WALL-E

Cartaz do filme WALL-E

Opinião

Lendo esta semana alguns textos ligados ao tão falado e tão necessário tema da preservação do meio ambiente, me veio à mente a incrível animação da Pixar, Wall-E. Revê-lo chega a ser emocionate. A Pixar Animation Studios se consagrou por esse olhar sensível, tanto do ponto da produção, construção de personagens e técnica impecáveis, quanto do ponto de vista emocional e humano, capaz de lidar com o universo de adultos e crianças ao mesmo tempo. Autores também de Procurando Nemo, da trilogia Toy Story e de UP – Altas Aventuras, logo se vê que a temática do humano na animação é algo essencial para o encanto que os filmes produzem.

Acho Wall-E, inclusive, bastante ousado. A proposta de um longa de animação, com pouquíssimos diálogos, com partes relativamente monótonas, com viés contemplativo é um desafio. Além de ter sido corajoso, na certeza de que atingiria os adultos, capazes de captar as nuances dos muitos detalhes cuidadosamente selecionados no filme. E na certeza de que os adultos aproveitariam as várias mensagens do filme para assistir em família e passar para seus filhos essa capacidade de associação da imagem com a realidade, do lazer com o aprendizado, do exemplo com a preservação. Uma leitura (ou melhor, sessão) assistida com as crianças é um instrumento poderoso de conscientização, apreciação de ritmos e visuais diferentes e, claro, de diversão.

Digo tudo isso inspirada na leitura que fiz do enredo. Imagine-se na seguinte situação: por volta do ano 2100, a Terra não pode mais ser habitada. Seu ecossistema foi todo destruído e o que sobrou foram montanhas de lixo que precisam ser compactadas e recolhidas. Para essa função são programados robôs chamados justamente Wall-E, sigla que significa algo como empilhadeira de lixo da Terra (waste allocation load lifter – earth class). Para tanto, toda a população terrestre é evacuada para uma nave espacial, onde absolutamente tudo é fornecido, comida, transporte, lazer, saúde, sem que as pessoas precisem fazer qualquer esforço. Ou seja, consumo pronto, sem critério, massificado. Depois de alguns anos, os robôs da limpeza não dão conta do estrago, a natureza não reage e a raça humana tem que permanecer esilada no espaço. Nisso se passam 700 anos, até que um sinal de vida é dado e a luz no fim do túnel se acende com possibilidade de recuperar aquilo que o homem não cuidou, inclusive as relações humanas afetivas.

A criação dos personagem título Wall-E consegue reunir todas essas questões. Sozinho na ‘selva de lixo’ que sobrou no planeta, ele resgata o afeto através da robô Eve e vive das referências que vai encontrando no lixo e que de alguma forma lhe causam estranheza: uma torradeira, uma fica cassete, música, um cubo mágico, talheres, um sutiã, um anel, raquete e bolinha, carrinhos de supermercado, jogos eletrônicos, entre outras coisas que nos remetem à convivência, ao lazer, à vida com a conhecemos. Todos os detalhes têm uma carga significativa muito grande e de fato nos fazem parar para pensar. Lembrei-me de recente documentário Lixo Extraordinário e multipliquei, na minha mente, aquelas reais montanhas de lixo do aterro sanitário por milhões. E a partir daí as reflexões são intermináveis. Genial.

 

 

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