vários diretores iranianos, Mohsen Makhmalbaf, pai da também cineasta Hana Makhmalbaf, diretora de Green Days, vive fora do Irã. O regime do ditador Mahmoud Ahmadinejad adota descaradamente o caminho da censura, repressão, violência e prisão para tirar de cena pessoas, artistas e profissionais que tenham algo a dizer contra ele. Ou que simplesmente tenham algo a dizer.

Apesar disso – e por causa disso – a produção cinematográfica vai de vento em popa, sempre mostrando a cultura do Irã e dos países vizinhos como o Afeganistão. Em A Caminho de Kandahar, o diretor escancara todas as mazelas implantadas pelo regime opressor do Taliban neste país, assim como os rastros de destruição humanitária deixados por governo corrupto, extremista, teocrático, islâmico e machista. O filme mostra a crueldade das cicatrizes em cenas impressionantes, através da narrativa da viagem da jornalista Nafas (Nelofer Pazira), que precisa chegar à Kandahar para encontrar a irmã e impedir que ela se mate. Depois da separação ainda pequenas, quando fugiam do país para se fixar no Canadá, não se encontraram mais. Na ocasião, Nafas e a família deixaram a irmã para trás após ela ser gravemente ferida nas pernas em um dos campos minados afegãos. Nafas recebe uma carta da irmã dizendo que não consegue mais viver e que vai se suicidar após o último eclipse do século 21. Ela então começa a viagem até Kandahar pelos desertos inóspitos e desumanos, tentando se infiltrar numa das tantas caravanas de refugiados afegãos que retornam ao país pela fronteira com o Irã.

O caminho de Nafas é cruel em todos os sentidos, mas tem uma pitada de esperança na figura do “médico” que encontra pelo caminho. Ainda há quem se preocupe em simplesmente cuidar dos outros. Na maior parte dos casos, o trajeto é coberto de malandros e oportunistas; gente desconfiada e desconfiança; gente mutilada física e emocionalmente; gente faminta e miserável; mulheres cobertas e infelizes; sem rosto e sem identidade.

As cenas são de uma beleza incrível – e de uma crueldade atroz. Homens mutilados apelam no acampamento da Cruz Vermelha por um par de pernas, por uma mão, por algo que os faça dormir, ou parar de chorar; homens mutilados correm desesperadamente em busca da esperança que se resume no par de pernas lançados de paraquedas pelos helicópteros da Cruz Vermelha nesse território inclemente; mulheres de burca cruzam o deserto sem rosto, sem vontades, sem vida – coloridas sim (o visual que o diretor produz a partir daí é de arrepiar), mas com alma sem cor, sem brilho, sem nome, embora ainda vaidosa. São apenas algumas das cenas, mas garanto que vale o todo, o contexto, o aprendizado que chega sobre a intolerância, sobre o que ela é capaz de fazer com um povo e com a relação entre as pessoas. Como dizem os personagens, a esperança para quem tem fome é o pão; para quem tem sede, a água; para quem vive coberta, ser vista. Disse tudo. Imagine ver o mundo através dos pequenos buracos de uma burca. Conseguiu? Eu não fui capaz.

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