DIREÇÃO e ROTEIRO: Gavin Wiesen
ELENCO: Freddie Highmore, Emma Roberts, Michael Angaro , Elizabeth Reaser, Sam Robard.
Estados Unidos, 2011 (83 min)
Com a cara de Nova York, A Arte da Conquista me lembrou o simpático ABC do Amor. Só que agora os personagens são mais velhos e não andam mais de patinete pela cidade. Eles têm 17 anos, estão terminando o ensino médio e estão bem naquela fase de indefinição. Crescer ou não crescer? Que caminho seguir? Como enfrentar os problemas do mundo adulto, que já fazem parte do seu repertório de compreensão, mas não das suas possibilidade de resolução?
Assim está a situação de George (Freddie Highmore, também em As Crônicas de Spiderwick, O Som do Coração, A Fantástica Fábrica de Chocolate) e Sally (Emma Roberts, também em Um Hotel Bom pra Cachorro): ele se apaixona por ela, uma das garotas mais populares da turma, mas vive um momento de insegurança familiar, não se interessa pelos estudos, não faz os trabalhos e está prestes a repetir de ano. Está naquela situação crítica de baixa auto-estima, em que é preciso um desafio maior para escolher que caminho seguir.
Vivendo essa fase de descobertas e decepções, Sally e George experimentam encontros e desencontros pelas ruas de Nova York. Não importa se é previsível ou se não é um filmaço – nem era essa a intenção do diretor Gavin Wiesen neste seu primeiro longa. A ideia era fazer um filme gracioso, em que os personagens tivessem afinidade, conseguissem compor um casal jovem simpático e afetivo. Gosto particularmente de Freddie Highmore e foi uma grata surpresa ver que saiu da fase criança/adolescente para o jovem adulto maduro e bom ator. A Arte da Conquista é um daqueles filmes gostosos de assistir, com um toque de produção independente. Gosto do tom da narrativa, que não precisa apelar para aquelas breguices típicas das comédias românticas e investe na simplicidade. Com bom gosto!
DIREÇÃO e ROTEIRO: Céline Sciamma
ELENCO: Zoé Héran, Malonn Lévana, Jeanne Disson, Sophie Cattani
França, 2011 (84 min)
Tomboy é o termo em inglês para meninas que se comportam e se vestem como meninos. Preferem a companhia de meninos, querem usar bermudas largas e camisetas, cortar o cabelo curto e optam pelas brincadeiras e jogos masculinos. É como se a menina desejasse ser menino – uma escolha fora dos padrões estabelecidos de comportamento, assim como ocorre também com meninos que se encantam com o universo feminino. Chamado Transtorno de Identidade de Gênero, faz com que a criança não se identifique com outras do mesmo gênero, o que pode causar dificuldade de aceitação, sociabilidade e problemas futuros de auto-estima. Tudo isso para dizer que, diante de uma questão tão complexa como essa, a diretora Céline Sciamma conseguiu tratar o assunto com uma delicadeza impar, sem qualquer julgamento de valor. Digna de ser vista, com toda a reflexão que ela gera sobre os conceitos de masculino e feminino, sobre a postura dos pais, as expectativas da sociedade, a chamada harmonia entre sexo (genético) e gênero (construído).
O “tomboy” em questão é Laure (Zoé Héran, atuação impressionante), que se veste como menino, se comporta como tal e realmente finge, para pessoas que não o conhecem, que é um garoto. Cria uma nova identidade, um nome (Michaël), com a qual passa a se relacionar com as outras pessoas. No começo do filme, realmente dá a impressão de que Laure é um menino. Ainda mais diante da super feminina Jeanne (Malonn Lévana), sua irmã mais nova, que tem tiradas ótimas e engraçadas. O que começa com um jogo interno da própria Laure para integrar-se com a nova turma, para ser aceita, torna-se um beco sem saída. Claro que a mentira não pode ir muito adiante, mesmo com a ajuda e cumplicidade da espirituosa Jeanne e com o encanto que desperta na jovem Lisa.
É claro que os pais se dão conta de que algo é diferente. As preferências de Laure são explícitas, mas parecem não incomodar. Pelo contrário. O carinho e delicadeza deles (Sophie Cattani, também em Feliz que Minha Mãe Esteja Viva) com as filhas é imenso e genuíno, ressaltando ainda mais a questão do vínculo familiar como fonte base para lidar com questões como esta. Tratar o assunto com naturalidade e compreensão foi uma escolha da diretora ao construir o perfil da família. Sem sofrer pressão da sociedade, os pais de Laure demonstram uma aceitação incondicional, desde que ela não enverede pela mentira, que nesse ponto já mexe com normas éticas de conduta. Apesar disso, a visão adulta não interfere no filme. O que prevalece é a visão infantil, pré-adolescente, da descoberta da sexualidade, do sexo oposto, da mudança de corpo, dos interesses pessoais, da individualidade. São os olhos de Laure que dão o tom do filme e é isso que o faz ser tão natural e genuíno.
ROTEIRO: Alesander Payne, Nat Faxon
ELENCO: George Clooney, Shailene Woodley, Amara Miller, Nick Krause, Patricia Hastie
Estados Unidos, 2011 (115 min)
Histórias mirabolantes e inverossímeis são mais fáceis de resolver, no que diz respeito ao lado humano. A ficção, quase tudo aceita. Acho bem difícil passar um sentimento verdadeiro na tela quando se trata de uma história pouco original, de relações já bastante exploradas pelo cinema – o risco de cair no clichê é bem maior. É aqui que está o grande trunfo de Os Descendentes. Equilibrando muito bem humor e drama, o diretor Alexander Payne (também de Sideways e um dos episódios de Paris, Eu Te Amo,) fala da tristeza da perda, da fria relação entre pai e filhos, da descoberta de uma traição e da necessidade de reinventar as relações com leveza, simplicidade e algumas lágrimas.
Durante o filme todo, George Clooney (também em Tudo Pelo Poder, Amor sem Escalas, Queime Depois de Ler, 11 Homens e um Segredo, Syriana – A indústria do Petróleo) nos faz participar de suas descobertas. Excepcional no papel, é indicado ao Oscar melhor ator (aliás, tem meu voto) e consegue transmitir seu sentimento de total perplexidade ao descobrir que tem que dar conta das duas filhas depois que sua esposa entra em coma, da negociação da venda da propriedade e de toda a questão que envolve a traição da sua mulher. Clooney faz rir e faz chorar e transmite sua indignação, tristeza, raiva e simples alegria de retomar as rédeas da vida.
Não há nada de excepcional no roteiro, que é linear, nem na história em si, que é sobre ajustes familiares. Mas é dessa simplicidade que eu gosto, da sensação que me dá de poder realmente entrar no filme e me sentir à vontade. Se não fosse no Havaí, eu bem que diria que quase me “senti em casa”. Acho até que a beleza toda das ilhas foi pouco explorada – o que valoriza ainda mais o lado humano e real, o fato de estarmos todos (sem exceção) sujeitos a erros e sofrimentos. Os Descendentes, indicado ao Oscar de melhor filme e roteiro adaptado, é essencialmente um filme sobre as relações.
DIREÇÃO e ROTEIRO: Todd Solondz
ELENCO: Lara Flynn Boyle, Philip Seymour Hoffman, Jared Harris, Dylan Baker, Jane Adams, Ben Gazzara
Estados Unidod, 1998 (134 min)
Avassalador e escancarado. Das três irmãs deprimidas, infelizes e frustradas, a única que vive verdadeiramente sua miséria emocional, solidão e busca pela felicidade nunca encontrada se chama ironicamente Joy (alegria, contentamento, felicidade). O resto dos personagens vive na mentira, na ilusão ou na perversão – ou em todos ao mesmo tempo. Assim é o filme do diretor Todd Solondz, que tem uma releitura em A Vida Durante a Guerra, de 2009, com personagens parecidos e mazelas humanas absolutamente idênticas e enraizadas - tanto é que se repetem sem qualquer pudor.
Felicidade impressiona pela constante ironia. Ironiza o modo de vida de Helena, que mascara sua vida fútil e bem sucedida na profissão e no amor com mentiras, sutis e falsas humilhações; de Trish, que vive um casamento de fachada com um homem dissimulado, violento e pedófilo; e de Joy, a aspirante a cantora, frustrada com a carreira musical, humilhada a vida toda pelas irmãs Helen e Trish, envolvida em relacionamentos negativos. Ironiza e evidencia o modo de vida hipócrita de quem vive de aparências, moldado somente pelo código social e não pela ética e pela decência. E de todos os envolvidos, filho, marido, terapeuta, vizinho, paciente. É uma ironia ao sonho americano, remetendo em alguns momentos à frieza e angústia de Beleza Americana.
Pedofilia e o sexo desvirtuado são enfatizados na sua forma mais perversa, principalmente na relação do pai com o filho adolescente. É preciso ter estômago para assistir a essas cenas, porque incomoda – e muito. Embora em 1998 a internet estivesse em outro patamar, essas cenas fizeram-me lembrar de Confiar, também no Cine Garimpo e nos cinemas. É a mesma coisa, só agregamos mais uma forma de abordagem - mais abrangente e talvez até mais eficaz do ponto de vista do criminoso. Felicidade é uma ironia e uma crueldade do começo ao fim, no que seus personagens tem de pior - mas nem por isso menos real e menos importante para a reflexão sobre o autoconhecimento e as relações humanas, a começar pela própria família. Acho até que eu estou sendo redundante – é só reparar na escolha do título Felicidade para imaginar a intensidade da crítica proposta por esse polêmico diretor.
ROTEIRO: Giovanni Arpino
ELENCO: Al Pacino, Chris O’Donnell, James Redhorn, Gabrielle Anwar
Estados Unidos, 1992 (157 min)
“Não sei se o silêncio de Charlie está certo. Não cabe a mim julgar. Mas sei que ele não denunciará ninguém em troca de um futuro. Isso é integridade. Isso é coragem.” - Frank Slade
Em tempos de total falta de ética e comprometimento, revi Perfume de Mulher. Algumas cenas são memoráveis, como o tango (veja o vídeo abaixo) e a defesa aos princípios que o tenente-coronel Frank Slade (Al Pacino, também na trilogia O Poderoso Chefão) faz diante do corpo dirigente do colégio. Mas isso só foi possível e só é inesquecível porque conta com a atuação impecável de Al Pacino, que faz o papel de um militar cego que consegue transmitir sensações e sentir o mundo de uma maneira muito particular. Incrível o olhar do ator, que recebeu o Oscar pelo papel. Apesar de cego, seu olhar é fulminante. Confesso que em alguns momentos cheguei a pensar que ele enxergasse, tamanha a sutileza da atuação. E de fato consegue, só que não com os olhos.
Para quem não lembra, ou ainda não viu, em Perfume de Mulher o tenente-coronel mora com a sobrinha, numa casinha no quintal da casa, e é tudo aquilo que se espera de alguém sozinho, solitário e frustrado: um sujeito rabugento e mal humorado. A sobrinha quer viajar no feriado de Thanksgiving e contrata um estudante da renomada Baird School para cuidar do tio. Quem aceita o trabalho é Charlie Simms (Chris O’Donnell), que vive um dilema: dedurar ou não seus colegas ao diretor. Da relação tumultuada e agressiva do começo, surge um profundo respeito e Charlie e Frank encontram, um no outro, a motivação que eles precisam para continuar a luta. Cada um, a sua.
O perfume de mulher propriamente dito entra como alusão à sensibilidade aguçada de Frank, própria da sua condição de cego. Mas achei desta segunda vez que o título vai mais além. Remete à cegueira de uma maneira geral, que aprisiona os pensamentos, as atitudes, o comprometimento, a coragem. Fala de todos os sentimentos que são invisíveis aos olhos e que só são percebidos ao sair da materialidade, da mesmice, da zona de conforto. Isso serve para o perfume, da mesma forma que serve para a dança, a delicadeza, o humor, os sentidos, a ética, a integridade.
DIREÇÃO: Claude Miller, Nathan Miller
ROTEIRO: Alain Le Henry (roteiro), Emmanuel Carrère (artigo)
ELENCO: Vincent Rottiers, Sophie Cattani, Christine Citti, Yves Verhoeven, Maxime Renard, Olivier Guéritée, Ludo Harley, Gabin Lefebvre, Quentin Gonzalez, Chantal Banlier, Thomas Momplot
França, 2009 (90 min)
Feliz que Minha Mãe Esteja Viva vai bem até quase o final – eu dispensaria, sem medo de errar, o desfecho do filme. Faria um corte alguns minutos antes. Mas este filme só existe por causa justamente do final - a história original foi encontrada num artigo e transformada em filme pelos diretores, que são pai e filho. Curioso, porque o tema em questão é justamente a família, as frustrações não resolvidas, a revolta e a falta de harmonia. Mas não de forma genérica, e sim num caso de adoção.
Em poucas palavras, uma mãe jovem coloca os dois filhos para adoção; quando o mais velho cresce, resolve ir atrás da mãe verdadeira. Com os pais adotivos, esse rapaz é rude e agressivo, não quer formar vínculos; com a mãe verdadeira, desenvolve um relação de posse, apropriação, na tentativa de resgatar os 15 anos em que se sentiu desprezado, mas não se preocupa em cuidar da construção emocional e equilibrada desse relacionamento. A evolução de tudo isso é interessante, inclusive do ponto de vista da família que os adotou. Mas o desequilibrado e instável Thomas não encontra seu lugar ao sol. Se bem que, na última cena, um leve sorriso indica que talvez tenha chegado onde pretendia. Ou seria puro sarcasmo? Não sei, de qualquer maneira, reitero que cortaria a redenção final. Terminaria o filme na cena fatídica. Quem for ao cinema, verá.
Estreia sexta-feira, dia 25 de março.
DIREÇÃO e ROTEIRO : Lee Chang-dong
ELENCO: Yoon Jeong-hee, Ahn Nae-sang, Kim Hira, Lee Da-wit
Coreia do Sul, 2010 (139 min)
Este filme sul-coreano venceu o prêmio de melhor roteiro em Cannes em 2010, mas teria sido melhor se Yoon Jeong-hee tivesse sido premiada (perdeu para Juliette Binoche, de Cópia Fiel). Isso por que Poesia é essencialmente o trabalho incrível da atriz no papel duplo de avó responsável pelo neto e de senhora que procura a poesia para se ocupar e ver o mundo por outro prisma.
Não acho que Poesia agrade a todos. É um filme seleto, direcionado a quem aprecia esse tipo de sutileza poética. Além disso, lembre-se de que se trata de um filme sul-coreano, portanto com timing mais lento e contemplativo. A avó Mija passa basicamente por duas dificuldades na vida neste momento e, de cada um delas, tenta tirar um verso, uma emoção, um olhar: além de sofrer com a postura indiferente e abusiva do neto adolescente, tem que lidar com o seu esquecimento das palavras e início de uma doença. A poesia é uma maneira não só de se distrair, mas de trabalhar suas visões de mundo. Dessa observação, Mija percebe que a poesia nem sempre é beleza e suavidade, que ela existe onde existe emoção, sensações e vivências. E é essa descoberta é o ponto mais bonito do filme e a mensagem também fica clara para o espectador.
Mija descobre que a poesia está na postura totalmente equivocada do neto e de seus amigos, nos suicídios dos adolescentes, na maneira destorcida dos pais educarem seus filhos, na sua busca constante por uma explicação, ou na observação de uma simples maçã. Até do jogo de badmington ela parece tirar um verso e, se você reparar bem, há ali um poema amargo. Ela se empenha, enquanto o neto é displicente. Poema amargo, mas poema. E o mais poético é que nem mesmo a saída do neto do jogo faz com que ela desista de escrever.
ROTEIRO: Scott Silver, Paul Tamasy
ELENCO: Mark Wahlberg, Christian Bale, Amy Adams, Melissa Leo
Estados Unidos, 2010 (114 min)
Concorre ao Oscar de melhor filme, diretor, ator coadjuvante (Christian Bale), atriz (Adams e
Leo), roteiro original
O grande argumento a favor do esporte vai muito além do desenvolvimento físico ou da performance vencedora. Quem valoriza a prática esportiva enquanto elemento importante para o desenvolvimento humano está falando da sua importância como metáfora da vida: é na sua prática que o atleta tem que aprender a lidar com a vitória e com a derrota, ser persistente e não desistir na primeira dificuldade, conviver com a equipe de forma harmônica, lidar com as diferenças e dar a sua contribuição ao time. Um ensaio da vida, eu diria. É só sobrepor as duas vivências e veremos como elas se repetem. O Vencedor mescla as duas experiências, do esporte, da competição com a vida e suas dificuldades. Baseado em uma história real, o filme faz a pergunta que não quer calar: estamos somando com virtudes ou anulando com diferenças? Cada família sabe do seu, mas quem não tem que lidar com questões adversas, que jogue a primeira pedra.
Difícil saber quem é o vencedor do filme. Só se descobre isso no final. Durante quase o tempo todo acompanhamos a trajetória e as escolhas de dois decadentes irmãos pugilistas. Dicky (Christian Bale) é o mais velho, já não luta mais, deixou escapar algumas chances que teve no esporte e optou pelo crack e pelo vício; Micky (Mark Wahlberg) aprendeu o que sabe com o irmão Dicky, que é seu treinador, e não consegue andar com as próprias pernas, nem quando vê o barco afundar. Coordenando essa complicada dinâmica está Alice (Melissa Leo, também em 21 Gramas e Rio Congelado), a mãe controladora que tem debaixo da sua saia mais sete filhas improdutivas e palpiteiras, muita gente para sustentar e uma visão oportunista e amorosamente distorcida das relações. Dicky é persuasivo, Micky, submisso e Alice, centralizadora. Até que surge alguém de fora, Charlene (Amy Adams, também em Julie & Julia, Um Noite no Museu 2, Dúvida), que olha para o cenário e rapidamente identifica onde está a trava de toda a relação e das vidas que dependem dela.
Lutar contra uma situação há muito acomodada custa esforço e persistência. O boxe é pano de fundo para a luta pela identidade individual e pela reformulação das relações entre as pessoas. A chegada de Charlene incomoda, já que traz uma visão realista e nova do que a família entendia como correto. Incomoda porque causa sofrimento. Não que o boxe não seja bem feito e importante no filme. É as duas coisas, mesmo para quem não aprecia o esporte em si – como eu. Mas o mais importante é a dificuldade de convivência entre as pessoas de uma família e o delicado que é construir uma dinâmica que permita que o positivo de cada um venha à tona. Deixar que venha o negativo é fácil – basta conviver.
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