ROTEIRO: Nicolas Vanier, Ariane Fert
ELENCO: Nicolas Brioudes, Pom Klementieff, Min Man Ma
França, 2009 (102 min)
“Os lobos não são amigos. Para isso existem os cachorros.”
A paisagem é espetacular. O ritmo, lento, contemplativo, monótono inclusive. Assim como deve ser o inverno numa região montanhosa da Sibéria. Mas não acho que isso seja empecilho, mas é preciso ir preparado. Falado em francês, Loup – Uma Amizade Para Sempre é um filme sobre a amizade entre um rapaz e os lobos siberianos, e não propriamente um filme de ação. É para ser apreciado, inclusive na narrativa singela e na cultura do povo nômade, que é, no mínimo, muito interessante.
Sergeï faz parte de uma família de nômades, que mora nas montanhas da Sibéria e tem como única fonte de sustento o rebanho de renas. A tradição familiar a é escolher, a cada verão, uma pessoa responsável pelo rebanho e por protegê-los dos lobos que vivem no mesmo habitat. Sergeï acata a missão, mas se depara com uma alcatéia cheia de lobinhos. Ao vê-los crescer, apega-se a eles e embora sejam ameaça constante ao patrimônio do clã, seu instinto é protegê-los e não matá-los como espera sua família. O conflito faz com que os personagens percorram diversas partes da montanha, no verão e no inverno, o que nos presenteia com a linda paisagem, inclusive a aurora boreal.
Loup tem o aspecto familiar, de apego e respeito aos animais que é sempre muito sensível. Assim como Winter – O Golfinho, Marley e Eu, Sempre ao Seu Lado. Mas Loup tem alguns trunfos, que são essa natureza inóspita, esses animais tão incomuns que são as renas, e o modo de vida desse povo tão diferente. Mas o diretor francês ressalta também aquilo que é igual na maneira de se relacionar, colocando a amizade e a família acima de tudo.
DIREÇÃO e ROTEIRO: Hirokazu Koreeda
ELENCO: Koki Maeda, Ohshirô Maeda, Ryôga Hayashi
Japão, 2011 (128 min)
Nos cinemas: 18 de maio
O que Koichi, o garoto do pôster, mais deseja é ver sua família morando junto novamente. Seus pais se separaram e seu irmão mais novo, Ryunosuke, ficou morando com o pai em outra cidade, enquanto ele e a mãe foram para a casa dos avós. Na cabeça de uma criança de 12 anos e de seus amigos, um milagre é algo possível – e principalmente factível. Nem que para isso seja preciso vender brinquedos para conseguir dinheiro, inventar uma mentira na escola e em casa, fazer as malas e pegar um trem para outra cidade sem ter onde dormir,
Além de leve e criativo, O Que Eu Mais Desejo toca nesse ponto importante do imaginário infantil, que faz tudo ser possível. No Japão, dizem que quando dois trens-balas se cruzam, a energia é tão grande que faz os desejos se realizarem. Acreditando nisso, as turmas dos dois irmãos, cada uma na sua cidade, montam o esquema para a aventura. Combinam de se encontrarem num ponto estratégico de uma determinada cidade, onde é possível ver os trens se cruzarem. Sem qualquer complicação ou empecilho, comuns aos adultos, é claro.
Com muita delicadeza, o filme mostra a alma da relação dos irmãos com o mundo, com os pais, com os amigos. Registra, sem interferir. Deposita a sensação de veracidade nas relações e nos sentimentos, de algo genuíno, ingênuo como deve ser nessa idade, verdadeiro nas intenções. Mais do que contar a aventura em si – que é muito bacana também - O Que Eu Mais Desejo é lindo pelo retrato que faz das crianças e da esperança que eles são capazes de nutrir na mais vaga possibilidade de sucesso. Sem falar na incrível atuação dos dois irmãos (são irmãos na realidade), que me envolveram na narrativa com todos os seus desejos e sorrisos.
Dê uma espiada no trailer abaixo – vale a pena!
ROTEIRO: Charlotte Brontë, Moira Buffini
ELENCO: Mia Wasikowska, Michael Fassbender, Jamie Bell, Judi Dench, Sally Hawkins
Estados Unidos, Inglaterra, 2011 (120 min)
Filmes de época não agradam a todos, eu sei. Mas Jane Eyre, baseado no romance de Charlotte Brontë de 1847, conta uma boa história, com uma produção cuidadosa e ótimo elenco. A começar por Mia Wasikowska (também em Albert Nobbs, Inquietos, Minhas Mães e Meu Pai, Alice no País das Maravilhas), que vive a protagonista ao lado de Michael Fassbander (também em Um Método Perigoso, Shame, X-Men – Primeira Classe, Bastardos Inglórios), que tem feitos ótimos papéis ultimamente.
ROTEIRO: Ol Parker, Deborah Moggach
ELENCO: Judi Dench, Bill Nighy, Maggie Smith, Penelope Wilton, Dev Patel, Celia Imrie, Ronald Pickup, Tom Wilkinson
Inglaterra, 2011 (124 min)
Nos cinemas: 11 de maio
Como envelhecer? Dentre todas as questões expostas neste filme, ficou a pergunta. Acho que foi o que se perguntaram os sete senhores e senhoras ingleses na hora de procurar uma alternativa para viver a terceira idade. Optar por mais do mesmo, seria uma alternativa. No entanto, a beleza do filme está justamente na possibilidade de criar alternativas de vida, de olhar os anos futuros com novas perspectivas e não fazer da idade um empecilho. E sim um bônus.
O Exótico Hotel Marigold fica na Índia. É para lá que os sete aposentados ingleses querem ir, a procura de sol e tranquilidade. Cada um carrega sua história de vida. Evelyn (Judi Dench, também em Sete Dias com Marilyn, Nine) perdeu o marido e o dinheiro; Graham decepcionou-se com a carreira do magistrado; Douglas e Jean são casados, não se entendem e dependem do dinheiro da filha para sair do buraco; a rabugenta Muriel operou o quadril, precisa se recuperar logo para se mandar de volta pra a Inglaterra; Normal e Madge querem encontrar um novo amor. Chegam em Jaipur e encontram um hotel bem diferente do esperado, administrado por Sonny (Dev Patel, também em Quem Quer Ser um Milionário). A partir daí as máscaras caem, cada um se revela na sua habilidade e na sua fraqueza e escolhas diferentes são feitas para o futuro.
Inteligente, cheio de graça, além de muita cor e alegria próprios do local, O Exótico Hotel Marigold tem diálogos interessantíssimos e boas fontes de reflexão. Não só para quem está vivendo a terceira idade, mas para todos os que mudam a fase da vida, que fazem escolhas, que ficam paralisados com medo de sair da zona de conforto. Reinventar o estilo de vida é ter coragem e as rédeas da vida na mão. E esse é a grande mensagem do filme, sem que ele seja moralista ou professoral. Pelo contrário, é leve, singelo e delicado. Como deveriam ser os anos do outono da vida de cada um de nós.
DIREÇÃO e ROTEIRO: Gavin Wiesen
ELENCO: Freddie Highmore, Emma Roberts, Michael Angaro , Elizabeth Reaser, Sam Robard.
Estados Unidos, 2011 (83 min)
Com a cara de Nova York, A Arte da Conquista me lembrou o simpático ABC do Amor. Só que agora os personagens são mais velhos e não andam mais de patinete pela cidade. Eles têm 17 anos, estão terminando o ensino médio e estão bem naquela fase de indefinição. Crescer ou não crescer? Que caminho seguir? Como enfrentar os problemas do mundo adulto, que já fazem parte do seu repertório de compreensão, mas não das suas possibilidade de resolução?
Assim está a situação de George (Freddie Highmore, também em As Crônicas de Spiderwick, O Som do Coração, A Fantástica Fábrica de Chocolate) e Sally (Emma Roberts, também em Um Hotel Bom pra Cachorro): ele se apaixona por ela, uma das garotas mais populares da turma, mas vive um momento de insegurança familiar, não se interessa pelos estudos, não faz os trabalhos e está prestes a repetir de ano. Está naquela situação crítica de baixa auto-estima, em que é preciso um desafio maior para escolher que caminho seguir.
Vivendo essa fase de descobertas e decepções, Sally e George experimentam encontros e desencontros pelas ruas de Nova York. Não importa se é previsível ou se não é um filmaço – nem era essa a intenção do diretor Gavin Wiesen neste seu primeiro longa. A ideia era fazer um filme gracioso, em que os personagens tivessem afinidade, conseguissem compor um casal jovem simpático e afetivo. Gosto particularmente de Freddie Highmore e foi uma grata surpresa ver que saiu da fase criança/adolescente para o jovem adulto maduro e bom ator. A Arte da Conquista é um daqueles filmes gostosos de assistir, com um toque de produção independente. Gosto do tom da narrativa, que não precisa apelar para aquelas breguices típicas das comédias românticas e investe na simplicidade. Com bom gosto!
ROTEIRO: Stephen King (livro), Frank Darabont
ELENCO: Tim Robbins, Morgan Freeman, Bob Gunton, William Sadler, Clancy Brown, Gil Bellows, Mark Rolston
Estados Unidos, 1994 (142 min)
Shawshank é o nome da prisão onde o banqueiro Andy (Tim Robbins, também em A Vida Secreta das Palavras) vai parar, acusado de matar sua mulher e o amante dela. Condenado a prisão perpétua, apesar de alegar inocência, passa 20 anos sonhando com a liberdade, embora a experiência já o tenha transformado um bocado. Imagino que seja desse ponto que surge o título em português. Mas, é claro, cai no clichê desnecessário, ainda mais se tem elenco forte, história boa e uma direção e roteiro muito alinhados. Portanto, fica registrado, mais uma vez, minha insatisfação com essas adaptações novelescas dos títulos.
Na prisão, Andy conhece Red (Morgan Freeman, também em Conduzindo Miss Daisy, Invictus, Winter, O Golfinho, Antes de Partir), preso 20 anos antes, acostumado com o esquema todo de contrabando, mandos e desmandos da prisão – inclusive, é parte dele. Daí nasce uma grande amizade. Aproveitando suas habilidades profissionais, Andy beneficia os presos com consultorias financeiras, enriquece o diretor com a evasão de divisas e lavagem de dinheiro e cria uma biblioteca. Todo esse panorama é inserido dentro das regras rígidas e implacáveis de uma prisão de segurança máxima nos anos 40 e 50, acompanhados cronologicamente pelos pôsteres de musas das época, passando por Rita Hayworth e Marilyn Monroe.
Dizer mais é revelar a chave do roteiro antes da hora e suas revelações. Bem amarrado e muito bem elaborado, ele constrói, ao mesmo tempo, relações de amizade e desconfiança, cumplicidade e hipocrisia, sob a narração sábia do personagem Red. E humaniza cada um dos presos, criminosos ou inocentes. Seja na sua fraqueza, na impossibilidade de se adequar a uma realidade diferente da prisão, no exercício de uma habilidade para que a justiça, de uma forma ou de outra, fosse feita. Um Sonho de Liberdade é, sobretudo, um filme sobre a amizade e da confiança – apesar do ambiente corrompido e de todos os outros pesares que vêm junto com ele.
DIREÇÃO E ROTEIRO: Isabel Coixet
ELENCO: Sarah Polley, Tim Robbins, Sverre Anker Ousdal
Espanha, 2005 (115 min)
Sensível e tocante, esse poder das palavras que o filme traz. Muitas produções – e muitas vezes a própria vida – valoriza sabiamente o silêncio como forma de reflexão e escuta, mas A Vida Secreta das Palavras faz o percursos inverso. Do silêncio que aprisiona, isola e entristece a alma, existe a palavra que dá vida. Aprisionada pelo medo e pavor trazidos por uma experiência extremamente traumática, Hanna (Sarah Polley) cala-se diante da vida, do futuro e fecha a sete chaves seu passado. Escuta o que quer, fala o mínimo necessário, para não ouvir sua própria voz, sua própria história.
São as palavras que a trazem de volta à possibilidade de vida. Funcionária exemplar de uma fábrica, não conversa com ninguém, não falta, não dá trabalho, não tira férias. É como se o tempo livre fosse doloroso demais. Obrigada a tirar férias por um mês, candidata-se a ser enfermeira de Josef (Tim Robbins), um funcionário de uma plataforma de petróleo, que sofreu sérias queimaduras. Isolada nela mesma e na imensidão do mar, Hanna encontra ali o refúgio perfeito, mas as palavras não a deixam calar e é só nesse momento que ficamos sabendo o que realmente aconteceu – um trauma vivido perto de nós, no tempo e no espaço, de dimensões absolutamente cruéis e desumanas. (Claro que não vou falar, porque esse é a revelação do filme.)
ROTEIRO: Rec Pickett, Alexander Payne
ELENCO: Paul Giamatti, Thomas Haden Church, Virginia Madsen, Sandra Oh
Estados Unidos, 2004 (125 min)
Numa versão suave e inteligente, mas não menos alcoólica de uma despedida de solteiro, Sideways conta a viagem de dois amigos pela pelo Vale de Santa Inez, na Califórnia. Entre degustações de vinho nas vinícolas da região, confissões, desabafos e muitas risadas, os dois amigos percorrem o vale e aproveitam para revisar suas decisões do presente e atitudes do passado. Interessante e sem apelação (não acho graça naqueles filmes que apelam para o sexo na despedidas de solteiro), Sideways ainda tem de quebra informações interessantes sobre vinhos, uvas e suas particularidades (venceu Oscar de melhor roteiro e Globo de Ouro de melhor filme comédia e roteiro).
Miles (Paul Giamatti, também em A Minha Versão do Amor, A Última Estação, Ganhar ou Ganhar, Tudo Pelo Poder) separou-se da mulher e não consegue implacar seu novo livro nas editoras; Jack (Thomas Haden Church) é um ator decadente e mulherengo, que parece se casar por conveniência, mas ainda tem dúvidas se essa estabilidade vai lhe render uma vida feliz. Simples assim – e é essa a graça de Sideways: não tem pretensão, é humano e fala com o público ao tocar no tema das buscas próprias das fases difíceis da vida e das decisões que temos que tomar. Sem falar na paisagem da Califórnia, que sozinha já constrói um lindo road movie, com tributo à amizade.
Outros road movies no Cine Garimpo: Diários de Motocicleta, Pequena Miss Sunshine, Família Rodante, Além da Estrada
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