DIREÇÃO: Antonio Carlos da Fontoura
ROTEIRO: Marcos Bernstein
ELENCO: Thiago Mendonça, Bianca Comparato, Conrado Godoy, Nicolau Villa Lobos, Laila Zaid, Bruno Torres, Daniel Passi, Sandra Corveloni, Marcos Breda
Brasil, 2013
Nos cinemas: 03 de maio
Contar um pouco da vida de gente famosa sempre deixa no ar a dúvida sobre a veracidade das informações, gestos, personagens. Somos Tão Jovens é uma obra de ficção, baseada em fatos reais e em personagens que realmente existiram, com algumas licenças poéticas permitidas pelo diretor Antonio Carlos da Fontoura. E ainda mais, o filme é apenas um recorte – e por isso não menos importante – da vida de Renato Manfredini Jr., que de adolescente nerd, deslocado e esquisito, encontra seu lugar ao sol e no rock e desponta com o poeta, músico e líder da Legião Urbana, quando a banda explode no Rio de Janeiro, em 1982.
Se a ideia for conhecer mais a fundo e ver depoimentos reais da turma de músicos do fim dos anos 1970 e início dos anos 80 em Brasília e entender como funcionava a dinâmica desses jovens de classe média alta, que não tinham o que fazer naquela cidade provinciana e por isso resolveram fazer rock, vale assistir ao documentário Rock Brasília – Era de Ouro, de Vladimir Carvalho. Este sim traz os depoimentos e vivências propriamente ditos para a tela e, com certeza, merece ser visto, principalmente para quem viveu aqueles anos, se viu no meio do turbilhão de bandas surgindo e nunca parou para se perguntar de onde vinha tudo isso.
Dito isso, aceitemos a licença poética. Ela é benéfica, compõe o todo e faz parte do cinema. Como disse o diretor em entrevista coletiva (ler mais detalhes no post Somos Tão Jovens é um Filme de Turma), “Dado e Bonfá estão aqui para não me deixar mentir”. E de fato, os parceiros de Renato Russo na banda Legião Urbana referendam o que viram e acham, sim, que Renato iria gostar. Vale dizer que há duas mulheres marcantes no filme. Uma delas é real, a Carmem Teresa (muito bem representada por Bianca Comparato), irmã de Renato, figura extremamente presente na produção do filme e na vida do cantor; a outra é fictícia, a Aninha (também marcante na atriz Laila Zaid), uma criação do diretor que buscava sintetizar todas as meninas da vida de Renato numa só. Para você ver que aqui não importa muito essa coisa de ficção e realidade (desde que bem equilibrada), a cena em que Thiago Mendonça interpreta a canção Ainda é Cedo para Aninha é uma das mais bonitas do filme. “Queria que ela fosse a menina que ensinou a ele tudo aquilo que sabia”, confessa Fontoura.
Real ou não, a figura de Aninha amarra muito bem essa questão fundamental da adolescência irriquieta de Renato, que foi fundamental para que sua veia criativa e incansável deixasse o legado que deixou. Não ter zona de conforto gera conflito, criação, música, contestação, poesia. O tom encontrado por Fontoura vai no sentido de desvendar o mito, mas não no sentido de endeusá-lo. Com todas as suas questões, dificuldades de relacionamento, língua afiada e domínio completo do verbo e da palavra escrita, Renato cria canções incríveis, vive intensamente com integrantes de outras bandas de Brasília como Plebe Rude e Capital Inicial e é muito bem representado por Thiago Mendonça em toda a sua rebeldia. Na sua busca pela sexualidade, na sua incompreensão de como a sociedade funciona, de como as relações familiares se dão. Na sua dúvida constante: “será só imaginação?/ será que nada vai acontecer?/ será tudo isso em vão?/ será que vamos conseguir vencer?”
Assista e cante muito. Assim como outros filmes interessantes sobre nomes importantes da música brasileira como Gonzaga – De Pai pra Filho e Cazuza, Somos Tão Jovens é, acima de tudo, um tributo bonito ao cantor que morreu tão jovem. E mais: como disse o próprio ator Thiago Mendonça, se o filme servir para sacudir o jovens e fazê-los largar o celular, já valeu. E se servir para lembrar e cantarolar Legião Urbana, ainda mais. Se bem que, nesse caso, não se trata de recordar. Todo mundo lembra da Legião.
ROTEIRO: Patrícia Andrade
ELENCO: Adelio Lima, Chambinho do Acordeon, Land Vieira, Julio Andrade, Giancarlo di Tomazzio, Alison Santos, Nanda Costa, Silvia Buarque, Luciano Quirino, Claudio Jaborandy, Cyria Coentro, Olivia Araújo, Zezé Motta, João Miguel
Brasil, 2012 (120 min)
“Se tem alguém que gosta de você nessa vida é esse menino, Luiz. Tudo que ele queria era ser seu amigo”, diz Priscila, criada com Luiz Gonzaga desde a infância no sertão de Pernambuco e sua fiel escudeira a vida toda. Ela resume em poucas palavras a complexidade da relação entre o Rei do Baião, Luiza Gonzaga, e seu filho, Gonzaguinha. Foram poucos anos de convivência na vida e na música, antes de a morte chegar, para o pai em 1989 e em seguida para o filho, em 1991. Mas o que Breno Silveira fez, também como diretor de Dois Filhos de Francisco, foi contar como traçaram o seu destino, com muita sensibilidade e um olhar um tanto quanto intimista na relação entre pai e filho.
Confesso que pouco conhecia da vida familiar de Luiz Gonzaga e Gonzaguinha. Sem fazer melodrama, mas dando a devida importância ao relacionamento entre pai e filho, ou ausência dele, às diferenças ideológicas e comportamentais e à sua música, Silveira acerta no tom e conta uma bela história. Sofrida, mas vivida. Com sorriso estampado no rosto, os três atores que interpretam Luiz Gonzaga dão vida ao personagem do rei do baião, que saiu de sua casa simples no sertão por causa de uma desilusão amorosa e penou muito até encontrar um ritmo na sanfona que fizesse a diferença. E o fazem com coragem e muita competência.
Gonzaguinha cresce sem a mãe, que morre de tuberculose, e sem o pai, que está preocupado em fazer a carreira e ganhar dinheiro. De uma maneira atrapalhada e pouco habilidosa, Luiz Gonzaga constrói uma relação com o filho fundamentada na mágoa e no ressentimento. Gozaguinha faz carreira sem ficar na sombra do pai, o compositor de Asa Branca, trilhando um caminho diferente, mas vai se reconciliar lá na frente, quando a carreira do pai já está em decadência. Quando se encontram nessa fase, Gonzaguinha resolve entrevistar o pai. É através do momento da entrevista que o roteiro se desenrola.
ROTEIRO: Bruce Robinson, Hunter S. Thompson
ELENCO: Johnny Depp, Giovanni Ribisi, Aaron Eckhart, Michael Rispoli, Amber Heard, Richard Jenkins
Estados Unidos, 2011 (120 min)
Quem gosta de Johnny Depp? Prefere o ator na pele de personagens afetados como o chapeleiro em Alice no País das Maravilhas, Piratas do Caribe, Edward Mãos de Tesoura, ou alguém mais normal como em Inimigos Públicos e O Turista? Em Diário de um Jornalista Bêbado ele encarna um sujeito instável e alcoólatra, que vai a Porto Rico trabalhar em um jornal de segunda linha, praticamente falido e sem qualquer poder editorial.
Vale a pena falar de Thompson, para que você possa entender um pouco mais da história. Hunter Thompson foi o jornalista que inventou o jornalismo “gonzo”, em que não escreve com distanciamento ou objetividade, mas participa da matéria sobre a qual vai escrever, sente na pele o que está acontecendo. Jornalismo com emoção e opinião, basicamente, e no filme vemos o início dessa linha de pensamento. Escreve o livro homônimo, em que cria o personagem de Paul Kemp, um alter ego ainda na fase jovem, quando não era conhecido, já bebia e usava alucinógenos e vai parar em Porto Rico nos anos 1950. Foi amigo pessoal de Johnny Depp e por isso o projeto saiu do papel.
Paul Kemp é um sujeito que faz caras e bocas, tem o tom e o timing engraçado característico de Depp, que tenta se adequar à maneira de pensar e viver deste país caribenho. Fica dividido entre os mandos frouxos do editor, entre a demanda dos empresários americanos que querem divulgar a especulação imobiliária e ganhar muito dinheiro apropriando-se da beleza do país, e entre o seu lado ético. Em meio a toda a confusão e exageros, ele se depara com a namorada do empresário, apaixona-se por ela e tudo se complica para o seu lado.
Diário de um Jornalista Bêbado é movimentado e dinâmico, com situações divertidas vividas por Kemp e seus amigos jornalistas – não menos bêbados e desmedidos. Mas ele tem momentos de lucidez e confesso que gosto quando faz um papel mais… normal. O mais interessante no filme é a ambientação em Porto Rico, as questões culturais do país e a maneira de viver. Mas eu diria que é preciso gostar antes da figura de Depp para encarar o filme pelo viés da diversão. Quem gosta de Johnny Depp?
TEXTO: John Logan
ELENCO: Bruno Fagundes, Antonio Fagundes
Vermelho como sangue arterial, ferrugem na bicicleta, incêndio na noite de Dresden, o sol em Rousseau, bandeira em Delacroix, mármore fiorentino, corte ao se barbear, sangue na espuma branca, bandeira russa, bandeira nazista, bandeira comunista, víceras, chamas, satã! – Rothko, o artista
Vermelho como o entardecer, bater do coração, paixão, vinho, rosas, batom, beterrabas, tulipas, maçãs, tomates, pimentas, nariz de um coelho, olhos de um albino, telefone vermelho na mesa do presidente, caquis, romãs, distrito da luz vermelha, placa de “pare”, Papai Noel! – Ken, o aprendiz
O embate do Vermelho! Mestre contra aprendiz, experiência contra inocência, conhecimento contra emoção, velho contra novo, desgaste contra o fresco. Vermelho, no palco com Bruno e Antonio Fagundes, pai e filho, fala dessa dualidade natural da passagem do tempo a todo momento. E o faz através de um momento específico da carreira do pintor russo Mark Rothko (1903-70). Expressionista abstrato, contemporâneo de Jackson Pollock (veja link do filme Pollock), fez parte do grupo de artistas que surge após a Segunda Guerra para fazer uma arte que reflita os sentimentos, a visão de mundo, a tragédia humana. Com cores fortes e marcantes, vive um momento de crise em sua carreira, quando recebe uma encomenda milionária para pintar painéis para o luxuoso restaurante Four Seasons em Nova York nos anos 1950. Se aceita a encomenda, está colaborando com a dinâmica da arte comercial, aquela arte que “combina com o sofá” – o que vai contra sua leitura da expressão máxima do artista.
É esse embate entre o emocional e o racional que ele trava com seu aprendiz Ken (Bruno Fagundes). Ken é o representante da nova geração de artistas que vê na pop art de Andy Worhol a nova visão de mundo, que vai sufocar o expressionismo abstrato, que por sua vez sufocou o cubismo e o surrealismo, e assim por diante. É todo esse conteúdo de renovação e decadência que é tratado no lindo e sensível texto de John Logan, peça que fez muito sucesso na Broadway, sem ser abstrato demais. Afinal, tem como espinha dorsal a interessantíssima história de Rothko, com sutis e delicados toques de humor.
Os Fagundes têm liga no palco de fato. Achei acertado também no sentido figurado – a inocência de Ken em relação à arrogância e vivência de Rothko pode ser transportada pela maestria de Antonio e o talento inexperiente de Bruno. Tanto é verdade que no fim da peça os atores nos convidaram para ficar mais, bater um papo, conversar sobre o que vimos. Convidam-nos para doar um pouco mais de tempo (assim como pede Rothko em relação à observação de sua arte), para conversar, refletir – coisa rara hoje em dia. Portanto, programe-se para uns 20 minutos a mais além da 1h20 de espetáculo no belo e novo em folha Teatro Geo. O papo com os atores é delicioso, enriquecedor e principalmente muito descontraído. Toda a experiência de Antonio Fagundes nos palcos (parece que são 36 anos) aparece ali sem máscaras, de uma maneira generosa, como quem quer, precisa, adora trocar. Conhecimento, experiências, teatro.
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PROGRAME-SE:
Teatro Geo (Instituto Tomie Ohtake), R. Coropés, 88 – Pinheiros – tel: (11) 3728 4930 – de quinta a domingo.
DIREÇÃO: José Henrique Fonseca
ROTEIRO: José Henrique Fonseca, Fernando Castets
ELENCO: Rodrigo Santoro, Alinne Moraes, Othon Bastos, Herson Capri, Angie Cepeda, Erom Cordeiro
Antes de falar de Heleno de Freitas (1920-59), o boêmio, pavio curto, sedutor e talentoso jogador de futebol dos anos 40, falemos de Rodrigo Santoro. Sim, porque Heleno – O Príncipe Maldito seria mais uma história de sucesso-esquecimento de ídolos que não conseguem lidar com a fama e o dinheiro de forma equilibrada, se não fosse a atuação de Santoro. Particularmente, gosto muito da maneira como representa e imprime um olhar especial aos seus personagens. E gosto cada vez mais. Desde seu primeiro longa Bicho de Sete Cabeças, de Laís Bodanzky, o talento é inegável. Aliás, é curioso que 11 anos depois Santoro volte a encenar o personagem de sanatório, de olhar e coração perdidos.
Depois do primeiro vieram Carandiru, Abril Despedaçado, Che – O Argentino, Che – A Guerrilha, Leonera, Reis e Ratos, Meu País, além de produções internacionais importantes a serem lançadas nos próximos anos. Santoro não para de trabalhar e tem mérito nisso. A força que dá ao personagem Heleno é grande, o que faz o filme não ser sobre futebol, apesar do tema, mas sim sobre um rapaz talentoso e boa pinta, que não sabe ouvir críticas, é estourado, acha que tem o mundo aos seus pés e acaba tropeçando no vício, nas traições, nas grosserias e perde o trono para a sífilis aos 39 anos.
Fiquei surpresa com o filme e justiça seja feita: há um outro fator que o torna interessante. A escolha do preto e branco, da filmagem que coloca o espectador realmente no Rio de Janeiro dos anos 40/50, no Copacabana Palace, nas praias desertas é linda, bem cuidada e um tanto quanto nostálgica. Bela, sobretudo. Ponto para o diretor José Henrique Fonseca. Teria sido realmente necessário algum tom especial para que o filme não caísse na mesmice, nem na idolatria ou vitimização de um atleta. Ele humaniza a postura de Heleno diante da mulher Silvia (Alinne Moraes, também em O Homem do Futuro), dos amigos e colegas. E conta uma boa história. Que infelizmente, se repete, repete e repete.
ROTEIRO: Hayden Herrera, Clancy Sigal
ELENCO: Salma Hayek, Alfred Molina, Geoffrey Rush, Antonio Banderas, Valeria Golino, Diego Luna, Mia Maestro, Roger Rees
Estados Unidos, Canadá, 2002 (123 min)
Frida Kahlo foi aquela artista mexicana das sobrancelhas negras, fortemente marcadas e praticamente emendadas e dos milhões de arranjos no cabelo. A imagem construída por ela mesma, sobre si própria, conversa com sua obra de uma forma muito particular – fica fácil identificar seus traços. Considerada uma das mais importantes artistas mexicanas do século, Frida (1907-1954) ganhou esta biografia interessante, colorida no figurino, nos arranjos de cabeça e na alegria de Frida em tempos que a doença lhe dava uma trégua.
É curioso, mas ainda jovem apaixona-se por seu mestre – assim como Camille Claudel se apaixona por Rodin e tantos outros casos em que a admiração confunde-se com o amor, mas a diferença de idade e geração termina por tumultuar a relação. Mas isso foi depois de Frida sofrer o grande revés de sua vida, aos 18 anos: um acidente gravíssimo, que não a deixa paralítica por pouco, mas deixa sequelas que vão dificultar sua vida para sempre. O mestre muralista e mulherengo Diego Rivera (Alfred Molina, também em Educação, Magnólia) será seu grande companheiro, entre tapas e beijos por toda a vida, mas responsável por incentivar o talento e a personalidade da obra.
Frida é, sobretudo, um filme sobre a perspectiva da artista, muito bem representada por Salma Hayek, sobre a vida. A sua vida – já que ela sofria restrições físicas e fortes dores durante longos períodos e isso é refletido na sua obra. Parece surrealismo, mas também parece ser sua leitura da realidade quando deitada numa cama. Apesar de tudo, consegue projeção internacional, envolve-se com o Partido Comunista e com líderes de esquerda. Mas o filme não tem tom político, nem dramático. As cenas de dor são suavizadas pelas cores fortes, pela música mexicana marcantes e pelo figurino maravilhoso. Para quem gosta de biografias de artistas, mais uma boa dica para a lista que certamente inclui Piaf – Um Hino ao Amor.
ROTEIRO: Ramon Lemos, Lyoto Machida, Damaso Pereira, Ed Soares
Estados Unidos, 2012 (76 min)
Nos cinemas: 16 de março
Este comentário é para pessoas como eu, que não entendem nada de luta, muito menos de MMA ou artes marciais mistas (sigla em inglês), muito menos ainda da dinâmica e política do torneio UFC (Ultimate Fighting Championship). Como se isso não bastasse, também acho que este comentário pode fazer sentido para aquelas pessoas que, assim como eu, não veem graça, nem emoção, numa luta de “vale tudo” que Anderson Silva, o protagonista deste documentário, pratica. Portanto, quem entende, aprecia, acompanha os torneios do UFC mundo afora, vai achar que eu realmente não tenho o que dizer sobre o assunto. Nesse ponto, terão razão.
Considerando isso, constatei que Anderson Silva – Como Água pouco acrescenta a pessoas como eu, sem conhecimento de causa. Não explica as regras do esporte, não fala do torneio em si, nem sequer conta a história do próprio lutador ou fala sobre as razões da sua vitória na fatídica luta retratada neste filme – que golpe foi esse que derrotou o adversário mesmo depois de ser massacrado durante a maior parte do tempo? Concentra-se no episódio específico da sua defesa do título mundial contra o arquirrival americano Chael Sonnen, em 2010. Invicto, Anderson Silva é incontestavelmente o número 1 e fez questão de adotar uma política diferente daquela esperada pela organização do evento naquela ocasião: não entrou no jogo político do UFC, não aceitou as provocações públicas do adversário e concentrou-se na sua preparação, feita nos Estados Unidos, para a defesa do cinturão. Todo essa panorama de preparação, politicagem, entrevistas coletivas é retratado no filme, além, é claro, da luta em si, que termina com a vitória de Anderson Silva.
Na entrevista coletiva após a exibição do filme, Anderson Silva adota a mesma postura que mostrou durante as filmagens do documentário. Diz ser avesso à intrigas, concentrado na técnica, voltado ao esporte e à família. Com essa postura “indiferente” – entre muitas aspas – além de deixar impaciente os adversários e organizadores que querem tirar proveito das declarações, controvérsias ditas em público e eventuais escorregões dos atletas, Anderson faz seu próprio marketing pessoal, constrói sua imagem de bom moço em contrapartida à arrogância do adversário, lança um filme, sai na capa de revista e ganha notoriedade fora do octógono. O subtítulo Como Água se refere à adaptação que devemos ter de acordo com as diferentes situações da vida, ao fato de ser preciso moldar-se, como a água, ao recipiente da vez, para então ser vencedor. Anderson Silva não se moldou ao esquema, montou sua estratégia essencialmente marketeira para ganhar mídia, também fora do reduto dos seguidores das lutas marciais mistas. Sem tirar o mérito do atleta (ele é o campeão, afinal de contas, e tudo indica que realmente um fenômeno), o filme não é um documentário. É uma peça publicitária.
ROTEIRO: Abi Morgan
ELENCO: Meryl Streep, Jim Broadbent, Richard E. Grant, Ianin Glen, Alexandra Roach, Victoria Bewick, Emma Dewhurst, Olivia Colman, Harry Lloyd
Estados Unidos, 2011 (105 min)
“Atenção aos pensamentos, porque eles se transformam em palavras. Atenção às palavras, porque elas se transformam em ações. Atenção às ações, que se tornam hábitos. Atenção aos hábitos, porque eles compõem seu caráter. Atenção ao seu caráter, que ele se torna seu destino. Nós nos tornamos aquilo que pensamos.”
Margareth Thatcher
Nos cinemas: 17 de fevereiro
Lembro-me bem da imagem de televisão de Margareth Thatcher nos discursos mundo afora. Eram marcantes, em uma época em que as mulheres não eram muitas no poder. A postura irredutível, firme, absolutamente dona de si é o que me vem na memória quando penso na única primeira ministra britânica da história, no cargo de 1979 a 1990.
Quando me dei conta disso, me arrependi de não ter revisto alguns de seus discursos antes de assistir ao filme. Com a ferramenta do YouTube, isso hoje fica fácil. Uma simples busca com o nome dela já disponibiliza diversos vídeos da Dama de Ferro discursando e imprimindo seu incomparável jeito de ser e fazer política. Vale a pena. Assim você tem a verdadeira Thatcher fresca na memória para encarar Meryl Streep (também em Manhattan, Entre Dois Amores, As Horas, Simplesmente Complicado, Julie & Julia, Dúvida), numa caracterização impecável. Não tenho ressalvas à sua interpretação. Indicada pela 17a vez ao Oscar de melhor atriz, Meryl Streep está a própria Thatcher, parecendo intocável na sua carcaça de raciocínio lógico e irônico, determinação e convicção, capaz de colecionar tantos inimigos quanto admiradores políticos.
Quando um diretor se depara com a personalidade controversa como Thatcher, fica difícil encontrar um viés apropriado para contar, em apenas duas horas, o que foi sua presença e seu legado – ainda mais escolhendo uma americana para representar uma inglesa. Em se tratando da ex-primeira-ministra, como retratar sua postura diante da crise econômica, do aumento do desemprego, da pressão dos sindicatos e do partido conservador, da Guerra das Malvinas? O que a diretora Phyllida Lloyd, também de Mamma Mia, fez em A Dama de Ferro foi humanizar uma personagem dura, contando sua história política a partir das lembranças de uma frágil e solitária senhora, que sente saudades dos filhos pequenos e do marido companheiro, que sofre de demência, que diz não precisar de ajuda, que teima em não ir ao médico, que ainda é apegada aos pertences comuns que trazem registradas as histórias de uma vida.
Para quem acha que ainda faltou contar muita coisa, talvez isso seja um consolo – personagens densos e complexos como ela ainda podem render ótimas histórias no futuro. A Dama de Ferro é um importante e bem feito registro, não só de um personagem histórico, mas de uma maneira de liderar e de viver a arte da política.
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