UMA HISTÓRIA DE AMOR E FÚRIA – entrevista com o diretor Luiz Bolognesi

Cartaz do filme UMA HISTÓRIA DE AMOR E FÚRIA – entrevista com o diretor Luiz Bolognesi

Opinião

 

Contar a história de uma país expurgando toda a sua violência fica fácil. Sempre tive o desejo de contar de forma diferente.” Este é Luiz Bolognesi, roteirista de carreira e agora diretor desta animação que estreia hoje nos cinemas. O mergulho de seis anos na produção de Uma História de Amor e Fúria é justificado. Em entrevista ao Cine Garimpo, Bolognesi falou de suas escolhas na forma, no tema e no público alvo. Vale dizer que o resultado compensou tanta elaboração: gosto do traço diferenciado, da provocação que o filme gera, da perspectiva dramática de futuro. E é dramática mesmo. Como você, leitor, imagina o Brasil de 2096?

“Quando optei por uma animação clássica, feita com lápis e papel, e dispensei a digital mais usada hoje em dia, estava fazendo a opção consciente por uma linguagem mais poética”, conta o diretor. E tem razão, porque dá ao filme um ritmo mais sofisticado mesmo, mais adulto. Foge do traço tradicional da animação. Aproveitei e perguntei a Bolognesi sobre outras produções estrangeiras que possam ter influenciado na produção do filme, como o israelense Valsa com Bashir – excelente por sinal (veja post sobre animações fora de Hollywood). “Desde menino que adoro quadrinhos, com seu formato de graphic novel e textos mais elaborados”, relembra. “Quando fizemos Bicho de Sete Cabeças [de que é o roteirista] e vimos que o filme funcionou, iniciei a execução do sonho de desenvolver um filme com linguagem de HQ.”

Luiz Bolognesi fez carreira como roteirista, consagrando-se nos ótimos filmes de Laís Bodanzky Bicho de Sete Cabeças e As Melhores Coisas do Mundo. Fala para o adulto, mas imprime seu foco no jovem, na leitura dessa fase conturbada, mágica e desafiadora que é adolescência e juventude. Esse é uma das suas propostas fazer esta animação? Sim, porque claramente Uma História de Amor e Fúria conversa com os jovens, contesta a maneira como a história do Brasil é ensinada, tira do pedestal os pseudos-heróis que dão nome às ruas e conta quem realmente são, e é capaz de provocar uma reflexão nessa geração que precisa ser formada com mais poder de contestação e luta. “Quero falar com o jovem nesses projetos. Sei que o cinema é capaz de chegar neles e ser instrumento de transformação”, diz Bolognesi.

E pode ter esse poder sim – ao menos de trazer à tona essas questões brasileiras tão encobertas por interesses particulares. O filme explica isso bem. Temos um herói nacional, que é imortal, e portanto vive 600 passando por toda a história do Brasil. O diretor divide sua passagem por quatro etapas da história, em cada uma delas é um personagem: um índio que sofre com o massacre dos colonizadores no século 16; um caboclo que lidera a revolução negra na conhecida Balaiada do século 19; um guerrilheiro que luta contra a ditadura militar no século 20; e um combatente das milícias que dominam um Rio de Janeiro sombrio e sem água potável, no final do século 21. Tudo muito bem cuidado, recheado de detalhes e uma trilha sonora precisa e bem direcionada à cativar, mais uma vez, os jovens.

Para equilibrar tudo isso, nada como uma história de amor paralela. “Claro que o que é mais importante é o relato histórico no filme”, afirma Luiz quando pergunto o que era mais marcante, o amor ou a luta pelo país. “O que acontece é que toda luta está repleta de amor. Quando lutamos por um ideal, por um filho, por uma ideia, por um esporte, temos que colocar nessa batalha muito amor. Por isso optei por esse arco dramático de uma paixão épica do personagem por Janaína.”

De fato, é uma paixão épica. Cada vez que o herói morre, transforma-se em pássaro, que sobrevive aos tempos e volta ao cenário nacional em outro personagem. Não menos batalhador e idealista, não menos apaixonado por Janaína. Vale dizer que Selton Mello e Camila Pitanga emprestam suas vozes tão familiares aos personagens principais, o que facilita – e muito – a nossa identificação com a história. De brasileiros, para brasileiros – embora Bolognesi tenha contado que o filme estreia hoje, mas já fez carreira internacional e parte para mais outros festivais mundo afora. De brasileiros, nas suas formas, vozes, pensamentos, para o mundo. De igual para igual, mas com toda a sua particularidade bem brasileira.

 

 

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