UM LUGAR QUALQUER – Somewhere

Cartaz do filme UM LUGAR QUALQUER – Somewhere

Opinião

Autobiográfico ou não, imagino que Sofia Coppola tenha experiência de sobra para falar sobre a vida itinerante, vazia e entediante das estrelas de cinema. Filha do cineasta Francis Ford Coppola (da trilogia O Poderoso Chefão e Tetro), passou a vida acompanhando o trabalho do pai, convivendo com a produção de seus filmes e com a dinâmica do dia a dia de Hollywood. O que para nós, espectadores, pode parecer glamour e tapete vermelho, para quem está do outro não é bem assim. Aliás, não é em profissão nenhuma – mas isso é assunto para outro dia. O que está em voga aqui é que Sofia Coppola mostra, de uma maneira muito sensível, que a vida de um grande ator, aclamado, endeusado e rico, pode ser coberta de tédio, bebidas, drogas, badalações, jogo de interesse e muitas frustrações. Durante o filme todo achei que ela contava a história pelo ponto de Cleo (Elle Fanning, também em Babel), filha do ator Johnny Marco (Stephen Dorff), e portanto, do ponto de vista dela, filha de um grande cineasta de Hollywood. Talvez seja por causa do olhar feminino que tem o filme.

Um Lugar Qualquer, vencedor do Leão de Ouro em Veneza em 2010, tem dois momentos claros que se completam. Primeiro vem a percepção do vazio da vida de Johnny Marco e da sua superficialidade, tanto na formação de ator, quando afirma que não estudou para chegar ao sucesso, quanto na entrevista coletiva, quando não sabe dizer quem ele realmente é. São as tomadas da rotina de Marco, que zanza por Los Angeles sem rumo no seu carro de luxo, que dorme ao assistir as dançarinas, que não tem hobbies, que acata as determinações de sua agente sem questionamento ou participação, que imprimem no astro o estilo “marionete” a serviço da fama e do dinheiro.

O segundo momento é  a chegada da sua filha Cleo, que traz à tona a vida sentimental, em tudo o que ela remete: no cuidar, no divertir-se, no passar o tempo, no conversar. O sentimento preenche o vazio e os dois momentos do filme se fundem e se completam. É como se a realidade daquele ator pudesse existir em qualquer lugar, assim como muitas pessoas exercem suas profissões de maneira sistemática, mecânica, sem emoção, como maneira de ganhar a vida, desde que tivesse seu contraponto de emoção, sentimento, família, realização pessoal. Assim, estaria pleno. O momento da piscina, em que os dois estão descansando, passa essa sensação da plenitude, da profissão como meio de vida, e não como meio para o sucesso, a realização pessoal, para a fama. Passa a sensação de que o essencial é simples, é singelo – como um banho de sol. Concordo com as críticas de que o final é ingênuo. É sim, não precisava. Mesmo por que o que Sofia Coppola mostra no final já dá para perceber desde o começo. Poderia ter deixado o óbvio subentendido, porque o essencial ela consegue passar com muita competência.

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