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Garimpo na locadora

O APARTAMENTO – The Salesman

O cinema iraniano não dá ponto sem nó. Justificar o conflito do filme em um prédio que corre o risco de desabar é como dizer que os alicerces da sociedade iraniana, da cultura censurada estão abalados. Asghar Farhadi faz filmes de gente comum, em que as situações estão no limite, em que é preciso resolver conflitos. Procurando Elly, por exemplo, vai além da moça que desaparece; é pano de fundo para discutir a condição da mulher muçulmana, a influência do ocidente, a relação homem-mulher no Irã, que se repente em O Passado, em A Separação. De novo, não tem ponto sem nó. Filmes densos, bem localizados na sociedade rígida e machista, mas que se aplicam, sim, aos contextos dos relacionamentos humanos em qualquer canto do mundo.

O Apartamento não foge à regra.  Entra mais a fundo na questão da honra masculina, numa sociedade em que a mulher é, explicitamente, propriedade do marido. Rana e Emad são atores, vão morar em um apartamento de um colega de trabalho e, enquanto se adaptam, Rana é violentada por um homem que invade sua casa. Louco de raiva – mas sem demonstrar afeto, nem acolhimento – o marido passa o investigar a identidade do agressor, em busca de vingança. Clima tenso: enquanto o marido escolhe o caminho da honra ferida, a mulher escolhe o perdão. Um Farhadi constrói um abismo entre o casal que, até então, parecia ter, na profissão e no teatro, a sinergia necessária para romper as barreiras da sociedade. Cenas marcantes, de um casal que se abandonou para mergulhar nas suas dúvidas e na sua solidão individual.

Aliás, o que fica é um abismo mesmo. Dá a impressão de que tudo será engolido pela distância que se cria ao construir um muro separando o afeto da tradição religiosa, o amor da expectativa da sociedade, o sentimento da honra. Metáfora das relações humanas, essa coisa do desabamento do prédio. Basta um abalo e vai tudo pro chão.

 

DIREÇÃO e ROTEIRO: Asghar Farhadi ELENCO: Taraneh Alidoosti, Shahab Hosseini, Babak KarimI | 2016 (125 min)

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MINHA VIDA DE ABOBRINHA – My Life as a Zucchini
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Garimpo na Locadora, França, Animação - 17/02/2017

Cheio de ternura, Minha Vida de Abobrinha é daquelas animações que pegam a gente de jeito. Por três motivos bem básicos – e bem suficientes pra te dar a dica de sair do comum.

Aliás, esta é a primeira: animação que tem um traço diferenciado, que sai do padrão hollywoodiano (nada contra, só diferente), já chama a minha atenção. É feita com a técnica stop motion, aquela dos bonecos de massinha filmados quadro a quadro. Isso por si só já cria uma certa intimidade com os personagens, principalmente com o protagonista Abobrinha – esse garoto de 9 anos, que é abandonado pela mãe “que bebe muita cerveja”, vai parar num orfanato e, aos poucos, recupera a autoestima, a vontade de viver e ganha o amor de uma nova família.

A segunda é justamente o tema: a ternura e a amizade transformam a vida do garoto, que chega ressabiado, sofre bullying, vai aos poucos se encontrando e se desmancha em alegria quando faz novos amigos e se sente novamente amado. Tema adulto, essa dureza do abandono e da tristeza. Mas a amizade salva. Sempre!

Por fim, a qualidade desse cinema que é capaz de trazer um assunto tão comum, tão explorado, de uma maneira sensível e única. Cinema francês, concorre ao Oscar de melhor animação e vai pra lista do Cine Garimpo de animações que fogem do traço tradicional.

 

DIREÇÃO: Claude Barras ROTEIRO: Gilles Paris, Céline Sciamma ELENCO: Gaspard Schlatter, Sixtine Murat, Paulin Jaccoud | 2016 (70 min)

 

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AMANHÃ – Demain

Em vez da gente ficar reclamando que o mundo está poluído demais, aquecido demais, destruído demais, ruim demais, que tal ir atrás de soluções? Por menores que sejam, as mudanças transformam, são capazes de fazer as pessoas replicarem as ideais e causam efeitos multiplicadores. Se gentileza causa gentileza, uma melhor qualidade de vida acaba, naturalmente, atraindo quem se identifica com ela. Aí, é só continuar no caminho.

Com isso em mente, a atriz e diretora francesa Mélaine Laurent (também em Bastardos Inglórios, O Concerto) e o marido, Cyril Dion, saíram pelo mundo em busca de cidades e comunidades que já adoram um estilo diferente de vida. A gente acha que, para que isso aconteça é preciso mudanças muito bruscas, abandonar tudo e mudar de cidade. Saiba você que não. Mesmo porque, o ótimo é inimigo do bom. Não dá pra começar pelo ideal.

Comece pelo possível e você verá que mudanças no dia a dia já fazem a diferença e elas vão, aos poucos criando outras possibilidades. Economia criativa, bairro autossustentáveis, hortas comunitárias e urbanas são algumas das soluções que já estão mudando o mundo por aí e este documentário mostra realidades que a gente nunca imaginou existirem. Gente que está realmente fazendo a diferente. Faz uma hortinha em casa, em vaso mesmo, e você já vai ver que algo de diferente brotou bem perto de você.

 

DIREÇÃO: Cyril Dion, Mélaine Laurent | 2015 (118 min)

 

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A CRIADA – Ah-ga-ssi
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Garimpo na Locadora, Drama, Coreia do Sul - 13/01/2017

Cinema da Coreia do Sul chegou mostrando a que veio. O suspense Invasão Zumbi veio de lá também – o trem que sai de Seul cheio de zumbis e histórias de vida – e morte. A Criada é completamente diferente e isso é que mostra que tem gente fazendo cinema de qualidade, pra todos os gostos. Não poderia ser melhor.

Ainda mais com o trio deste filme – aliás, trio em dois sentidos. Primeiro: roteiro, direção de arte e narrativa; o segundo, o trio de atores em si. Narrativa: uma jovem sul-coreana, trambiqueira profissional, é contratada para ser a criada de uma japonesa rica, sob o comando de um interesseiro que só quer ficar com a fortuna da pobre-menina rica. Isso tudo durante a ocupação japonesa na Coreia do Sul. Dividido em três momentos, o filme mostra a evolução da trama montada para enganar a jovem moça – e, prepare-se, porque as reviravoltas são muitas e o desfecho é incrível.

Filme bom e eclético: tem arte e beleza, suspense e sensualidade, ótima história e surpresas. Único defeito: poderia ter 15 minutos a menos. Mas, está perdoado, Chan-Wook Park.

 

DIREÇÃO: Chan-Wook Park ROTEIRO: Sarah Waters, Seo-kyeong Jeong ELENCO: Min-hee Kim, Jung-woo Ha, Jin-woong Jo | 2016 (146 min)

 

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