DIREÇÃO e ROTEIRO: Lúcia Murat
ELENCO: Caio Blat
Brasil, 2011 (97 min)
Nos cinemas: 11 de maio
A viagem parece durar até hoje. Quando revira as lembranças, cartas, sensações, descobertas e medos do passado, a cineasta Lúcia Murat decide contar o que viveu. E mais, o que viveram seus irmãos. Miguel morreu recentemente, o que motivou Lúcia a recordar, puxar pela memória a experiência daqueles anos de ditadura. Auxiliada pelo irmão Heitor, que dá seu depoimento emocionante e também é representado na telona por Caio Blat, ela escreve o roteiro daquilo que ficou registrado na mente e na alma dos membros da família.
É por isso que a viagem é longa. Começa no fim dos anos 1960, quando Lúcia milita contra a ditadura no Brasil e Heitor é mandado pela família para Londres para não acabar também na cadeia. E dura até hoje. Heitor não só vai a Londres, como viaja por anos pelo mundo todo, vive uma época em que a contracultura está solta, em que as drogas, o sexo e o rock ‘n roll são a ordem da vez e ele se envolve profundamente com narcóticos de todos os tipos. Acaba ficando esquizofrênico, o que acarretou inúmeras intervenções psiquiátricas, como podemos perceber pela maneira de falar e recordar o seu passado nos depoimentos do filme. A viagem que começou naquela época teve sérias implicações até hoje e leva o espectador também por esse túnel de emoções pessoas e muito particulares. E esse é o ponto principal do filme, as sequelas emocionais que ficam, os valores que são criados e alimentados com as experiências da vida. E claro, a coragem de Lúcia Murat de abrir sua intimidade desta maneira.
Em off, Lúcia narra suas lembranças neste documentário, o grande vencedor do Festival de Gramado do ano passado. A construção das passagens de Heitor na pele de Caio Blat (também em Bróder, Xingu, Carandiru, Os Inquilinos, As Melhores Coisas do Mundo, O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias) têm algo de surrealista, com base naquilo que foi escrito nas cartas enviadas por ele dos quatro cantos do mundo, guardadas por sua mãe. Não pretende parecer biográfico, acho que não. Mas sim um registro da memória afetiva de uma época que marcou a família e fez de seus membros aquilo que eles são hoje.
ROTEIRO: Kim Fupz Aakeson
ELENCO: Ewan McGregor, Eva Green, Connie Nielsen,
Stephen Dillane
Inglaterra, 2011 (92 min)
Perfect Sense foi traduzido como Sentidos do Amor. Ora, francamente. Por que não dizer Sentido Perfeito? Se é isso mesmo que o filme quer transmitir? Veja se concorda comigo: misteriosamente, e de forma epidêmica, as pessoas perdem o olfato, depois o paladar, depois a audição e assim sucessivamente. Cada uma dessas perdas, aparentemente essenciais para nossas vidas e sobrevida, vão se tornando secundárias quando ainda resta o amor.
Aqui entra e se encaixa perfeitamente o título escolhido. Apesar da tragédia e da perda dos sentidos que nos fazem sentir o cheiro e o gosto das coisas, que nos permitem comunicar e interagir com outras pessoas, que nos permitem ver o mundo, o sentido perfeito, que prescinde dos outros, permanece, resiste. O amor. Simples assim.
E simples também é a visão do diretor David Mackenzie, que coloca no centro de tudo o casal Susan e Michel, ela cientista, ciente da epidemia misteriosa e do pânico que se alastra; ele , chefe de cozinha que vive dos sabores e dos cheiros perdidos no caos. Simples, mas também sofisticada e bela, inclusive a trilha sonora. Impossível não se lembrar de Ensaio sobre a Cegueira, de Ferrnando Meirelles, baseado no livro homônimo de Saramago, quando todos os habitantes ficam cegos e caem na barbárie, perdendo inclusive sua dignidade. Aqui não, Susan e Michael sobrevivem enquanto casal, enquanto esperança, essência. E ainda lhes restou o tato, a que se dá tão pouco valor.
Perfect Sense – perfiro assim, pode ser? – soa como um insight sobre o essencial, numa estranha e aflitiva epidemia, que de uma forma ou de outra pode ser também uma metáfora da pouca atenção que damos aos nossos poderosos sentidos nessa vida tão cheia de superficialidades. Se fui muito longe? Pode ser, mas confesso que esse belo filme me pareeceu um soco com luva de pelica. Com um afago de esperança no final.
Veja o trailer, vale a pena.
ROTEIRO: Lawrence Hauben, Bo Goldman
ELENCO: Jack Nicholson, Louise Fletcher, Michael Berryman, Danny DeVito
Estados Unidos, 1975 (133 min)
Muitos são os filmes que retratam a maneira como os doentes mentais são, ou eram, tratados em manicômios, hospícios, sanatórios, hospitais psiquiátricos – ou como queria chamar esses centros que pretendem tratar pessoas que sofrem de algum distúrbio psiquiátrico. Para citar dois incríveis: Ilha do Medo, de Martin Scorsese, e Bicho de Sete Cabeças, de Laís Bodanzky, que já estão no blog. A eles adiciono Um Estranho no Ninho, com Jack Nicholson (também em O Iluminado, Antes de Partir) no papel principal. Curioso notar que a maioria desses filmes trazem a dura realidade da incompreensão da alma humana, perturbada e sem o correto tratamento.
Vencedor do Oscar de melhor ator, atriz, diretor, roteiro, filme, portanto das cinco principais categorias, Um Estranho no Ninho teve a produção de Michael Douglas (seu pai, Kirk Douglas, comprou os direitos de adaptar para o cinema o livro homônimo) e direção de Milos Forman, que vai dirigir anos depois Hair e Amadeus. Quem conduz a trama é o anti-herói McMurphy, um sujeito que vive aprontando, é pego estuprando uma garota menor de idade e simula ser louco para não ir para a cadeia. Vai parar no sanatório, onde aparentemente todos os pacientes estão controlados e dentro dos conformes, sob o mando ferrenho da enfermeira-chefe Ratched (Louise Fletcher). Mac tira esse frágil e manipulado equilíbrio, negando-se a tomar os calmantes, alterando regras, perturbando a ordem do local e fazendo cair as máscaras do sistema psiquiátrico. O curioso e muito sensível é que Mac mostra que há manipulação dos dois lados, por parte do sistema e dos pacientes, que acham mais fácil ficar enclausurados do que viver em sociedade, enfrentando problemas, família, etc.
Jack Nicholson está espetacular, escolhido a dedo na sua ironia e petulância em quebrar as regras. Como qualquer ditadura, sobressai-se a lei do mais forte e as vozes são caladas. Literalmente, na figura do índio seu amigo. Melhor calar-se. Numa sutileza incrível no desfecho, o diretor dá mostras claras, mas não sem valorizar o humor e a amizade, da distorção das relações de poder e submissão. Vale a pena ver ou rever. Nem que seja só pelo final.
ROTEIRO: Justin Zackham
ELENCO: Jack Nicholson, Morgan Freeman, Sean Hayes, Beverly Todd, Rob Morrow
Estados Unidos, 2007 (97 min)
Claro que a alma do filme está nas figuras carismáticas – e absolutamente antagônicas – de Morgan Freeman (também em Invictus, Conduzindo Miss Daisy, Winter, O Golfinho) e Jack Nicholson (O Iluminado). Como atores e como personagens. O primeiro sóbrio, austero, didático, gentil; o segundo, imediatista, explosivo, rabugento. Nessa condição e com meses de vida por causa de um câncer, eles dividem, no quarto de hospital, as mazelas, dores, decepções, a vida passada e a futura. Embora não lhes reste muito tempo, fazem uma lista do que devem fazer antes de morrer – daí o título original, The Bucket List, que perdeu essa sutileza na tradução. Seria uma “lista de pendência”. Da vida toda.
A ideia do filme é bacana – embora irreal – mas isso pouco importa. Toca o espectador (eu me incluo nessa lista), porque eles justamente constroem a amizade com base nesses planos futuros, na realização do que ainda é possível viver, na valorização do que foi vivido e no conserto do que foi mal resolvido. Contexto que fala com todos nós. Inevitável. Quem é que não tem pendências pra resolver?
Isso não quer dizer que não haja problemas com cenários falsos, com absoluta cara e maquiagem de estúdio. Não precisava, mas tudo bem. A ideia não era fazer realmente a viagem pelo mundo, nem mostrar as belezas geográficas ou concorrer a prêmios de fotografia. Mas mostrar a busca pela realização do sonho, seja ele qual for, seja a época que for. É bacana, fala da amizade, emociona.
ROTEIRO: Will Reiser
ELENCO: Joseph Gordon-Levitt, Seth Rogen, Anna Kendrick, Angelica Houston, Bryce Dallas Howard, Serge Houde
Estados Unidos, 2011 (104 min)
Mais do que um filme sobre um paciente de 27 anos com câncer, que vê suas chances de vida caírem pela metade diante do prognóstico frio e direto do médico – daí o título do filme – 50% é interessante pela relação de genuína amizade entre Adam (Joseph Gordon-Levitt, também em 500 Dias Com Ela, A Origem) e Kyle (Seth Rogen) durante o tratamento.
Baseado em uma história real, o filme conta como Adam recebe a notícia de que tem câncer, como a relação com a namorada não se sustenta diante das dificuldades do tratamento e como a amizade e a família dão suporte para tocar adiante. No meio do caminho, encanta-se com a terapeuta Katherine (Anna Kendrick, também em Amor sem Escalas) e outros caminhos se abrem em meio às dificuldades.
Não tem nada de especial, é verdade. Falando assim, mais parece um filme clichê como tantos outros que tratam da luta de pacientes com câncer contra a doença. 50% é um simples relato, bem singelo inclusive, de como o paciente escolheu e conseguiu lidar com a situação. Não é daqueles dramas que realmente deixam o espectador desconsolado. Pelo contrário, valoriza a amizade e tem um tom até otimista e humorado – dentro do possível. Quem já passou por algo semelhante pode ficar tocado pelo que vai ver.
ROTEIRO: Dennis Foon
ELENCO: Khomotso Manyaka, Keaobaka Makanyane, Lerato Mvelase, Tinah Mnumzana, Aubrey Poolo
África do Sul, 2010 (100 min)
Melhor avisar antes: este filme ainda não está disponível aqui no Brasil, a não ser que você alugue no Apple TV. Cheguei nele pela seleção da categoria Un Certain Regard, do Festival de Cannes, e para minha surpresa estava disponível para alugar pelo ITunes. Já disse aqui que gosto especialmente dessa seleção de Cannes, por trazer filmes sensíveis, que têm de fato um olhar apurado e diferenciado sobre algum tema cotidiano e universal como Pecado da Carne (Israel), Trabalhar Cansa (Brasil), Mother (Coreia do Sul), A Banda (Israel), Tulpan (Cazaquistão), Abutres (Argentina).
Life, Above All, ou A Vida, Acima de Tudo, retrata a dura realidade de um vilarejo rural nos arredores de Johanesburgo, na África do Sul. A grande protagonista é Chanda (Khomotso Manyaka), uma menina de 12 anos que amadurece antes do tempo pelas dificuldades da vida. Tem de lidar com o padrasto que bebe, com a amiga que se prostitui, com a mãe doente, além de cuidar dos dois irmãos menores e despistar os vizinhos que difamam a família. O diretor Oliver Schmitz (também de um episódio de Paris, Eu Te Amo) dá a Chanda a força e a coragem que são a espinha dorsal do filme.
Sem ser um filme muito especial, Life, Above All foi considerado um dos melhores filmes estrangeiros de 2010 pela associação dos críticos americanos e é de fato um muito bonito filme sobre as sequelas que a AIDS deixou no continente africano, tanto do ponto de vista da doença e da epidemia em si, mas principalmente do ponto de vista do entendimento da epidemia. O que é algo científico, ganha por lá um sentido de maldição, de penalidade, de vergonha; o que é para ser combatido com medicamentos e tratamento é feito de acordo com as crenças e rituais. Chanda representa a família destruída não só pela doença, mas principalmente pela perda da honra, da dignidade aos olhos dos vizinhos. Mas aos olhos do diretor, é preciso também deixar claro que o amor de mãe e filha, a capacidade de acolher e perdoar são o grande motor dessa menina-guerreira.
DICA: Quem quiser ver mais sobre o tema África, não deixe de assistir a Minha Terra, África, com Isabelle Rupert. Também um retrato muito interessante e intenso sobre a realidade do continente, mas aqui tem um viés político e colonialista.
ROTEIRO: Valérie Donzelli, Jérémi Elkaïm
ELENCO: Valérie Donzelli, Jérémi Elkaïm, César Desseix, Gabriel Elkaïm, Brigitte Sy, Elina Löwensohn, Michèle Moretti, Philippe Laudenbac
França, 2011 (100 min)
Nos cinemas: 06 de janeiro
Histórias reais de superação são sempre um bom tema para o cinema. Ainda mais quando se trata de cura de doenças avassaladoras como o câncer. Ainda mais quando se trata de dramas familiares envolvendo crianças e situações que mudam a dinâmica da família toda e transformam as pessoas e as relações para sempre. Ainda mais quando a própria família resolve filmar a história, revivendo tudo de novo.
A Guerra Está Declarada, da cineasta francesa Valérie Donzelli (também em Por Que Você Está Chorando) tem todos esses elementos e é o concorrente francês à indicação do Oscar de melhor filme estrangeiro de 2012. Ela e seu marido, o ator Jérémi Elkaïm se apaixonam, ela engravida e nasce um menino. Considerando as adaptações normais do primeiro filho, tudo vai bem. Até que aos 18 meses ele não anda, vomita demais e tem alguns comportamentos esquisitos. Dignóstico: tumor cerebral. A vida do casal vira de ponta cabeça, a família se mobiliza e a prioridade é salvar a vida do garoto.
Visto assim parece um drama daqueles de causar mal estar, angústia de tristeza. Claro que sim, mas a maneira com que Valérie conta o que viveu é especial. No filme, ele é Juliette, e Jérémi é Roméo. Recontam sua história de dor com pitadas especiais de muito amor, muita doação e especialmente humor e otimismo. A dinâmica entre o casal é espetacular. Com rapidez e dinamismo, a diretora consegue mostrar o crescimento do casal, ao mesmo tempo em que as dificuldades da doença e da luta também se tornam mais evidentes.
A Guerra Está Declarada tem exatamente este título em francês. E é essa a impressão que dá. De arregaçar as mangas, de ir à luta, de formar realmente uma família a partir dessa grande adversidade. Vale dizer que os personagens secundários são construídos com muita delicadeza e compõem o quadro de maneira absolutamente harmônica – é incrível como filme absorve. É uma lição de coragem, ainda mais sabendo que Valérie e Jérémi escolherem revisitar essa drama dentro deles mais uma vez, para quem sabe melhor processar tudo que foi vivido.
ELENCO: Ewan McGregor, Mélanie Laurent, Christopher Plummer
Estados Unidos, 2010 (105 min)
Com alguns toques de leveza – como os pensamentos do cachorro da família legendados e várias passagens e detalhes do roteiro descritas em imagens – esta pequena história se torna uma agradável surpresa. Por caminhos e meios imprevisíveis, Oliver (Ewan McGregor, também em Nanny McPhee e as Lições Mágicas, O Escritor Fantasma) passa a ver as relações sem preconceitos ou rótulos e se permite reinventar pela primeira vez na vida.
No presente, Oliver está sozinho, arrumando a vida após a morte do pai, tentando relacionar-se com Anna (Mélanie Laurent, também em Bastardos Inglórios, O Concerto, Não se Preocupe, Estou Bem). No passado, Oliver teve de lidar com duas novidades: seu pai (Christopher Plummer, também em Syriana – A Indústria do Petróleo, A Última Estação) morreu de câncer, mas antes confessou ser gay, depois de 44 anos de casamento. Intercalando presente e passado, Oliver relembra os dias em que teve de lidar com a perda, com a doença, com o jovem namorado do pai, mas também com a alegria de viver, com o entusiasmo, com a espontaneidade vindas dessa relação. Tenta reaprender a relacionar-se através do namoro com Anna, que vive solitária em hotéis, apresentando-se em diversas cidades do mundo, aparentemente sem raízes, família, lar. Devagar e com uma certa graça, a história se desenrola e termina por ser um filme gostoso e humano, para ver bem acompanhado.
Toda Forma de Amor peca por esse título. Não vejo onde isso se encaixa, muito embora o filme trate de diversas formas de se amar. Mas cai no clichê e perde a graça do título em inglês, Beginners, que remete aos iniciantes, àqueles que se lançam em uma nova empreitada na vida, sem temor, com entrega e autenticidade. Esse é o mote do filme, dar o primeiro passo, vencer o medo e o preconceito, parar de tentar adivinhar as respostas e vivenciar o que a vida apresenta. Uma pena, essa perda de sentido. Mas, está a avisado e se você se deparar com esse filme na locadora, não dê bola para essa tradução.
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