ROTEIRO: Radu Mihaileanu, Alain-Michel Blanc
ELENCO: Leïla Bekhti, Hafsia Herzi, Biyouna, Sabrina Ouazani, Saleh Bakri, Hiam Abbass, Mohamed Majd
França, Itália, Bélgica, 2011 (135 min)
Adoro – e já disse isso aqui – essa rica leva de filmes sobre a cultura árabe, sejam eles de um viés mais duro, como é o caso dos excelentes O Profeta e Incêndios, seja de uma perspectiva mais política como Lemon Tree, Free Zone, Miral, mais humana como A Noiva Síria e Homens e Deuses ou mais colorida e feminina como Caramelo. São filmes cheios de conteúdo importante sobre a cultura, costumes, política e relações humanas do mundo islâmico. A Fonte das Mulheres passa por tudo isso, mas tem um viés colorido e bem humorado, que se utiliza do mundo feminino para contar uma história que mais parece uma fábula das “não-mil e uma noites”.
Estamos em uma pequena aldeia no norte da África muçulmana, onde a seca, o desemprego a falta de perspectiva assolam a população. Já não há mais guerra que ocupe os homens – que passam o dia bebendo chá e jogando conversa fora no bar. Já as mulheres têm que manter a tradição milenar de tecer, cuidar da casa e das crianças, procriar e buscar água na fonte que fica morro acima. O esforço é tão grande que muitas delas, grávidas, acabam perdendo seus bebês durante o caminho. Lideradas pela jovem Leila (Leïla Bekhti, também em O Profeta, Eu, Você, os Outros), resolvem contestar esse poder de decisão dos maridos, essa distorção do Alcorão de que a mulher precisa obedecer, fazendo greve de sexo. As mais velhas não concordam e causam polêmica, como sua sogra Fatima (Hiam Abbass, também em Lemon Tree, Free Zone, O Visitante, A Noiva Síria, Conversas com meu Jardineiro), no entanto as mais jovens aderem à causa como Loubna (Hafsia Herzi, também em O Segredo do Grão) e Rachida (Homens e Deuses). Greve mesmo, até que os homens fiquem responsáveis pela água do poço.
A Fonte das Mulheres, todo falado em árabe, é um filme que trata das diferenças entre homens e mulheres no mundo muçulmano, das obrigações femininas e os maltratos que sofrem, sem ser propriamente violento. Pelo contrário, tem bom humor. O diretor romeno Radu Mihaileanu, também de O Concerto, consegue novamente dar leveza ao assunto, com graça, cor e música – quase também num tom de fábula. A bela Leila comanda a voz jovem, que casa por amor, defende o que pensa, não teme ser reprimida e se contrapõe à força da tradição familiar levada a ferro e fogo no campo da desonra, do repúdio, da obediência. Defende sua condição de mulher e mãe, de ser humano que sabe e quer fazer suas próprias escolhas, sem precisar que o marido, irmão ou pai decidam por ela.
Vale a pena assistir, mesmo que para isso seja preciso se encaixar nos pouquíssimos horários disponíveis no cinema.
ROTEIRO: Amos Gitai, Marie-Jose Sanselme
ELENCO: Liron Levo, Tomer Russo, Uri Klauzner, Yoram Hattab, Guy Amir, Juliano Mer-Khamis, Ran Kauchinsky
Israel, 2000 (117 min)
Filme de guerra, sobre qualquer guerra. Não entra no mérito de quem é a culpa, quem são as pessoas envolvidas, quem vence o conflito. Retrata simplesmente a matança desenfreada, a devastação e a tentativa de um grupo de soldados de salvar aqueles que ainda são encontrados com vida no front de batalha. Durante as cenas de resgate, parece até documental. O diretor israelense Amos Gitai (também de Aproximação, Free Zone) participou da guerra em questão e conta o que viu e sentiu.
A guerra do filme é a do Yom Kippur, em 1973, em que as tropas da Síria e do Egito atacaram Israel de surpresa, bem no dia sagrado do Yom Kippur, Dia do Perdão. Bombardearam o Sinai e as Colinas de Golã, na tentativa de reaver os territórios perdidos na guerra de 1967. O que começa com um dia calmo, com ruas desertas, termina com bombardeios, mortos em trincheiras, granadas, campos devastados pelas marcas dos tanques de guerra, lama, sangue e morte. Não se vê combate, nem a cara do inimigo. A história que Amos Gitai conta é sobre dois soldados israelenses, que não encontram seu batalhão, acabam se juntando à equipe de um médico, que tem a insana e humanitária missão de percorrer os campos de batalha a procura de sobreviventes para tentar salvar essas vidas e não morrer.
O Dia do Perdão não é um filme de guerra normal, como tantos outros. Tive a impressão que os resgates são filmados para dar a impressão genuína da dificuldade, da aflição, do perigo. Tive a impressão de serem em tempo real, com planos demorados, repetitivos, numa sequência que se repete quantas vezes for preciso, até quando os soldados tiverem energia, até quando estiverem vivos. Independente do local, do nome, da época dessa guerra em si, este filme serve para todos os conflitos. E passe realmente uma sensação de completa desesperança.
Irã, 2009 (73 min)
Prender cineasta no Irã se tornou lugar comum. O argumento não é diferente daquele usado por outras ditaduras ferrenhas ao redor do mundo: é proibido expressar-se. Fazer cinema tornou-se ato que coloca em xeque o poder do presidente Mahmoud Ahmadinejad, de modo que tirar o produtor, diretor ou qualquer outro que questione e conteste o status quo passou a ser a medida mais eficaz. Mas, apesar de tudo isso, continua-se fazendo cinema no Irã. Felizmente para nós. É através dele que temos informações interessantíssimas sobre a maneira de pensar e agir dessa sociedade.
Se contarmos com a família Makhmalbaf para entender o que se passa no Irã, estamos feitos. Filha do renomado diretor Mohsen Makhmalbaf (também em A Caminho de Kandahar) e irmã da também cineasta Samira Makhmalbaf, Hana Makhmalbaf fez seu primeiro curta aos 8 anos, com 14 estreou em Veneza e aos 19 ganhava prêmio no Festival de Berlim. Produziu Green Days num misto de documentário e ficção rico em detalhes, informações e sobretudo sensações. Através de Ava, uma garota deprimida e totalmente desiludida com a realidade política e social iraniana, Hana conta como foi viver aquele momento político de 2009, quando o candidato da oposição Houssein Mousavi venceu incontestavelmente nas urnas, mas foi derrotado por Mahmoud Ahmadinejad, que manipulou o resultado. Ava percorre as ruas entrevistando as pessoas no momento das eleições, ao mesmo tempo em que intercala suas andanças com sessões de terapia, produção de uma peça de teatro que acaba sendo censurada e o trabalho braçal recomendado pelo psicólogo para apaziguar suas aflições.
É muito interessante, a construção de Green Days, principalmente na mescla que a diretora faz de ficção e realidade. As imagens dos protestos são impressionantes, assim como as da repressão policial. Claro que Hana e sua família vivem fora do Irã – condição essencial para manifestar-se, fazer o mundo conhecer a realidade do país e pressionar a opinião pública e instituições internacionais para que posicionem contra o regime de Ahmadinejad e a favor da libertação de quem quer dizer o que pensa. Básico.
ROTEIRO: Rula Jebreal
ELENCO: Hiam Abbass, Freida Pinto, Yasmine Al Masri, Ruba Jebreal, Alexander Siddig, Omar Metwally, Stella Shanabel, Willem Defoe, Juliano Mer Khamis, Vanessa Redgrave
Israel, França, 2011 (112 min)
Anote na agenda: de 29/09 a 09/10 tem Mostra Cinema: Oriente Médio – Tradição e Revolução. Veja a programação completa no link da mostra (acima).
Miral, 07/10 e 09/10, às 19h, no Cinesesc
Logo de cara Miral tem o chamariz da atriz indiana Freida Pinto (também em Quem Quer Ser um Milionário, Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos, Planeta dos Macacos – A Origem), mas é bom saber que conta também com a grande atriz palestina Hiam Abbass (também em Lemon Tree, O Visitante, A Noiva Síria, Munique, Conversas com meu Jardineiro), que é um emblema do cinema do Oriente Médio. É preciso dizer que, embora o filme retrate o conflito entre palestinos e israelenses, mais especificamente em Jerusalém, podendo ser estendido para todo do território em disputa, Miral me pareceu também um filme sobre histórias de vida, centrado em duas mulheres, cujas vidas seguem entrelaçadas ao conflito na região.
Claro que usados como pano de fundo, a criação do Estado de Israel em 1947, o cerco aos palestinos, a Intifada, os conflitos e intolerâncias de ambas as partes constroem a narrativa de uma maneira mais do que ilustrativa. São elementos fundamentais para entender o drama de Hind Husseini (Hiam Abbass), uma palestina que acolhe diversas crianças árabes deixadas órfãs durante a guerra entre palestinos e israelenses após a declaração de independência de Israel. Em poucos meses, são 2000 crianças e Hind Husseini cria o Instituto Dar Al-Tifel, que vai se responsabilizar pela educação dessas crianças num território em que ser palestino significava ser contra o poder vigente.
Nesse cenário surge Miral (Freida Pinto), que aos 7 anos é deixada pelo pai no instituto, onde é educada e instruída em segurança, dentro dos portões daquele que se torna o lar para milhares de meninas sem esperança de um futuro estável em meio à disputa entre israelenses e palestinos. Ela cresce, percebe a necessidade de participação na causa palestina, toma partido, corre riscos e escolhe sem caminho. A relação entre Miral e Hind é o cerne de toda a questão, principalmente nos sábios conselhos dados pela experiente educadora, que vê no exercício da tolerância e das concessões a única saída para um final menos doloroso e a única possibilidade de um dia ter uma convivência pacífica entre os povos.
Se a visão do diretor Julian Schnabel (também de O Escafandro e a Borboleta) é parcial e tendenciosa, se pende para o lado dos palestinos, colocando-os como vítimas após a formação do Estado de Israel e domínio israelense sob o território antes palestino, é outro problema. Não tem como um filme desse teor, que mexe nessa ferida de décadas, sem previsão de cicatrização, não ser contestado, não ser questionado. Nem eu tenho a pretensão de tomar partido, não se trata disso – aliás, toda história tem mais de um ponto de vista. O que valeu aqui para mim foi o fato de Miral mostrar a ação humanitária da pelestina Hind Husseini, que acolhe sem exceção, na esperança de assim construir um futuro melhor para todos. É um filme bonito, sem ser espetacular. Como falei, são histórias de vida, recortes de alguns momentos que constroem essa difícil história do Oriente Médio.
DIREÇÃO
e ROTEIRO: Bruno Dumont
ELENCO: Julie Sokolowski, Yassine Salime, David Dewaele, Karl Sarafidis
França, 2009 (120 min)
Deus não está nas caricaturas religiosas, definitivamente. A madre superior chega a essa sábia conclusão quando a noviça Cèline (Julie Sokolowski) exagera nas privações. Não come, não se protege do frio e insiste nas atitudes que beiram o martírio, como se isso fosse prova de fé. Não é – e essa é a grande questão aqui. O fanatismo religioso não encurta o caminho até Deus, seja a religião que for. A mesma madre superior também diz que não é preciso se afastar do mundo para encontrar o divino e Cèline tem de voltar para a sociedade que tanto traz à tona seus conflitos e dúvidas. É como se a freira a colocasse à prova: se conseguir ver, vivenciar, sentir Deus em tudo que é humano, corriqueiro, trivial, nas pequenas coisas, nas relações, na natureza, tem condições de voltar e exercer a sua vocação.
O tema é superinteressante, atual, pertinente. Mesmo porque, de volta ao mundo e à fria família, Cèline conhece dois irmãos muçulmanos e a procura também se estende ao Islã. A fé da menina não a conforta e se transforma em transtorno. O mais rico do filme são os diálogos entre o professor do islã e a noviça – se sentimos a ausência de Deus, é porque ele existe, diz o rapaz. Mas seu olhar vazio perturba um pouco, a força do silêncio faz refletir e pode cansar aqueles que querem mais ação. Não assisti aos outros filmes do diretor francês Bruno Dumont (A Vida de Jesus e Humanidade), mas sei que ele costuma tratar de questões profundas e existenciais, que mexem com a razão de ser das pessoas. Percebi. Aqui ele acompanha Cèline até o fundo do poço e deixa algumas cenas até desconexas e misteriosas.
Repare no final. Tenho meu palpite, mas confesso que fiquei na dúvida e não sei como o funcionário do convento se encaixa na trama toda. Aliás, não sei quem vem primeiro: se é a conversa com o líder muçulmano e depois a decisão de entrar para o convento, ou vice-versa. Confuso como a cabeça e o coração de Cèline, talvez seja essa a intenção do diretor. Ou talvez seja assim que funcione a cabeça de quem vê na religião um ato fundamentalista e radical. O filme tem o ritmo francês, e um olhar, no mínimo, perturbador.
ROTEIRO: Etienne Comar, Xavier Beauvois
ELENCO: Lambert Wilson, Michael Lonsdale, Olivier Rabourdin, Philippe Laudenbach, Jacques Herlin, Loïc Pichon, Xavier Maly
França, 2010 (120 min)
Os monges da Ordem Trapista são beneditinos, vivem em mosteiros, mas levam uma vida integrada à comunidade local. Fazem seus votos de castidade, pobreza e obediência, como as outras ordens cristãs, e seguem o princípio fundamental da Regra de São Bento, o ora et labora, ou seja, têm a vida pautada pela contemplação a Deus, pela oração e pelo trabalho. Saber de tudo isso ajuda a entender Homens e Deuses de uma maneira mais completa e complexa. A extrema beleza do filme está nesse exercício de fé que os monges franceses fazem ao se depararem com uma questão de vida ou morte: permanecer desarmados e desprotegidos no mosteiro em Tibhirine, nas montanhas da Argélia, e cumprir sua missão, ou render-se à pressão dos muçulmanos extremistas, que queriam tomar o poder através da violência.
Ouvir os cânticos que contam essa história real é maravilhoso. E digo isso pela beleza que tem, não só a harmonia musical em si, mas também o que se canta, o que se pede, o que se reza durante as orações. Digo isso pela universalidade da oração, pelo sentido ecumênico do ato de rezar. Quando os monges oram, trabalham em prol da comunidade local muçulmana, plantam, colhem, preparam seu próprio alimento e comercializam aquilo que produzem, mostram a essência do trabalho missionário – apesar dos pesares. E os pesares aqui não são poucos. Naquele ano de 1996, os oito monges que vivem na Argélia, veem sua paz e seu trabalho ameaçado pelos violentos insurgentes muçulmanos em plena guerra civil, que aterrorizam não só os cristãos, mas a comunidade muçulmana como um todo e outros grupos estrangeiros instalados no país.
Vencedor do Grande Prêmio do Júri em Cannes em 2010, o título Homens e Deuses é apropriadíssimo. Deixa bem claro o que é obra do homem, o que é obra de Deus – tenha Deus, aqui, o nome que você quiser dar. Deus aqui é paz, convivência, harmonia, troca, serviço. Homem é ambição, ganância, vingança, violência. Toda essa linguagem é magistralmente orquestrada pela luz que entra na capela, pela escuridão que permeia o mosteiro nos momentos de dúvida e dor; pelos monges rezando juntos na capela, representando a união religiosa, ou sentados à mesa mostrando suas individualidades e angústias agora enquanto seres humanos. O desfecho dessa história é, até hoje, controverso e misterioso. Mas a emoção de Homens e Deuses é bem clara. E universal.
ROTEIRO: Valérie Beaugrand-Champagne| Wajdi Mouawad (obra teatral)
ELENCO: Lubna Azabal, Mélissa Désormeaux-Poulin, Maxim Gaudette, Rémy Girard, Abdelghafour Elaaziz, Allen Altman
Canadá, 2010 (130 min)
Indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, Incêndios vai além do título. Além de cristãos ateando fogo em um ônibus cheio de muçulmanos, de escolas queimadas e crianças sem teto, os incêndios de que o diretor canadense Denis Villeneuve trata são internos, da alma em chamas, do sofrimento em carne viva, da necessidade de apagar o fogo para poder viver. Intenso, forte, emocionante e, sobretudo, muito bonito. É através de Nawal Marwan (personagem da atriz belga Lubna Azabal, de descendência hispano-marroquina) que a grandeza do filme chegou para mim. Sua condição de mãe supera qualquer dor, mágoa ou raiva que a vida lhe ensinou a sentir.
Não vou entrar em detalhes, porque este filme não merece ser desvendado desta forma. Mas posso dar o panorama geral, sem tirar o fator surpresa e as revelações da história. Nawal Marwan morre e deixa seu último pedido escrito em testamento: quer que seus filhos gêmeos localizem o pai e o irmão, em algum lugar do Oriente Médio, para entregar-lhes uma carta. Jeanne (a ótima Mélissa Désormeaux-Poulin) e Simon não sabem se esses parentes estão vivos, nem nunca os conheceram. Ao partir em busca dos familiares, descobrem o passado da mãe e a nova realidade de suas próprias vidas. Em nenhum momento é dito que país é aquele - árido, muçulmano, severo, conflitante – talvez porque possa representar vários povos e regiões. Mas cristãos contra muçulmanos e vice-versa, massacres revidados com intolerância e terror me remeteram ao Líbano, no período da guerra civil entre 1975 e 1990 – e à incrível animação Valsa com Bashir, que retrata, na linguagem dos mangás, o genocídio dos refugiados palestinos no Líbano pelas mãos dos falangistas cristãos.
As retomadas dos conflitos históricos são sempre uma maneira de nos fazer lembrar aquilo que a humanidade não pode repetir. Incêndios trata também, de uma maneira subliminar, mas não menos importante, da questão dos imigrantes em países como o Canadá, formado em grande parte por esses grandes movimentos migratórios de povos originários de países em conflitos. Mas eu diria que é um filme humano, o que faz com que tenha um bonito equilíbrio nos quisitos razão-emoção, fatos-sentimentos e consiga emocionar e informar, entreter e formar opinião.
Concorre ao Oscar com o mexicano Biutiful, o argelino Fora da Lei, o dinamarquês Em um Mundo Melhor e o grego Dente Canino (ainda inédito no Brasil). Estreia dia 25 de fevereiro.
ROTEIRO: Tony Kushner, Eric Roth
ELENCO: Eric Bana, Daniel Craig, Geoffrey Rush, Ciarán Hindus, Mathieu Kassovitz, Mathieu Amalric, Ayelet Zurer
Steven Spielberg de novo. Quem, se não ele, poderia fazer este cinema com base em um episódio tão dramático da história do povo judeu? Assim como fez em A Lista de Schindler, o diretor dá a Munique uma dramaticidade incrível, sem perder a veracidade dos fatos e o seu fator documental importantíssimo. O filme é realmente imperdível e ótima dica inclusive para quem assistiu já há algum tempo. É bom rever. Os diálogos inteligentes, a direção e produção brilhantes dão ao filme um tom não de guerra física (embora seja um atentado atrás do outro), mas de guerra emocional, ideológica, profunda e infindável – se a intenção for vencer a qualquer custo. É um exercício de reflexão e um importante registro histórico de mais um episódio intolerante da guerra entre judeus e palestinos.
Na prática, o filme relata o ataque terrorista do grupo palestino Setembro Negro aos atletas da delegação israelense das Olimpíadas de Munique de 1972, transmitido ao vivo para o mundo todo, e a subsequente caça aos mandantes do crime em toda a Europa por agentes secretos do Mossad. Nas entrelinhas, discute a questão da violência que gera violência, do “olho por olho, dente por dente”, da importância da terra, do lar, das raízes para a formação e manutenção dos povos, da identidade nacional para a perpetuação da cultura; discute a questão da pátria enquanto família, mas o valor da família mesmo fora da pátria.
Tão marcante quanto a história do massacre e da perseguição aos criminosos árabes é o nível de devastação que se cria a partir da ordem da então primeira-ministra de Israel, Golda Mier, de matar os cabeças do Massacres de Munique, onde quer que estivessem. Agentes treinados para perder dua identidade e vingar o povo judeu, saem à procura deles e geram outro rastro de destruição. Nas Olimpíadas em que atletas judeus pisavam em solo alemão pela primeira vez depois de todo o horror do Holocausto, o que era para ser uma reafirmação de paz reforçou a ideia de que os problemas só mudam de palco e de atores. Pelo menos ainda não há sinais de quando tudo isso vai acabar.
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