DIREÇÃO: Chris Miller
ROTEIRO: Charles Perrault, Brian Lynch
ELENCO: Antonio Banderas, Salma Havek, Zach Galifianakis (vozes originais)
Estados Unidos, 2011 (90 min)

Nos cinemas: 9 de dezembro
O Gato de Botas conta a que veio e não é mais um mero coadjuvante do ogro Shrek. Vive como um fora da lei, foragido da justiça feita pelas próprias mãos, mas parece que não foi por opção. Da sua amizade com Ovo, praticamente um “irmão adotivo”, sobrou vingança e ressentimento. Mas ambos ainda alimentam o sonho de enriquecer plantando os feijões mágicos guardados pelo gigante que mora no famoso pé de feijão, que todos nós conhecemos. Por isso, embarcam em mais uma aventura – que ganha charme com a presença da gata Kitty Pata Mansa. As cenas de ação construídas pela turma da DreamWorks (também Kung Fu Panda 2 e Shrek) remetem ao Zorro, com dança, ritmo e sotaque espanhol, perseguição nos telhados do pequeno vilarejo e são realmente muito bem feitas.
Aliás, as animações dos grandes estúdios estão se superando a cada novo filme. É bem verdade que a tecnologia está disponível para todos, mas não o roteiro. Com um texto inteligente e divertido, vai agradar também aos adultos que acompanham as crianças no cinema. Mistura bastante coisa no mesmo balaio, é verdade – tem pata gigante, ovos de ouro, ovo falante, gato de botas, gata guerreira, feijões mágicos – mas isso não chega a atrapalhar. Gato de Botas diverte, faz rir e visualmente é impecável. Além do mais, gosto das caras e bocas desse gato galante e charmoso que veste botas e fala ‘portunhol’ – no original, quem faz sua voz é Antonio Bandeiras. Apropriado, não? Por isso escolhi o trailer em inglês, legendado – a maioria das cópias por aqui infelizmente é dublada. Se der, escolha uma sessão em 3D, que o programa em família fica ainda mais gostoso.
DIREÇÃO: Marjane Satrapi, Vincent Paronnaud
ROTEIRO: Marjane Satrapi (quadrinhos), Vincent Paronnaud
ELENCO: Chiara Mastroianni, Catherine Deneuve, Gena Rowlands (vozes em francês)

França, 2007 (96 min)
A escritora e cineasta iraniana Marjane Satrapi tem uma história de vida interessante, trágica e emocionante para contar. Resolve fazer isso aos 35 anos, em forma de história em quadrinhos, que faz sucesso em todo o mundo e termina servindo de inspiração e roteiro para este filme. Assim como em Valsa com Bashir (que fala do envolvimento de um soldado israelense no massacre de palestinos no Líbano em 1982) a animação fala de um importante fato histórico do Oriente Médio, dá forma ao pensamento e às vivências das pessoas envolvidas e traz à tona explicações do mundo como ele é hoje.
Entender o Irã de hoje não é tarefa fácil. A República Islâmica do ditador Mahmoud Ahmadinejad é pura censura, autoritarismo, repressão e violência, como mostrado em produções como Isto Não é um Filme e Green Days. Mas é muito interessante conhecer como tudo isso começou, principalmente pelo olhar curioso e ingênuo de uma menina de 10 anos (como em A Culpa é do Fidel ou O Ano em que meus pais saíram de férias), que tinha uma vida confortável e tranquila com a família, até tomar conhecimento vagamente de que pessoas desapareciam, eram presas e torturadas sob o regime do xá Reza Pahlevi, que o povo andava insatisfeito, que algo ia muito mal.
Eram os anos 1970, quando os comunistas contestavam em todo o mundo os regimes de direita. No Irã não foi diferente. O povo derrubou o xá Reza Pahlevi, mas o aiatolá Khomeini, líder religioso xiita, tomou o poder e acabou instalando um sistema ainda mais repressor, impondo as leis islâmicas destorcidas e prejudiciais para todo o povo. E também para a pequena Marjane, que sente a mudança dos tempos na imposição do uso do véu para as meninas, na manipulação do modo de pensar e agir das pessoas em todos os campos que ousavam contestar o status quo, na constante tensão da vida a partir daquele momento. Marjane, então, conta a sua trajetória no exterior, sua dificuldade de se integrar com a cultura ocidental, a realidade da Europa naqueles tempos, a relação com a família (em especial com a avó) e os reflexos da mudança de rumos do país na sociedade iraniana como um todo. Interessantíssimo, ainda mais quando pensamos na rica produção de cinema iraniana de hoje e em todas as denúncias de cineastas presos, banidos da profissão, profissionais exilados, proibidos de se expressar.
O título Persépolis faz referência à antiga capital da Persia. Retoma, assim, as tradições do país através do olhar cuidadoso, incrédulo, contestador e sensível de uma criança, depois adolescente e adulta. Crescer significou para Marjane aguçar sua consciência política e social e escrever o livro e produzir este filme foi não só uma maneira de pensar a sua biografia, mas principalmente registrar uma época, documentar uma era, uma vida, uma realidade totalmente em voga nos dias de hoje na mídia e nas relações internacionais como um todo. Além, é claro, que ser uma animação cuidadosamente trabalhada nos seus detalhes em branco e preto do passado, do colorido do presente. Não foi à toa que Persépolis venceu o prêmio do júri em Cannes em 2007. Para entender o nosso mundo, o Irã, o mundo islâmico extremista e a mente de uma menina de 10 anos. Genial!
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Quem se interessar por esse tipo de registro, vale a pena dar um espiada no livro. Sei de um colégio que adota essa literatura com alunos de 12 anos. Superinteressante – linguagem familiar dos quadrinhos contada por alguém da mesma idade deles, para tratar de um assunto sério, atual e que provavelmente ainda terá muitas implicações nesse mundo globalizado. Além, é claro, de aumentar o repertório dos adolescentes com outras formas de expressão… Nada mal.
Persépolis (Marjane Satrapi, Ed. Companhia das Letras, 352 páginas)
ROTEIRO: George Miller, Paul Livingston, Warren Coleman
Estados Unidos, 2011 (100 min)
Politicamente correto, os pinguins e todas as outras espécies que vivem na Antártida têm que se unir contra o inimigo comum: o aquecimento global. O homem, vilão do primeiro Happy Feet, agora até que tenta colaborar, mas parece que o estrago já está feito e que a natureza está louca pela desforra. Claro que nem tudo é lição de moral, do tipo “fizeram-agora-engulam”. Mas nas entrelinhas, deixa bem claro que é preciso a colaboração de todos se quisermos lutar contra um mal poderoso e implacável – e isso serve também para os animais, liderados pelos pinguins imperadores.
Mano, o pinguin que no primeiro filme sentia-se deslocado porque não sabia cantar com os outros da sua espécie, sabia sapatear como ninguém. Casa-se com sua paixão, a charmosa Glória, que canta maravilhosamente bem, e com ela tem um filho, Erik. Ele é a grande estrela deste filme, mas não sabe sapatear, tem vergonha, sente-se carta fora do baralho por isso e vai literalmente procurar outra turma. Com outra espécie de pinguins, elefantes-marinhos e os minúsculos krills, os imperadores precisam enfrentar os deslocamentos dos gigantescos icebergs, o derretimento da neve e a mudança que isso causa na cadeia alimentar e na sobrevivência das espécies.
Apesar dessas situações ecologicamente corretas, que podem despertar nas crianças a tão desejada necessidade de preservação do meio ambiente e render conversas interessantes, acho que Happy Feet 2 é mais bonito e graficamente impecável (é 3D!) do que moralista; mais agradável e divertido do que político. Adoro animação – já disse isso aqui – e se você for acompanhado de crianças que ainda se encantam com a graça do pequeno Erik e dos filhotes de elefante-marinho, tanto melhor. Um delicioso programa em família!
PROGRAME-SE: Em cartaz dia 25 de novembro!
DIREÇÃO: Raja Gosnell
ELENCO: Neil Pratrick Harris, Jayma Mays, Sofía Vergara
Primeiro eram personagens dos quadrinhos, criados pelo desenhista belga Peyo (Pierre Culliford), em 1958. Na década de 1980, virou desenho animado transmitido pela Rede Globo no Brasil, além de ter sido comercializado como boneco de pelúcia, adesivo, etc – quem era criança nessa época sabe bem o que eu estou falando. Agora virou filme e é campeão de bilheterias no Brasil nessas 3 semanas em que está em cartaz. E realmente é bem feito. Além de ser em 3D, faz a mescla de personagens de animação e atores reais, assim como Hop, Rebeldes sem Páscoa e Alvin e os Esquilos. Mas mais interessante. Acho que as crianças maiores vão achar ‘infantil demais’. Mas não é para elas que o filme é feito. As pequenas adoram, se divertem e vira um ótimo programa em família – se você não se irrita com as criaturinhas azuis brincando com a palavra ‘smurf’ em praticamente todas as falas!
O enredo constrói literalmente um túnel entre a vila encantada dos Smurfs e Nova York, já que, atormentados pelo bruxo Gargamel, os smurfs têm que sair às pressas da sua vila encantada na floresta e buscar refúgio em outro lugar – que acaba sendo o Central Park. Por obra do destino, vão parar no apartamento de um jovem casal que está para ter o primeiro filho e, que portanto está se adaptando à ideia de doar tempo, trabalhar menos, olhar para o outro, etc. A história se desenrola por aí e os pequenos smurfs se mostram espirituosos e tiram boas risadas do público – mas dizer que há um smurf bipolar não é piada para criança.
Começa hoje em São Paulo, depois de passar pelo Rio de Janeiro, o Anima Mundi. Serão 421 produções entre longas e curtas, de 44 países. Como sempre, os catálogos dos festivais causam um certo pânico nos cinéfilos. Como escolher – considerando o deslocamento, tempo, gosto - diante de tanta oferta. Primeira dica: é importante saber que os blocos chamados de Curtas, Infantil, Futuro Animador e Panorama têm conteúdo heterogêneo, ou seja, são formados por um conjunto de curtas metragens e são sessões de aproximadamente 1 hora. É uma opção interessante para quem quer conhecer linguagens diversas, olhares variados com a ferramenta da animação. Hoje assisti ao bloco Panorama 7, com produções do Brasil, Alemanha, Argentina, França e Suécia. Vale dizer também que, na mairia das vezes, é uma loteria e vale pela surpresa que você tem na telona.
Estou de olho em dois longas bastante comentados. O primeiro é o espanhol Chico & Rita, ambientado em Havana, do diretor Fernando Trueba; o outro é o francês La Planète Sauvage, de René Laloux. Também acho que vale a pena conferir os curtas da Pixar, que faz 25 anos. Entre eles está o ótimo Day & Night – pena que para essa retrospectiva só há um horário disponível.
Confiram a programação completa no site do Anima Mundi. Os filmes estão distribuídos nas salas do Espaço Unibanco Augusta, Memorial, Livraria Cultura e Auditório CCBB e o festival vai até domingo, dia 31.
DIREÇÃO: Mark Waters
ROTEIRO: Sean Anders, John Morris
ELENCO: Jim Carrey, Carla Gugino, Angela Lansbury, Ophelia Lovibond, Madeline Carroll, Maxwell Perry Cotton
Estados Unidos, 2011 (94 min)
Aproveitar o fim das férias e dar um pulo no cinema para assistir a Os Pinguins do Papai foi melhor do que eu imaginava. Não tem nada de mais e claro que está coberto de clichês e lugares comuns – a começar pelo protagonista: Jim Carrey é o Sr. Popper, corretor de imóveis impecável, minimalista, moderno e competente. De tão insensível, tem uma vida sentimental nula, uma ex-mulher e dois filhos que não querem nem passar o fim de semana com o pai. A chegada dos pinguins na sua vida muda tudo. No começo, há a resistência; depois, a afeição e tudo se transforma também em carinho e aproximação com a família.
Basicamente é isso, mas acho que é isso que o filme pretende ser. Encanta as crianças com os pinguins, suas molecagens e demonstrações de ‘carinho’, e Jim Carrey faz rir com suas caras, bocas e atitudes um tanto quanto atrapalhadas e exageradas – como transformar sua casa em um parquinho para pinguins, em pleno inverno em Nova York. Os Pinguins do Papai prentende contar a história de uma reunião familiar e de mudança de comportamento. Mas mesmo que fique só na diversão, a turma em férias já vai gostar. Afinal, além de pinguins robôs, alguns animais eram de verdade.
ROTEIRO: Jonathan Aibel, Glenn Berger
ELENCO: Jack Black, Angelina Jolie, Jackie Chan, Dustin Hoffman (na versão original)
Quem assistiu ao primeiro filme da série, não precisa de muitas explicações. O tom que o panda Po dá ao filme é o mesmo: é um sujeito atrapalhado, desengonçado e, acima de tudo, engraçado. Aqui não é diferente e acho que é ainda mais legal. Desta vez ele tem que lidar com uma questão de família complicada: descobre (e isso também é muito divertido) que seu pai, o ganso, não é seu pai verdadeiro. Foi adotado e entra numa crise estilo de-onde-vim e quem-sou-eu-de-verdade.
Para descobrir, tem que enfrentar o novo vilão, um pavão poderoso e, como sempre, muito mal. Seus cinco amigos o ajudam na luta, e seu mestre, na busca da paz interior. Sabiamente, deixa a mensagem de que o que define quem você é, é quem você decide ser. Portanto, além de divertido, muito bem feito, Kung Fu Panda 2 rende uma boa conversa depois. Para ver em família, claro.
Estreia hoje nos cinemas.
ROTEIRO: Sylvain Chomet, Jacques Tati
França, Inglaterra, 2010 (90 min)
Nosso olhar está não só acostumado com a narrativa e o traço da animação americana, mas também acomodado. As crianças, então, nem se fale. Muitas delas nunca viram uma animação diferente daquela produzida nos grandiosos estúdios e a primeira reação ao se deparar com um filme como O Mágico é de estranheza. Não só pelo traçado em si, mas principalmente pela temática melancólica e entristecida e pela escassez de diálogos. Sem dúvida um rico exercício de apreciação de linguagens e formas de expressão diferentes. Assim como em Mary e Max – Uma Amizade Diferente.
Mas a temática é adulta e isso o torna um pouco mais difícil – mas, insisto, é interessante para ver em família quando acompanhado e se torna fonte de muitas reflexões. Além disso, qual o problema com a estranheza? É muito bom sair da zona de conforto. Afinal, é essa a sensação que o próprio mágico protagonista da história nos passa. Na França do final dos anos 50, a plateia dos teatros já não vê graça nas apresentações do velho mágico, que continua tirando coelhos da cartola. A grande atração são os grupos de rock e é preciso buscar, em outras freguesias, de onde tirar o sustento. O mágico Tatischeff parte então para Londres e Edimburgo, até chegar em um pequeno vilarejo na Escócia, onde a menina Alice se encanta com suas peripécias no palco e na vida e começa aí uma grande amizade e uma relação de mútua admiração.
Apesar de momentos bonitos e alegres entre o velho e antigo (representado pelo mágico) e o novo e moderno (na pele da jovem Alice), o diretor Sylvain Chomet (também em As Bicicletas de Belleville) faz com que o preponderante seja a dificuldade de integração de ambos, a falta de sintonia e de possibilidade de convivência de duas realidades – o que é natural em qualquer tempo, o jovem renova o antigo e a vida segue em frente. O senhor Tatischeff continua praticando seu ofício por ideal, por ser artista nato (embora o palhaço já não tenha a mesma força) e não perde a esperança, nem a sua original magia. Mas existe uma áurea de tristeza dos encantos antigos e genuínos que vão se perdendo com o tempo, por pura falta de espaço, renovação, reinvenção e plateia. É possível ver em O Mágico uma nostalgia do tipo tempos-que-não-voltam-mais. Mas faço uma leitura mais otimista da existência do artista nato, de completude, de sobreposição de linguagens e de um traçado absolutamente belo e irretocável, à francesa.
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