TATUAGEM

Cartaz do filme TATUAGEM

Opinião

Tem um cinema regional que realmente é a cara do nordeste brasileiro, no seu sotaque, no seu modo de vida e na sua cultura. O Som ao Redor, que é o indicado brasileiro para concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro, é um deles. Fala essencialmente do comportamento da classe média do Recife, mas poderia ser de qualquer outra cidade. E tem um estilo próprio, timing diferente, tem personalidade. Assim como têm os filmes de Cláudio Assis, irreverentes e muitas vezes provocadores demais – a ponto de incomodar, como A Febre do Rato (interessante) e Amarelo Manga (foi além da conta). Mas não dá pra dizer que não tenham um estilo próprio, nem personagens fortes. Aliás, eu diria, é tudo forte demais.

Falo desse filme para dizer que, assim como Kléber Mendonça Filho e Cláudio Assis, Hilton Lacerda, roteirista dos filmes de Assis, traz bastante deste regionalismo nu e cru. Inclusive nas relações, inclusive no sexo. É visceral, uma experiência sensorial, o filme Tatuagem. Igual aos de Assis, mas menos agressivos, por assim dizer. Talvez porque tenham um toque de sutil humor em meio às palavras chulas, palavrões, cenas de sexo, nudez, masturbação. Sempre presentes.

Tatuagem, premiado em Gramado e no Festival do Rio, tem o grande trunfo pernambucano que é o ator Irandhir Santos (também em Besouro, Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo). Não é à toa que ele está presente em todos os filmes irreverentes desses diretores do Recife. O ator é um verdadeiro camaleão, invade o personagem com unhas e dentes, incorpora quem quer que seja. Trunfo mesmo. Ainda mais em Tatuagem, em que o personagem é gay, ator e diretor do grupo de teatro Chão de Estrelas, atua na periferia, líder de uma galera GLS que vive em comunidade, transgride a ordem vigente da ditadura, mas não perturba ninguém. Até Clécio (Irandhir) apaixonar-se por um soldado que vive no quartel e se deparar com a dualidade da tradição e da liberdade, da ordem e da transgressão. A anarquia na forma das peças de teatro, do comportamento anárquico e de seus textos polêmicos e muito engraçados se confrontam com as regras do comando militar e com a necessidade de manter a boa aparência perante a sociedade – passiva e acomodada, diga-se de passagem.

Tatuagem é ousado e engraçado, mas não é para qualquer público. Quem se incomoda com o universo gay, melhor não assistir. Digo isso porque já ouvi comentários de gente que não quer ver “esse tipo de coisa” – seja lá o que isso signifique. Fica avisado. Não é para qualquer um. Para quem quer conhecer um trabalho ousado, inteligente e ver gente boa atuando, boa pedida. Eu me diverti com o texto, de humor ácido e irônico. Coisa fina. Se você for assistir, vai saber do que eu estou falando! Confesso que gosto mais de Lacerda na dobradinha da direção e roteiro. Não tem o ressentimento que sinto nos filmes de Claudio Assis e tudo fica mais divertido assim.

 

DIREÇÃO e ROTEIRO: Hilton Lacerda ELENCO: Irandhir Santos, Jesuíta Barbosa, Rodrigo García, Sílvio Restiffe | 2013 (108 min)

 

 

Trailers

Comentários