DIREÇÃO E ROTEIRO: Miranda July
ELENCO: Miranda July, Hamish Linklater, David Warshofsky
Alemanha, Estados Unidos, 2011 (91 min)
Nos cinemas: 26 de abril
Assisti a este filme na 35a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Replico aqui meu comentário, já que filme entrará em circuito comercial. E, claro, replico porque vale a pena ver!
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O futuro de ponta-cabeça – gostei do cartaz do filme. Aliás, que futuro? Que perspectiva? Quais são os planos? Nenhum, a não ser adotar um gato. E ao se deparar com essa mudança no futuro próximo, que chega em 30 dias, o casal Sophie (Miranda July, também a diretora) e Jason perde o chão. Será que conseguirão lidar com tamanha responsabilidade? Fará sentido continuar fazendo um trabalho sem graça, que não gostam, diante dessa mudança tão importante que está para acontecer? Antes de chegar o gato, que mudará suas vidas para sempre, é preciso aproveitar, correr atrás do sonho, desligar a internet, porque depois disso tudo estará acabado.
Este é o panorama irônico de O Futuro, logicamente mostrando um casal acomodado ao extremo para causar estranheza. Eles próprios são estranhos – vivem sem entusiasmo, tomam decisões sem pensar, se precipitam justamente quando a causa pede calma. Fazer a diferença no mundo particular de cada um pede calma e determinação. Mas Sophie e Jason não sabem o que querem: se dançam, ou se compram árvores para salvar o planeta; se fazem o tempo parar para não se perder ou não perder o outro, ou se correm para os braços do primeiro que abrir as portas. Interessante o retrato da relação que não se sustenta, que não se relaciona, que vive no imaginário irreal, na espera vazia. Apenas vive, cada um no seu mundo virtual, sem comunicar-se realmente, sem compartilhar sonhos, sem ambicionar construir.
O Futuro vale ser visto, mesmo porque tem figuras de linguagem e metáforas extremamente profundas, que chegam a incomodar. A da solidão interior, do vazio, da falta de auto-conhecimento, da falta de perspectiva, da falta de garra e vontade – motores fundamentais para uma vida ser vivida. Metáfora dos tempos atuais, em que o medo paralisa, em que o rigor das convenções e expectativas engessa iniciativas e quebra de paradigmas? Também acho que sim. Fato é que, ao sair dessa sessão da 35a Mostra, notei que as pessoas perguntavam aos amigos se tinham entendido bem tal e tal parte do filme. Pelo que senti, era isso que Miranda July queria despertar: o desconforto, a incerteza diante de um comportamento, para gerar reflexão, para deixar sentir a história de acordo com o repertório de cada um.
E o gato? Bem, o gato faz parte desse contexto sempre inacabado da vida do casal, ilusório, cheio de intenções, mas nunca concluído. Difícil sair da zona de conforto…
ROTEIRO: Tom Stoppard, Leo Tolstoy
ELENCO: Keira Knightley, Jude Law, Aaron Taylor-Johnson, Matthew Macfadyen, Eric MacLennan, Kelly Macdonald
Inglaterra, 2012 (129 min)
Anna Karenina de Joe Wright ganhou o Oscar de melhor figuro. Mais que merecido, mas este não é o seu grande trunfo. Além do cuidado primoroso com a estética do filme, com a reconstituição da Rússia imperial, Anna Karenina seria mais um lindo filme de época se não fosse o seu criativo formato teatral.
É justo perguntar: como assim? É cinema ou teatro? Os dois, mesclados de maneira harmônica e muito original. Para entender melhor, vamos aos personagens. Anna Karenina (Keira Knightley, também em Um Método Perigoso, Apenas uma Noite, Desejo e Reparação) é casada com o alto funcionário público Alexei Karenin (Jude Law, também em Sherlock Holmes: O Jogo das Sombras, A Invenção de Hugo Cabret, 360, Um Beijo Roubado, Closer – Perto Demais). Vivem na Saint Petersburgo do final do século 19, rica e cheia de glamour para quem faz parte da seleta alta sociedade, mas num casamento frio e protocolar. Tudo muito bem pensado para retratar a abundância e hipocrisia da era dos czares, antes de a Revolução Russa derrubar privilégios, palácios, riquezas. Até que Anna viaja para Moscou, onde conhece um oficial da cavalaria (Aaron Taylor-Johnson) e coloca tudo a perder: sua reputação, seu filho, seu casamento, sua posição social.
Até aí, nenhuma novidade em termos de roteiro. O destaque é o ambiente teatral a que me referi. A repartição pública onde trabalha Alexei se transforma em restaurante com uma suave mudança de cenário, os funcionários viram garçons num piscar de olhos, realmente trocando o figurino na frente do espectador. O palco está fisicamente presente: vemos a orquestra tocar, os personagens encenarem, até que o palco se transforma em campo nevado, estação de trem, salão de festa e tudo mais que Joe Wright (também de O Solista, Desejo e Reparação) achou necessário para sair do lugar comum e compor a tragédia que se tornou a vida de Anna, inspirado no célebre romance de Tolstoy.
ROTEIRO: Marion Laine, Mathias Énard
ELENCO: Juliette Binoche, Édgar Ramírez, Hippolyte Girardot, Aurélia Petit, Amandine Dewasmes
França, 2012 (87 min)
Nos cinemas: 15 de fevereiro
Além de viver intensamente o amor pelo charmoso cirurgião Javier, Mila não quer acreditar que seu marido está desmoronando profissionalmente por causa do álcool. Isso é o elemento que faz De Coração Aberto ser forte e intenso. E o que faz com que Julieete Binoche (também em Cosmópolis, Elles, Cópia Fiel, Horas de Verão, Paris, O Paciente Inglês), na pele de Mila, tenha uma atuação tão marcante.
Adiciona-se a isso o fato de seu marido Javier ser vivido pelo venezuelano Édgar Ramírez (também no ótimo Carlos e A Hora Mais Escura), que dá o tom do romance impulsivo, vivido a cada instante, mas que se despedaça e não tem agilidade ou força para se reinventar. O casal tem uma boa liga, o que é fundamental para que o espectador entre no filme. Afinal, é uma história de amor entre dois cirurgiões cardíacos, que tapa o sol com a peneira na tentativa de não ver o lado sombrio da rotina, do vício, do fracasso e se desespera ao ver seu amor ser dividido com a notícia de uma gravidez indesejada.
Novidade mesmo, o roteiro não tem. Mas gosto bastante da intensidade das cenas em que o casal se depara com o pior dos mundos. São verdadeiras, bem trabalhadas. Para quem gosta da incansável atriz francesa Juliette Binoche, que não para de trabalhar e apresentar novos projetos todo ano, é um prato cheio. E claro, o título prescinde de qualquer explicação.
DIREÇÃO e ROTEIRO: Michael Heneke
ELENCO: Jean-Louis Trintignant, Emmanuelle Riva, Isabelle Huppert
Áustria, França, 2012 (127 min)
Fui assistir a uma sessão de Amor em que a maioria das pessoas era da terceira idade. Acabou o filme, eu custei a me levantar. Quando acenderam as luzes do cinema, que notei o perfil da plateia, fiquei ainda mais emocionada. Se eu, que ainda não estou nessa faixa etária fiquei extremamente tocada com o depoimento amoroso do casal e cruel da vida como ela é, imagine aquelas pessoas.
Sei de gente que não aguentou – e é árduo mesmo. Amor vem conquistando prêmios mundo afora (ganhou Palma de Ouro em Cannes, Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro e concorre ao Oscar em cinco categorias) e isso já atrai bastante gente ao cinema. Além do título que o diretor e roteirista Michael Heneke (também de A Fita Branca) escolheu para o filme, que é singelo e preciso, também não explicitar a dor – muito embora não haja amor sem sofrimento. Mas quem vai assistir esperando ver uma linda história de amor, descobre que estamos falando aqui de uma linda história de AMOR, com maiúscula, no sentido completo da palavra, com todas as suas implicações mais profundas e dolorosas. O tapa é forte demais. Se não me falha a memória, a palavra “amor” não é usada no filme, no entanto esse é o sentimento que existe no olhar de Anne (Emmanuelle Riva) e Georges (Jean-Louis Trintignant). Puro. Aliás, só amando muito mesmo. Mas mesmo com ele, o realismo da tragédia que vem com a doença e com a idade chega a cortar esses corações repletos do mais nobre sentimento.
Aguentar é duro e cada um sente o filme dependendo da idade em que está. Mesmo projetando para o futuro essa dor, sorte de quem pode projetar para o futuro um relacionamento duradouro como o de Anne e George. No meu caso, fica mais fácil me colocar no papel de Eva (Isabelle Huppert, também em Minha Terra, África, Copacabana, A Bela que Dorme, Em Nome de Deus), uma filha que pouco contato tem com os pais, mas que se vê no direito de ditar as regras quando a situação vive seu maior drama. Tocante a cena em que George impede que qualquer decisão egoísta da filha possa interferir na cumplicidade do casal. Vão cuidar um do outro até morrer. Isso é inegociável e uma prova de amor.
Anne e George estão casados há decadas, talvez uns 50, 60 anos. Pelos detalhes escolhidos pelo diretor e roteirista do apartamento, da rotina, da maneira de falar um com o outro, construíram uma vida juntos. Sempre juntos, no sentido real da expressão. Ser um casal é condição primeira de seguir vivendo. Para poucos. Ninguém sai ileso de Amor.
DIRETOR: Marcos Carnevale
ROTEIRO: Marcos Carnevale, Bernarda Pagés
ELENCO: Graciela Borges, Valeria Bertuccelli, Rita Cortese
Argentina, 2010 (100 min)
Nos cinemas: 21 de dezembro
Não é nenhum Elsa &Fred, o grande sucesso do diretor argentino Marcos Carnevale. Nem Família Rodante, outro emblemático filme, desta vez do também argentino Pablo Trapero, sobe o delicado que são as relações humanas. Quem dirá as familiares…. Mas Viúvas é um bom filme. Não me importei com o fato de ser improvável. Faz parte do conto, ainda mais quanto se trata de um assunto difícil que é a aceitação de uma nova realidade.
Elas amam o mesmo homem, até que um AVC tumultua o esquema que vinha funcionando por anos. Ele amava sua mulher Elena (Graciela Borges, também em Dois Irmãos), mas mantinha uma relação também amorosa com Adela (Veleria Bertuccelli), uma moça bem mais jovem. Pouco antes de morrer, ele pede à sua esposa que cuide da garota – que por si só já é um tanto quanto estranho. O filme tem um bônus importante, que é a participação da atriz argentina Rita Cortese, também em Herencia, Dois Irmãos.
Acho que Carnevale imprime o humor no absurdo da relação que tenta se formar entre a esposa e a amante do seu marido. Há cenas cômicas; há outras que me tocaram quanto foi possível esquecer a traição e valorizar a pessoa, a relação nova e positiva que pode nascer. Quando Elena pode esquecer. Gosto do filme, mais do que andam dizendo por aí. De alguma maneira, é quase um conto sobre a possibilidade de gerar sentimentos novos a partir do improvável.
DIREÇÃO e ROTEIRO: Sarah Polley
ELENCO: Michelle Williams, Seth Rogen, Sarah Silverman, Luke Kirby
Canadá, 2011 (116 min)
Michelle Williams é daquelas atrizes cuja presença fala por si só. Ela já chamou a atenção em O Segredo de Brokeback Mountain, mas foi a partir de Blue Valentine (traduzido com o péssimo título de Namorados para Sempre) que ela disse realmente a que veio. Em seguida, Ilha do Medo e Sete Dias com Marilyn, em que ela se mostra realmente o talento. Eu diria até que ela é o filme.
Mais uma vez Michelle é vítima de títulos toscos. O original é adorável e seria algo como “dance esta valsa”, que aqui é metáfora de uma mudança, de um movimento da vida, da coragem, da negação da monotonia. Pobre Michelle. Mas também esse é um dos poucos poréns, porque o filme é realmente de uma sensibilidade muito grande, embora trate de um assunto absolutamente corriqueiro, lugar comum e no entanto de difícil desenlace. A jornalista Margot é casada há 5 anos com Lou, um sujeito agradável, carinhoso, escritor de livros de culinária. Apesar da estabilidade do casamento, Margot sente um incômodo e agonia constantes, como se algo faltasse, como se buscasse um tempero a mais. A escolha da profissão de Lou é simbólica: escritor de livros de culinária, é especializado em frango e é só isso que ele prepara nas refeições. Sempre a mesma coisa, mais do mesmo.
Claro que cada um sente a monotonia da rotina de uma maneira diferente. E esse é o ponto do filme. Para Lou, isso é alegria, estabilidade, porto seguro; para Margot, é angústia, previsibilidade. O encanto pelo novo vem de uma maneira a desestabilizar tudo, mas o que a diretora Sarah Polley deixa no ar é a seguinte questão-chave: até quando o novo vai permanecer uma novidade? Ele não estaria, também, fadado a envelhecer?
De uma sensibilidade realmente tocante – eu diria que tem algo da forte frustração e constante insatisfação de Blue Valentine em Entre o Amor e a Paixão – o filme emociona, comove e faz parar para pensar.
PROGRAME-SE: informações sobre horários e salas clique aqui.
ROTEIRO: Jorge Furtado, Alexandre Machado
ELENCO: Luiz Fernando Guimarães, Fernanda Torres, Marisa Orth, Evandro Mesquita
Brasil, 2003 (90 min)
Seguindo o sucesso da série de televisão Os Normais, Luiz Fernando Guimarães e Fernanda Torres (também em Casa de Areia, Mulher Invisível, Jogo de Cena) são engraçadíssimos. Claro que tudo não passa de uma grande besteira, mas é o tipo de filme que, ancorado no sucesso dos atores globais e na sua empatia automática com o público, garante boas risadas.
Aqui ficamos sabendo como Vani (Fernanda) e Rui (Luiz Fernando) se encontram. Ela está de casamento marcado com Sérgio (Evandro Mesquita) e ele, com Marta (Marisa Orth). A confusão começa na igreja, que um casamento está marcado em seguida do outro. Os Normais está na categoria dos filmes nacionais que lembram Se Eu Fosse Você e Se Eu Fosse Você 2 e De Pernas Pro Ar. Fazem dar risada pela risada. Só isso!
DIREÇÃO e ROTEIRO: Kar Wai Wong
ELENCO: Tony Leung Chiu, Maggie Cheung, Ping Lam Siu
China, 2000 (98 min)
In the mood for love. Adoro a versão inglesa do título. Amar depende realmente do estado de espírito. Tem que estar a fim. Os personagens do filme do diretor Kar Wai Wong, também do belo Um Beijo Roubado, estão dispostos a amar. Inicialmente, não se trata de trair, ter um caso. Estão dispostos a amar seus escolhidos, marido e mulher. Mas o andar da carruagem faz com que extravasem esse amor de outra maneira. Ele precisava ser canalizado e dizer a que veio. Só lhes sobrou a via mais difícil.
Ambientada em Hong Kong em 1962, Amor à Flor da Pele fala sobre dois casais, que alugam quartos em um prédio onde moram várias famílias juntas. A esposa de Chow Mo-Wan sempre tem que fazer hora extra, passa a maior parte do tempo fora de casa; o marido de Li-zhen passa a maior parte do tempo em longas viagens ao exterior. Sem companhia, Chow e Li-zhen se tornam amigos e começam a desconfiar que seus companheiros estão tendo um caso.
Sem entrar muito em detalhes, a beleza de Amor à Flor da Pele está na estética do filme. Diferenciada, estilizada, com personalidade. Mas também está na maneira com que os protagonistas veem esse amor. Não se igualam aos seus companheiros, que optaram pela traição. Tentam, às duras penas, encontrar uma saída. Sem descer no fundo do poço. Intenso, marcante, lindamente pensado. Adoro o ritmo, as tomadas de câmera, a maneira com que o contexto histórico de Hong Kong naquela época influencia o destino dos personagens. Para ver bem acompanhado, certamente.
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