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DENTRO DA CASA – Dans la Maison
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, França - 26/03/2013

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DIREÇÃO e ROTEIRO: François Ozon

ELENCO: Fabrice Luchini, Ernst Umhauer, Kristin Scott Thomas, Emmanuelle Seigner

França, 2012 (105 min)

 

Nos cinemas: 29 de março

 

Desta vez François Ozon segue outro caminho. Não é o casamento em frangalhos de Amor em 5 Tempos, nem a paródia de Potiche – Esposa Troféu. Também não tem o elemento surreal de Ricky, ou a melancolia de Refúgio. Dentro da Casa fala da criatura e do criador, do tanto que eles se confundem, tornam-se uma coisa só, seja a criação na área que for.

Quando se fala em literatura, então, o céu é o limite. Dizem que o papel tudo aceita, mas isso não é suficiente para Claude, um adolescente que não se contenta em escrever uma simples redação sobre seu fim de semana. Talentoso, resolve transformar Rapha, seu colega de classe, em seu personagem. Estimulado pelo professor Germain (Fabrice Luchini, também em As Mulheres do 6o Andar, Potiche), que já não aguenta mais ler redações pobres de espírito, criatividade e estilo, Claude investe na amizade com Rapha e vai retratando suas passagens pela casa do amigo em suas redações.

A história criada por Claude vai, pouco a pouco, se misturando com a realidade. À medida que o garoto ganha intimidade com a família do colega, sua presença perturba a ordem vigente, cria conflito, deflagra situações inesperadas e já não há como voltar atrás. Nem a relação de Germain com sua esposa Jeanne (Kristin Scott Thomas, também em Há Tanto Tempo que Te Amo, A Chave de Sarah, O Paciente InglêsPartir) se salva.

Gosto particularmente do tema da observação que Claude e Germain põem em prática. Tenho um pouco este hábito de observar pessoas desconhecidas e imaginar como é a vida delas, o que estaria acontecendo naquele exato momento. Momentos preciosos de ócio, quando a imaginação corre solta. Parece ser esse o passatempo predileto da dupla do professor e aluno, que extrapolam e geram um elemento novo a partir daquilo que é simples realidade aos olhos das pessoas comuns. É fonte de inspiração, a vida das pessoas de um modo geral. Aqui ela ganha um toque a mais com tamanha criatividade. Talvez Dentro da Casa tenha me interessando por eu ser do mundo das letras e do cinema, que nada mais contam que histórias de vida. De qualquer modo, gosto da maneira de Ozon de explorar o universo humano. E ousar caminhos.

 

A CAÇA – The Hunt
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Para Pensar, Drama, Dinamarca - 20/03/2013

DIREÇÃO: Thomas Vinterberg

ROTEIRO: Thomas Vinterberg, Tobias Lindholm

ELENCO: Mads Mikkelsen, Thomas Bo Larsen, Annika Wedderkopp, Lasse Fogelstrom, Susse Wold, Anne Louise Hassing, Lars Ranthe, Alexandra Rapaport, Ole Dupont

Dinamarca, 2012  (115 min)

 

Nos cinemas: 22 de março

 

Thomas Vinterberg é parceiro de Lars Von Trier em um projeto bastante interessante. Em 1995, eles se juntaram para fundar o movimento Dogma 95, que estipulou 10 mandamentos para um novo cinema que seria feito a partir dali. Para encaixar-se no padrão, o filme tem que ser rodado no local, sem cenografia, som natural, câmera na mão, sem filtro ou truques fotográficos. Deve ser em cores, na época atual, vetados os filmes de gênero. Ou seja, naturalista, a vida como ela é, aqui e agora, sem maquiagem. Radical ou não, confesso que gosto. É o avesso do pode-tudo de Hollywood. Um cinema que me dá prazer em assistir. Dele também são Submarino e Festa de Família. Os dois são de enlouquecer.

Deve ser porque retratam os dramas humanos, seus e meus, como ele realmente são. Intensos, cruéis, traiçoeiros, surpreendentes. A Caça, exibido na 36a Mostra Internacional de Cinema, lida com isso, com mazelas – das mais humanas. A injustiça, o julgamento, a traição. Lucas (Mads Mikkelsen, vencedor de melhor ator em Cannes por este filme e também em Depois do Casamento, Coco Chanel & Igor Stravinsky, O Amante da Rainha) é professor da educação infantil. Acaba de se divorciar e está em plena delicada negociação com a ex-mulher a respeito da guarda do filho adolescente. O ambiente é amigável, uma pequena cidade dinamarquesa em que todos se conhecem. Mas de repente que surge um boato e a vida de Lucas vira do avesso. Suas conduta é questionada, suas relações mais íntimas e duradouras são colocadas em dúvida. Verdade ou mentira, fato é que Vinterberg traz à tona e faz questão de ressaltar a capacidade humana do pré-julgamento e todo o perigo que vem junto com ele.

De uma intensidade ímpar, de uma profundidade cortante. Por ser real. Tem muito do cinema conterrâneo de Susanne Bier, como seu Em Um Mundo Melhor e Depois do Casamento. E de uma angústia que fica e que seguiu comigo até depois que o filme terminou, pensando sobre a proporção que o ressentimento ocupa dentro das pessoas. E do que isso é capaz. Não deixe de ver, ainda mais no mundo de hoje em que as manipulações são constantes, e o bullying cada vez mais frequente. Fala-se muito nesse tipo de intimidação física e emocional com crianças e adolescentes, mas nos esquecemos da intensidade com que é feito no ambiente adulto.

 

DEPOIS DE LÚCIA – Después de Lucía
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, México, Drama - 19/03/2013

depois de luciaDIREÇÃO e ROTEIRO: Michel Franco

ELENCO: Tessa Ia, Hernán Mendoza, Gonzalo Vega Sisto, Francisco Rueda, Paloma Cervantes

México, França, 2012 (103 min)

 

Nos cinemas: 22 de março

 

Adoro a categoria Un Certain Regard – uma amostra paralela que ocorre no Festival de Cannes (há outros filmes desta categoria Um Certo Olhar no blog). Prescinde de explicações: ela seleciona e premia filmes que abordem um tema sob um prisma diferente, inusitado, sob outra perspectiva. E mais, dá a chance de diretores desconhecidos virem à tona. Tudo isso pra dizer que Depois de Lúcia foi o vencedor da categoria em 2012 e é, de fato, arrebatador.

Toca no assunto polêmico e muito atual (não que não existisse antes, convenhamos) do bullying. É que agora, dado nome aos bois, rotula-se tudo de bullying. Maus tratos em casa e na escola, com intenção de diminuir, criticar, depreciar o outro é bullying. E a coisa está ficando muito séria, ainda mais com novas ferramentas eletrônicas de intimidação.

Há cenas em Depois de Lúcia que realmente dão vontade de fechar o olho. É o que muitas escolas e pais têm feito, inclusive. Mais fácil, assim não dá mais trabalho do que já é natural. Ou ainda, o que é pior: muitas vezes fica difícil perceber. O medo paralisa, afinal de contas. Alejandra (Tessa Ia) tem 15 anos, perde a mãe e tem que sair de uma pequena cidade litorânea e se mudar para a Cidade do México por causa do emprego do pai. Amoroso e preocupado, este pai precisa se adaptar à nova rotina sem a esposa e conta com uma relação boa com a filha – o que seria um grande trunfo e um porto seguro para os dois diante das ameaças da nova vida.

Mas a realidade escolar de Alejandra não é bem o que ela imaginava e a comunicação com o pai fica truncada, superficial. As armadilhas são constantes, deliberadamente aramadas pelos colegas dissimulados, egoístas e egocêntricos. Assédio, intimidação, humilhação constantes. Física, emocional, verbal. O retrato é cruel, mas o olhar do diretor é preciso, sofrido e muito real.  Pais, educadores, adolescentes: assistam! É perturbador, mas necessário.

 

SUBMARINO
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Drama, Dinamarca - 27/01/2013

dinamarca submarinoDIREÇÃO: Thomas Vinterberg

ROTEIRO: Tobias Lindholm

ELENCO: Jokob Cedergren, Peter Plaugborg, Patricia Schumann, Morten Rose, Gustav Fischer Kjaerulff

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Dinamarca, 2011

 

Antes de mergulhar nas profundezas de Submarino, é preciso dizer que quem dirige é Thomas Vinterberg. Aquele diretor dinamarquês responsável por filmes fortes, marcantes, dilacerantes como Festa de Família (em DVD) e A Caça (que passou na Mostra de Cinema de SP em 2012). Tem a mesma carga dramática das produções da conterrânea Susanne Bier em Depois do Casamento e Em Um Mundo Melhor, mas com aquela cara de realidade nua e crua, símbolo do manifesto Dogma 95, do qual é co-autor, ao lado do também diretor Lars Von Trier. Portanto, um cinema duro, sem fantasia ou maquiagem, a vida como ela é. Gosto disso, embora saia sempre do cinema com a sensação de peso e reflexão tão reais quanto aqueles que a vida normalmente nos impõe e só por vezes propõe.

Vamos ao mergulho fundo e sombrio. As primeiras cenas já são de arrepiar. Dois irmãos têm de tomar conta do bebê caçula, enquanto sua mãe se droga e embriaga pelas ruas. Somos logo transportados para a vida adulta dos irmãos, que é repleta pelo vazio, pela falta de sentido e objetivo, pelo descontrole. Errantes pelo mundo, só colocando em prática o isolamento, a carência, o desamor em que foram criados. Não há cenas de conforto, nem a menor pretensão por parte do diretor de dourar a pílula, de construir heróis. A vida é dura e pertence a pessoas comuns. A solidão é infinita.

Assista a Submarino se estiver naqueles dias em que uma reflexão sobre comportamento, educação, valores vai cair bem, assim como um bom bate papo com alguém bacana sobre o assunto. Se o clima estiver mais pra baixo, nebuloso e tristonho, melhor deixar para outro dia. Submarino mergulha lá no fundo da alma humana, onde ela praticamente se perde pelo caminho e esquece de deixar a guia para conseguir voltar à superfície. De tão real, é capaz de te levar também para as profundezas e impedir que você aprecie a beleza do filme. Apesar de ser tão cruel.

 

MUITO ALÉM DO PESO – Entrevista Estela Renner
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Documentário, Brasil - 19/11/2012

“Podemos comprar, mas que tal comprar o que nosso desejo legítimo pede? Ou que tal comprar mais cultura, por exemplo?”, Estela Renner, diretora de Muito Além do Peso (veja matéria sobre o filme). 

 

Questionando mais uma vez o consumo, como feito anteriormente no documentário Criança, A Alma do Negócio, Estela Renner transporta a problemática para o consumo descontrolado de comidas que não alimentam, só engordam. Além do poder sedutor que o marketing do fast food exerce sobre as crianças, causa obesidade infantil, que por sua vez é o gatilho para o diabetes, pressão alta, problemas cardíacos em um terço das crianças brasileiras. A jovem diretora deu a seguinte entrevista ao Cine Garimpo, contando inclusive sobre seus projetos futuros da sua produtora, Maria Farinha Filmes.

 Muito Além do Peso já está em cartaz em São Paulo e em mais 10 cidades do Brasil.

 

Suzana Vidigal | Cine Garimpo: Depois de assistir ao filme e pensar mais a fundo sobre o assunto, fiquei com a sensação de que obesidade é mais uma das consequências da atual inversão de valores. Claro que há desinformação, mas senti, como mãe, a responsabilidade primordial dessa educação alimentar. Alimentar-se mal não é mais um nefasto reflexo do medo que os pais têm de frustrar os filhos? Estamos construindo uma geração que não vai aguentar os trancos que vêm com a vida, pelo simples fato de não terem ouvido ‘não’ suficientes?

Estela Renner: Acho que os pais caíram em uma cilada. Ao mesmo tempo que não têm informação sobre alimentação e os rótulos são deveras enganosos, muitos estão vivendo com a ideia de que a integração social se dá através do consumo. Muito consumo! Se ele tem poder de compra ele se sente mais cidadão. O que antes era a sabedoria, o conhecimento, a habilidade de contar uma história, hoje em dia isso se mede em poder de consumo. E claro que esses valores são transferidos para os filhos, não só através do comportamento do pai, mas pela mídia em si. Hoje em dia, existe a ideia de que se você não “tem”, você não “é”. Somos um ser e não um ter, mas os valores andam invertidos.

Mas de onde vem esta inversão de valores gigante? Ao meu ver, da sociedade de consumo e de um sistema que se apoia na compra. Acho que podemos comprar, mas que tal comprar o que nosso desejo legítimo pede ou que tal comprar mais cultura por exemplo? O problema é que não conseguimos mais identificar qual é o nosso desejo legítimo, porque antes de qualquer contato consigo mesmo existe uma comunicação gigante te dizendo o que você deve desejar. Tivemos a era da madeira, depois a do ferro e agora estamos na era do plástico. O planeta não vai aguentar se nosso modo de vida continuar sendo baseado no estímulo desenfreado ao consumismo. Temos hoje em dia, segundo os especialistas, adultos infantilizados e crianças mini-adultas, que tem celulares, salto alto e não saem de casa sem maquiagem. Se não ouvem ‘não’ na infância, o que vai ser delas quando adultas? Um pai que talvez não seja capaz de lidar com suas frustrações… Eu tenho 3 filhos e tenho medo zero de dizer não.

 

CG: Percebi, pelo tom do documentário, que o contato com as crianças foi feito com muito cuidado e respeito. Senti, inclusive, que houve uma proximidade grande entre você e as crianças – afinal, algumas declarações não seriam feitas se o contato fosse frio e puramente jornalístico. Você acompanha a trajetória de algumas das crianças que participaram do projeto? Houve mudanças na família? Pedido de ajuda e aconselhamento?

Estela Renner: Eu tenho um gigante respeito pela criança e pela família que me recebe. Minha relação é de olhar nos olhos da criança, levá-la a sério. A criança sente rapidamente que eu e minha equipe estamos do lado dela. No caso da obesidade, eu não estou preocupada em saber quanto ela pesa. Estou preocupada em saber o que ela sente, do que ela gosta, conhecer seus interesses. Apesar da epidemia ser geral, para mim a Carol é a Carol e só existe uma criança como ela no mundo. Você viu o quadro que ela pintou? Que linda! Tivemos um caso mais grave, o do Yan, que acompanhamos de longe, pois ele mora no interior da Amazônia. Conseguimos um tratamento para ele. Estávamos preocupados.

 

CG: E os projetos futuros? Seguem nessa linha educativa, com a preocupação com a infância? Imagino que o documentário tenha mexido bastante com cada um dos membros da equipe.

Estela Renner: De verdade que mexeu. Minha equipe inteira saiu diferente dessa história. Porque além da alimentação em si, existe um ensinamento de como o sistema opera. E isso gera uma revolta. Uma percepção que fica orgânica e simplesmente a gente muda de comportamento. A minha produtora, Maria Farinha Filmes, está com mais dois documentários em produção: um sobre o brincar no Brasil, com uma diretora incrível, a Renata Meirelles, e outro com Julio Matos, sobre o papel das ONGs no mundo.

 

 

 

 

MUITO ALÉM DO PESO – Pré-estreia hoje
CLASSIFICAÇÃO: Especial, Documentário, Brasil - 12/11/2012

 

Verdade seja dita: na teoria, a gente bem sabe o que deve ser feito, qual a diferença entre alimento e comida e que somos aquilo que comemos. Será? O que a diretora Estela Renner (também de Criança, A Alma do Negócio) é que tem gente que não sabe. Percorrendo os quatro cantos do Brasil, consultando especialistas daqui e do mundo, Estela traça um perfil preocupante e realista da obesidade infantil e suas consequências para a saúde mental e física das crianças e futuros adultos.

Exibido na 36a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Muito Além do Peso (veja comentário) terá pré-estreia dia 12 de novembro, no Auditório do Ibirapuera (informações abaixo). Após a exibição do filme, haverá debate com a diretora Estela Renner e especialistas – uma ótima oportunidade para saber mais e tomar decisões saudáveis!

Muito Além do Peso estreia dia 16 de novembro nos cinemas.

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PROGRAME-SE: Muito Além do Peso (80 min)

Pré-estreia: 12 de novembro, 20h | debate: 21h45 | grátis

Auditório Ibirapuera | Av. Pedro Alvares Cabral, s/n – Portão 2 do Parque do Ibirapuera

(Entrada para carros pelo Portão 3)

 

 

 

 

MUITO ALÉM DO PESO (Mostra de Cinema SP)
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Documentário, Brasil - 30/10/2012

DIREÇÃO: Estela Renner

Brasil, 2012 (84 min)

Muito além do peso, da diretora Estela Renner (leia entrevista), trata de vários extremos. O principal, é o peso, o excesso de gordura que as crianças carregam (33% das brasileiras estão acima do peso), que acarreta em doenças antes típicas do corpo adulto, como a diabetes, hipertensão, trombose, depressão, problemas respiratórios. Mas o interessante também é reparar em todos os outros excessos ligados a esse primeiro, típicos da vida atribulada, corrida e concorrida que levamos.

O argumento é praticamente o mesmo. Não temos tempo: tem-se menos controle sobre o que as crianças comem. Não temos tempo: prima-se pela comida rápida, instantânea, processada. Não temos tempo: é a desculpa para delegar para a escola. Não temos tempo: formamos crianças sem instrução sobre a importância dos alimentos, do cuidado com a saúde. Não temos tempo: a publicidade é quem escolhe aquilo que entra na nossa casa. Consumimos inconsciente e desmedidamente; não há reflexão, mas imediatismo. Concorremos com o outro; consumo de alimentos é ligado ao status, poder, posse, posição social. Desesperador. Um bombardeio de informações, na contramão do que é uma alimentação saudável e indicada para o crescimento equilibrado da mente e do corpo das crianças.

Considerada a maior pandemia de todos os tempos, a obesidade atinge todos os continentes, sem exceção. Interessante o recorte que Estela faz do assunto, sem ser professoral. Num tom de informalidade, estabelece uma relação próxima com seus entrevistados, conseguindo declarações preciosas das famílias que participaram do documentário. E deixa claro o pouco que se sabe sobre o valor dos alimentos, sobre a qualidade daquilo que está sendo ingerido dentro de casa.

Diretora também do curta Criança, A Alma do Negócio,  Estela se preocupa em passar o recado e colocar as pessoas em estado de alerta, respaldada pela opinião de profissionais brasileiros, americanos e ingleses, e de uma amostragem do Brasil todo. Intercalando entrevistas e infográficos lúdicos e informativos, Muito Além do Peso deve servir para chacoalhar pais e filhos. O que entra em casa é uma questão de parceria. Todos têm que participar. E com a linguagem escolhida, fica fácil trazer o filme, as questões e problemáticas discutidas e perspectivas para o futuro para dentro de casa. Aqui, foi assunto na sobremesa. Com frutas.

DEUS DA CARNIFICINA – Carnage
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, França, Drama - 04/06/2012

DIREÇÃO: Roman Polanski

ROTEIRO: Yasmina Reza

ELENCO: Jodie Foster, Kate Winslet, John C. Reilly, Christoph Waltz

França, 2011 (80 min)

 


Prepare-se, porque desta vez Polanski entra na sua casa. Filma num cenário único em Paris, fingindo ser Nova York, já que não pode pisar em solo americano por causa do processo de abuso sexual contra ele naquele país. Mas isso é realmente o de menos, porque poderia ser qualquer lugar do mundo, já que o filme trata de questões absolutamente comuns a qualquer casal, chiliques comuns a qualquer ser humano, com seus exageros e ironias para apimentar ainda mais a conversa do quarteto.

E que quarteto! Estamos falando de Kate Winslet, Jodie Foster, Christoph Waltz e John C. Reilly, dois casais que se conhecem em uma ocasião nada afável: precisam tirar a limpo uma briga entre os filhos adolescentes. O filho de Penelope (Judie Foster, também em Um Novo Despertar) e Michael (John C. Reily, também em Cyrus, Magnólia) apanha numa briga entre garotos da escola e o casal Nancy (Kate Winslet, também em Contágio, Titanic, Foi Apenas um Sonho, Pecados Íntimos, O Leitor) e Alan (também em Bastardos Inglórios) vai ao apartamento deles se desculpar. Mas a conversa envereda por questões pessoais de cada um, por lavagem de roupa suja entre os casais. O que era para ser uma simples e cordial visita, termina sendo uma longa, engraçada, dramática, sarcástica tarde desses desconhecidos que se revelam, nas suas mais amargas mazelas e defeitos, até para eles mesmos.

Pode parecer um pouco monótono, afinal o filme se passa basicamente dentro da sala do apartamento e trata o tempo todo de um mesmo assunto. Mas o filme é mais curto e Polanski cuidou da adaptação dessa peça de teatro de forma muito especial. No cinema, temos a impressão de estarmos realmente no teatro. O que vale é a postura de um perante o outro, perante si próprio e o espectador. Isso mesmo, estamos avaliando o tempo todo a postura daquelas pessoas e vestindo, mais ou menos, a carapuça em diversas situações. Por isso disse que o diretor invade a sua sala. Entra mesmo, nos sentimos ali perto, testemunhas e juízes da situação pra lá de absurda, mas pra lá de humana e comum! Assista, depois me conte se não se vê na mesma situação de Nancy, cujo marido não para de atender o celular… Diferente de tudo que vi de Polanski, como os ótimos O Escritor Fantasma, O Pianista e ainda o antigo Tess – Uma Lição de Vida, o diretor acerta no tom da provocação, da crítica à hipocrisia e ao que chamamos de “bons costumes”.

 

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