ROTEIRO: Valérie Beaugrand-Champagne| Wajdi Mouawad (obra teatral)
ELENCO: Lubna Azabal, Mélissa Désormeaux-Poulin, Maxim Gaudette, Rémy Girard, Abdelghafour Elaaziz, Allen Altman
Canadá, 2010 (130 min)
Indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, Incêndios vai além do título. Além de cristãos ateando fogo em um ônibus cheio de muçulmanos, de escolas queimadas e crianças sem teto, os incêndios de que o diretor canadense Denis Villeneuve trata são internos, da alma em chamas, do sofrimento em carne viva, da necessidade de apagar o fogo para poder viver. Intenso, forte, emocionante e, sobretudo, muito bonito. É através de Nawal Marwan (personagem da atriz belga Lubna Azabal, de descendência hispano-marroquina) que a grandeza do filme chegou para mim. Sua condição de mãe supera qualquer dor, mágoa ou raiva que a vida lhe ensinou a sentir.
Não vou entrar em detalhes, porque este filme não merece ser desvendado desta forma. Mas posso dar o panorama geral, sem tirar o fator surpresa e as revelações da história. Nawal Marwan morre e deixa seu último pedido escrito em testamento: quer que seus filhos gêmeos localizem o pai e o irmão, em algum lugar do Oriente Médio, para entregar-lhes uma carta. Jeanne (a ótima Mélissa Désormeaux-Poulin) e Simon não sabem se esses parentes estão vivos, nem nunca os conheceram. Ao partir em busca dos familiares, descobrem o passado da mãe e a nova realidade de suas próprias vidas. Em nenhum momento é dito que país é aquele - árido, muçulmano, severo, conflitante – talvez porque possa representar vários povos e regiões. Mas cristãos contra muçulmanos e vice-versa, massacres revidados com intolerância e terror me remeteram ao Líbano, no período da guerra civil entre 1975 e 1990 – e à incrível animação Valsa com Bashir, que retrata, na linguagem dos mangás, o genocídio dos refugiados palestinos no Líbano pelas mãos dos falangistas cristãos.
As retomadas dos conflitos históricos são sempre uma maneira de nos fazer lembrar aquilo que a humanidade não pode repetir. Incêndios trata também, de uma maneira subliminar, mas não menos importante, da questão dos imigrantes em países como o Canadá, formado em grande parte por esses grandes movimentos migratórios de povos originários de países em conflitos. Mas eu diria que é um filme humano, o que faz com que tenha um bonito equilíbrio nos quisitos razão-emoção, fatos-sentimentos e consiga emocionar e informar, entreter e formar opinião.
Concorre ao Oscar com o mexicano Biutiful, o argelino Fora da Lei, o dinamarquês Em um Mundo Melhor e o grego Dente Canino (ainda inédito no Brasil). Estreia dia 25 de fevereiro.
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