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O HOMEM QUE MUDOU O JOGO – Moneyball
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Estados Unidos, Drama - 17/02/2012

DIREÇÃO: Bennett Miller

ROTEIRO: Steven Zaillian, Aaron Sorkin

ELENCO: Brad Pitt, Johan Hill, Philip Seymour Hoffman, Robin Wright

Estados Unidos, 2011 (133 min)

 

Nos cinemas: 17 de fevereiro

 

“Seu objetivo não deveria ser comprar jogadores, mas sim comprar vitórias. E para comprar vitórias, precisa comprar quem marca ponto.”

Peter Brand

Sinceramente? Não entendo nada de beisebol. Talvez seja porque não vejo graça na dinâmica do jogo e, logicamente, porque nunca me interessei por aprender suas regras e macetes. E tem o agravante de o esporte não fazer parte da cultura brasileira – o que o torna ainda mais distante. Mas independente de qualquer preferência ou circunstância, fato é que essa informação bastante pessoal só interessa a você por causa do seguinte: O Homem que Mudou o Jogo não é sobre beisebol. É sobre a maneira com que o dinheiro rege os esportes hoje em dia. Poderia ser o futebol (e como!), golfe, automobilismo e tantos outros.

Portanto, se tiver curiosidade pelo assunto, não se acanhe se for parecido comigo nesse ponto. Alguns jogos acontecem, é verdade, mas o enfoque não são as partidas. Com seis indicações ao Oscar entre elas melhor filme, ator, ator coadjuvante (Johan Hill), o filme fala essencialmente da dificuldade de lidar com a falta de dinheiro, quando é ele que manda e desmanda no mundo do esporte. Na pele de Brad Pitt (também em Onze Homens e Um Segredo, A Árvore da Vida, Bastardos Inglórios, Babel, Queime Depois de Ler) – que aliás está muito firme no papel – o ex-jogador Billy Beane é gerente do time de beisebol Oakland Athletics, que anda sem caixa. A cada começo de temporada, ele tem que contratar novos jogadores, mas o valor exorbitante que o mercado paga pelos grandes nomes é algo fora da sua realidade.

Sem saída e totalmente na contramão de todas as opiniões da equipe técnica, entre eles o próprio treinador Art Howe (Philip Seymour Hoffman, também em Tudo pelo Poder, Magnólia, Felicidade, Dúvida), resolve adotar uma política de seleção nada comum. Contrata o jovem economista Peter Brand (Jonah Hill, também em Cyrus) para ajudá-lo a escolher os jogadores com base em estatísticas feitas pelos computadores: quem tivesse mais índices de acertos seria contratado – o que gera muita controvérsia e dúvida quanto à eficácia da estratégia.

Embora eu tenha ficado por fora em alguns momentos, por causa da terminologia dos lances e posições do jogo, o interessante no filme é o personagem de Brad Pitt. Baseado numa história real, ele foi um promissor jogador na juventude, que teve de optar entre aceitar uma bolsa na universidade ou embolsar um bom dinheiro para se dedicar ao time, que lida com a sensação de derrota também no campo emocional por causa do divórcio e da relação distante com a filha. Quase sem saída, precisa agora reinventar outra maneira de lutar, para tentar vencer e recuperar sua autoestima e seu prestígio no meio esportivo. Baseado no livro Moneyball: A Arte de Vencer um Jogo Injusto (tradução livre, livro inédito no Brasil), de Michael Lewis, reflete essa tendência geral de o esporte ser direcionado pelos cifrões. Bem pensado, ótimo título.

 

DIAMANTE DE SANGUE – Blood Diamond
CLASSIFICAÇÃO: Para Entender o Nosso Mundo, Estados Unidos, Drama - 12/02/2012

DIREÇÃO: Edward Zwick

ROTEIRO: Charles Leavitt

ELENCO: Leonardo DiCaprio, Djimon Hounsou, Jennifer Connelly, Kagiso Kuypers, Arnold Vosloo

Estados Unidos, 2006 (143 min)

Recentemente publiquei um comentário sobre o filme Darfur – Deserto de Sangue, que me impressionou não pela qualidade do cinema, mas pela realidade africana da guerra civil. Imediatamente me lembrei de Diamante de Sangue, que na época do lançamento deixou todo mundo de queixo caído com as atrocidades cometidas na África pelas milícias que combatem os governos em diversos países, matam seus compatriotas, recrutam crianças para combater e inevitavelmente deixam milhões sem casa, família, comida, em campos de refugiados lotados espalhados pelo continente.

Diamante de Sangue trata especificamente de uma região africana: Serra Leoa. Nos anos 1990, suas minas de diamante eram motivo de disputa entre as milícias rebeldes Frente Revolucionária Unida e o governo, envolvendo contrabandistas que levavam as pedras para a Libéria, corrompiam as autoridades para exportar “legalmente” os diamantes para a Europa e atender ao mercado consumidor ocidental, ávido por joias. Na pele do ótimo Leonardo DiCaprio (também em A Origem, J.Edgar, Ilha do Medo, Titanic, Foi Apenas um Sonho), o contrabandista do Zimbábue, Danny Archer, vive desse trâmite, dançando conforme a música para atender aos chefões do tráfego africano, que abastecem o mercado europeu. Em plena guerra civil totalmente descontrolada, o pescador Salomon Vandy (Djimon Hounsou) é separado da família, forçado a trabalhar em uma mina, onde encontra um diamante rosa, que balizará toda a trama, manchará a mão de todos de sangue e será seu trunfo para ter sua esposa e filhos de volta. Enquanto cada um joga conforme seus interesses, a jornalista americana Maddy (Jennifer Connelly) é daquelas idealistas que não se conforma com o status quo, quer informar o ocidente do que acontece nos países africanos em guerra e delatar as empresas joalheiras que são coniventes com o tráfego de pedras preciosas e consequentemente de armas e munições para a guerra civil, sendo assim corresponsáveis pela morte de milhares de pessoas.

Além de ser eletrizante pela dramaticidade da situação de guerrilha e destruição, Diamante de Sangue toca no assunto do consumo de produtos gerados por uma linha de produção duvidosa e criminosa – assim como são aqueles produtos que advém do trabalho escravo. Não vou entrar no mérito do exagero ou não sobre o envolvimento da indústria ocidental no mercado ilegal de diamantes. Acho que o assunto em voga aqui é a lei da oferta e da demanda, bem mais amplo, que atinge vários setores da economia. Se não houver quem compre, não haverá oferta do produto, do contrabando, da droga, da pirataria, etc – tudo isso muito perto de nós. Indo mais além, pela voz da jornalista, vem à tona o domínio dos brancos sobre o continente africano, a exploração das riquezas do continente sem a preocupação com a formação, crescimento e sustentabilidade dos países.

Assistam a Diamante de Sangue. Outros bons filmes sobre a África ilustram situações desoladoras como:

Life, After All - drama humano consequente da epidemia da AIDS – África do Sul

Minha Terra, África - relação dos fazendeiros de café europeus com milícias locais

Infância Roubada - marginalização das crianças – África do Sul

Hotel Ruanda - guerra civil – Ruanda

Flor do Deserto - denúncia da mutilação genital feminina (biografia de Waris Dirie) - Somália

O Jardineiro Fiel - denúncia da influência oportunista das indústrias farmacêuticas sobre os países africanos – Quênia.

TUDO PELO PODER – The Ides of March
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Para Entender o Nosso Mundo, Estados Unidos, Drama - 15/12/2011


DIREÇÃO: George Clooney

ROTEIRO: George Clooney, Grant Heslov

ELENCO: George Clooney, Ryan Gosling, Paul Giamatti, Philip Seymour Hoffamn, Marisa Tomei, Evan Rachel Wood, Jeffrey Wright

Estados Unidos, 2011 (101 min)

Nos cinemas: 23 de dezembro

George Clooney fecha 2011 e abre 2012. Terminamos o ano com o lançamento de Tudo pelo Poder e entramos em 2012 com Os Descendentes (estreia prometida para janeiro). No primeiro, Clooney é o governador democrata, que luta para vencer as primárias em Ohio e ser indicado pelo partido como candidato à  presidência dos Estados Unidos; no segundo, Clooney é uma pai confuso, que luta para se aproximar da filha depois que a esposa entra em coma. Enquanto o ator busca atingir seus objetivos, nós, do lado de cá da telona, somos presenteados neste fim de ano com uma obra irônica, inteligente, realista e absolutamente familiar do ponto de vista da política brasileira.

Comecemos pelo título. Originalmente Idos de Março (Ides of March), o título em inglês traz uma informação curiosa e cheia de significado, principalmente com relação à atitude, à maneira de fazer política, aos valores envolvidos. Na Roma Antiga, eram chamados “idos” os dias 15 dos meses de março, maio, julho e outubro. Especificamente os idos de março ficaram conhecidos porque foi nesse dia que o imperador Júlio Cesar foi assassinado por conspiradores. Não é coincidência – como diretor, George Clooney não daria ponto sem nó. Faz alusão às conspirações políticas para subir no poder, para atingir os objetivos eleitorais, para derrotar (ou tirar da frente) o adversário sem deixar rastros, para jogar o jogo da política. Com diálogos irônicos e diretos, digno de verdadeiros políticos-atores, e frases inteligentes, dignas de verdadeiros estrategistas, Tudo pelo Poder é uma leitura bastante objetiva e realista do que é fazer política. Pelo jeito, em qualquer lugar do mundo e em qualquer tempo.

Descubra por você mesmo os meandros, o jogo de interesse e quem é quem no filme. Mas tenha em mente esses personagens: Stephen Meyers (Ryan Gosling, também em Entre Segredos e Mentiras, Namorados para Sempre, Amor a Toda Prova) é o assessor de comunicação do governador Mike Morris (Clooney, também em Amor sem Escalas, Queime Depois de Ler, 11 Homens e um Segredo, Syriana – A indústria do Petróleo), cuja campanha é coordenada pelo experiente Paul Zara (Philip Seymour Hoffman). No mundo da política há muito tempo, Zara tem como rival o astuto Tom Dufy (Paul Giamatti, A Minha Versão do Amor, A Última Estação), coordenador da campanha do candidato republicano. Nesse meandro masculino de egos e vaidades, a jornalista Ida (Marisa Tomei, também em Cyrus, O Poder e a Lei) mostra quão ávida é a imprensa por fabricar notícia, e a jovem estagiária Molly (Evan Rachel Wood, também em Tudo Pode dar Certo, O Lutador), quão vulnerável e egoísta é o ser humano. Com elenco forte e imponente, Tudo Pelo Poder mexe descaradamente com o lado cínico da política e, claro, das pessoas. Joga um balde de água fria no que poderia restar de idealismo, dignidade, integridade. Melhor não subestimar seus ilustres participantes…

MARGIN CALL – O DIA ANTES DO FIM – Margin Call
CLASSIFICAÇÃO: Para Entender o Nosso Mundo, Estados Unidos, Drama - 09/12/2011

DIREÇÃO e ROTEIRO: J.C. Chandor

ELENCO: Kevin Spacey, Paul Bettany, Jeremy Irons, Demi Moore, Staley Tucci, Simon Baker, Penn Badgley, Mary McDonnell

Estados Unidos, 2011 (107 min)

 

Nos cinemas: 9 de dezembro 

 

Um produto só se sustenta no mercado, seja ele qual for, porque tem comprador. Simplista, a lei da oferta e da procura. Com os chamados produtos financeiros, que escapam do entendimento da grande maioria das pessoas, não é diferente. Ainda mais quando eles representam a realização de um sonho de consumo, a compra da casa ou do carro, o status, a sensação de pertencer àquela sociedade. Se o mercado financeiro global não operasse da forma que opera, correndo riscos absurdos, colocando em jogo o equilíbrio da economia e da sociedade, talvez tivéssemos um mundo justo. Mas quem é que quer um mundo justo, afinal de contas?

É com esse raciocínio que um dos executivos do alto escalão de um banco de investimentos justifica a falta de responsabilidade dos arquitetos da crise de 2008. Os bancos compram e vendem aquilo que a sociedade quer possuir. E correm riscos, ganham fortunas e sabem que, no fim das contas, acabam se safando de bolsos bem cheios. O termo ‘margin call’ do título faz referência justamente à violação da margem mínima de segurança de um investimento. Trabalhar correndo altos riscos provoca, obviamente, uma oscilação absurda nessa margem e coloca tudo a perder da noite pro dia – literalmente.

Margin Call – O Dia Antes do Fim retrata justamente essa noite fatídica, antes da crise financeira estourar nos mercados do mundo inteiro em 2008. Além do elenco excepcional com Kevin Spacey (também em Beleza Americana, Quero Matar Meu Chefe), Paul Bettany (O Turista, A Jovem Rainha Vitória), Jeremy Irons (Beleza Roubada, Cruzada), Demi Moore (Amor por Contrato), Staley Tucci (Julie & Julia) e Simon Baker, o diretor J.C. Chandor é preciso no tom. Não vitimiza os mentores da crise. Assim como no ótimo Trabalho Interno, vencedor do Oscar de melhor documentário em 2011, também sobre o tema, deixa claro quem foram os autores da crise, que os culpados não sentem peso na consciência, que ganharam fortunas em bônus financeiros enquanto corriam riscos com o dinheiro das pessoas e que saem praticamente ilesos. Claro que nem todo o alto escalão pensa assim e ainda há gente ética – esse é o conflito do filme, muito embora defenda a tese nas entrelinhas de que todo mundo tem um preço. Mas para conduzir o barco dessa maneira e atender aos apelos consumistas do mundo, só mesmo trabalhando com a margem de segurança que só o dinheiro e a ganância são capazes de garantir.

GREEN DAYS – Ruzhaye Sabz
CLASSIFICAÇÃO: Para Entender o Nosso Mundo, Irã - 07/11/2011

DIREÇÃO: Hana Makhmalbaf

Irã, 2009 (73 min)

Prender cineasta no Irã se tornou lugar comum. O argumento não é diferente daquele usado por outras ditaduras ferrenhas ao redor do mundo: é proibido expressar-se. Fazer cinema tornou-se ato que coloca em xeque o poder do presidente Mahmoud Ahmadinejad, de modo que tirar o produtor, diretor ou qualquer outro que questione e conteste o status quo passou a ser a medida mais eficaz. Mas, apesar de tudo isso, continua-se fazendo cinema no Irã. Felizmente para nós. É através dele que temos informações interessantíssimas sobre a maneira de pensar e agir dessa sociedade.

Se contarmos com a família Makhmalbaf para entender o que se passa no Irã, estamos feitos. Filha do renomado diretor Mohsen Makhmalbaf (também em A Caminho de Kandahar) e irmã da também cineasta Samira Makhmalbaf, Hana Makhmalbaf fez seu primeiro curta aos 8 anos, com 14 estreou em Veneza e aos 19 ganhava prêmio no Festival de Berlim. Produziu Green Days num misto de documentário e ficção rico em detalhes, informações e sobretudo sensações. Através de Ava, uma garota deprimida e totalmente desiludida com a realidade política e social iraniana, Hana conta como foi viver aquele momento político de 2009, quando o candidato da oposição Houssein Mousavi venceu incontestavelmente nas urnas, mas foi derrotado por Mahmoud Ahmadinejad, que manipulou o resultado. Ava percorre as ruas entrevistando as pessoas no momento das eleições, ao mesmo tempo em que intercala suas andanças com sessões de terapia, produção de uma peça de teatro que acaba sendo censurada e o trabalho braçal recomendado pelo psicólogo para apaziguar suas aflições.

É muito interessante, a construção de Green Days, principalmente na mescla que a diretora faz de ficção e realidade. As imagens dos protestos são impressionantes, assim como as da repressão policial. Claro que Hana e sua família vivem fora do Irã – condição essencial para manifestar-se, fazer o mundo conhecer a realidade do país e pressionar a opinião pública e instituições internacionais para que posicionem contra o regime de Ahmadinejad e a favor da libertação de quem quer dizer o que pensa. Básico.

HABEMUS PAPAM
CLASSIFICAÇÃO: Para se Divertir, Para Entender o Nosso Mundo, Itália - 30/10/2011

 DIREÇÃO: Nanni Moretti

ROTEIRO: Nanni Moretti, Francesco Piccolo, Federica Pontremoli, Jerzy Stuhr,

ELENCO: Michel Piccoli, Nanni Moretti, Jerzy Stuhr, Renato Scarpa, Franco Graziosi, Camillo Milli, Roberto Nobile, Marguerita Buy

Itália, 2011 (104 min)

Qualquer um de nós, independente de crença ou religião, gostaria de ser uma mosca para saber o que se passa dentro das paredes do Vaticano. Na rotina, na tomada de decisão, nos relacionamentos, na política. Ainda mais se o momento for de eleição do novo papa. No conclave dos cardeais, eles se reúnem a sete chaves, escrevem seu voto e ficam incomunicáveis com o mundo exterior, até que seja anunciado no balcão da Praça São Pedro: Habemus Papam! Esse é o ponto central do novo longa de Moretti (também dos ótimos O Quarto do FilhoCaos Calmo, Caro Diário): temos papa, mas parece que ele próprio não está convencido disso.

Haveria inúmeros temas a serem explorados – nesses 2 mil anos de história, fatos é que não faltam para ilustrar, criticar, reverenciar os feitos da Igreja Católica. Acho inclusive que o mais fácil seria uma crítica ferrenha, tendo em vista as dificuldades de angariar novos fiéis, a concorrência dos outros credos, as denúncias e tudo mais. E é justamente isso que eu mais gosto no filme: a escolha de Nanni Moretti pelo retrato do papa enquanto homem, com fraquezas, dúvidas, ansiedades, medos como qualquer um de nós, sem juízo de valor à pessoa, nem ao religioso. Ao deparar-se com a missão de ser o novo chefe da Igreja, mentor espiritual de mais de um bilhão de pessoas no mundo todo, o novo eleito entra em desespero e o Vaticano toma a decisão de contratar um terapeuta, personagem do próprio Nanni Moretti, para desatar o nó.

Aqui entra a magia do filme, quando Nanni Moretti opta pela graça e pelo humor inteligente, e não pela ironia, acusação ou desprezo. Nada disso. Como terapeuta, ele levanta questões de caráter humano, próprio de todos nós que sentimos, amamos, escolhemos, detestamos, fazendo graça inclusive com situações da sua vida (no filme) com a ex-mulher também psicanalista. Questiona os protocolos e dogmas da Igreja com sutileza, embora explicitamente – me fez rir sem ofender – e retrata os dias de reclusão dos cardeais, a espera do anúncio do novo papa, como pessoas normais, com manias, hipocondria, preleções, habilidades e defeitos.

Exibido na Mostra Internacional de Cinema em outubro do ano passado, os espectadores se divertiram e de quebra levaram pra casa uma discussão interessante sobre essas pessoas “escolhidas”, seja político, líder religioso, chefe de estado, que têm a função inglória de representar e liderar, atender às expectativas e convencer o rebanho de que aquele discurso vale quando pesa.



AS NEVES DO KILIMANJARO – Les Nieges du Kilimandjaro
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, França - 24/10/2011

DIREÇÃO e ROTEIRO: Robert Guediguian

ELENCO: Ariane Ascaride, Jean-Pierre Darroussin, Gérard Meylan, Grégoire Leprince-Ringuet, Maryline Canto, Anaïs Demoustier, Adrien Jolivet

França, 2011 (90 min)

Tem um certo olhar mesmo – especial, humano, simples e muito difícil de se conseguir. Selecionado para a categoria Un Certain Regard, de Cannes, o filme As Neves do Kilimanjaro cai com uma luva no que eu entendo sobre essa seleção. Filmes como Mother, À Deriva, Pecado da Carne, Blue Valentine, Abutres, Trabalhar Cansa e outros tantos também fazem parte dessa seleta lista que inclui histórias sobre assuntos já esmiuçados no cinema – e na vida – mas que contam com o ponto de vista sensível, observador e profundo do diretor. Um outro olhar realmente. Que, via de regra, emociona pela profundidade da linguagem.

Em As Neves do Kilimajaro o que mais chama a minha atenção é a beleza dos sentimentos mais nobres, que normalmente são os primeiros a cair por terra quando as dificuldades da vida se apresentam. Explico: tudo gira em torno do casal Marie Claire (Ariane Ascaride) e Michel (Jean-Pierre Darroussin, também em Conversas com Meu Jardineiro). Diretor do sindicato, precisa demitir 20 pessoas, acaba incluindo seu nome nessa lista para não ser privilegiado, e passa a ter mais tempo para a esposa, filhos, netos e para viajar – ganha, inclusive, uma viagem para a África, daí o nome do filme. Até que um dia o dinheiro e a passagem da viagem são roubados por marginais e os sentimentos ruins de raiva, ódio, vingança, injustiça vêm à tona e põem em cheque a postura ética e amorosa que sempre tiveram durante a vida.

Mas como costumo dizer aqui no Cine Garimpo, há diversos filmes que mostram claramente a questão da escolha. A beleza de As Neves do Kilimanjaro não é só essa, porque o casal Marie Claire e Michel faz a opção de continuar tocando a vida com alegria, fazendo o que é certo. Vai além quando eles fazem escolhas fora da curva, por assim dizer. Inesperadas e que não precisariam ser feitas em hipótese alguma. Fazem por humanidade, por nobreza. É aqui que está a superação do simples fato de serem corretos. Afinal, ser correto não é mais do que nossa obrigação. O duro é transcender.

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PROGRAME-SE: 

Ingressos online: Ingresso.com

24 out / 16h00 - UNIBANCO ARTEPLEX – Shopping Frei Caneca
* Sala 1
Rua Frei Caneca, 569 – 3ºpiso / CEP: 01307-001 / TEL: 3472-2362.

31 out / 15h40 - UNIBANCO ARTEPLEX – Shopping Frei Caneca
* Sala 1
Rua Frei Caneca, 569 – 3ºpiso / CEP: 01307-001 / TEL: 3472-2362.

O GAROTO DA BICICLETA – Le Gamin au Vélo
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, França, Drama, Bélgica - 20/10/2011

 


 

 

DIREÇÃO e ROTEIRO: Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne

ELENCO: Thomas Doret, Cécile De France, Jérémie Renier

França, Bélgica, Itália, 2011 (87 min)

Hoje começa oficialmente a 35a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, com evento só para convidados no Auditório do Ibirapuera. E o filme de abertura escolhido, entre os 250 que compõe a seleção deste ano, é a nova produção dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne, também diretores de A Criança e O Silêncio de Lorna. Quem conhece essas duas obras anteriores, sabe que o estilo dos irmãos diretores não é dos mais afáveis. Levanta, de uma forma muito íntima, realista e seca, as dificuldades próprias do ser humano no que tange o respeito e de relação consigo próprio e com o outro.

Em O Garoto da Bicicleta não é diferente. O assunto ‘família desagregada’, ‘inversão de valores’ ‘desconstrução do amor’ é recorrente também aqui. Portanto, prepare-se. Mas, se servir de alento, digo também que este filme tem de belo o que os outros têm de amargo. Saí da coletiva de imprensa da Mostra, quando o filme foi exibido, aliviada. É como se a vida tivesse falado mais alto desta vez, como se os Dardenne tivessem tido a chance de escolher um caminho da esperança. E o fizeram. Optaram pela réstia de luz e resgate ético que poderia caber no roteiro, indicando que nem tudo são trevas. Apesar de todos (e não são poucos) os pesares. E apesar de não adotarem um estilo de direção que ‘facilite a vida do espectador’.

A espinha dorsal do belo O Garoto da Bicicleta, que venceu o Grande Prêmio do Júri em Cannes este ano, é a família que não se une diante das diferenças e dificuldades, que opta pelo caminho mais fácil, o do abandono. Cyril (Thomas Doret) foi deixado pelo pai (Jérémie Renier, também em Potiche – Esposa Troféu, O Silêncio de Lorna, A Criança) e vive em um internato. Tenta, de qualquer maneira, saber do seu paradeiro. Sabrina (Cécile de France, também em Além da Vida, Bonecas Russas, Albergue Espanhol) é sua tutora nos fins de semana e estabelece com o garoto uma relação de afeto, embora sinta, logicamente, resistência do menino. Apesar disso, as frustrações, angústias e dessabores falam mais alto e Cyril acaba cedendo a pressões de maus elementos na pequena cidade onde passa os fins de semana com Sabrina.

O que vem a seguir são situações em sempre há dois caminhos a serem escolhidos. Pai, tutora e garoto adotam uma postura que transforma não só as relações no filme, mas a relação do espectador com a história. Embora não seja uma linguagem pronta e mastigada, que deixe o espectador totalmente à vontade, mas sim um discurso que estimula a reflexão e o desconforto, os Dardenne desta vez escolheram elementos que suavizaram as tão difíceis relações. A bicicleta, os passeios, a luz do dia, a pequena cidade, a escolha de Cécile de France como a atriz protagonista – que tem um brilho especial, sim – trazem a esperança de que algo pode dar certo no final.

 

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