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A COMUNIDADE – Kollektivet (The Commune)
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Para Pensar, Garimpo na Locadora, Drama, Dinamarca - 02/09/2016

Por Suzana Vidigal

A áurea do cinema escandinavo é diferente. Tem um entorno realista, sem firulas; é naturalista, sem truques. Diferente do que dizia o movimento Dogma 95, fundado pelos diretores Thomas Vinterberg (também de A Caça) e Lars Von Trier, A Comunidade migra para os anos 1970, quando viver em repúblicas era cool, a solução para a monotonia das relações. O movimento dizia que os filmes deveriam ser feitos no tempo presente, para ser o mais fiel possível às questões vividas no presente. Assistindo ao novo longa do diretor, confesso que isso não faz a menor diferença. Trine Dyrholm vai provocar tanta identificação com o público feminino, que é como se fosse real mesmo.

Trine foi a melhor atriz em Berlim e está também em Em Um Mundo Melhor, da talentosíssima diretora dinamarquesa Susanne Bier (também de Depois do Casamento). O que acontece sua personagem Anna é a velha discussão da linha tênue que separa o público do privado.  Anna e Erik (Ulrich Thomsen, também em Em Um Mundo Melhor, Festa de Família) são casados, têm uma filha adolescente e herdam uma casa grande. Anna se diz entediada, quer novos ares, novas pessoas por perto. Sugere que morem na casa e convidem amigos e conhecidos para viverem junto e dividirem as contas e o espaço. Que convivam com pessoas estimulantes. Logicamente a vida íntima acaba sendo partilhada (senão invadida) também. Erik tem receio de que morar em um lugar grande não seja propício para sentir, ver e escutar o outro; Anna diz que quem mora em lugar pequeno, fica com a mente restrita. Entra o público e efêmero, sai o privado e íntimo. O casal se distancia, Erik encontra outra mulher mais jovem e Anna passa a andar nessa linha tênue tentando conciliar seus sentimentos com a realidade exterior, como uma corda bamba.

Duro, cruel e muito realista, A Comunidade discute a utopia da vida partilhada e da mente aberta versus o sentimento de perda, de troca, de vazio que fica por ter escancarado demais o que é, por definição, privado. Extremamente tocante observar Anna e Emma (Helene Reingaard Neumann) na pele, no olhar, no histórico. Feminino e intenso. Filme que ressoa dentro da gente por dias.

 

DIREÇÃO: Thomas Vinterberg ROTEIRO: Thomas Vinterberg, Tobias Lindholm ELENCO: Ulrich Thomsen, Trine Dyrholm, Fares Fares, Julie Agnete Vang, Helene Reingaard Neumann | 2016 (111 min)

 

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MÃE SÓ HÁ UMA
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Para Pensar, Garimpo na Locadora, Drama, Brasil - 26/08/2016

Mãe só há uma, mas aqui tem duas. Inclusive, a mesma atriz para as mães biológica e adotiva. Adotiva não – sequestradora. Pedrinho foi roubado na maternidade por uma moça, que ainda roubou outra menina anos mais tarde, criou os dois como irmãos e fingiu, a vida toda, que a família era normal, como qualquer outra. Os pais biológicos não sossegaram, procuraram os filhos a vida toda, desmascaram a moça-mãe-sequestradora, que vai presa e tem que entregar os filhos para os pais verdadeiros.

Então, mãe aqui tem duas e a atriz é uma só. Curioso e quase imperceptível, tamanho é o envolvimento com o drama do adolescente que está em plena experimentação sexual, vive os conflitos da idade à flor da pele e diz ter sido roubado duas vezes.

Depois do ótimo Que Horas Ela Volta?, Anna Muylaert lança esse drama baseado em história real, que traça um contorno do convívio familiar (assim como no filme com Regina Casé, com maestria), faz uma cartilha dos padrões de comportamento esperados pela sociedade e pela classe média, das difíceis escolhas da adolescência e da construção do afeto. Em se tratando de afetividade, menos discurso é mais atitude. Não dá pra sair ileso, o melhor de seus filmes, sem dúvida.

DIREÇÃO e ROTEIRO: Anna Muylaert ELENCO: Naomi Nero, Daniel Botelho, Daniela Nefussi | 2016 (82 min)

 

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MIA MADRE
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Para Pensar, Itália, Garimpo na Locadora, Drama - 18/12/2015

Nanni Moretti não faz qualquer cinema. E muitas vezes, não faz cinema fácil. Mas sempre faz um cinema importante, sobre as relações humanas, com questionamentos e sentimentos genuínos. Pelo menos naqueles que eu assisti: Habemus Papam, Caro Diário, O Quarto do Filho. Não são sentimentos filtrados ou maquiados pela direção de arte. Nesses três filmes, o próprio Moretti também atua, transporta para a tela sua experiência de vida e questões profundas de como lidar com a vida e com as pessoas que fazem parte dela. Tudo com um olhar muito realista e profundo.

Não foi diferente em Mia Madre, quando Moretti traz a problemática da perda da mãe. O filme se passa no momento em que sua mãe está muito doente, mas o foco principal é como ele e a irmã, na pele da ótima Margherita Buy, lidam com o assunto. Claro que a doença da mãe não é a única coisa que acontece na vida deles e Moretti traz isso pra tela também: como lidar com tantos problemas ao mesmo tempo e não se deixar paralisar e transformar a vida num verdadeiro caos.

Marguerita é uma diretora de cinema, que está filmando com um ator americano famoso e genioso, acabou de terminar o casamento por falta de tolerância e excesso de rigidez, e sente-se frustrada e infeliz. Digerir a ideia de que a doença da mãe não tem cura, traz todas as questões antigas e mal resolvidas à tona, causa ainda mais solidão, perturba o ambiente de trabalho e os relacionamentos que ela ainda consegue manter e a exaustão se instala. Giovanni, personagem de Moretti, já tem uma postura mais serena e acolhedora, muito embora também tenha problemas de sobra pra resolver.

O cinema de Moretti é sempre algo que mexe com meus sentimentos mais profundos. Principalmente aqueles que envolvem pessoas, perdas, transformações e grandes mudanças. Ele traz isso pra tela e faz com muita intensidade. Quem não é fã do cinema mais lento, contemplativo e reflexivo, vai achar parado demais. Agora, se há uma brecha pra algo mais introspectivo, não tem como errar. Faz você pensar e emociona a cada movimento mais intimista.

DIREÇÃO e ROTEIRO: Nanni Moretti ELENCO: John Turturro, Margherita Buy, Nanni Moretti | 2015 (106 min)

 

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PEGANDO FOGO – Burnt
CLASSIFICAÇÃO: Para se Divertir, Para Pensar, Garimpo na Locadora, Estados Unidos, Drama - 09/12/2015

Parece que a moda de filmes com o viés gastronômico pegou mesmo. E não é só cinema, tem as séries e programas de televisão também. E caiu no gosto pelo seguinte: além da profissão “chefe de cozinha” estar em alta e se inserir num roteiro de glamour mundo afora, a arte da gastronomia serve como uma metáfora para diversas áreas da vida. Dá pra falar de relacionamento, persistência, perfeição, inovação e talento nato. Um bom filme sobre o tema acaba sendo recheado de emoções variadas e por isso normalmente é muito saboroso – em todos os sentidos.

Filmes como Pegando Fogo são boas ferramentas motivacionais. Veja o caso do personagem de Bradley Cooper (também em O Lado Bom da Vida). Adam Jones é um chef renomado em um restaurante chiquérrimo de Paris, põe tudo a perder por causa do seu gênio do cão, da bebida e das drogas. É perfeccionista ao extremo, desce até o fundo do poço e precisa recomeçar. Ou melhor, quer provar que pode, mas é claro que se não mudar o comportamento não dá pra trabalhar em equipe – que é, junto com as receitas e ingredientes, a alma da cozinha.

Dá pra fazer uma leitura também não literal do título Pegando Fogo – Adam está sempre incitando desentendimentos e competição e não tem tempo a perder. Quem entra fazendo o meio de campo é a personagem de Sienna Miller, que também contracenou com Cooper em Sniper Americano, e Daniel Brühl (também em A Dama Dourada, Adeus, Lênin!), o dono do restaurante que aposta suas fichas no talento de Adam.

O filme tem ritmo e uma história fácil de se identificar – mesmo que você tenha que transportar o ambiente da cozinha para a sua realidade. De quebra, se você entender de gastronomia, vai se deliciar com as receitas e preparos. É de dar água na boca.

DIREÇÃO: John Wells ROTEIRO: Steven Knight ELENCO: Bradley Cooper, Sienna Miller, Daniel Brühl| 2015 (101 min)

 

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O NATAL DOS COOPERS – Love The Coopers
CLASSIFICAÇÃO: Para se Divertir, Garimpo na Locadora, Estados Unidos, Comédia - 01/12/2015

Já ouviu aquela história de pessoas da mesma família que passam o ano nos extremos – ou só criam confusão, ou se evitam o tempo todo – e quando chega o Natal têm que se encontrar por força das circunstâncias? Nem que seja pra não ouvir mais reclamação dos pais, perguntas extras, e tudo mais. Simplesmente comparecem. Esses são os Coopers e muitos outros por aí. Os mais velhos tentam reunir os filhos, agregados e netos às duras penas e o resultado a gente já sabe.

Muita confusão e roupa suja lavada. Sem ter nada de novo, o bom de O Natal dos Coopers é o elenco. Não adianta: por mais previsível que seja um filme com Diane Keaton (também no recente Ruth e Alex, Alguém Tem Que Ceder e tantos outros), adoro seu trabalho, seu sorriso e a maneira como ela encarna a matriarca controladora e cheia de manias, mas que, lá no fundo, é ótima pessoa. E, no fim das contas, o filme é um daqueles contos de Natal (aqui, contado pelo cachorro da família), que se te pegar num dia mais emotivo, pode até te surpreender. Além de ter suas passagens divertidas (dá só uma olhada no trailer).

Ao lado dela está o marido em crise (John Goodman), a irmã solteira ressentida (Marisa Tomei, também em Amor à Toda Prova), o filho desempregado (Ed Helms, também em Se Beber Não Case), a filha-problema (Olivia Wilde, também em Rush – No Limite da Emoção) e todo do clima de Natal – que tem que sair perfeito.

 

DIREÇÃO: Jessie Nelson ROTEIRO: Steven Rogers ELENCO: Diane Keaton, John Goodman, Ed Helms | 2015 (107 min)

 

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MISTRESS AMERICA
CLASSIFICAÇÃO: Para se Divertir, Para Pensar, Garimpo na Locadora, Estados Unidos, Drama, Comédia - 18/11/2015

Com quem curtiu Frances Ha, fica mais fácil começar a conversa. Se Frances Ha não fez sentido pra você, se tudo parecia uma viagem alternativa de uma garota perdida, que não fala nada com nada e não sabe nem dizer o que faz da vida, então Mistress America vai doer no mesmo calo. A garota é a mesma Greta Gerwig e a pegada, bem parecida.

Agora, se você curtiu Enquanto Somos Jovens, com Naomi Watts e Ben Stiller, se identificou com a busca pela lugar ao sol também após os 40 e conseguiu apreciar um cinema mais independente, mais intimista e curioso no quisito “relações humanas”, você merece uma chance. Entre de cabeça e deixe-se levar pela dupla de irmãs tortas que, por mais diferente que elas sejam de nós, têm uma essência bem parecida: buscam loucamente se livrar das expectativas dos outros, na tentativa de descobrir quem realmente são.

Eu daria uma chance, se fosse você, porque o filme é muito corajoso. Acho que nunca é tarde para abrir os horizontes e o cinema é uma ótima ferramenta pra isso. Mistress America é delicado e engraçado, profundo e curioso. Broke já está na casa dos 30, é decoradora, faz pose de famosa, mas no fundo está bem perdida e tenta se encontrar profissional e pessoalmente; Tracy está na faculdade, quer ser escritora e se encanta com a imagem de segurança que Broke transmite. O convívio entra as duas traz à tona a necessidade da verdade e é isso que Noah Baumbach consegue transmitir com tanta simplicidade e genuína entrega dos personagens.

Adoro o gênero: acho transformador, faz parar pra pensar. Se você se deixar levar um pouco que seja por essas duas almas criativas, vai encontrar algum ponto em comum. Pode ter certeza. Ou no mínimo vai curtir a deliciosa trilha dos anos 1980 – o que não é pouca coisa.

DIREÇÃO: Noah Baumbach ROTEIRO: Noah Baumbach, Greta Gerwig ELENCO: Greta Gerwig, Lola Kirke, Seth Barrish | 2015 (84 min)

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FORÇA MAIOR – Turist
CLASSIFICAÇÃO: Suécia, Para se Emocionar, Para Pensar, Garimpo na Locadora, Drama - 05/03/2015

Muitas das atitudes que tomamos são por motivo de força maior. Força que sai do controle e do nosso crivo racional. Vem das entranhas, do íntimo e revela porções e sentimentos nossos guardados à sete chaves. Sabe-se lá por quanto tempo. Sabe-se lá com que sequelas. O sueco Força Maior é assim: intenso, poderoso e, por isso, assustador. Assim como a montanha nevada, que vai produzindo uma pequena movimentação de neve bem longe, que se aproxima lentamente, ganha movimento, rapidez, até se transformar numa avalanche. Com os tsunamis é igual – o início é nas profundezas do oceano, uma alteração invisível aos olhos, mas de efeitos devastadores na superfície.

É dessa metáfora que Força Maior lança mão, fazendo uma analogia entre os movimentos transformadores da natureza e aqueles devastadores nas relações humanas. O que é mostrado no começo do filme como uma família linda e feliz, de férias em uma sofisticada estação de esqui na França, vai se transformando assim como a montanha repleta de neve fofa e instável. É numa avalanche real que o casal Tomas e Ebba começam a movimentar os sentimentos guardados dentro deles por anos, ressentimentos de uma relação mal resolvida, de individualidades deixadas de lado, de expectativas não correspondidas, de frases e sentimentos não ditos.

Aliás, eu diria que os cinemas sueco e dinamarquês têm dessas coisas. Tratam do subliminar – e da essência – das relações humanas com a força de uma avalanche, num crescente que a gente mal percebe, até que não dá mais para evitar. Foi assim em A Caça, Submarino e Festa de Família (de Thomas Vinterberg), em Depois do Casamento e Em Um Mundo Melhor (de Susanne Bier) – só para citar alguns. Venceu o prêmio que gosto tanto em Cannes, Un Certain Regard, e foi o indicado da Suécia para a vaga na corrida pelo Oscar de melhor filmes estrangeiro. Força Maior foi uma avalanche de emoções dentro de mim e é de fazer parar para pensar. Profundamente.

 

DIREÇÃO e ROTEIRO: Ruben Östlund ELENCO: Johannes Kuhnke, Lise Loven Kongsli, Clara Wettergren | 2014 (118 min)

 

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