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AS VANTAGENS DE SER INVISÍVEL – The Perks of Being Wallflower
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Estados Unidos, Drama - 18/10/2012

DIRETOR e ROTEIRO: Stephen Chbosky

ELENCO: Emma Watson, Logan Lerman, Ezra Miller, Nina Dobrev, Paul Rudd, Mae Whitman, Melanie Lynskey, Johnny Simmons, Zane Holtz, Reece Thompson, Erin Wilhelmi, Joan Cusack

Estados Unidos, 2012 (103 min)

 

Nos cinemas: 19 de outubro

 

Passar despercebido nos lugares tem lá suas vantagens. Tímida por natureza, eu bem sei o que é isso. Quem tem o dom do silêncio pode se sair melhor nas observações, pode se distanciar e notar tanto os detalhes quando o todo. Mas também confesso que tem implicações um tanto quando complicados, sobretudo quando quem passa despercebido é um adolescente, vivendo exatamente aquela fase em que ser notado e inserido é a condição primordial para sentir-se parte integrante do grupo, igual aos outros, querido aos olhos dos mais populares. E ser feliz – pelo menos aparentemente.

É desse momento, ao mesmo tempo mágico e cruel, que trata o filme As Vantagens de Ser Invisível. Na figura do protagonista Charlie (Logan Lerman), esse panorama do adolescente tímido, retraído e depressivo ganha um brilho especial. Calouro hostilizado, é finalmente acolhido pelos irmãos Patrick (Ezra Miller, também em Precisamos Falar sobre Kevin) e Sam (Emma Watson, também em Harry Potter e Sete Dias com Marilyn). É um acolhimento por empatia, de pessoas que já mais experientes, prestes a terminar o ensino médio. A aproximação entre Charlie, Sam e Patrick revela suas experiências e o tipo de adolescentes que se tornaram. Aceitam “o amor que pensam merecer” e precisam reconquistar a força, inerente da juventude, a força de virar a mesa. A história é justamente sobre a amizade do trio, que faz com que ganhem confiança, tratem suas feridas e lutem por seus sonhos. A amizade que faz toda a diferença.

Os diálogos são simbólicos de tudo o que parece finito e difícil de transpor. Da adolescência. Até a música entra nisso. Como estamos nos anos 80 (aliás, a trilha é superinteressante), os personagens ainda precisam buscar as canções na memória afetiva, na lembrança. Não estão ao alcance como hoje, a um clique no Google. Uma metáfora dos sentimentos que devem ser descobertos e vivenciados, para que criem raízes. Assim como as relações. Linda imagem e bela atuação do trio, que tem força e graça, garra e coragem de enfrentar os mistérios e desafios do fantasma da fase adulta, que se aproxima sem pedir licença.

 

A ARTE DA CONQUISTA – The Art of Getting By
CLASSIFICAÇÃO: Para Ver Bem Acompanhado, Estados Unidos, Comédia Romântica - 24/08/2012

DIREÇÃO e ROTEIRO: Gavin Wiesen

ELENCO: Freddie Highmore, Emma Roberts, Michael Angaro , Elizabeth Reaser, Sam Robard.

Estados Unidos, 2011 (83 min)

Nos cinemas: 24 de agosto

Com a cara de Nova York, A Arte da Conquista me lembrou o simpático ABC do Amor. Só que agora os personagens são mais velhos e não andam mais de patinete pela cidade. Eles têm 17 anos, estão terminando o ensino médio e estão bem naquela fase de indefinição. Crescer ou não crescer? Que caminho seguir? Como enfrentar os problemas do mundo adulto, que já fazem parte do seu repertório de compreensão, mas não das suas possibilidade de resolução?

Assim está a situação de George (Freddie Highmore, também em As Crônicas de Spiderwick, O Som do Coração, A Fantástica Fábrica de Chocolate) e Sally (Emma Roberts, também em Um Hotel Bom pra Cachorro): ele se apaixona por ela, uma das garotas mais populares da turma, mas vive um momento de insegurança familiar, não se interessa pelos estudos, não faz os trabalhos e está prestes a repetir de ano. Está naquela situação crítica de baixa auto-estima, em que é preciso um desafio maior para escolher que caminho seguir.

Vivendo essa fase de descobertas e decepções, Sally e George experimentam encontros e desencontros pelas ruas de Nova York. Não importa se é previsível ou se não é um filmaço – nem era essa a intenção do diretor  Gavin Wiesen neste seu primeiro longa. A ideia era fazer um filme gracioso, em que os personagens tivessem afinidade, conseguissem compor um casal jovem simpático e afetivo. Gosto particularmente de Freddie Highmore e foi uma grata surpresa ver que saiu da fase criança/adolescente para o jovem adulto maduro e bom ator. A Arte da Conquista é um daqueles filmes gostosos de assistir, com um toque de produção independente. Gosto do tom da narrativa, que não precisa apelar para aquelas breguices típicas das comédias românticas e investe na simplicidade. Com bom gosto!

 

O FILHO – Le Fils
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, França, Drama, Bélgica - 17/03/2012

DIREÇÃO e ROTEIRO: Jean-Pierre e Luc Dardenne

ELENCO: Olivier Gourmet, Morgan Marinne, Isabella Soupart,

Bélgica, França, 2002 (103 min)

Você precisa realmente gostar do estilo dos diretores belgas, os irmãos Dardenne, para apreciar sua obra. Duas escolhas dificultam muito este processo: o tema e a linguagem. O tema porque invariavelmente eles tratam de questões humanas e sociais profundas e cruéis, como o abandono de crianças pelos pais, o crime adolescente, a falta de perspectiva do jovem, o excluído, o ilegal, a desconstrução familiar, portanto assuntos difíceis, que incomodam, criam um profundo mal estar no espectador; a linguagem, a forma, porque há pouquíssimos diálogos, só o essencial é dito, o ritmo é lento, sendo um exercício de observação e acompanhamento do personagem, bem perto de suas angústias.

Tendo isso em vista, O Filho não difere de suas outras produções também premiadas como O Silêncio de Lorna, A Criança e O Garoto da Bicicleta – muito embora este último tenha um toque de esperança que os outros não possuem. É seco, duro. Chega a ser árduo, é só reparar nos sentimentos, na figura do protagonista Olivier (Olivier Gourmet), que venceu o prêmio de melhor ator em Cannes pelo papel. Como chefe de uma marcenaria que acolhe e ensina o ofício a meninos que saem de um reformatório, ele vive o drama pessoal da perda do filho. Metódico, gentil mas apagado, revive essa dor quando Francis, o garoto que o matou, é um dos meninos que são enviados para sua inserção na sociedade através do aprendizado de uma profissão em sua marcenaria.

Passamos o filme todo seguindo – perseguindo, melhor dizendo – os passos de Olivier; e Olivier, por sua vez, passa o filme todo espionando os passos de Francis. A câmera os segue bem de perto, nos mostra movimentos repetitivos e detalhados da rotina, seus gestos, sua respiração, sua ansiedade. Apresenta a questão desse relacionamento inesperado e improvável e tem um final absolutamente inacabado – se é que isso é possível. Marca dos irmãos diretores, não apresentam desfecho, não concluem nada, pelo contrário. Transferem a responsabilidade do final para o espectador, que fica se perguntando qual a probabilidade de tal e tal situações continuarem. Por essa e outras que disse no começo deste comentário que é preciso gostar do estilo para apreciar a profundidade da proposta e conseguir chegar no final do filme para “comprar” a reflexão proposta. Dos Dardenne, não espere pacote fechado. Eles passam adiante a batata quente sobre o mistério das relações.

 

PRECISAMOS FALAR SOBRE KEVIN – We Need to Talk about Kevin
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Para Pensar, Inglaterra, Drama - 24/01/2012

DIREÇÃO: Lynne Ramsay

ROTEIRO: Lynne Ramsay, Rory Kinnear, Lionel Shriver (livro)

ELENCO: Tilda Swinton, John Reilly, Ezra Miller, Jasper Newell, Ashley Gerasimovich

Inglaterra, 2011 (110 min)

Só uma mulher poderia dirigir um filme como este. Atuar da maneira com que Tilda Swinton faz aqui (aliás, fiquei decepcionada ao saber que não recebeu indicação para o Oscar), com a intensidade da dor que só uma mãe é capaz de sentir, só poderia ser resultado da parceria com uma diretora. Não estou menosprezando a dor do pai, de forma alguma. Mas é que o pai, representado pelo sempre ótimo John Reilly (também em Magnólia, Cyrus), não sente dor alguma. Para ele, não é preciso falar sobre Kevin. Não é ele o alvo do desprezo. O objetivo de Kevin é ferir a mãe, naquilo que ele sabe ser o mais dolorido: o amor materno banalizado, a ternura correspondida com cinismo, a dedicação com maldade, perversão, olhar de indiferença. Não deve ter dor maior. O que fica para Eva (Tilda Swinton, também em Um Sonho de Amor, Queime Depois de Ler) é a pergunta que não quer calar: onde foi que eu errei tanto assim? Por quê?

Eleito o melhor no Festival de Cinema de Londres de 2011, Precisamos Falar Sobre Kevin já começa duro, sofrido. Conhecemos a história a partir da perspectiva de Eva, que transmite uma solidão e uma dor impressionantes no semblante, nos modos de vida. É fortemente hostilizada pelos vizinhos, tem dificuldade em encontrar emprego. Suas lembranças vão nos contando como foi sendo construída a relação com o pequeno Kevin, que desde muito pequeno parecia já saber como provocar a mãe, como deixá-la desconcertada, sem paciência. Desde pequeno passava dos limites – como se isso lhe desse o direito de agir como bem entendesse. Desde pequeno vemos a diferença na relação que tinha com o pai e com a mãe, ambas controladas e manipuladas pelo garoto. Ele cresceu, as ferramentas para exercer esse domínio e dissimular situações ficam mais disponíveis, e Eva sente, o tempo todo, que precisa falar sobre Kevin, que há um problema, que algo não anda bem. Mas não há diálogo.

Falei sobre este filme no artigo sobre Elefante, por causa da semelhança do tema ligado aos massacres de Columbine e Realengo (RJ). E me perguntaram se Precisamos Falar Sobre Kevin é um daqueles filmes que atormentam a gente pelo resto da vida. Mãe é mãe, confesso que damos a vida para fazer o melhor que podemos, mas sempre fica a sensação de um “será que vai dar tudo certo”? É perturbador, sim. Mas é imperdível – pelo tema em si, pela qualidade das atuações, pela reflexão que isso gera. O que Kevin planeja para ferir de vez essa mãe que ele tanto odeia – e odeia mesmo, vemos isso nos seus olhos, na sua falta de interesse pela vida e de objetivos, no prazer de chocá-la, de dar falsas esperanças de que vão se entender um dia, de ser cínico diante do pai – você vai ver (e sentir). Mas o que mais me afligiu foi a construção do antagonismo entre o amor materno incondicional de um lado, e a culpa, o arrependimento, o ódio, a possibilidade de perdão, a incompreensão, a decepção e frustração de outro. Por que coisas assim acontecem? E depois de tudo isso, onde fica essa cláusula do “incondicional” que colocamos antes do amor de mãe?

 

ELEFANTE – Elephant
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Estados Unidos - 23/01/2012

DIREÇÃO e ROTEIRO: Gus Van Sant

ELENCO: Elias McConnell, Alex Frost, Eric Deulen, John Robinson

Estados Unidos, 2003 (81 min)

Esta semana teremos estreia de um filme extremamente perturbador, Precisamos Falar Sobre Kevin – que é assunto para outro artigo. Pesquisando sobre ele, cheguei em Elefante, do diretor Gus Van Sant, também de Milk – A Voz da Igualdade, Inquietos, Gênio Indomável. Este filme foi premiado em Cannes com a Palma de Ouro, além de melhor diretor. Tem realmente uma força impressionante e devastadora.

A inspiração foi nada mais, nada menos do que o Massacre de Columbine em uma escola do Colorado em 1999, que também serviu de inspiração para o documentário Tiros em Columbine, de Michael Moore. Mas Gus Van Sant segue uma linha diferente, mais observadora – o que é mais perturbador, porque deixa suspensa qualquer conclusão, qualquer explicação para a tragédia. Tive a sensação que cabe a cada um de nós buscar a razão que leva dois adolescentes bem formados, de classe média, que portanto têm ótimas condições de vida, com famílias, amigos, escola, a planejar a matança e sair atirando em seus colegas e professores.

Elefante tem uma câmera atuante, que faz o espectador passear junto pela escola e sentir-se parte desse mundo adolescente. Percorre os corredores do ensino médio (os atores são alunos reais da escolas escolhidos pelo diretor), portanto por onde circulam os adolescentes, mostrando a dinâmica da vida particular e escolar de cada um deles. Uma cena em que alunos se encontram, por exemplo, é mostrada duas, três vezes, cada vez sob o ponto de vista de um deles. Mostra adolescentes bulímicas, que vão ao banheiro vomitar após a refeição, adolescentes que desprezam os pais e desejam sair de casa o quanto antes, adolescentes que sofrem bullying por serem diferentes do padrão esperado; mostra o preconceito contra o homossexual, a necessidade de rotular pessoas e fatos, o grupo dos atletas, do estudiosos, os que namoram, os que fofocam. Fui sentindo uma angústia com esse panorama, até porque já fui adolescentes um dia e dá pra imaginar a solidão dessas pessoas, o vazio de uma fase em que há crescimento, mas que nem sempre vem acompanhado da maturidade para enfrentar a vida adulta que se anuncia na próxima esquina.

Comecei falando de Precisamos Falar Sobre Kevin, porque ele também trata desse tema que traz à tona a pergunta que não quer calar: por quê? Se não falta nada, por quê? Então, falta algo – ou falta o essencial? Que tremendo vazio. Que tremenda falta de esperança. Ainda não descobri o porquê do título Elefante, mas minha pesquisas indicam que pode ser por causa de uma parábola budista em que três cegos tocam num elefante. Como não conseguem vê-lo por inteiro, o definem de acordo com a parte que tocaram, de forma fragmentada. Sem ver o todo, suas definições são equivocadas e as conclusão imprecisas. É o perigo do rótulo.  Até o ano passado, o Brasil se orgulhava de não não ser palco de massacres do gênero – afinal, isso era parte da cultura americana. Ledo engano. Realengo nos mostrou o quanto essa questão é universal, o quanto tudo isso é complicado e só não enxerga quem não quer. Não deixem de assistir e preparem-se para falar sobre Kevin, ainda esta semana.

 

 

DEIXA ELA ENTRAR – Let the Right One In
CLASSIFICAÇÃO: Suécia, Para Pensar - 18/11/2011

DIREÇÃO: Tomas Alfredson

ROTEIRO: John Ajvide Lindgvist

ELENCO: Kåre Hedebrant, Lina Leandersson, Per Ragnar, Henrik Dahl, Karin Berqquist, Peter Carlberg

Suécia, 2008 (115 min)

Vou na contramão dos cinemas, que lançam hoje Amanhecer – Parte 1, o primeiro episódio do quarto filme de A Saga Crepúsculo. Não assisti – até queria a opinião de quem acompanha essas produções. E já que o tema do fim de semana são vampiros, peguei carona, mas no outro sentido, fugindo descaradamente da maré dos filmes blockbuster, indo na direção das produções européias que gosto tanto.

Não dá pra dizer que prefiro sem ter assistido às duas opções. Mas o trailer de Amanhecer – Parte 1 não é exatamente um atrativo… Por outro lado, e numa linguagem absolutamente diferenciada, está esta produção sueca Deixa Ela Entrar, exibido na Mostra Internacional de Cinema em 2008 e este ano, no vão livre do MASP.

A protagonista é uma menina de 13 anos, vampira, que não sente frio, voa, está para sempre congelada no corpo de uma adolescente. Seu par, um garoto da mesma idade, que sofre forte bullying no colégio, não tem amigos, vive quieto, com medo, é fascinado por histórias de terror e morte e descobre a adolescência sem ter com quem conversar, nas gélidas paisagens suecas. Entre neve, frio, gelo e dias totalmente cinzas (uma metáfora dessas relações duras, frias, impessoais, individualistas e absolutamente cruéis), os dois se encontram, conversam, selam uma amizade que vai chegar às últimas consequências – para um vampiro e para um ser humano.

A atuação de Oskar (Kåre Hedebrant) e Eli (Lina Leandersson) é incrível e dá muita força para todo o clima de suspense e mortes misteriosas na pequena cidade onde vivem. Eli chega acompanhada de um senhor, que trata de conseguir sangue para alimentá-la da forma mais esquisita e mórbida possível. Técnica-morcego, eu diria. Eli tem uma aura de mistério, uma palidez própria dos vampiros (se é que posso dizer isso), sem que isso pareça artificial. Tem aquele olhar esbugalhado impressionante e muito, mas muito convincente.

O que completa essa caracterização física e cenográfica e é de fato muito bem construída, é o emocional dos personagens, a vivência das descobertas da adolescência com essa cumplicidade tão improvável, mas que funciona na aceitação das diferenças, na adaptação, no respeito e ajuda mútua. Tipo de ajuda que não é qualquer um que daria… precisa ser uma amizade realmente muito especial. Quanto tudo parece terminado e resolvido, o diretor Tomas Alfredson dá um toque magistral. A última cena é de uma leveza e inocência incríveis. Não pensei que pudesse ter um final doce… agridoce, melhor dizendo.

OS 3
CLASSIFICAÇÃO: Para se Divertir, Comédia, Brasil - 11/11/2011

DIREÇÃO: Nando Olival

ROTEIRO: Nando Olival, Thiago Dottori

ELENCO:  Juliana Schalch, Gabriel Godoy, Victor Mendes, Sophia Reis, Rafael Maia, Alceu Nunes, Henrique Taubaté, Cecília Homem de Melo

Brasil, 2011 (min)

Despretensioso e jovial. Palavras que  expressam bem o clima de Os 3. Mesmo porque, ser despretensioso me remete a algo leve, natural, praticamente cotidiano. O oposto de algo que se pretende profundo, debatedor, cheio de meias palavras. O filme pretende divertir e entreter – tem, de fato, um ritmo gostoso e leve. Gosto disso – tem inteligência, sem pretensão.

Os 3, de Nando Olival, que dirigiu com Fernando Meirelles o filme Domésticas, tem esse tom, além de uma bonita fotografia. Remete um pouco ao clima descontraído e jovem de As Melhores Coisas do Mundo, de Laís Bodanzky, ou ainda à leveza e graça de Malu de Bicicleta, de Flávio Tambellini. Talvez seja porque mostram uma forma de pensar e um ambiente próprios dos jovens – no primeiro, o Ensino Médio; no segundo, a praia do Rio de Janeiro dos recém-adultos solteiros. No filme de Olival, é na faculdade que os três personagens se conhecem em uma balada, resolvem dividir o mesmo teto durante os quatro anos de curso e tomam a decisão de não se separar jamais. Apesar das fases diferentes, visualizei uma linha do tempo nas três histórias, de jovens inteligentes, plugados, empreendedores, namoradeiros, cheios de iniciativas, mas que muitas vezes não sabem o que fazer com tantas ideias…

E é justamente por falta de objetivo que Camila (Juliana Schalch), Cazé (Gabriel Godoy) e Rafael (Victor Mendes), os três famosos personagens, têm margem de sobra para as manobras da vida, engrenam em situações curiosas de exposição da intimidade em um reality show e concordam em entrar nesse projeto para ganhar a vida. Interessante o jogo que começa a partir daí, de realidade, representação, desentendimento e acordos – ficamos inclusive sem saber o que faz parte da jogada e o que realmente é verdade. Fato é que o diretor usou um tema em voga para ilustrar a vida desse trio altamente simpático, que tem uma liga ótima, bons diálogos, caras e bocas engraçadas, que segura muito bem o andar da história. E segura, amarra e não desata – já que tudo o que eles queriam era seguir juntos.

 

CAPITÃES DA AREIA
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Brasil, Aventura - 07/10/2011

DIREÇÃO: Cecilia Amado, Guy Gonçalves

ROTEIRO: Cecilia Amado, Hilton Lacerda

ELENCO: Jean Luis Amorim, Ana Graciela, Roberio Lima, Israel Gouvea, Paulo Abade, Marinho Gonçalves, Ana Cecília

Brasil, 2011 (96 min)

“Ela [Dora] me chama de Pedro. Até me sinto gente.”

– Pedro Bala

Sentir-se gente. Era assim que o grupo de meninos de rua da Salvador dos anos 1950 queria se sentir. Sem casa, sem família, sem perspectiva, vagavam pelas ruas da cidade roubando, aprontando e fazendo de tudo para sobreviver. Jorge Amado os chamou de Capitães da Areia em seu livro homônino, de 1937. Adaptado para o cinema por sua neta Cecília Amaro, o filme é belo e humano e consegue transmitir ao mesmo tempo o contraponto da liberdade da adolescência e o abandono da vida na rua.

De novo a adolescência em pauta, neste livro que normalmente é lido justo quando estamos nessa fase da vida. Interessante revisitar Jorge Amado agora – e curioso como o filme me despertou o olhar para reler o livro. Segundo a diretora em entrevista após a exibição do filme, o abandono que esses ‘capitães da areia’ vivem está presente não só na vida das pessoas sem casa, sem educação, sem família. Está presente em todos nós, em algum momento da vida. Daí a atualidade da obra de Amado, sem contar que a realidade desses meninos na Bahia dos anos 1950 parece não ter mudado muito.

Para selecionar o elenco, Cecília circulou durante anos por projetos de ONGs bahianas, até para sentir se o universo percebido por seu avô ainda era o mesmo. A ideia era angariar não-atores para o projeto. Com tristeza, percebeu que sim, tudo continuava igual. Mas também percebeu que personagens como Pedro Bala, Dora, Professor, Sem Pernas e Gato são metáforas da dificuldade de se encontrar, de escolher caminhos, de amadurecer, metáforas do rito de passagem da adolescência para a fase adulta.  Além de tratar do universo social malandro e bandido em Capitães da Areia, Cecília Amaro trata do humano, do amigo, do amor, da beleza da natureza, da ingenuidade, da descoberta da sexualidade. E faz isso com delicadeza e poesia. Seu avô deve estar feliz, ainda mais agora que o filme é lançado justamente no seu centenário – Jorge Amado faria 100 anos em 2012. Parabéns!

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